domingo, 21 de dezembro de 2008

João XXI, 23

Este post agora pode ser lido aqui.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Marcos XI, 27-33

Este post agora pode ser lido aqui.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A função da Epiclese e o caso da Anáfora de Addai e Mari

(ícone assírio)

Introdução

Em 26 de outubro de 2001 L’Osservatore Romano publicou um documento do que ditava "orientações para a admissão à eucaristia no seio da igreja caldéia [católica] e da igreja assíria do Oriente [nestoriana e cismática]" .

O documento diz responder a uma petição motivada pelo fato de que "numerosos fiéis caldeus e assírios se acham em uma situação de necessidade pastoral quanto à administração dos sacramentos. Mas a Igreja Católica não podia atender à solicitação — segue dizendo o documento — sem antes haver resolvido a questão principal a seu ver, a saber: o problema [sic] da validade da eucaristia celebrada com a anáfora [cânon] de Addai e Mari, uma das três anáforas usadas tradicionalmente na igreja assíria do Oriente".

http://www.4shared.com/document/3IJYhY6D/anafora_addai_mari.html

“Problema” este de não pouca importância, dado que, segundo nos informa o documento em questão, "a anáfora de Addai e Mari [chamada também “dos Apóstolos”] é singular porque, desde um tempo imemorial, ela é utilizada sem o relato da instituição", presente, em contrapartida, nas outras duas anáforas nestorianas.

Segundo a doutrina católica, tal Anáfora jamais poderia ter o determinante (forma) da Eucaristia, mas os modernistas de plantão inventaram que as Palavras da Instituição estão "eucologicamente" (oracionalmente) distribuídas por ela; eles fazem isso pervertendo uma doutrina, também errônea, dos "ortodoxos" sobre o papel da epiclese.

Os cismáticos de rito oriental dizem que toda a Anáfora é consagrante, que todos os seus elementos são essenciais, incluindo a epiclese. Os modernistas pegam essa idéia (errada) e a distorcem para dizer que a epiclese é essencial e que ela, unida a outros elementos (não necessariamente todos), já determina o determinável no sacramento da Eucaristia.

Vou examinar essa estranha história, fruto de uma época de crise doutrinária, e que representa, na minha opinião, o maior escândalo doutrinário das últimas décadas (quiça dos últimos séculos).

Conceitos

Sobre tema, é bom frisar para os leitores que a palavra epiclese significa, essencialmente, a invocação de um nome (no contexto litúrgico, o de Deus) sobre uma pessoa ou coisa.

Nesse sentido, embora eu esteja tratando da epiclese no âmbito da Eucaristia, vale lembrar que ela também é encontrada em outros sacramentos. De fato, as epicleses litúrgicas mais antigas são as encontradas em todas as fórmulas batismais, onde o nome das três pessoas da Santíssima Trindade é invocado sobre os catecúmenos. Outras formas de epiclese são encontradas nos ritos da Confirmação, Ordem e benção da água batismal.

No que se refere a epiclese eucarística, seus principais elementos, tendo em vista vários textos litúrgicos, podem estar conformados como:

1) Uma simples invocação a Deus;

2) Um pedido para que Deus Pai mande o Espírito Santo;

3) Um pedido para que o Espírito Santo transforme o pão e o vinho no Corpo e sangue de Cristo;

4) Um pedido para que o Espírito Santo aplique nos fiéis os frutos da Eucaristia.

Geralmente só um ou outro desses elementos está presente nos dois tipos predominantes de epiclese eucarística: uma que é como uma fórmula consacratória e outra que é uma aplicação dos efeitos santificantes da Eucaristia nos fiéis.

A epiclese consacratória (uma invocação ao Espírito Santo para que Ele mude os elementos no Corpo e Sangue de Cristo) não é nem universal nem primitiva. Não perece ter existido no rito romano e, no ocidente, só aparece excepcionalmente, como nos ritos galicano e mozarábico. Nos ritos orientais, em especial o bizantino, ela é sempre encontrada. Mesmo assim, antes do século IV, não é vista em nenhum lugar.

O outro tipo de epiclese eucarística, que trata da aplicação dos efeitos da Eucaristia, é mais antiga.

Aprofundando

Tendo visto esses conceitos, agora posso aprofundar, seguindo a linha mestra da pesquisa.

Nos ritos orientais, a epiclese segue as Palavras da Instituição. Na liturgia de origem bizantina mais comum, a de São João Crisóstomo, a epiclese diz:

Ainda Te oferecemos este sacrifício espiritual e incruento, Te pedimos e suplicamos: envia o Teu Espírito Santo sobre nós e sobre os dons aqui presentes. E faze este pão, Corpo precioso do Teu Cristo. E o que está neste cálice o Sangue precioso do Teu Cristo. Transmutando-os pelo poder do Teu Espírito Santo.

A localização da epiclese entre os orientais, na opinião de muitos, é mais lógica porque segue o desenvolvimento histórico dos Mistérios como relatados no Credo. Todavia, o desenvolvimento da liturgia nunca foi uniforme nem lógico, como se pode notar pela falta de uma epiclese consacratória após as Palavras da Instituição no rito romano tradicional.

Há seis opiniões muito disputadas sobre se há alguma epiclese (não consacratória) na “Missa tridentina” e onde ela estaria:

1) Não há epiclese no rito romano tradicional;

2) A Quam oblationem é a epiclese, vindo antes da Instituição;

3) A Supplices te rogamus é a epiclese, vindo depois da Consagração pelas palavras da Instituição;

4) As duas são formas de epiclese;

5) A Veni, sanctificator é a epiclese, vindo antes da Consagração;

6) Uma epiclese silenciosa ocorre pelo mero gesto de impor as mãos no Hanc igitur.

A maior parte dos liturgistas anteriores à “reforma” de Paulo VI considerava a Quam oblationem como a epiclese.

A controvérsia

Os antigos Padres orientais, combatendo o sabelianismo e outras tendências heréticas de subordinacionismo (que diziam que uma Pessoa da Trindade, Deus Pai, seria maior que as outras) e, mais tarde, ataques diretos ao Espírito Santo, enfatizaram a distinção das Três Pessoas na Santíssima Trindade. As Anáforas Eucarísticas orientais, desse modo, passaram a dar uma ênfase ao poder da Terceira Pessoa na consagração e santificação.

