quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pedras d´ara sem sepulcro?

Certa vez fui numa Missa no rito de São Tiago num templo da Igreja Ortodoxa Siriana, um grupo pré-calcedoniano, e percebi que no altar eles usavam um bloco de madeira chamado "ara", que tinha sido consagrado pelo bispo. Isso lembrou a nossa pedra d´ara, usada nas celebrações no rito gregoriano, mas como em tal bloco não existiam relíquias dos santos fiquei sem entender como as duas "aras" se relacionavam. Para minha surpresa, muito tempo depois, folheando uma antiga Revista Eclesiástica Brasileira (1 de março de 1946) achei a seguinte informação sobre a existência de pedras d´ara sem sepulcro: 


Pedra d´Ara. - Tendo encontrado um caso curioso, sobre o qual não me satisfizeram as respostas de alguns colegas, resolvi fazer a consulta à nossa revista Revista Eclesiástica, porque a resposta, sendo publicada como espero, servirá para quantos lêem a revista. Eis o caso: Saindo do hospital fui, a mandado médico, em refocilo, em uma fazenda onde havia uma capela de que meu avô fora o encarregado. Celebrei diversos dias sem examinar a pedra d´ara, mas um dia lembrei de o fazer, e, qual a minha surpresa! a pedra não tinha sepulcro, nem as relíquias conseqüentemente. Estarei eu obrigado a repetir as Missas celebradas nessas condições? Depois desta prova já encontrei mais três em idênticas condições. Aguardo ansioso a resposta à minha consulta. (N. N.)

Existem no Brasil Pedras d´Ara sem Relíquias? - Nesta primeira parte da nossa resposta queremos examinar, se existem de fato entre nós aqui no Brasil pedras d´ara sem sepulcro e sem relíquias. Todos conhecemos o parágrafo 4 do cân. 1198, que assim prescreve: "Tum in altari immobili tum in petra sacra sit, ad normam legum liturgicarum, sepulcrum contines reliquias Santorum, lapide clausum." Este sepulcro deve ser escavado na própria pedra e isto no meio da mesma, não sendo lícitas as pedras de parte a parte perfuradas, nem as que têm o sepulcro na parte anterior ou na frente da pedra, como antigamente às vezes se faziam. Neste particular a pedra d´ara se diferencia bastante do altar imóvel ou fixo, porque neste último, segundo o Pontifical Romano, o sepulcro poderá ser feito, ou: a) na parte superior da mesa, isto é, no meio da mesa lapídea; b) na parte anterior da base do altar (esteios do altar); c) na parte posterior da base; d) na parte superior da base, no meio, servindo então a própria mesa lapídea como tampa.

A S. Congregação dos Ritos, referindo-se às pedras d´ara com sepulcro na parte anterior, na frente da pedra, declarou em 4 de novembro de 1885: "Quoad vero altaria, quorum sepulcrum sive confessio non in medio lapidis, sed in ejus fronte fuit effossum, ea non sunt admittenda, utpote Pontificalis Romani praescriptionibus haud conformia." - Dois anos mais tarde, em 31 de março de 1887, a mesma S. Congregação, pelo decreto n. 3571, tolera o uso destas pedras d´ara com o sepulcro na frente ou parte anterior. Mas a uma nova consulta: "quid judicandum de illis lapidibus sacris, quorum sepulcrum non in medio, sed in fronte effosuum fuit?" respondeu a S. Congregação dos Ritos (13 junii 1899; d. 4032): "Dicti lapides in posterum non sunt adittendi, quoad praeteritum vero, cum commode fieri possit, iterum breviore formula consecrentur." Por conseguinte, embora a sua consagração não possa ser chamada inválida, como deixam entrever claramente os dois decretos citados, devem ser substituídas por outras. 

Estas explicações foram feitas para induzir o consulente a examinar mais uma vez as pedras d´ara que diz ter encontrado sem sepulcro e sem relíquias, para ver se talvez têm o supulcro na fronte ou parte anterior.

Dizem os autores que o supulcro com relíquias nas pedras d´ara é absolutamente necessário para que a sua consagração seja válida. Apresentam essa afirmação com uma conclusão do cân. 1200, § 2, n. 2, que assim reza: "...altare amittit consecrationem, si amoveantur reliquiae aut frangatur vel amoveatur sepulcri operculum, excepto casu..." Coronata, contudo, acrescenta (Isnt. J. C. II, n. 778): "Cfr. tamen Gasparri De SS. Eucharistia, 324-325." Não temos em nossa biblioteca este livro de Gasparri. Esse "tamen", porém, parece insinuar que Gasparri admite excessões da regra geral, isto é, que a consagração duma pedra d´ara sem sepulcro e sem relíquias, por concessão especial da Igreja, tenha sido permitida em tempos passados. Opinamos assim, porque além da afirmação do consulente de ter encontrado no Norte do nosso país pedras d´ara sem sepulcro, ouvimos esta mesma afirmação de vários Padres que trabalharam na nossa Baixada Fluminense e que encontraram uma simples pedra marmórea sem sepulcro e sem relíquias.

