quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Estrutura e espiritualidade da Liturgia das Horas

Vou tratar um pouco da estrutura e da espiritualidade do Ofício Divino (já há uma postagem sobre a história dele). Usarei o Ofício do rito paulino e a obra A Liturgia na Igreja (de Julian Lopez Martin - Paulinas).


1. Oração ao Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo

A Liturgia das Horas tem uma dimensão trinitária, pois, enquanto louva Deus Pai é sempre cristológica e pneumatológica. O Ofício reflete o colóquio amoroso e eterno entre as Pessoas divinas (SC 83; IGLH 3).

Se toda liturgia é obra de Cristo que associa a Igreja no culto do Pai (SC 7), a Liturgia das Horas manifesta ainda mais essa vinculação. À imitação do seu Senhor e seguindo sua ordem, a Igreja louva, dá graças e invoca o Pai no Ofício Divino. É a norma dada por Jesus (Lucas XI, 2): "Quando orardes dizei: Pai nosso". A oração das horas, por ser eclesial, conta com a presença prometida do Senhor (SC 7) e se realiza "na comunhão do Espírito Santo. O Espírito Santo ...está em Cristo, na Igreja toda e em cada um dos batizados... Por conseguinte, não pode haver oração cristã sem a ação do Espírito Santo, que unifica a Igreja inteira, levando-a pelo Filho ao Pai" (IGLH 8). A assistência do Espírito produz no homem a sinergia divina para glorificar o Pai e santificar as realidades deste mundo.

2. Oração em nome da Igreja

A Liturgia das Horas é a prece “da Igreja”, que se realiza “com a Igreja” e “em nome da Igreja”.

Esta última expressão não deve ser entendida limitando-a ao mandato jurídico ou delegação que a Igreja dá a certas pessoas, especialmente obrigadas à sua celebração. Embora essa dimensão exista (SC 84, 85, 87, 90, etc.), o Ofício "em nome da Igreja" implica primeiramente um fato teológico e simbólico. Com efeito, a oração das Horas é por si "função de toda a comunidade", uma vez que por ela "a oração de Cristo continua sem cessar na Igreja" (IGLH 28).

A ignorância ou o esquecimento dessa verdade produziu equívocos lamentáveis. Enquanto foi geral a identificação entre os conceitos de “eclesial” e “jurídico” ou entre “liturgia” e “função do ministro”, o Ofício Divino aparecia como ação exclusiva dos monges e dos clérigos encarregados juridicamente disso. Porém, essa visão é reducionista e incompleta (no post sobre a história mostrei como as Horas, no Ocidente, eram populares até parte da Idade Média). A Igreja é também o povo cristão, e a liturgia é também função da comunidade. Todo batizado e confirmado possui a capacidade sacerdotal para o culto ao Pai "no Espírito Santo e na verdade" (João IV, 23). Portanto, há Liturgia das Horas em nome da Igreja sempre que um grupo de católicos se reúne para orar seguindo a forma estabelecida, especialmente sob a presidência dos pastores. Daí a preferência pela forma comunitária na celebração do Ofício Divino

Mas "aos ministros sagrados se confia de maneira tão especial a Liturgia das Horas, que, embora não havendo povo, deverão celebrá-la..., pois a Igreja os encarrega da Liturgia das Horas, para que essa missão da comunidade seja desempenhada, ao menos por eles de maneira certa e constante, e a oração de Cristo continue sem cessar na Igreja" (IGLH 28).

3. Santificação do tempo e da existência

As recomendações do Senhor e dos Apóstolos convidando à oração constante (Lucas XVIII, 1; XXI, 36; Romanos XII, 12; Colossenses III, 2; I Tessalonicenses III, 10) estão na origem da Liturgia das Horas. Nesse sentido, a Igreja, fiel à sua missão, jamais cessa de elevar suas preces e nos exorta com estas palavras: "Por ele ofereçamos a Deus sem cessar sacrifícios de louvor..." (Hebreus XIII, 15). Esse preceito se cumpre não apenas pela Celebração Eucarística, mas também por outras formas de oração, de modo particular pelo Ofício. Como vimos na parte histórica, as Horas santificam todo o curso do dia e da noite (IGHL 10; SC 84).