As duas ações eram vistas como frutos da Eucaristia, que se referiam igualmente aos elementos ofertados sobre o altar e aos fiéis. Tal atribuição do poder consacratório ao Espírito Santo pode ser encontrada não só na liturgia, mas também nos escritos de teólogos como São Cirilo de Jerusalém, São Gregório de Nissa, Pseudo-Crisóstomo, Teófilo de Alexandria e São João Damasceno.

Contudo, apenas sob a influência de Nicolas Cabasilas e Simeão da Tessalônica é que a controvérsia nasceu, quando os latinos atacaram os gregos por dizerem que a epiclese após as Palavras da Instituição era necessária à Consagração. Os latinos mantinham que as Palavras sozinhas já eram suficientes.

Numa reunião conciliar em Florença (1438), João de Torquemada, Bessarion e Isidoro, Metropolita de Kiev, tentaram reconciliar as duas opiniões. Todos, menos Marcos de Éfeso, aceitaram a posição latina de que o sacramento é realizado pelas Palavras do Senhor apenas. Marcos levou a posição de Nicolas Cabasilas a um extremo estranho à própria tradição oriental, defendendo que as Palavras da Instituição são uma mera narrativa e a epiclese a forma da Transubstanciação.

Nos séculos seguintes o choque de posições sobre esse tema se tornou uma das principais diferenças entre o Oriente e o Ocidente.

A posição da Igreja

No começo, a Igreja não estava preocupada com o local exato em que a Transubstanciação ocorria. A anáfora eucarística era considerada uma unidade.

Depois, com a supressão de toda epiclese consacratória nos ritos ocidentais e com a grande especulação da teologia latina, deu-se a tendência de definir a importância de cada oração do cânon.

No decreto de reunião com os armênios e jacobitas no Concílio de Florença (1439-1445) não há nenhuma referência sobre a epiclese, mas estava colocado que as Palavras da Instituição são a forma da Transubstanciação (D. 1320, 1352). Um decreto similar foi exarado pelo tridentino (D. 1654). Em 1729, o Papa Bento XIII escreveu aos melquitas:

Não pela invocação do Espírito santo, mas pelas Palavras da Consagração [da Instituição] é que ocorre a transubstanciação.

A tese do Príncipe Maximiliano da Saxônia, que tentava reconciliar as duas teorias, de que as Palavras da Instituição seriam necessárias para a igreja latina e a epiclese para a igreja grega, foi condenada por São Pio X em 1910 (D. 3556).

O fato que as Palavras da Instituição são a forma da Eucaristia, não nega o valor da epiclese. Mesmo assim, não há dúvida que a Igreja rejeita a idéia de certos ortodoxos de que a consagração é efetuada só e exclusivamente pela epiclese. Essa idéia, como já frisei, vai contra a própria tradição oriental.

Vale notar que para alguns teólogos antigos, a epiclese seria parte da essência da integridade do Sacramento, mas de um modo acidental, como as outras palavras além de "Isto é o meu Corpo; Isto é o (cálice do) meu Sangue" na Instituição.

Tentativas de reconciliar antes do Vaticano II

Depois do século XVI, houve pouca preocupação sobre o tema na Teologia. Só com as novas tentativas de aproximação com os “ortodoxos” (salvo engano, a partir do final do século XIX) é que o assunto veio a tona novamente.

A teoria de Bessarion no Concílio de Florença do desdobramento do drama litúrgico por etapas, estampado na atribuição histórica das operações divinas às Três Pessoas, foi expandida por P. Cagim (1847-1923). A contradição aparente entre as fórmulas no Ocidente e no Oriente é explicada pela deficiência da linguagem humana. É próprio para as Palavras da Instituição consagrarem os elementos do sacrifício, mas em retrogressão e concomitantemente com essas palavras, a epiclese dispensa este mistério para a santificação dos indivíduos.

S. Salaville sustentou que as Palavras da Instituição é que efetuam a Transubstanciação, mas justificava a epiclese consacratória atribuindo ao Espírito Santo a Transubstanciação, assim como a Encarnação e todas as outras ações que tocam diretamente a santificação. Toda Anáfora poderia ser formulada como a operação do Pai pelo Filho no Espírito Santo.

F. Cabrol (+1937) tentou resolver a dificuldade apontando que as epicleses consacratórias não são nem primitivas nem universais. Os Papas e os teólogos buscando a reunificação lembraram uma certa necessidade de que a ação eucarística forme um todo, incluindo todos os elementos como essenciais – inclusive a epiclese que, mesmo pronunciada subseqüentemente, de alguma maneira entraria na eficácia da Consagração.

Uma outra tentativa foi feita por H. Schillebeeckx. Em todo sacramento há um momento dogmático e um momento histórico. O verdadeiro significado ou sentido do sacramento pertence à substância, que o tridentino insiste como vinda de Cristo e que a Igreja nunca pode mudar. As palavras e gestos pertencem à substância do sacramento apenas se relacionadas necessariamente à significação. Schillebeeckx coloca a epiclese no aspecto histórico da “encarnação” de palavras e gestos pelos quais uma verdadeira significação torna-se real, como uma invocação implorando santificação. Essa seria a maneira de expressar a substância da Eucaristia, mas não é essencial que a substância seja expressa apenas dessa forma. Apenas a Igreja é competente para declarar que elementos pertencem ao momento histórico e quais ao dogmático, à verdadeira significação da Eucaristia.

Após o Concílio, na crise de referenciais que se seguiu e nos intentos ecumênicos desequilibrados durante o pontificado de João Paulo II com os "ortodoxos" e cristãos de rito oriental de outras tendências (sim, desequilibrados, reconhecer isso não implica em não ter amor filial ao citado pontífece; sejamos adultos), a tese de H. Schillebeeckx (que não é compatível com o Magistério da Igreja) parece ter sido levada às sua últimas conseqüências por vários setores da Igreja. No fim das contas, tivemos a aprovação da Anáfora de Addai e Mari e o uso de uma linguagem dúbia nos catecismos para abordar o tema do momento da Trasubstanciação. Isso é um escândalo.

Os carismáticos parecem não ter tomado conhecimento da questão (como um todo, pois alguns indivíduos com quem conversei ficaram chocados), os neo-conservadores preferem não discutir (aceitam quase roboticamente tudo que é escrito em algum documento vindo de Roma), os progressistas não ligam para esse tipo de coisa e os tradicionalistas se colocaram contra (embora, muitas vezes, abordem o tema com superficialidade).