N. B. Falando em pedras d´ara, convém lembrar também o cânon 823, § 2: "Deficiente altari proprii ritus, sacerdoti fas est ritu proprio celebrare in altari consecrati alius ritus, non autem super Graecorum antimensiis." Este antimensium do rito grego é um pano de linho sagrado pelo Bispo, com relíquias dos mártires costuradas nos quatro cantos. Tal antimensium é desdobrado sobre qualquer altar, ainda que não consagrado, e então podem os sacerdotes daquele rito licitamente nele celebrar a Santa Missa. Ninguém constestará que seria muito cômodo levar consigo nas viagens apostólicas, em vez da pesada pedra d´ara, um tal antimensium. No entanto os sacerdotes do rito latino só o poderão usar com licença especial da S. Sé, como, por ex., Bento XV (Const. "Impositi nobis") a concedeu aos sacerdotes latinos que viviam na Rússia Polonesa. 

Resposta à Pergunta do Consulente - "Nunquam licet Missam celebrare nisi altari, nec S. Sedis concedere solet facultatem celebrandi sine altari saltem portatitli." Estas palavras severas de Bento XIV, às quais os autores costumam ajuntar outras mais severas ainda, dizendo que nem mesmo em caso de urgente necessidade será lícito celebrar a Missa sem altar, sem pedra d´ara; estas palavras severas, parece, pertubaram o raciocínio calmo e ponderado do consulente. É que só assim se nos torna compreensível a sua pergunta se está obrigado a repetir as Missas celebradas nas condições acima indicadas. O consulente esqueceu-se de distinguir entre "non licet celebrare" e "invalide celebrat". Todos os sacerdotes sabem que a presença dum altar ou pedra d´ara não faz parte dos requisitos necessários para a válida celebração da santa Missa. Esta é válida em qualquer lugar que fosse celebrada.

Não é lícito, sim; é pecado gravíssimo alguém celebrar voluntariamente, de propósito, sem altar, sem pedra d´ara; mas a Missa é válida. E, por isso, não há obrigação de repetir aquelas Missas.

Fr. Aleixo, O. F. M.

Em 3 de setembro de 1946 foi publicado na mesma revista um adendo a esse texto:

Aditamento ao Caso "Pedra d´Ara" (REB, março 1946, pág. 177). - Estamos hoje mais bem informados sobre a procedência de pedras d´ara sem relíquias aqui no Brasil. O livro "Brasília Pontifícia" (Lisboa, 1749) que contém "Speciales Facultates Pontificiae quae Brasiliae Episcopis conceduntur", trata no livro 4 deste assunto. Do Índice tanscreveremos o seguinte: "In petra Arae consecranda debent reponi reliquiae Sanctorum, lib. 4 n. 232. Non tamen de substantia eius consecrationis, lib. 4 n. 233. Unde non peccat, qui illum consecrat sine reliquiis Sanctorum, dummodo absit contemptus, lib. 4 n. 235. Celebrans non tenetur explorare, an in petra Arae sint reliquiae Sanctorum, lib. 4 n. 236..." O privilégio hoje já não vale; mas as pedras assim consagradas sem relíquias no passado não perderam o seu valor. - No mesmo caso falamos da "antemensa" dos gregos; a seu respeito veja-se o privilégio concedido aos capelões militares na última guerra. (REB, 1944, pág. 301.) Fr. Aleixo, O. F. M.      

10 comentários:

  1. Sou arquiteta, estou pesquisando uma igreja em uma comunidade do interior do estado do Pará (origem carmelita) e percebi a marca de possíveis pedras d'ara no altar-mor e lateral. Percebo que elas não são comuns nas igrejas modernas e recebi a informação de que elas teriam sido suprimidas a partir de uma bula. Não sei como confirmar pois, embora seja católica, não domino assuntos litúrgicos. Me ajuda?

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    1. Olá,
      Para você entender o que aconteceu é preciso saber da reforma litúrgica promovida pelo Concícilo Vaticano II, que substituiu a antiga missa tradicional católica pela chamada "Missa Nova" que se desvinculou da teologia tradicional e passou a se referenciar no protestantismo e no judaísmo. Assim o culto às relíquias foi deixado de lado e nos novos altares se tem a representação de uma mesa e não de um altar para sacrifícios, como é no rito tridentino.
      Espero ter ajuadado.

