sábado, 10 de janeiro de 2009

Deus no Novo Testamento

Artigo do Padre Elílio de Faria Matos Júnior:

No centro do anúncio (kerigma) dos escritos do Novo Testamento está o mesmo Deus de Israel, que agora se mostra de forma inaudita como "Emanuel" (Deus conosco) através da pessoa e atuação de Jesus Cristo, que, por sua vida, morte e ressurreição, garante a todos a beleza da salvação e da plena realização humana na comunhão com Deus, o que desperta em nós "incondicional confiança justamente quando as possibilidades humanas desmoronam"[1]. A partir dessa perspectiva querigmática pós-pascal, desenvolvida principalmente nos escritos paulinos, o Novo Testamento procurará, sobretudo através dos evangelhos, a reconstituir o seu fundamento, que está na atuação pré-pascal de Jesus.

Jesus não anuncia outro Deus senão Iahweh, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. A pregação de Jesus pressupõe a experiência de Deus que Israel fez em sua história, recordando explicitamente a profissão de fé característica dos israelitas: "O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor teu Deus de todo coração..."[2]. Com efeito, podemos afirmar que: "O Novo Testamento se instaura sobre a concepção da Divindade conhecida no Antigo e adorada como plenitude do ser, de verdade, de bem, origem e fim de todas as coisas"[3]. Estamos, pois, diante da mesma Fonte da beleza celebrada pelo livro da Sabedoria.

Entretanto, a partir dessa real continuidade na concepção de Deus não ficou impedido que houvesse significativo aprofundamento pela revelação de algo inaudito sobre o mistério de Deus em si mesmo e em relação a nós. Referimo-nos à revelação da paternidade divina, tanto no plano insondável da vida divina (o Mistério trinitário) quanto no plano da Graça (o Mistério da adoção filial). Tal revelação sugere com vigor incisivo o que nos parece ser um dos nomes mais apropriados a Deus: "Deus é amor"[4].

É com freqüência nova e com novo sentido que Jesus chama a Deus de Pai nos evangelhos. Não resta dúvida que esta palavra - Pai - esteve realmente nos lábios de Jesus de modo freqüente e inaudito, integrando o que se convencionou chamar de ipsissima verba Iesu. De fato, a idéia de paternidade divina não é totalmente estranha ao Antigo Testamento e mesmo a outras religiões. O Antigo Testamento a utiliza algumas vezes para qualificar a relação entre Deus e seu povo ou Deus e os justos ou ainda entre Deus e o messias, tendo como base a teologia da Aliança[5]. Em outras religiões, a idéia aparece com conotações míticas, naturistas e panteístas; entre os gregos, com a expressão pai, enuncia-se de modo metafórico o governo divino, de modo que Zeus, o soberano universal, é intitulado o "pai dos deuses e dos homens".

O judaísmo do tempo de Jesus também invocava a Deus como Pai; entretanto, a essa invocação estava sempre associada uma atitude marcada por respeitosa distância, e, assim, procurava-se evitar qualquer confusão com o pai terrestre[6].

Jesus, de modo diverso, valeu-se, no relacionamento com Deus, da maneira como as crianças dirigiam-se a seu pai: Abbá[7] (meu pai, papai), indicando, com isso, a peculiaridade inaudita de sua postura para com Deus, carregada de intimidade e de absoluta confiança.

Jesus, é verdade, "não diminuiu de forma alguma o respeito religioso"[8] devido a Deus reconhecendo-lhe o senhorio universal, mas convidou os seus discípulos a também tratá-lo como Pai[9]. Com isso, Jesus procurou inculcar a bondade de Deus, sua inclinação ao perdão e sua solicitude sempre pronta a atender. Deus supera, de muito, os pais humanos: "Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!"[10]. A paternidade de Deus para com os homens é anunciada através de muitas parábolas, entre as quais se destaca a do Pai misericordioso[11]. "A verdade é que Jesus, mantendo a noção de senhorio divino, a associa - e como a subordina - à do bom Pai: 'Pai... venha a nós o vosso reino', 'não temais... foi do agrado de vosso Pai dar-vos o seu Reino'"[12].

Essa imagem paterna de Deus está estreitamente ligada à mensagem escatológica de Jesus: todos são convidados a procurar em primeiro lugar o Reino de Deus; todo o mais virá por acréscimo. Escolhe-se o Reino optando pelo próprio Jesus, e os que crerem em sua mensagem serão recompensados além do merecido[13]. Deus quer salvar a todos, quer que todos tenham vida e a tenham em abundância[14].

A Revelação neotestamentária completa-se com a revelação do excelso Mistério da vida íntima de Deus, o Mistério da Santíssima Trindade. Deus, embora único, é Pai, Filho e Espírito Santo. Este é o mistério central da fé cristã, o que a distingue das demais religiões monoteístas, sem o qual o entendimento do plano salvífico de Deus, que é Trindade, ficaria comprometido.

A revelação do mistério da Santíssima Trindade é obra do Novo Testamento selado em Cristo Jesus[15]. De fato, o Filho revela o Pai que o enviou e promete o dom do Espírito Santo, o Paráclito, quando tiver regressado ao Pai. Evidentemente, a revelação trinitária no Novo Testamento não se deu de forma sistemática, isto é, não foi enunciada expressamente como depois o seria pela Igreja: "três hipóstases (ou pessoas) e uma só essência (ou substância)". Todavia, há um conjunto de afirmativas e atestações da presença da Tríade divina na história da salvação. O Mistério da vida íntima de Deus manifesta-se-nos no seu atuar na história em vista de nossa salvação.