Uma tentativa de solução

A tentativa de solução baseada na hipótese de Schillebeeckx, que levou a aprovação da Anáfora de Addai e Mari, não pode ser aceita.

De fato, como quer o citado teólogo, um sacramento, fora o ministro com a intenção de fazer o que faz a Igreja, tem dois elementos, o “determinável” e o “determinante”. A tais elementos a teologia escolástica chama de “matéria” e “forma”, sua presença é necessária para a validade do sacramento.

Não há como fugir disso. É algo lógico, pois tal concretude deriva da encarnação do Verbo; a natureza humana exige sinais eficazes para reconhecer graça. É algo definido infalivelmente pela Igreja, ou seja, tal noção constitui uma baliza para a Teologia (a Teologia, ao contrário do que querem certos desocupados cheios de títulos, não é uma “livre reflexão”, mas está subordinada à Fé).

Dito isso, sabemos que Nosso Senhor não determinou os ritos sacramentais em seus mínimos detalhes. Nesse contexto, definiu o tridentino que “a Igreja sempre possui o poder de estatuir ou de modificar, na dispensação dos Sacramentos – ficando-lhes salva a substância - o que ela julgar mais conveniente à utilidade dos fiéis ou à veneração dos próprios Sacramentos, segundo a diversidade dos tempos e lugares” (D. 931). Aduz o Concílio, à guisa de exemplo, a sagrada comunhão, que durante séculos foi distribuída sob as duas espécies e, depois passou a sê-lo, na Igreja latina, sob uma só espécie.

Vejam, por substância está incluída a presença da “forma” e da “matéria”. Não pode haver um sacramento sem “forma” ou “matéria” e ponto!

Respondem unanimamente os teólogos (não-modernistas!!!) que Jesus escolheu a “matéria” e a “forma” específicas do Batismo e da Eucaristia. À Igreja não será permitido batizar com outro líquido que não fosse água; nem consagrar pão de outro cereal, do que trigo. À Igreja não é permitido mudar a forma desses sacramentos (“Eu te batizo em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e “Isto é Meu Corpo; Isto é (o cálice) do Meu Sangue”), embora palavras similares, em tese, pudessem ser empregadas validamente (mudar “batizo” por “lavo”) e estruturas gramaticais diversas também possam ser alvo de uma utilização válida (como na forma do batismo nos ritos orientais).

No caso dos outros Sacramentos, a maior parte dos estudiosos ensinam que o Senhor determinou apenas genericamente a “matéria” e a “forma”, deixando à Igreja a escolha entre diversas, aptas a expressar o efeito sacramental que Ele tinha em vista (o rito se deve a Cristo, a sua organização à Igreja).

Mas elas sempre tem de existir!!!

De outro modo, podem “matéria” e “forma” sofrer certas variações, sem que variem as suas mútuas relações de significação. A escolha, pela Igreja, deste ou daquele elemento sensível, não afetaria em nada a substância do Sacramento (que podemos entender como a significação eficaz que a instituição por Cristo imprime a um rito sensível, destinando-o a produzir tal efeito que ele significa), desde que fosse um modo materialmente diverso de realizar a mesma vontade do instituidor.

Mas elas sempre tem de existir!!!

Uma diferenciação:

defeito essencial: palavras erradas, matéria errada, ministro errado, intensão errada = sacramento inválido.

defeito acidental: outros problemas com a cerimônia, texto da cerimônia não enfatizando todos os pontos da teologia católica = sacramento válido, mas defectivo.

Mesmo que não tão precisas elas tem de existir.

Vamos a um exemplo:

A forma da ordenação episcopal é um tanto vaga, tanto no rito “reformado” de Paulo VI, quanto no rito romano tradicional e nos orientais. O sentido dela, na verdade, é dado pelo conjunto das orações. A interpretação das frases depende da significatio ex adjunctis, ou seja, da significação derivada do contexto.

Uma forma não-vaga, mas válida, poderia ser:

Este padre, Oh Deus, precisa de uma promoção. Através da graça da Terceira Pessoa da Trindade, promova-o a bispo.

Ridículo, mas ilustra a idéia de que vaga ou precisa, tem de haver uma forma.

Uma forma precisa, por si só, atende ao necessário para a validade de um sacramento. É o caso de um batismo de emergência, onde só a forma “Eu te batizo...” é dita, sem nenhuma das orações complementares. Todavia, se as orações adicionais, que fazem referência poder salvífico do Batismo, forem ditas sem a forma, não há sacramento.

Uma forma não-precisa necessita do contexto para que suas palavras possam determinar a matéria.

Olhemos para o caso das ordens anglicanas no tempo em que ficaram inválidas. A forma era vaga e o contexto também. Se a forma não fosse, sem levar em conta a defecção na intenção, a sucessão apostólica poderia ter continuado (vale notar que depois da decisão de Leão XIII sobre o tema, parcelas do anglicanismo voltaram a ter a sucessão – mas não vou entrar nesse tema).

Sendo assim, não adianta os modernistas dizerem que toda a Anáfora de Addai e Mari fala de um contexto onde há a crença na Presença Real e na Transubstanciação, sem a forma sacramental, mesmo com epiclese, não há Consagração.

Por outro lado, a idéia de alguns teólogos antigos de que a epiclese poderia ser considerada parte da essência da integridade do Sacramento, mas de um modo acidental, parece resolver a questão.

Lembremos que para a consagração do pão são essenciais somente as palavras: Hoc est corpus meum e para a consagração do vinho: Hic est calix sanguinis mei; as outras palavras são integrantes. Sendo assim, em tese, elas podem ser retiradas sem que isso afete a validade da Missa. Contudo, por terem sido pronunciadas por Nosso Senhor ou terem sido incorporadas segundo os testemunhos da Tradição, a Igreja sempre as considerou integrantes, incorrendo o Padre que não as pronunciasse em pecado mortal.

Analogamente, poderíamos dizer que nos ritos orientais, disciplinarmente, a epiclese seria integrante, pois explicitaria que a Transubstanciação é obra do Espírito.

Desse modo, mantemos a coerência do Dogma e absorvemos a tradição oriental no que ela tem de reto.

Criticismo?

Alguém pode, então, perguntar:

-Thiago, isso não é criticismo?