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  2. Cláudia, não sei qual foi o documento, mas, de fato, nos altares novos onde se celebra no rito paulino (ou forma ordinária do rito romano) as pedras d´ara não são mais um elemento obrigatório. Para celebrações em outros ritos, contudo, como no rito gregoriano (ou forma extraordinária do rito romano) e no bizantino, elas ou algo equivalente a elas permanece uma necessidade.

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  3. Sou engenheiro, recebi de um paroquiano de uma igreja do interior do Estado de São Paulo  (pelo histórico da fundação é de origem Beneditina-1705). um pedaço retangular de marmore (tamanho de um caderno) onde ha uma demarcação mais ao cento do tamanho de aproximadamente uma caixa de fosforo , onde  há um recorte  e percebi a marca de possíveis pedra d'ara de um no altar-mor da lateral dessa paroquia (igreja) .
    me informaram que  existia mais 3 , uma no altar  mór , outra na capela do santíssimo e as 2 nos altares laterias (1 dessas do altar lateral esta sobre minha posse)a outra esta sobe a custódia de um seminarista. O pároco atual "moderníssimo" dise a esse paroquiano que me deu esse pedaço de marmore que elas não são mais  comuns nas igrejas  pós concilio vaticano II  e recebi a informação de que elas teriam sido suprimidas a partir de uma " bula" . Não sei como confirmar pois, embora seja católico, não domino muito assuntos litúrgicos. Me ajuda?

    Pergunto 1:  embaixo dessa pequena demarcação do marmore existe alguma reliquia?
    é viavel retira-lá para ver o que ha  encrustado nesse marmore?

    Pergunta 2:Como amante das coisas sagradas,  ganhei de um padre (monsenhor) uma pequena imagem, e nela  havia dependurado (afixado) um pequenaq cruz  com um aro no centro, e um material , tudo indica que  é um fragmento de madeira encrustado nesse orificio 9aro central)  e protegido por um pequeno cristal, vidro..Perguntei a religiosoos e colecionadores de peças sacras, como tambem ja observei em alguns museus esse mesmo modelo..Dizem que  são religuias do santo lenho,
    Isso seria verídico? Será que algumas Igrejas Paulista e da idade da colonização de São Paulo onde eu recebi essa pedra d'ara   e posteriomente essa cruz pequena  " relicário " são objetos sagrados da religião católica cristã?

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  4. Sim, Paulo. embaixo dessa demarcação de mármore no centro existem relíquias. Você deve ter muito respeito e cuidado com essa pedra, pois você está com um altar em casa. Não se deve retirar a parte central, pois você estaria cometendo um sacrilégio!

    Sobre essa tal bula não sei nada a respeito, mas, de fato, nas celebrações no rito paulino, não se exige mais a pedra d´ara ou algo que a substitua (uma verdadeira lástima).

    Sobre a cruz, de fato existe a possibilidade de terem vindo lascas do que se acreditava ser o Santo Lenho na época colonial, mas não tem como confirmar isso. Em todo caso, a prudência pede que se trate com respeito a citada imagem.

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  5. Alexandre_cerimoniário1 de março de 2013 11:19

    O Altar da minha paróquia não tem uma Pedra d'ara propriamente dita, mas n'Ele vem gravado cinco cruzes(quatro nas pontas e uma no meio) e a relíquia do mártir são xisto. Como frequentador de ambas modalidades do Rito Romano percebo que tanto a Missa de São Pio V contém exageros quanto a Missa de Paulo VI contém algumas vazios. O Vaticano, e para não ir muito longe, os Arautos do Evangelho celebram ( e muito bem, diga-se de passagem) a Missa de Paulo VI. Pra ser sincero, o termo "Missa Nova" é um tanto pejorativo, pois é a legítima Missa da Igreja !!!! Pax Domini.

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  6. Se for para falar em legítima Missa da Igreja (tomando nesse termo uma delimitação que abranja apenas o rito romano), então legítima é aquela que nos foi legada pelos séculos, não uma inventada por teólogos de biblioteca que queriam agradar protestantes...

    Não sei o que você quer dizer com "exageros" no rito gregoriano, mas acredito que você está analisando tudo apenas na questão da forma e se esquecendo de que a Missa é uma figura do que está ocorrendo misticamente, de tal modo que os defeitos do rito paulino não estão inseridos no modo como se celebra, mas naquilo a que eles remetem.

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  7. Na minha Paróquia, o Altar-Mor, tem no seu meio um buraco com uma pedra no meio. Seria esta pedra uma Relíquia de algum Santo?

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  8. Não, a pedra não é a relíquia, mas no meio dela há um pequeno compartimento onde foram colocadas as relíquias.

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