quinta-feira, 27 de agosto de 2009

12ª Jornada Teológica D. Hélder Câmara

No tempo de perigosa agitação e de irresponsável “desbunde” que vive a Arquidiocese de Olinda e Recife desde a nomeação do seu novo arcebispo, D. Fernando Saburino, resolvi participar (como não fazia há alguns anos – desde uma quase briga com Leonardo Boff) da Jornada Teológica do Grupo Igreja Nova. Fui, especialmente, para ver e sentir o que será a minha diocese nos próximos 13 anos... pois o nosso novo pastor, um dia após assumir o cargo, numa reunião com o clero (padres e diáconos permanentes), disse que a igreja local assumirá esse evento nos anos vindouros e que nós devemos fazer um esforço para acolher os membros do citado grupo, pois ele, D. Fernando, só sabe governar na unidade...

Antes de prosseguir, vale lembrar o que é o Grupo Igreja Nova: é um grupo de leigos de classe média alta, auxiliado por alguns padres, que durante o pontificado de D. José resolveu formar uma espécie de trincheira progressista dentro da diocese. Evidente que, como todos sabem, eu não considero todo progressismo como negativo e nem estou entre os que vêem numa das outras tendências internas da Igreja (carismáticos, neo-conservadores e tradicionalistas) o catolicismo verdadeiro; por isso, em tese, eu não considero nada demais que num contexto conservador os progressistas queiram manter um espaço onde cultivem seu ethos particular. O problema com esse grupo, no entanto, é de outra ordem, pois no afã de resistir a qualquer iniciativa de D. José (e nem todas, de fato, foram boas ou justas) eles perderam as estribeiras, passaram da crítica ao criticismo num piscar de olhos. Assim, ao longo dos anos, o que se viu foi uma campanha velada ou explícita contra o arcebispo e seus auxiliares, muitas vezes chegando ao nível de ofensas pessoais, e, comumentemente, usando de argumentos que não são católicos (confundem teologia com sociologia e tradição com cultura).

Bem, então vamos ao primeiro dia da Jornada Teológica D. Hélder Câmara.

Chego à FAFIRE (Faculdade Frassinete do Recife – antiga Faculdade de Filosofia do Recife, instituição ligada à Congregação das Irmãs Dorotéias – hoje, uma congregação de freiras que usam calça) e vejo o auditório todo tomado, sem nenhum lugar vazio. Fico na porta e logo encontro um antigo professor meu de teologia (completamente TL) e mais algumas figuras conhecidas do meio progressista. Para meu susto, no palco, começa uma dança de afoxé, é o momento cultural antes da palestra (nada contra o afoxé, mas cada coisa “no seu quadrado”)... achando isso sem graça, vou para fora até a apresentação acabar e dou uma olhada nos livros que estão a venda no hall de entrada: só de autores “arroz de festa” desse tipo de evento: betos, boffes e assemelhados... subo para o mezanino (também lotado) e encontro um aluno meu de crisma (ex-comunista e hoje tradicionalista), que tem uma consciência bem delicada, com os olhos fechados, para não ver a tal apresentação cultural kkk... ia ficar por lá, mas estava quente demais para mim e, então, resolvo sentar no chão do auditório mesmo (de lado, bem perto do palco) junto a um colega neo-conservador.

Acaba o afoxé e logo tem início uma série de avisos. Fico sabendo que D. Fernando, que prometera ir à abertura, só virá no dia seguinte, para o lançamento de um livro de D. Clemente Isnard (monge e bispo ultraprogressista, que foi o responsável pela implantação da “reforma litúrgica” no Brasil e que, estranhamente, usa hábito). Vejo na platéia mais umas “figurinhas”: o padre de um bairro rico daqui (uma viúva de D. Hélder, progressista e ao mesmo tempo homofóbica, que costuma gritar com quem quer receber a Comunhão na boca), outro padre complicado (não tem provisão e invadiu uma capela onde celebra missas para seus amigos), etc, etc.

Começa o evento propriamente dito. Primeiro uma oração:

“Senhor, aqui estamos reunidos em teu nome, desejosos de construir teu Reino. Que o Espírito Santo, que enviaste aos nossos corações, e mantém viva tua presença em nós, nos ensine o que devemos refletir e os passos que devemos dar, para que, fortalecidos com tua graça, possamos realizar teus desígnios.

Que o Espírito Santo inspire o nosso discernimento, e acenda em nós, cristãos de hoje, o amor de Jesus Cristo, e acenda em nós, cristãos de hoje, o amor de Jesus Cristo. Ensina-nos a escutar os outros, a propor e não a impor, e faze que busquemos sempre a verdade. E que assim, possamos estar unidos Contigo, para que a verdade seja sempre a nossa marca de vida.