Não, não é. É crítica. Não estou criando nenhum sistema de rejeição a priori do que vem de Roma, mas, num caso pontual, tendo em vista o que sempre foi ensinado e como sempre foi interpretado, fazendo uma crítica, fazendo a aprecição de um dado segundo os referenciais católicos.

E a indefectibilidade da Igreja?

E a indefectibilidade da Igreja?

Ainda poderiam me questionar:

-Se um documento da CDF está errado, como fica a indefectibilidade da Igreja?

Primeiramente devemos notar que o Magistério da Igreja se compõe do Papa e dos Bispos – únicos autorizados a falar oficialmente em nome da Igreja, como intérpretes autênticos da Revelação. Sacerdotes e teólogos não gozam do privilégio da infalibilidade, em hipótese alguma, nem mesmo quando ensinam com a missão canônica recebida do Papa ou de um Bispo.

Também os Bispos, quando falam isoladamente ou em conjunto, podem errar – a menos que, em Concílio ou fora dele, definam um dogma, em forma solene, com o Sumo Pontífece.

Um documento papal, mesmo quando fale sobre fé ou moral, pode conter erro se não preencher as condições da infalibilidade como definidas no Concílio Vaticano I ou não repetir o Magistério constante.

OBS: Pela simetria que existe entre a infalibilidade do Papa e a da Igreja, um Concílio que não pretende definir dogmas pode incidir em erros.

Todavia, de si, as decisões pontifícias, mesmo quando não infalíveis, postulam o assentimento quer externo (silêncio obsequioso) quer interno dos fiéis. Pio XII declarou tal verdade em termos em termos incisivos:

Nem se deve crer que os ensinamentos das Encíclicas não exijam “per se” o assentimento, sob pretexto de que os Pontífices não exercem nelas o poder de seu supremo Magistério. Tais ensinamentos fazem parte do Magistério ordinário, para o qual também valem as palavras: “Quem vos ouve, a Mim ouve” (Luc. 10, 16) (Humani Generis)

Quando, entretanto houver uma oposição precisa entre um texto de Encíclica e os demais testemunhos da Tradição será lícito ao fiel douto e que tenha estudado cuidadosamente a questão, suspender ou negar o seu assentimento ao documento papal.

Teólogos de grande autoridade ensinam isso:

Diekamp (Theol. Dogm. Man., vol. I, p. 72) :

Esses atos não infalíveis do Magistério do Romano Pontífice não obrigam a crer, e não postulam uma sujeição absoluta e definitiva. Cumpre entretanto aderir com um assentimento religioso e interno a semelhantes decisões, uma vez que elas constituem atos do supremo Magistério da Igreja, e que se fundamentam em sólidas razões naturais e sobrenaturais. A obrigação de a elas aderir só pode começar a cessar no caso, que só se dá rarissimamente, em que um homem apto a julgar tal questão, depois de uma diligentíssima e repetida análise de todas as razões, chegue à persuasão de que na decisão introduziu-se o erro.

Pesch (Prael. Dogm. vol. I, pp. 314-315):

(...) deve-se assentir aos decretos das Congregações Romanas, enquanto não se torne positivamente claro que elas erraram. Como as Congregações, “per se”, não fornecem um argumento absolutamente certo em favor de dada doutrina, pode-se ou mesmo deve-se investigar as razões dessa doutrina. E assim, ou acontecerá que tal doutrina seja paulatinamente aceita em toda a Igreja, atingindo dessa maneira a condição de infalibilidade, ou acontecerá que o erro seja pouco a pouco detectado. Pois, como o referido assentimento religioso não se baseia numa certeza metafísica, mas apenas moral e ampla, não exclui todo o receio de erro. Por isso, logo que surjam motivos suficientes de dúvida, o assentimento será prudentemente suspenso; contudo, enquanto não surgirem tais motivos de dúvida, a autoridade das Congregações basta para obrigar a assentir.

Os mesmos princípios se aplicam sem dificuldade às declarações que o Sumo Pontífece emite sem envolver sua suprema autoridade, bem como às decisões dos demais eclesiásticos, os quais não são infalíveis.

Hurter (Theol. Dogm. Comp., vol. I, p. 492):

(…) se à mente do fiel se apresentarem razões graves e sólidas, sobretudo teológicas, contra (decisões do Magistério autêntico, quer episcopal que pontifício) ser-lhe-á lícito recear o erro, assentir condicionalmente, ou até mesmo suspender o assentimento (...)

Merkelbach (Summa Theol. Mor., vol. I, p. 601):

(...) enquanto a Igreja não ensina com autoridade infalível, a doutrina proposta não é de si irreformável; por isso, se "per accidens", numa hipótese entretanto raríssima, depois de exame muito cuidadoso, a alguém parecer que existem razões graves contra a doutrina assim proposta, será lícito, sem temeridade, suspender o assentimento interno (...)

Cartechini (Dall´Op. al Domma, pp. 153-154):

Na hipótese de decisões não infalíveis, "deve o súdito dar assentimento interno, exceto no caso em que tenha a evidência de que a coisa ordenada é ilícita (...). (...) se algum douto estudioso tiver razões gravíssimas para suspender o assentimento, poderá supsendê-lo sem temeridade e sem pecado (...)

No mesmo sentido pronunciam-se Lercher, Inst. Theol. Dogm., vol. I, pp. 297-298; Forget, verbete Congrégations Romaines, no Diet Fundam., tomus II, p. 187; Aertnys-Damen, Theol. Mor., tomus I, p. 270; Zalba, Theol. Mor. Comp., vol. II, p. 30, nota 21.

O Mons. Teixeira Lite Penido, na sua obra O Mistério da Igreja (p. 293), confirma o que eu disse sobre as decisões das Congregações Romanas:

Nem sempre a Igreja exerce o seu Magistério solene ou ordinário universal, e por conseguinte, nem sempre assiste-lhe garantia absoluta de não errar. O Papa raramente fala "ex-cathedra"; entretanto ensina diariamente, já por exortação ou cartas a indivíduos, grupos, nações, já por documentos destinados à Igreja universal: encíclicas, decisões doutrinárias das Congregações romanas.

Quanto a estas últimas, é de notar que são infalíveis, logo irreformáveis, quando o Papa - rara vez - as faz pessoalmente suas. Aprovadas porém, "na forma comum", não são absolutamente isentas de erro, logo, podem vir a ser reformadas.