Santificar o tempo é dedicá-lo ao serviço de Deus e dos homens, e vivê-lo como um espaço de graça e uma oportunidade de salvação (II Coríntios VI, 2). É glorificar, no Espírito, o Pai e Jesus Cristo, submetendo todas as coisas, para que a existência fique impregnada de louvor, de súplica e de ação de graças. Por isso a Igreja insiste em que a celebração da Liturgia das Horas se faça "no tempo que mais se aproxima do momento de cada hora canônica" (SC 94; IGLH 11).

Por outro lado, se o Ofício consagra a existência, isso "aplica-se principalmente a quem de modo especial se confiou a celebração da Liturgia das horas... em prol de sua grei e de todo o povo de Deus" (IGLH 17).

4. Valor Pastoral

A oração, porém, é também de todo o povo de Deus, que participa da missão pastoral da Igreja. Nesse sentido, "aqueles que tomam parte na Liturgia das Horas fazem crescer o povo do Senhor, através de misteriosa fecundidade apostólica (Perfectae Caritatis 7); pois “o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Batismo se reúnam em assembléia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor” (SC 10)" (IGLH 18).

Por esse motivo, o Ofício pertence à essência da Igreja do mesmo modo que a evangelização e os Sacramentos e a ação caritativa e social. Os que celebram as Horas devem saber que colaboram plenamente para a difusão do Reino da mesma forma que quando em outras tarefas pastorais igualmente necessárias, "porque somente o Senhor, sem o qual nada podemos fazer (Jo 15, 5), é quem pode, a nosso pedido, dar eficácia e incremento às obras (SC 85), para que nos edifiquemos cada dia como templos de Deus no Espírito (Ef 2, 21-22), até alcançarmos a estatura de Cristo em sua plenitude (Ef 4, 7), e ao mesmo tempo robustecemos nossas forças, a fim de anunciarmos Cristo aos que se encontram de fora (SC 2)" (IGLH 18).

5. Dimensão escatológica

A Liturgia das Horas é, finalmente, pregustação e participação "na liturgia celestial... onde Cristo está sentado à direita de Deus, como ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro (Ap XXI, 2; Cl 3, 1; Hb 8, 2)" (SC 8), para interceder por nós (Hebreus 7, 25; I João 2, 1). Em Cristo se estabelece um vínculo de comunhão entre o povo peregrino, que se associa a toda a criação na liturgia, e os bem-aventurados, que tomam parte no louvor àquele “que está sentado no trono e ao Cordeiro” (Apocalipse V, 13; IGLH 16).

Por outro lado, nessa dimensão escatológica da liturgia em geral, e do Ofício em particular, não há nenhum escapismo. Ao contrário, a esperança do Reino, avivada na celebração das Horas, impele os católicos no sentido da transformação do mundo presente: "a era final do mundo já chegou até nós (cf. 1Cor 10, 11), e a renovação do mundo foi irrevogavelmente decretada e, de certo modo real, já antecipada no tempo presente (LG 48). Pela fé, somos de tal maneira instruídos sobre o sentido de nossa vida temporal, que junto com toda a criação aguardamos a revelação dos filhos de Deus (Rm 8, 15). Na Liturgia das Horas proclamamos nossa fé, expressamos e alimentamos essa esperança, e, em certo sentido, já participamos daquela alegria do louvor perene e do dia que não conhece ocaso" (IGLH 16).

Estrutura das Horas

Laudes (Oração da manhã)

· Invitatório: V. Abri, Senhor os meus lábios. R. E minha boca anunciará vosso louvor. V. Glória ao Pai... R. Como era...

· Salmo Invitatório: geralmente o 94, mas pode ser também o 23, o 66 ou o 99..

· Hino: um para cada dia, exceto em tempos fortes (quando o hino é próprio).

· Salmodia: dois Salmos intercalados por um Cântico do AT.

· Leitura Breve

· Responsório breve

· Cântico Evangélico: Benedictus

· Preces

· Pai Nosso

· Oração final

Horas Intermediárias (Nove, Doze, Quinze)

· Introdução: V. Vinde o Deus em meu auxílio. R. E minha boca proclamará vosso louvor. V. Glória... R. Como era..

· Hino: fixo para cada hora.

· Salmodia: três Salmos ou 1 menor e outro maior dividido em duas partes

· Leitura breve

· Responsório breve

· Oração final

Vésperas (Oração da Tarde)

· Introdução: V. Vinde o Deus em meu auxílio. R. E minha boca proclamará vosso louvor. V. Glória... R. Como era..

· Hino: um para cada dia, exceto em tempos fortes (quando o hino é próprio).

· Salmodia: dois Salmos seguidos de um Cântico do NT.

