terça-feira, 4 de maio de 2010

O diácono grego na Missa papal

Vou postar uma tradução minha de um artigo escrito no blog Annales Ecclesiae Ucrainae pelo padre de rito bizantino Dr. Athanasuius D. McVay.

O texto (que na minha opinião não está bem escrito, mas tem informações preciosas) analisa o papel do diácono de rito oriental na liturgia papal, tanto no rito gregoriano (forma extraordinária do rito romano), quanto no rito paulino (forma ordinária do rito romano).

Antes de prosseguir, três observações: no primeiro parágrafo, quando o autor se refere a um “rito particular da Missa”, sem dúvida alguma, só está aludindo a particularidades cerimoniais, não está defendendo a existência de um rito no sentido estrito; o autor mudou algumas coisas do texto ao longo do tempo e, por isso, mais de uma versão pode ser encontrada na internet (vou me guiar pela mais antiga, com acréscimos da nova – em anexo coloco as duas); adaptei algumas coisas ao ritmo de nosso idioma e reduzi o sétimo parágrafo.

(Sínodo da Europa - diácono grego proclama o Evangelho em eslavônio antigo)

O diácono grego no rito papal da Missa

Pe. Dr. Athanasius D. McVay

Hoje, poucas pessoas estão cientes do fato de que o Papa tem o seu próprio rito da Missa. Cerimônias e costumes litúrgicos que não são encontrados nos ritos ordinários da Igreja Romana (latina) estão presentes nas solenes liturgias papais.

A razão para essas características especiais baseia-se na identidade do bispo de Roma: além de ser o principal hierarca da Igreja Latina (tanto que até recentemente o Papa usava o título de Patriarca do Ocidente), o Santo Padre é o ‘pai’ e ‘cabeça’ da Igreja Universal. Desse modo, simbolizando essa liderança global, temos a presença do diácono grego nas suas Missas solenes.

Como bispo romano, o Papa segue os ritos da Igreja de Roma. Todavia, até 1969, em ocasiões muito solenes, a Missa papal tinha um esquema único, que incluía cerimônias preenchidas por membros específicos da Corte e da Cúria. Por exemplo, o Sumo Pontífice era assistido não apenas pelos ministros ordinários, mas também por seus colaboradores mais próximos, os cardeais. O cardeal-bispo mais antigo atuava como principal padre-assistente, um cardeal-diácono ministrava como diácono (diácono apostólico) e dois outros como diáconos de honra. Além disso, um padre da cúria servia como subdiácono apostólico.

Outra característica peculiar desse ritual era a participação de clérigos orientais: além dos ministros citados, de rito romano, as normas prescreviam dois clérigos bizantinos, chamados de diácono grego e subdiácono grego. Eles eram monges ordenados do mosteiro bizantino (italiano) de Grottoferrata (essa comunidade não é ‘uniata’ per se, pois sempre esteve em comunhão com Roma). A principal função litúrgica do diácono e do subdiácono grego era cantar a Epístola e o Evangelho em grego depois deles serem cantados em latim pelo diácono e subdiácono apostólico. Após a Epístola, os dois subdiáconos beijavam os pés do Papa, e, após o Evangelho, o Papa beijava os textos em latim e grego.

(Missa papal solene no rito gregoriano com um diácono grego presente - canto inferior direito)

Em complemento ao ministério desses clérigos gregos, o Papa mantinha vestimentas e símbolos que, um dia, podem ter sido comuns no Ocidente e no Oriente. Na sua coxa direita ele usava um subcinctorium, que se assemelha ao epigonation dos prelados bizantinos. O Pão Eucarístico era coberto por um asterisco, um protetor em forma de estrela, que também é colocado por cima de todo pão que será consagrado no rito bizantino. Em comum com o antigo costume bizantino, a liturgia papal preservava o uso de apenas duas cores litúrgicas. O vermelho e o branco eram as cores dos senadores romanos e dos oficiais da corte imperial; o uso delas era permitido ao bispo de Roma como símbolo de sua posição social. Embora o Papa hoje em dia se vista quase exclusivamente de branco, partes de suas roupas são em vermelho, em especial os elementos mais externos, como o chapéu, os sapatos, a capa e a mozzetta. Quando a capital civil do Império Romano mudou para Constantinopla, o rito bizantino manteve esse antigo esquema de cores, e o Papa também continuou a usar o branco nas festas e o vermelho em ocasiões penitenciais ou nas comemorações dos mártires.

