terça-feira, 17 de agosto de 2010

Breves considerações sobre o ateísmo

A existência de Deus não é um dado apenas da fé, pois Ele é cognoscível naturalmente, ou seja, sua existência pode ser verificada por meio de provas racionais. Dessa forma, como explicar que haja ateus? Será verdade que existem? E, se existem, quais são as causas e conseqüências do ateísmo?

Ateu é o que não crê na existência de Deus.

Desta definição se vê que não devemos incluir no número dos ateus:

a) Os indiferentes, que põem de parte o problema da origem do mundo e da alma, e vivem sem preocupações acerca de seu destino. Ainda que esta disposição de espírito conduza ao ateísmo, os indiferentes não são ateus propriamente ditos.

b) Os agnósticos, para os quais Deus pertence ao domínio do incognoscível. Esta atitude equivale a um ceticismo religioso.

c) Muito menos devem ser tidos por ateus aqueles que ignoram quase por completo a religião e professam exteriormente o ateísmo, porque julgam essa atitude própria dos espíritos fortes, ou porque têm interesse de seguir a corrente do favoritismo oficial.

Portanto, devemos somente considerar como ateus os homens de ciência e os filósofos que, depois de ponderar maduramente as razões, pró e contra, da existência de Deus, optam pela negativa. Embora pouco numerosos proporcionalmente, os ateus têm um número crescente e geralmente atuam em conjunto com agnósticos.

As causas do ateísmo podem ser intelectuais, morais e sociais.

Causas intelectuais:

a) A incredulidade dos homens de ciência, deve atribuir-se ordinariamente a preconceitos e ao emprego de um método falso. É evidente que nunca poderão ultrapassar os fenômenos e atingir as substâncias se nesta  busca empregam o método experimental, que só admite o que pode ser objeto da experiência e ser observado pelos sentidos. Notem ainda que algumas fórmulas, por eles usadas, não são verdadeiras, pelo menos no sentido em que tomam. Por exemplo, quando alegam que a matéria é necessária e não contingente, invocam para o demonstrar a necessidade da energia e das leis. Ora, é bem claro que a palavra necessária neste caso é equívoca. A necessidade pode ser absoluta ou relativa. É absoluta, quando a não-existência encerra contradição; relativa quando a coisa em questão, na hipótese de existir, deve possuir tal ou tal essência, esta ou aquela qualidade, por exemplo: uma ave deve ter asas, sem elas já não seria ave. Como a energia e as leis são necessárias somente no sentido relativo, os materialistas erram em concluir que a matéria é o “Ser necessário no sentido absoluto”.

b) O ateísmo dos filósofos contemporâneos tem a sua origem no criticismo de Kant e no positivismo de Conte. Segundo os criticistas e os positivistas, a razão não pode chegar à certeza objetiva, nem conhecer as substâncias que se ocultam sob os fenômenos. Diminuindo assim o valor da razão, rejeitam todos os argumentos tradicionais da existência de Deus. Podemos, pois, dizer que a crise de fé, na maioria dos filósofos contemporâneos, é de fato uma crise da razão. Mas há de acontecer a esta o que acontece aos que estão injustamente detidos: será um dia reabilitada e retomará os seus direitos.

Causas morais:

a) A falta de boa vontade. Se as provas da existência de Deus fossem estudadas com mais sinceridade e menos espírito de crítica, não haveria tanta resistência à força dos argumentos. Também não se deve exigir dos argumentos mais do que eles podem dar: é evidente que a sua força demonstrativa, ainda que real e absoluta, não nos pode dar evidência matemática.

b) As paixões. A fé é um obstáculo para as paixões. Ora, quando alguma coisa nos incomoda, encontramos sempre motivos para nos afastar. “Há sempre no coração apaixonado, motivos secretos para julgar falso o que é verdadeiro... facilmente se crê o que muito se deseja; e quando o coração se entrega à sedução do prazer, o espírito abraça voluntariamente o erro que lhe dá razão” (Frayssinous, Defense du christianisme. L´ incrédulité dês jeunes gens). P. Bourget (Essai de psychologie contemporaine), refletindo sobre a realidade francesa, numa análise penetrante que faz da incredulidade, escreve as seguintes linhas: “O homem quando abandona a fé, desprende-se, sobretudo, duma cadeia insuportável aos seus prazeres... Nenhum daqueles, que estudaram nos nossos liceus e universidades, ousará negar que a impiedade precoce dos livres pensadores de capa e batina começou por alguma fraqueza da carne, seguida do horror de a confessar. Acode imediatamente a razão a aduzir argumentos (!!!) em defesa duma tese de negação, que já antes admitira por causa das necessidades da vida prática”.