Mas a frente (p. 205) ele completa:

O "silêncio respeitoso" liga somente a lingua e a pena; rompê-lo implica malícia da vontade que se não submete; a "adesão interna" liga também a inteligência - conquanto não absolutamente; negá-la implica temeridade intelectual. Todavia, como a decisão romana, no caso, não é irreformável, será lícito ao teólogo ou ao exegeta que encontrassem proventura novos e fortíssimos argumentos, propô-los com a devida reverência. O que já sucedeu, sobretudo em matéria de interpretação bíblica.

O conselho freqüentemente dado ao fiel em tais casos é de que “suspenda o juízo” sobre o assunto. Se essa “suspensão do juízo” importa numa abstenção, por parte do fiel, de qualquer tomada de atitude perante o ensinamento pontifício em questão, ela representa apenas uma das posições lícitas na hipótese considerada. De fato, a “suspensão do assentimento interno”, de que falam os teólogos, tem maior amplitude do que a mera “suspensão do juízo” da linguagem corrente. Conforme o caso, o direito de “suspender o assentimento interno” comportará o de recear que haja erro no documento do Magistério, o de duvidar do ensinamento nele contido, ou mesmo de rejeitá-lo.

Portanto, não tenho nenhum problema de consciência em rejeitar o ensino de que não são as Palavras da Instituição que são a forma da Consagração, ou de considerar a decisão sobre a Anáfora de Addai e Mari uma excrescência de cunho modernista.

Registro histórico

Meu confrade Philippe Gebara (do Orkut), por insistência minha, perguntou ao finado D. Estevão o que ele achava sobre essa querela em torno da Anáfora de Addai e Mari. Eis o comentário dele:

Caro Philippe,

Eu não ousaria endossar o parecer do teólogo ortodoxo oriental. Continuo a afirmar que todo sacramento tem matéria e forma e que na Eucaristia a forma são as palavras da consagração; é a doutrina de São Tomás de Aquino que a Igreja faz sua. A Epiclese é muito importante mas não opera a transubstanciação. Em matéria de sacramento toda cautela é pouca; por isto não podemos precipitadamente alterar o que se diz classicamente. Aguardemos um pronunciamento mais nítido e oficial da Santa Sé.

Atenciosamente,
Pe.Estevão,OSB

O valor real da declaração

Bem, até aqui argumentamos como se a declaração sobre a Anáfora de Addai e Mari tivesse o valor formal (uma declaração do Magistério Autêntico) que seus defensores e a maior parte de seus críticos considera como real, mas será que é assim mesmo? Parece que não. Um estudo do Pe. Ansgar Santogrossi OSB, que sigo, nega que a declaração sobre a Anáfora seja um ato dotado da universalidade que o Magistério Autêntico requer.

Mais informações sobre a tese desse sacerdote podem ser obtidas aqui:



Lendo novamente o artigo do Pe. Santogrossi, percebi que fizemos quase todos os passos que ele elenca na análise da Anáfora de Addai e Mari.

Diz o artigo:

The present article will critically evaluate the principal arguments in support of the Christian Unity Council decision, presenting reasons which could motivate a re-examination of the issue by the Holy See. The canonical and magisterial status of the decision will also be examined. The present study is in four parts: I) patristic and historical interpretation of the history of the anaphora, II) the magisterial status of the Pontifical Council’s letter to the Chaldean bishops, III) the rule of faith, IV) St Thomas’s understanding of the Eucharistic consecration and the act of the ordained priest.

Nesse sentido, mostramos o desenvolvimento da doutrina sobre a Epiclese desde a Igreja primitiva (desvendando o erro que há na maneira de pensar supostamente oriental e primitiva em torno da essencialidade da Epiclese) e observamos todas as declarações do Magistério sobre o que vem a ser a forma do sacramento da Eucaristia (que, por sua vez, adotou a explicitação tomista sobre o tema). A única coisa que faltou, de fato, foi uma avaliação jurídica do documento que declarou a validade da citada anáfora.

Uma coisa interessante no texto é a referência ao fato de que se essa declaração sobre a Anáfora de Addai e Mari tem valor dogmático, então ela seria a declaração mais importante feita pela Igreja desde o tempo do Vaticano II. E se for assim, por que não é amplamente divulgada?

Todavia:

The 2001 letter to the Chaldean bishops from the Unity Council, which has never been published in the Acta Apostolicae Sedis, was an official act of the Unity Council, not of the Pope or the Congregation for the Doctrine of the Faith.

Ou seja, o que contam sobre o documento sobre a Anáfora está bem longe da verdade (e, vale salientar, mesmo que fosse um ato do magistério extraordinário do Papa, ele não se sustentaria, dada a contradição com declarações anteriores no mesmo nível). Ele não passa de uma declaração da Congregação para a Unidade dos Cristãos, que contou com a aprovação do Papa e da CDF, mas que está muito longe de ser um ato do magistério supremo, já que não teve amplitude universal, mas se endereçou a uma única igreja sui juris.

Sobre esse tipo de declaração o Mons. Penido no seu O Corpo Místico (pp. 116 e 117) diz:

"Mesmo nos documentos indiscutivelmente 'ex cathedra' (por exemplo, na Bula Ineffabilis Deus pela qual Pio IX define o dogma da Imaculada Conceição) encontram-se amiúde partes de exposição, de argumentação, que pertencem à alçada do magistério ordinário. O mesmo se dá nas decisões doutrinais das Congregações romanas – notadamente do Santo Ofício -, mesmo quando o Pontífice as aprova; pelo motivo óbvio que, sendo a infalibilidade privilégio pessoalíssimo, não o pode o Papa delegar a quem quer que seja. A sanção pontifical dada a essas decisões têm por fim conferir-lhes valor legal como ato duma Congregação romana, a menos que o Pontífice manifeste a intenção de tornar tal decisão pessoalmente sua, no qual caso será infalível, se o Papa assim o entender."

Para frisar essa distinção, ensinam os canonistas que os atos das Congregações são atos da Santa Sé e não do Sumo Pontífice.