Amém.”


Estranhamente ninguém se benze antes da oração – mas isso deve ser frescura do meu lado rad-trad ;)

Logo após, ouvimos uma reflexão de D. Hélder, do tempo em que ele tinha um programa na rádio arquidiocesana, falando sobre a amizade, e, finalmente, tem início a palestra do dia, com Frei Beto (assessor espiritual do Supremo Apedeuta – Lula).

Frei Betto vai falar sobre o “profetismo do Dom” e, como era de se esperar, tem de reviver sua “juventude romântica”, contando sobre a luta “contra a ditadura” (ele só luta contra as ditaduras que não lhe agradam), sobre as torturas, sobre o Vaticano II e coisas do gênero. Como diria meu cabeleireiro: t-o-t-a-l-m-e-n-t-e clichê! No meio desse disco quebrado da esquerda brasileira, ele começa a soltar umas informações importantes:

· D. Hélder, na França, falou em favor da luta armada.

· Paulo VI agiu contra um arcebispo de São Paulo que negava a existência de torturas (não que eu seja contra se punir isso, mas se a pessoa é contra a tortura injusta, deve ser sempre - o que foi mesmo que Paulo VI fez em favor dos católicos perseguidos por comunistas nessa época?) e mandou um presente (não lembro mais o que foi que ele falou) para os dominicanos brasileiros que resistiam à ditadura (inclusive escondendo armas no convento).

· O respeito pelo hábito religioso (que as pessoas ainda tinham nos anos 60 e 70, pois, burramente, achavam que religioso é o mesmo que santo) era usado para despistar os agentes do governo.

Aí ele começou a refletir teologicamente sobre uma série de pontos. Disse que D. Hélder, na vida, teve dois inimigos: o comunismo e a miséria. O primeiro ele viu que era falso e, então, passou a perseguir o segundo. Nesse sentido, Frei Beto fez umas colocações em termos de exegese bíblica (tratando da questão dos pobres, dos que sofrem) que eu, de fato, gostei (isso serve para mostrar que eu não estou com má intenção ao avaliar essa palestra). Mas, como era de se esperar, ele acabou perdendo a linha, e passou a fazer uns comentários, no mínimo, estranhos, que vão da relação de Nosso Senhor com o Pai até a ordenação de mulheres (muitas palmas nessa parte). Para terminar, ele lê uma estranha carta de D. Hélder vinda do Céu (antes fez umas brincadeiras – será? - sobre psicografia), com o lenga-lenga que eu já esperava. O interessante é que no meio dessa carta, num trecho em que D. Hélder fala sobre o atual papa, Frei Beto olha para o auditório e diz que vai fazer um parêntese:

- Quem diria que nós teríamos saudades de João Paulo II.

Risos e mais risos.

Aí vem a parte das perguntas, todas feitas em papel e selecionadas pelos organizadores.

Algumas pessoas aproveitam para ir ao hall fazer um lanche e conversar. Gostei de ver que certos seminaristas presentes perceberam o veneno dele. Na hora em que eu conversa com um deles, que dizia que Beto “não é muito católico”, um padre conhecido (que já me impediu de beijar sua mão, dizendo que sou tão sacerdote quanto ele) passa entre nós... deve ter pensado que era provocação ;)

Bem, volto às perguntas. Resolvo fazer uma, inspirado numa crítica de D. Hélder à ditadura (que foi lida na palestra):

“Por que o Sr. não se habilita a ser profeta (contra a tortura, contra a censura) em Cuba?”

Evidente que minha pergunta foi censurada. Sinto-me um oprimido... kkk Mas outras não foram e, em resposta a uma delas, Frei Beto desenvolveu seu pensamento em torno da ordenação de mulheres (a favor, claro).

Fim do primeiro dia. Fui tomar umas cervejas com uns amigos neo-conservadores num bar próximo e comentar o que vimos.

No segundo dia, em que falou o Pe. João Batista Libânio, eu não pude ficar para a palestra, pois tinha uma aula imperdível num cursinho para concursos. Mas dei uma passada, para comprar o novo livro de D. Clemente Isnard e levar um anterior para ele autografar (são obras cheias de maluquices, mas com alguns insights interessantes e verdadeiros).