Causas sociais:

a) A educação. Não é exagero dizer que as escolas neutras são um terreno excepcionalmente próprio para a cultura do ateísmo. A sociedade hodierna, em geral, caminha para o ateísmo porque assim o quer.

b) O respeito humano. Muitos têm medo de parecer crentes porque a religião já não é estimada em certos círculos influentes e temem cair no ridículo.

c) Os veículos de comunicação. Não aludo aos que são claramente imorais, mas aos que atacam disfarçadamente e continuamente os fundamentos da moralidade e, em nome de um pretendido progresso e de uma suposta ciência, querem fazer-nos crer que Deus, a alma e a liberdade são apenas palavras a encobrir quimeras.

Conseqüências do ateísmo:

O ateísmo, pelo fato de negar a existência de Deus, destrói radicalmente o fundamento da moral e dá origem às mais funestas conseqüências para o indivíduo e para a sociedade.

Para o indivíduo:

a) O ateu deixa-se arrastar pelas paixões mais facilmente. Se não há Deus, se não existe um Senhor Supremo que possa impor a prática do bem e castigar o mal, por que razão não se hão de satisfazer todos os apetites e correr atrás da felicidade terrena por todos os meios que estiverem ao alcance de cada um?

b) Além disso, o ateísmo priva o homem de toda a consolação, tão necessária nos reveses da vida.

Para a sociedade:

As conseqüências do ateísmo são ainda mais prejudiciais à sociedade. Suprimindo as idéias de justiça e de responsabilidade, o ateísmo leva os Estados ao despotismo e à anarquia, e o direito é substituído pela força. Se os governantes não vêem acima de si um Senhor que lhes pedirá contas da sua administração, governarão a sociedade segundo os seus caprichos. Mais ainda: os homens, na realidade, não são todos iguais nas honras, nas riquezas, nas situações e nas dignidades; ora, se não existe um Deus para recompensar um dia os mais deserdados da fortuna, que cumprem animosamente o seu dever e aceitam com resignação as provas da vida, por que não haveriam de se revoltar contra um mundo e uma sociedade injusta e reclamar para si, a todo custo, o seu quinhão de felicidade e prazer?

Neo-ateísmo

Pelo que foi dito, fica claro como o estranho fenômeno do neo-ateísmo  (um ateísmo militante) deve gerar preocupação. De fato, temos mais uma faceta do movimento revolucionário, que instrumentaliza as massas incultas e infantilizadas pela "cultura do coitadismo". Nesse sentido, tendo em vista o tipo de absurdos que recentemente foram escritos neste blog, proponho para os amigos e leitores os seguintes textos que desvendam de vez a ilusão do neo-ateísmo:

1. Por que estudar o neo-ateísmo? 

2. A interpretação delirante e a mente revolucionária

3. Marxismo cultural

4. A engenharia da subversão

5. Estratégia gramsciana

6. A origem da picaretagem intelectual

7. Lavagem cerebral e reforma do pensamento

8. O ilusionismo neo-ateísta

9. O neo-ateísmo como subproduto de outra coisa

10. Suicídio intelectual

E, para terminar, um apanhado das estratégias e cacoetes mentais dos neo-ateus em debates:

Conhecendo o inimigo

13 comentários:

  1. Olá, Thiago.

    Estou preparando um texto sobre a diferença entre agnosticismo e ateísmo para o meu blog.

    Achei interessante o que você escreveu. Importa-se se eu citar uma ou duas idéias colocadas aqui, devidamente linkadas e creditas?

    Um abraço.

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  2. Sinta-se a vontade, caríssimo. Uma boa parte do texto foi adaptada do Manual de Apologética de Boulanger.

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  3. Então você literalmente não sai matando outras pessoas por que pensa que será castigado? Ainda bem que você é cristão então!

    Só para constatar...matéria e energia são a mesma coisa, só que em estados diferentes, sendo que o que muda é a velocidade.

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  4. http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI59292-15224,00-DE+ONDE+VEM+NOSSA+MORAL.html

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  5. Caríssimo, se com a citação dessa reportagem você quer dizer que a moral depende de áreas do cérebro ou de reações físico-químicas, está cometendo um equívoco.

    Você confunde cérebro com mente. Não existe pensamento no cérebro, não existe associação de idéias lá. O que existe são processos físicos que correspondem a processos mentais. Mas considerar que ambos são a mesma coisa leva a uma contradição. O homem é o composto de um corpo material e de uma alma espiritual. Além de toda nossa experiência, é possível demonstrar que eles são distintos.

    Em seguida, há que se distinguir processos que dependem ou não do material, do corpo.
    Ver um cachorro depende do nosso corpo em funcionamento. Dizer que se trata de um animal também. Se lembrar desse fato também.
    Agora, o processo de abstração pelo qual constatamos que o cachorro que vemos é um animal, ou seja, um indivíduo particular de uma classe de seres cuja essência é a mesma, isso é um processo puramente espiritual.

    Assim também é a inferência por meio da qual estabelecemos uma relaçao causal entre dois eventos, e derivamos daí uma conseqüência geral para todos os eventos do mesmo tipo.