O primeiro texto, então, conclui com chave de ouro:

For these reasons it seems difficult to affirm that the 2001 letter is an act of authentic magisterium requiring the assent of all the baptized. And putting aside for a moment the issue of the non-universal scope of the letter’s addressee, the Chaldean Catholic Church, one can ask what part of the Apostolic Constitution Pastor Bonus gives the Unity Council authority to make authentic interpretations of Catholic doctrine, for to say that the words of Christ validly consecrate the Eucharist when they are found only in “a dispersed and euchological way” is to give a further interpretation of the Catholic doctrine that the words of Christ at the Last Supper consecrate the Eucharist.

In summary: if in the future the Pope or the CDF were to declare to the universal Church that pronouncing the words “This is my body etc.” is the necessary form of the Eucharist, theologians would be able to point out that the 2001 letter of the Unity Council was not an act of the Pope or the CDF and that is was not promulgated to the universal Church.

No segundo artigo, aliás, na segunda parte do artigo colocada no blog, vemos que sempre houve a presunção, desde a união com os caldeus, no século XVI, que eles recitavam a narrativa da instituição. Quando ficou claro que não era bem assim, a Congregação para a Propaganda da Fé não se furtou em alertar os missionários sobre esse “incrível abuso”.

Como fonte, o texto tem a seguinte citação:

“Abolish the incredible abuse of not pronouncing the sacramental words at the Consecration in the Mass called 'of the Apostles', which is the most frequent one. Instruct on the true formula of Consecration." Letter dated 31 July 1902, in Codicis Juris Canonici fonts, ed. P. Gasparri and J. Serédi, vol. V, Rome, 1935, 546.]

Evidente que os “teólogos de biblioteca” atuais passam longe de declarações como essa. Fazem de conta que não há nenhuma problemática a ser enfrentada.

Texto da Anáfora

Eis a Anáfora de Addai e Mari em português (vide Tratado Mistagógico da Eucaristia) segundo a recensão de seu mais antigo manuscrito, descoberto e publicado nos anos 60 do século passado por William F. Macomber. Trata-se de um códice descoberto em 1964 na igreja paroquial de Mar Esa ya (Santo Isaías) em Mosul (Iraque) e publicado em 1966. As partes que o códice abrevia estão supridas, entre colchetes, pelo texto do Missale Chaldaeorum (Mosul, 1901). Estou numerando as linhas do texto, segundo o original, para facilitar a futura análise.

- A graça de nosso Senhor [Jesus Cristo e o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito santo esteja com todos nós, agora e sempre e nos séculos dos séculos]!

- Amém.

- Estejam no alto as vossas mentes!

- A ti, Deus [de Abraão e de Isaac e de Israel, rei louvável].

- É oferecida a oblação a Deus, Senhor de todos!

- É conveniente e justo.

1.É digno de louvor por todas as nossas boca
2. e de confissão por todas as nossas línguas
3.o nome adorável e louvável do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
4.que criou o mundo na sua graça
5.e seus habitantes em sua piedade,
6. e remiu os homens em sua clemência
7.e fez grande graça aos mortais.
8.Tua grandeza, Senhor, adoram milhares e milhares de [seres] superiores
9.e dez miríades de Anjos,
10.os exércitos de [seres] espirituais, ministros de fogo e de espírito
11.junto com os santos Querubins e Serafins
12.louvam teu Nome,
13.bradando e louvando [incessantemente
14.e clamando um para o outro e dizendo]:

15.Santo, santo, [santo é o Senhor Deus poderoso;
16.plenos estão o céu e a terra de seus louvores.
17.Hosana nas alturas e hosana ao Filho de Davi!
18. Bendido o que vem e virá em nome do Senhor.
19.Hosana nos lugares excelsos!]

20.E com essas potências celestes te confessamos, Senhor,
21.também nós teus servos fracos e enfermos e miseráveis,
22.porque nos fizeste uma grande graça que não se pode pagar:
23.pois revestiste nossa humanidade
24.para vivificar-nos mediante tua divindade
25.e suspendeste nossa opressão
26.e levantaste nossa queda
27.e ressuscitaste nossa mortalidade
28.e perdoaste nossas dívidas
29.e justificaste nossa condição de pecado
30.e iluminaste nossa mente
31. e superaste, nosso Senhor e nosso Deus, nossos adversários
32.e fizeste resplandecer a debilidade de nossa natureza enferma
33.com as misericórdias abundantes de tua graça.
34.E por todos [os teus auxílios e tuas graças para conosco
35.te damos louvor e honra e confissão e adoração,
36.agora e em todo tempo e nos séculos dos séculos. (R/Amém)].

37.Tu, Senhor, em tuas [muitas] misericórdias,
38.de que não conseguimos falar,
39.faze memória boa de todos os pais retos e justos
40.que foram agradáveis diante de ti
41.na comemoração do corpo e do sangue de teu Cristo,
42.que te oferecemos sobre o altar puro e santo
43.como nos ensinaste;
44.e concede a nós tua tranqüilidade e tua paz
45.por todos os dias do mundo,
46.a fim de que todos os habitantes da terra conheçam
47.que és Deus, o único verdadeiro Pai,
48.e que mandaste nosso Senhor Jesus Cristo, teu filho e teu amado;
49.e ele mesmo, nosso Senhor e nosso Deus,
50. nos ensinou em seu Evangelho vivificante
51.toda pureza e santidade dos profetas e dos apóstolos
52.e dos mártires e dos confessores
53.e dos bispos e dos presbíteros e dos ministros
54.e de todos os filhos da santa Igreja católica,
55.que foram assinalados com o sinete (vivo) do santo batismo.

56.E também nós, Senhor, teus servos fracos e enfermos e miseráveis,
57.que estamos reunidos e estamos diante de ti neste momento,
58.recebemos na tradição a figura que vem de ti,
59.já que nos alegramos e louvamos
60e exaltamos e comemoramos e celebramos
61.e fazemos estes mistérios grandes e tremendos
62.da paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo.

63.Venha, Senhor, teu Espírito Santo
64.e repouse sobre esta oblação de teus servos
65.e a bendiga e santifique,

66.a fim de que seja para nós, Senhor,
67.para a expiação das dívidas e para a remissão dos pecados
68.e para a grande esperança da ressurreição dos mortos
69.e para a vida no reino dos céus
70.com todos os que foram agradáveis diante de ti.

71.E por toda a tua economia admirável para conosco
72.te confessamos e te louvamos incessantemente,
73.na tua Igreja redimida com o sangue precioso de teu Cristo,
74.com bocas abertas e de rostos descobertos,
75.dando [louvor e honra e confissão e adoração
76.a teu Nome vivo e santo e vivificante,
77.agora e sempre e nos séculos dos séculos].