Segundo alguns, a presença dos diáconos gregos data do tempo em que o rito bizantino também era celebrado em Roma. Todavia, a presença deles tem mais chance de ser uma inovação medieval desenhada para ilustrar o papel do Papa na Igreja Universal. De fato, pesquisas recentes demonstram que cada cerimônia da solene Missa papal foi cuidadosamente estruturada e coreografada com esse propósito. Por exemplo, a primeira parte da Missa, a Liturgia da Palavra, o Papa presidia de um grande trono, cercado pela Cúria e pela Corte. Durante a segunda parte, a Liturgia Eucarística, ele se desfazia de alguns símbolos, assumindo o papel de um bispo comum.

Nas reformas do rito romano que seguiram o Concílio Vaticano II, a Missa papal solene (no modo descrito) foi abolida, mas muitos de seus elementos ficaram retidos nas cerimônias atuais. O costume que recebeu mais atenção ocorre nos funerais do Papa, onde o corpo do Santo Padre, lembrando o antigo esquema de cores, é vestido de vermelho. Bento XVI voltou a usar vermelho nos funerais dos cardeais, os únicos presididos pelo Santo Padre, e a usar o asterisco para cobrir as Sagradas Espécies.


Desse modo, nos nossos dias, o diácono grego geralmente aparece na Missa papal solene, mas não precisa ser um monge de Grottaferratta. Algumas vezes ele é grego, outras vezes russo, rutheno, ucraniano, etc. e proclama o Evangelho na língua litúrgica de sua igreja particular. Todo sinal de hierarquia entre os diáconos gregos e latinos foi abolido. Devido à missão universal e superior do pontífice romano, seguidamente ao tridentino, a Igreja Romana passou a considerar seu rito como superior aos outros. Essa tendência era percebida de várias formas, como no fato de que o diácono latino era acompanhado por sete velas e o grego por duas, ou no de que só o diácono latino levava o Evangeliário e que os ministros gregos se sentavam distantes do trono papal. Tais distinções, em obediência ao decreto do Vaticano II sobre a dignidade equivalente de todos os ritos, não são mais encontradas. Hoje, tanto o diácono latino quanto o grego levam os Evangeliários em procissão e são acompanhados por um igual número de velas. Tivemos, até mesmo, ocasiões em que o diácono grego tomou a precedência. Um exemplo histórico ocorreu na abertura do Sínodo da Europa, em 1999, quando só o diácono bizantino proclamou o Evangelho (em eslavônio antigo). O Papa reinante voltou a ter um diácono grego nas suas Missas de Páscoa e Natal, mas também fez uma inovação polêmica: um diácono “ortodoxo” proclamou o Evangelho numa Missa em que o Patriarca de Constantinopla assistiu à Liturgia da Palavra.


A despeito desses exemplos da presença do diácono grego, seu papel está virtualmente indefinido desde 1969. A cada celebração ele recebe instruções sobre o que deve fazer, pois ninguém sabe exatamente qual sua função fora cantar o Evangelho. Para superar esse vácuo, certas questões precisam ser feitas e respondidas: Que posturas litúrgicas eram assumida por esse diácono antes e imediatamente depois de 1969 e por qual motivo? Que função ele deve ter no rito paulino durante a procissão e incensação? Tradicionalmente, a presença dos ministros gregos nas Missas papais enfatiza a missão universal do Santo Padre, mas como isso deve se dar atualmente levando em conta o ecumenismo e o entendimento desse papel em face das Igrejas Orientais e mesmo das ‘Igrejas Ortodoxas’? A resposta a essas questões emergirá de futuros estudos históricos e litúrgicos do cerimonial papal. Eles revelarão as razões da presença constante do diácono grego e indicarão como ele deve se portar num dos rituais mais interessantes da Igreja.

Anexos:

http://www.4shared.com/document/FSwJfPDn/Versoantiga.html

http://www.4shared.com/document/JwN-oDKp/Versonova.html

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