    Os princípios morais, como todo tipo de abstração, se enquadram nesse âmbito.

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  6. "Então você literalmente não sai matando outras pessoas por que pensa que será castigado? Ainda bem que você é cristão então!"

    Não necessariamente, mas é evidente que a noção de um Deus remunerador, isto é, que beneficia os bons e castiga os maus ajuda. O fato, porém, é que mesmo que não se leve essa noção de castigo em conta, tem-se de levar outra coisa como referencial que não o próprio homem. Quando a medida dos atos humanos é a própria contingência de nossa existência, as possibilidades para o mal aumentam de modo incomensurável.

    Observe que falo no campo teórico, pois é evidente que, concretamente, podemos até ter uma inversão disso. O detalhe, é que se isso ocorre, é sempre com base em elementos muito fugazes. Assim, não se pode dizer que um ateu é uma pessoa má ou que será um desequilibrado, mas pode-se dizer que o ateísmo é indesejável. Do mesmo modo, só para ilustrar, uma relação com base num amancebamento pode até ser, num caso concreto, superior eticamente a uma relação sob os sagrados laços do matrimônio, mas isso não altera o princípio de que o matrimônio, até de um ponto de vista natural, lhe é objetivamente superior e, por isso, dá mais possiblidades de uma família saudável ser formada.

    "Só para constatar...matéria e energia são a mesma coisa, só que em estados diferentes, sendo que o que muda é a velocidade."

    Isso não tem nenhuma relação com o texto. Sugiro que o Sr. leia com calma, novamente, a argumentação e abra seu coração à graça de Deus. In Iesu et Maria semper.

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  7. Então, supondo que você leu todo o texto, você acabou de admitir que todos os primatas possuiriam alma (não estou assumindo que essa exista, visto que não exitem evidências reais para que se acredite nisso, e sim o contrário, mas isso é assunto para outro tópico)?

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  8. É facílimo provar a existência da alma, mas vou me abster disso para não perder o foco na sua pergunta.

    Meu caro, é evidente que os primatas possuem alma. Todo animal possui. A diferença, é que a nossa alma é espiritial e intelectiva e a deles sensitiva e material.

    Entenda, a alma não é uma espécie de "fantasminha", mas o princípio (do latim "ánima") que dá vida à matéria. Nos homens tal princípio é espiritual, nos outros seres infra-angélicos (animais, vegetais) ele é material (isto é, a morte do corpo implica na morte da alma).

    Caríssimo, tal conclusão não é novidade e não causa a mínima polêmica entre católicos desde o século XIII; por isso que digo que os cientificistas atuais (como um Dawkins) são infantis, já que não procuram saber o "estado da questão" das coisas que pretendem contestar. Como exemplo, não sei se você chegou a ler, tive o desprazer de ser vítima de bulling virtual por um bando de ateus (que não sei de onde saíram) que leram e não entenderam nada de um texto de Dinesh D'Souza e vieram jogar slogans contra mim aqui no blog; claro, o texto até pode ser contestado, mas é que ele não disse nada do que aquelas pessoas achavam que estava dizendo; eles leram, não entenderam nada e ainda me fizeram ficar grosso. Com gente assim é impossível ter algum diálogo produtivo. No passado eu lidei com polêmicas brabas envolvendo grupos de posições diversas, como os neonazistas e os militantes gays e, infelizmente, à semelhança dos neo-ateus, pude constatar que a falta de honestidade intelectual se tornou endêmica nos nossos dias. Para mim, essas pessoas, simplesmente, parecem não ter o menor amor à busca da sabedoria.

    Por fim, como eu acho que o Sr. se diferencia dos indivíduos que acabei de citar, sugiro que escreva com seu nome verdadeiro da próxima vez, para podermos estabelecer um diálogo sem paralaxe cognitiva. E, se o Sr. me permite, indico a leitura de um artigo relativamente pequeno, mas certeiro:

    http://www.olavodecarvalho.org/semana/070315jb.html

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  9. Olá, Thiago tudo bem?? Em 1º lugar peço-lhe desculpas, pois postei este tópico em uma comunidade (João Pessoa) no fórum "Vamos discutir religião" em respostas aos ateus. Achei muito pertinente os argumentos utilizados aqui e, portanto, em concordância com suas palavras não poderia deixar a oportunidade passar e fazê-los de alguma forma refletirem sobre seus argumentos. Um abraço e fica com Deus!!

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  10. Ola Thiago li seu texto e gostei muito das argumentações até postei um pequeno trecho no facebook e o linh tb ok? um abraço e Deus continue abençoando.

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  11. Acho engraçado q as pessoas q ñ concordam com o q foi dito no texto seja aki ou em outro lugar em geral se escondem no pseudonimo d anonimo isso me leva a entender q ou são covardes ou ñ tem certesa do q realmente acreditam....

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  12. Disponha, Renato, eu escrevo mesmo para poder compartilhar conhecimento e idéias ;)

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