Amém!

Realmente, belíssimo, mas vocês, sinceramente, com tudo que já dissemos, acham que consagra?

Essa parte em preto que eu coloquei na Anáfora de Addai e Mari é a parte em que, segundo os liturgistas modernos (ou será modernistas), ocorre a transubstanciação.

Vejamos a explicação de um deles (Tratado Mistagógico da Eucaristia):

Se neste ponto tentamos não nos deixar distrair pelo último desenvolvimento da intercessão (ll. 44-45), advertimos a presença de uma articulação lógico-teológica de alcance. Pois, à memória pedida a Deus a favor dos antepassados que lhe foram agradáveis na comemoração do corpo e do sangue de Cristo (ll. 39-43), corresponde a declaração em que a comunidade reunida notifica a Deus estar fazendo justamente a mesma comemoração (ll. 56-62). Não obstante a ausência manifesta do relato institucional, podemos falar de um quase-relato, já que as ll. 56-62, sendo bem mais que uma anamnese comum, fundamentam a declaração anamnético-ofertorial com o conteúdo daquele elemento que, bastante rapidamente, se configurará como verdadeiro relato no sentido próprio da palavra. Denominamos, portanto, este duplo elemento (quase)relato-anamnese. Vejamos imediatamente a base textual que autoriza essa denominação.

A passagem da eucaristia dos antepassados à celebração eucarística atual se estabelece mediante uma dupla declaração, que a comunidade “reunida” (l. 57) faz pela boca de seu presidente. Em primeiro lugar, com um único verbo de forma finita que caracteriza a proposição principal, ela declara: “Também nós, teus servos... recebemos na tradição [literalmente: no fluxo das gerações] a figura que [por meio de teu Cristo] vem de ti” (ll. 56-58). Por isso, com uma série de formas participiais subordinadas que correspondem a uma proposição sintaticamente dependente e logicamente conseqüente à primeira, a comunidade cultual declara que, neste momento, “estamos precisamente... comemorando... e fazendo este mistério grande e tremendo da paixão e morte e ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo” (ll. 59-62).

Reconhecemos aí os componentes essenciais da anamnese litúrgica, a saber: a declaração anamnética, expressa pelo verbo “comemorar”, e a declaração ofertorial, confiada aqui ao verbo “fazer”, que fala da intensidade da ação oblativa. Embora aqui não se fale diretamente de “oblação”, é, contudo, na qualidade de oblação que se desenrola toda a ação ritual, como resulta, não só do terceiro membro do diálogo invitatório, como também das expressões que se lêem às ll. 42.64.

Reconhecemos, outrossim, que, se esta é uma anamnese, é mais do que uma anamnese, por causa da insistência na figura dada e recebida na tradição. Aqui o termo figura (em siríaco túfsa) está entendido como designação inequívoca, embora implícita, dos sinais sacramentais, ou seja, do pão e do cálice. Pois são eles que, neste momento, figuram realmente, já que no plano sacramental são, de fato, o corpo partido e o sangue derramado. Embora ainda não dispondo do relato institucional, a anáfora arcaica de Addai e Mari possui em germe seus elementos essenciais. Para uma confirmação formal do que estamos dizendo, é suficiente confrontar esta parte de Addai com a parte correspondente da anáfora fragmentária contida num manuscrito do séc. VI.

Com base nessas considerações, podemos falar de quase embolismo ou quase relato, não só em referência à citada anáfora fragmentária, da qual, de resto, não sabemos nada, mas sobretudo justamente em referência à anáfora de Addai, cujo uso antigo e ininterrupto na Igreja do Oriente é bem conhecido. Ainda uma vez, a atenção dada à forma literária da oração eucarística e a sua gênese se revela profícua para a teologia. Ela projeta uma luz tranqüilizadora sobre uma questão que despertou sobre uma questão que despertou a curiosidade dos liturgistas ocidentais e daqueles pastores que, vindos do Ocidente, não se tinham preocupado em despojar-se de sua mentalidade [“forma mentis”] incapaz de pôr-se na escola da lex orandi.

Plenamente convencidos da ortodoxia dessa jóia oriental...

Nenhuma referência ao Magistério, nenhuma referência à Tradição, nenhuma referência à Sagrada Escritura... O critério de ordotoxia para os defensores da Anáfora de Addai e Mari é a própria cabeça deles.

Ping Pong

Não obstante a ausência manifesta do relato institucional, podemos falar de um quase-relato, já que as ll. 56-62, sendo bem mais que uma anamnese comum, fundamentam a declaração anamnético-ofertorial com o conteúdo daquele elemento que, bastante rapidamente, se configurará como verdadeiro relato no sentido próprio da palavra. Denominamos, portanto, este duplo elemento (quase)relato-anamnese. Vejamos imediatamente a base textual que autoriza essa denominação.

E desde quando uma “quase-forma” efetua o sinal sacramental? Na base dessa declaração temos a linha de análise teológica que tomou conta das universidades em Roma, onde a Missa, como um todo, é que é vista como “consagrante”. Essa não é a doutrina católica. Simples assim.

Por isso, com uma série de formas participiais subordinadas que correspondem a uma proposição sintaticamente dependente e logicamente conseqüente à primeira, a comunidade cultual declara que, neste momento, “estamos precisamente... comemorando... e fazendo este mistério grande e tremendo da paixão e morte e ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo” (ll. 59-62).

Dizer que se está comemorando e fazendo o mistério é claramente um indicador de que havia algo mais... A anáfora chega a um zênite em que o relato faz-se necessário. Bernard Botte já disse: “É impossível que uma anáfora tenha uma anamnese sem ter o relato institucional”. E a doutrina católica (e é bom lembrar que a palavra final do catolicismo sempre é do Magistério, nunca da Teologia) já deixou bem claro que nada equivale a ele.

Reconhecemos, outrossim, que, se esta é uma anamnese, é mais do que uma anamnese, por causa da insistência na figura dada e recebida na tradição. Aqui o termo figura (em siríaco túfsa) está entendido como designação inequívoca, embora implícita, dos sinais sacramentais, ou seja, do pão e do cálice. Pois são eles que, neste momento, figuram realmente, já que no plano sacramental são, de fato, o corpo partido e o sangue derramado.