Entro na FAFIRE e vejo o hall lotadíssimo. O que estará acontecendo? Ah... é D. Fernando dando uma entrevista. Logo percebo a presença de um sacerdote, todo prosa com os membros do Igreja Nova e bajulando D. Fernando... esse padre (com quem já tive momentos desagradáveis no passado), até recentemente, se gabava de sua ligação com neo-conservadores... dizem que está em “campanha”... (rei morto, rei posto)

Compro o novo livro de D. Clemente e levo esse e o anterior para ele escrever uma dedicatória. Passo ao auditório e chego no momento em que D. Fernando se dirige ao palco, com as pessoas, emocionadas e com os olhos brilhando, cantando a música “Bom pastor ovelhas guardarei...”. Muitos padres presentes. Antes de começar o ritual do dia anterior (avisos, oração, ouvir D. Hélder, palestra), D. Fernando dá uma palavra... e que palavra! Ele disse, entre outras coisas, que “temos de recuperar o tempo perdido” e que essa jornada teológica é “formadora” (para quem? para os clérigos e catequistas que não sabem nem o básico?). Dizem (quem ficou para a palestra), que D. Fernando, em cinco minutos, foi mais polêmico que Libânio em duas horas. Agora, verdade seja dita, ele foi polêmico até para os progressistas, pois em outra parte de sua fala ele disse que “ficou assustado com o desejo de mudança que presenciou na posse” e que “isso não pode ser feito do dia para a noite”, nesse momento vi um senhor olhar para a esposa e comentar:

- Tá vendo, ele já mudou!

É... quem pensa que pode governar sem desagradar a alguém vai ter de descobrir a “pedra filosofal”.

Vídeo de D. Fernando na Jornada:

http://pe360graus.globo.com/videos/cidades/religiao/2009/08/26/VID,...

Tive de ir para minha aula, mas, tarde da noite, li o livro de D. Clemente, com pérolas como a de que o padre que celebra Missa em latim, no domingo, comete pecado grave.

Último dia. Deo Gratias!

Menos gente.

Eu quis fazer umas brincadeiras de mal gosto e desrespeitadoras com uns TL´s aloprados, mas, graças a Deus, me segurei (depois eu teria me arrependido, pois isso não seria honroso).

No momento cultural uma apresentação de circo. Desse eu gostei.

Repetição do ritual (nem prestei atenção sobre o que era o áudio de D. Hélder – estava um pouco afobado por causa de um assalto de que fui vítima nesse dia).

Palestra com Ivone Gebara, uma freira que já foi condenada por defender o aborto (e, pelo que sei, até hoje assessora algumas entidades que fazem a defesa dele) e que é conhecida por ser um dos principais nomes da “teologia ecofeminista” (sim, isso existe).

Irmã Ivone fez mais uma palestra clichê esquerdopata. Era para ser uma espécie de "atualização do profetismo helderista a partir das andanças da irmã pela cidade". O de sempre: o pobre é um ser inocente e bom por natureza, no qual vemos Cristo; a fé cristã é histórica. Repetição dos mesmos princípios norteadores da mentalidade revolucionária desde, pelo menos, o Iluminismo: positividade antropológica (que vai de encontro à noção de natureza afetada pelo pecado original) e fechamento hegeliano à transcendência (“o sentido de tudo está na história” – eu até admito que a fé católica não pode ser alienada, mas daí a dizer que seu sentido é histórico é uma balela; o sentido da vida cristã está para além da história, se perfaz no dia do Juízo Final).

Na palestra, em dois momentos, de maneira bem velada (só quem tem prática de análise do discurso entendeu), ela falou positivamente sobre o aborto... no mais, leu uma carta de D. Hélder, onde ele descrevia sua briga com um padre que só queria que as mulheres recebessem a Comunhão com véu e que, ao ir à paróquia desse sacerdote para celebrar, foi indagado se tinha avisado às pessoas que elas só deviam comungar se tivessem confessado antes, ao que respondeu algo do tipo:

- Esse povo-cristo não precisa de Confissão, seu sofrimento já basta. Dou a Eucaristia a quem quiser.

Quanta confusão! É correto que a vida eclesial não se resuma a uma repetição fria de argumentos teológicos; de fato, temos de ir ao homem concreto, adâmico. Contudo, cada momento é um momento (o teológico, o pastoral) e cada coisa tem seu lugar (entender a tensão sofredora e considerar que nela há um mistério que só o Senhor pode julgar é uma coisa, transpor os limites objetivos do ensino sobre a Revelação outra).

Depois disso as perguntas. Ela até foi inteligente nas respostas, mas eu não estou mais com paciência para comentar.

Terminaram rezando o Pai Nosso, de mãos dadas (inclusive o padre que grita com quem quer receber a Comunhão na boca), pois, naturalmente, as novas normas da CNBB (que proíbem isso por causa da gripe suína) só valem para quem quer manter a dignidade externa na hora de comungar.

Essa foi a 12ª Jornada Teológica D. Hélder Câmara!