Em primeiro lugar, vemos, no plano histórico, a atuação de dois Enviados que procedem de Deus: o Filho que, por sua vida, ensinamentos, paixão, morte e ressurreição, revela sua identidade divina; em seguida, o Espírito Santo, presente na Encarnação, no Batismo e na atuação de Jesus, Espírito que é prometido pelo Filho como dom, cuja força impulsiona a primitiva comunidade dos discípulos a testemunhar com destemor a nova e definitiva Aliança selada em Jesus.

A intimidade de Jesus para com o Pai e sua pretensão inaudita de ser o único a conhecer verdadeiramente o Pai, o que dificilmente poderia ser atribuído à invenção da comunidade dos discípulos, sugere uma relação única com Deus, ultrapassando o plano meramente humano: "Todas as coisas me foram dadas por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar"[16]. Ora, é esse mesmo Jesus, que conhece o Pai como ninguém, que promete o Paráclito para que a obra da salvação tenha seguimento.

Em segundo lugar, a consciência dos que assistem à manifestação histórica de Deus colocará a pergunta pela realidade de Deus em si mesmo, pergunta que foi sendo respondida de forma gradual e com linguagem nem sempre perfeita[17].

Em síntese, o Novo Testamento fala explicitamente de três Sujeitos divinos na obra da salvação. Três Sujeitos intimamente unidos, mas distintos entre si. A fórmula de Mateus é paradigmática: "Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo"[18]. O monoteísmo do Antigo Testamento é afirmado com toda clareza no Novo Testamento, embora fale-se dos Divinos três. A conciliação dos elementos aparentemente contraditórios de tal mistério requisitará o esforço reflexivo da Igreja dos primeiros séculos.

O mistério da Santíssima Trindade é, pois, central para a fé cristã. Não resulta de meras reflexões abstratas, mas, antes, tem seu ponto de partida na autocomunicação que o próprio Deus fez na história salvífica. Sem esse mistério a fé cristã seria mutilada em suas afirmações fundamentais. É a partir do modo como Deus se revelou na história que ascendemos à consideração do que Deus é em si mesmo. Deus se revelou atuante na história como Pai, Filho e Espírito (Trindade econômica). Logo, Deus é em si mesmo Pai, Filho e Espírito (Trindade imanente), pois ele não se revelaria de maneira distinta do que ele é em si mesmo desde toda a eternidade.


[1] Sattler, Dorothea; Schneider, Theodor. Doutrina sobre Deus. In: Schneider, Theodor (org.). Manual de dogmática. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2002, vol. I, p. 78.
[2] Mc 12,29.
[3] Gomes, Cirilo Folch. Riquezas da mensagem cristã. 2.ed. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1981, p. 120.
[4] 1Jo 4,8.
[5] "Vós, Iahweh, sois nosso Pai, nosso Redentor. Este é o vosso nome desde os tempos imemoriais. Por que, Iahweh, permitis que andemos errantes, longe de vossas vias, com o coração insensível ao vosso temor?" (Is 63,16).
[6] Deus (NT). In: Bauer, Johannes B (dir). Dicionário bíblico-teológico. São Paulo: Loyola, 2000, p. 104.
[7] Cf. Mc 14,36
[8] Deus (NT). In: Bauer, Johannes B (dir), op. cit., p. 102.
[9] Cf. Mt, 6; Lc 11,1ss.
[10] Lc 11,13.
[11] Cf. Lc 15,11-32.
[12] Gomes, Cirilo Folch, op. cit., p. 123.
[13] Cf. Lc 17,7-10; Mt 20,1-15.
[14] Cf. Jo 10,10.
[15] "Recorda nosso Catecismo no n. 237 que a Trindade é um mistério de fé no sentido estrito, um dos "mistérios escondidos em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados por Deus (cf. Vaticano I, DS 3015). Deus deixou, sem dúvida vestígios do seu ser trinitário na obra da Criação e na sua Revelação ao longo do Antigo Testamento; mas, continua nosso Catecismo, a intimidade de seu Ser como Santíssima Trindade constitui um mistério inacessível à pura razão e até mesmo à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo. Só com a vinda do Verbo em Jesus de Nazaré recebemos as primeiras insinuações sobre a pluralidade das pessoas em Deus. Garante-nos o evangelista São João que 'a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que é Deus, que está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer' (Jo 1,17-18)" (Kloppenburg, Boaventura. A Trindade. O amor em Deus. Petrópolis: Vozes, 1999, p.27-28).
[16] Mt 11,27.
[17] "Este processamento da revelação inclui a tomada de consciência gradual, por parte dos que o assistem e o testemunham, sendo compreensível que, ao interpretá-lo, não possuam desde logo enunciados perfeitos... Mas estas imperfeições de linguagem se explicam a partir do enfoque primariamente histórico ou 'econômico' do mistério, de sua abordagem 'de baixo para cima'; e da necessidade de se afirmar o monoteísmo, exprimindo-se portanto a divindade de Cristo e do Espírito sob o ângulo básico de suas procedências de Deus Pai" (Gomes, Cirilo Folch, op. cit., p. 129).
[18] Mt 28,19.

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