Uma “conversa mole” sem fim, com palavras chiques, para dizer: não interessa o que a Igreja já disse sobre o assunto, se algo faz referencia indireta a um sacramento, então é porque há o sacramento. Isso é o fim. Quando nós contestamos esses arautos da heresia somos tachados de imprudentes e coisas do gênero e as mentes mais “delicadas” (eu diria servis) “preferem suspender seu julgamento” a enfrentar o problema. Não está claro quem é que está sendo imprudente neste assunto! Não está claro que quem ignora de forma proposital toda e qualquer declaração anterior da Igreja sobre o tema está querendo o que é próprio do Magistério e fugindo das dificuldades!

Ela projeta uma luz tranqüilizadora sobre uma questão que despertou sobre uma questão que despertou a curiosidade dos liturgistas ocidentais e daqueles pastores que, vindos do Ocidente, não se tinham preocupado em despojar-se de sua mentalidade [“forma mentis”] incapaz de pôr-se na escola da lex orandi.

Claro, ignorar tudo que pode tirar a “tranqüilidade” só pode levar à “tranqüilidade”. É o fim mesmo, o abobado que escreveu isso tenta ligar a preocupação dos liturgistas antigos a uma questão de “mentalidade ocidental X mentalidade oriental” (como se a mentalidade oriental aprovasse a Anáfora em estudo – o que já demonstramos que é um erro) e não à legítima inquietação do católico que vê um documento antigo em aparente contradição com o que ensina a Igreja. Qualquer semelhança com o cacoete mental marxista da "dominação" não é mera coincidência!

Inserção das Palavras da Consagração 

Por que essa anáfora é assim? Porque as Palavras da Consagração, pela lei do arcano ("lei do segredo" na Igreja primitiva, que servia para proteger os Mistérios cristãos em época de perseguição), não estavam presentes no texto escrito; elas eram inseridas pelo celebrante na hora da Missa. Depois do cisma, com o tempo, isso foi esquecido e uma estranha teologia que só levava em conta o que estava nos livros se desenvolveu.

Quando outros cristãos voltaram a ter contado com os assírios, sempre acharam necessário que as Palavras fossem inseridas. Historicamente tivemos os seguintes esquemas:

1) No missal católico dos caldeus foram inseridas no pós-Sanctus depois da linha 20.

2) No missal da Missão Anglicana junto aos nestorianos foram inseridas, sempre no pós-Sanctus, depois da linha 33.

3) No missal católico dos malabares, a partir da revisão imposta pelo sínodo de Diamper (1599),  elas estavam inseridas fora da Anáfora de Addai e Mari, entre as orações preparatórias à fração. Essa opção curiosa, que tinha o mérito de respeitar a configuração anafórica (na visão dos liturgistas modernos), se explica como uma espécie de institucionalização da normativa ritual sobre os Defectus in celebratione Missae occurrentes do Missale Romanum, onde o defectus formae foi entendido em analogia com o defectus materiae.

Atualmente os missais católicos (caldeu e malabar) inserem as Palavras da Instituição após a linha 20, transformando, a classificação dos estudiosos, a Anáfora de Addai e Mari de anáfora de dinâmica epiclética em anáfora de dinâmica anamnética.

Palavra final

Bem, depois de quase dois anos de estudo acho que a questão da Epiclese e a da Anáfora de Addai e Mari está mais do que esclarecida e só posso fazer seguinte prece:

Oremus et pro perfidis modernistis, liberalibus et aliis sacrae doctrinae et liturgiae destructoribus, ut Dominus Noster auferat stultitiam a mentibus eorum, ut et ipsi agnoscant unicam Ecclesiam Dei cum omnibus traditionibus eius.

Oremus. Flectamus genua. Levate.

Deus qui pro peccatis nostris Concilium Vaticanum Secundum permissisti, da nobis Pontificem ad imaginem sanctorum Pii V et Pii X, qui sine timore sacram doctrinam et liturgiam venerabilem patrum nostrorum ad maiorem tuam gloriam cito restauret. Per Dominum...

Fontes

Aqui vão minhas fontes (de maneira informal, só para constar, sem seguir nenhuma regra técnica):

1) Catholic Encyclopedia, edição de 1913 (verbetes: epiclese e nestorianos);

2) Catholic Encyclopedia, edição de 1967 (verbete: epiclese);

3) O Mistério dos Sacramentos, Mons. Teixeira Leite Pedino;

4) O Mistério da Igreja, Mons. Teixeira Leite Penido;

5) Manual de Teologia Dogmática, J. Bujanda SJ;

6) Teologia Moral, Pe. Teodore da Torre del Grego OFM Cap.;

7) Catecismo Romano (parte dos sacramentos);

8) Suma Teológica (parte dos sacramentos);

9) Considerações sobre o “Ordo Missae” de Paulo VI, Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira;

10) Why the New Bishops are Not True Bishops, Padre Anthony Cekada;

11) Still Null and Still Void, Padre Anthony Cekada;

12) O Sacramenty Unholy, Bispo Donald Sanborn;

13) Nothig Lacking for Validity: A Response to Rev. Anthony Cekada, Jacob Michael;

14) O Documento sobre a Anáfora de Addai e Mari, Sim Sim Não Não;

15) Missal Romano reformado por São Pio V;

16) Divina Liturgia de São João Crisóstomo (Igreja Ucraniana Grego-Católica do Brasil);

17) Anáfora de Addai e Mari (texto em inglês);

18) The Problem whith the other Sacraments, Rama Coomaraswamy;

19) The Mass of the western rites, Dom Fernad Cabrol;

20) Dictionnaire de Théologie Catholic (DTC – verbete: nestorianos);

21) Conversas com sacerdotes que estudaram com modernistas em Roma;

22) Conversas com Phillipe Gebara;

23) Apostolicae cure, Leão XIII;

24) Saepius Officio, Answer of the Archbishops of England to the Apostolic Letter of Pope Leo XIII, addressed to the whole body of Bishops of the Catholic Church;

25) Manual de Teologia Dogmática, Luwding Ott;

26) Doutrina Católica. Meios de Santificação/Liturgia, Boulanger;

27) Num Só Corpo: Tratado Mistagógico Sobre a Eucaristia, Cesare Giraudo.

28) Artigos do blog Rorate Caeli;

29) O Corpo Místico, Mons. Teixeira Leite Penido.