· Leitura Breve

· Responsório breve

· Cântico Evangélico: Magnificat

· Preces

· Pai Nosso

· Oração final

Completas (antes do repouso da noite)

· Introdução: Vinde o Deus...

· Hino: fixo

· Salmodia: um Salmo ou dois

· Leitura breve

· Responsório breve (fixo)

· Cântico Evangélico: Nunc dimittis

· Oração final

· Antífona final a Nossa Senhora

Ofício das Leituras (sem hora marcada)

· Introdução: Vinde o Deus...

· Hino

· Salmodia: geralmente um Salmo dividido em três partes

· Leitura Bíblica

· Responsório breve

· Leitura Hagiográfica (de um santo) ou Patrística (de um dos primeiros escritores da Igreja)

· Responsório breve

· Oração final

Observações (feitas no Orkut pelos confrades Karlos e Vitola):

· O invitatório pode ser feito ao Ofício das leituras, desde que essa seja a primeira Hora a ser rezada no dia.

· A salmodia das Horas intermediárias pode ser ou três salmos, ou um salmo menor e outro maior dividido em duas partes ou um único salmo dividido em três partes (como no I Domingo). O ordinário são três salmos.

· A salmodia das Vésperas pode ser um salmo dividido em dois e depois o cântico do Novo Testamento ou dois Salmos seguidos de um Cântico do Novo Testamento (este é a forma ordinária).

. Cada dia da semana tem seu prórprio canto do Novo Testamento, sendo um especial para os domingos da Quaresma e um especial só recitado em duas festas, a saber, Epifania e Transfiguração. Ou seja, tem-se ao todo 9 cânticos do Novo Testamento.

· Para as Completas, entre o hino e a introdução da Hora, pode ser feito um exame de consciência com a absolvição como na Missa.

. Os dias que tem dois salmos é a quarta-feira e a oração despois das I Vésperas.

· Para a salmodia do Ofício das leituras segue o que foi dito na Hora média.

. Entre o segundo responsório breve e a oração final, há o hino Te Deum nos dias de festa, solenidades e nos domingos (exceto os da Quaresma, se não me engano).

. Pode-se, nos domingos, solenidades e festas, acrescentar ao Ofício de Leituras mais três cânticos, que variam conforme o tempo litúrgico (havendo alguns especiais para determinadas festas e solenidades, mas não para os Domingos), seguidos de uma lição do Evangelho (há uma para cada Domingo, solenidade e festa), para só então fazer-se o Te Deum. É o que se chama de Vigílias, uma das formas de Ofício de Leituras, com origem no antigo rito romano como recitado pelos monges. Foi uma grande sacada da reforma litúrgica.

. Em alguns países, ademais, aprovou-se um segundo volume do lecionário do Ofício das Leituras, com lições bíblicas, patrísticas e hagiográficas para um segundo ano, alternando-se, então, as lições que constam dos volumes originais da Liturgia das Horas (primeiro ano) com as desse segundo lecionário. Nesse segundo lecionário, ademais, constam também um outro elemento para o Ofício de Leituras: as homilias, de ancestral tradição e presentes no rito anterior à reforma litúrgica (o Breviário de 1961/62). Essas homilias do segundo volume servem tanto para o primeiro quanto para o segundo ano.

O Ofício como celebração

Antes de aprofundarmos na análise das Horas em si, cabe uma palavra sobre o Ofício como celebração.

Em toda ação litúrgica se distinguem o aspecto visível, que não é outro senão a presença do mistério da salvação, e o aspecto visível e sacramental, isto é, expressivo e simbólico de mediação a serviço do Mistério. Na celebração da Liturgia das Horas o primeiro aspecto é a presença sacerdotal de Cristo no meio dos seus, que garante a eficácia da prece litúrgica (SC 7; 83-84). O segundo aspecto é constituído pelos componentes a seguir:

1. As Horas, mesmo quando recitadas individualmente por um ministro da Igreja, tem sempre como sujeito integral a própria Igreja.

2. A ação comum celebrativa, no Ofício Divino, consiste essencialmente na oração, com poucos gestos. Mas é uma prece muito variada quanto aos gêneros (hino, salmodia, leitura, responsórios, preces, aclamações, etc.) e quanto ao ritmo, com uma cadência de cantos, palavras e silêncios que, de acordo com a festa e o tempo litúrgico, apresenta um dinamismo amplo e equilibrado (IGLH 33).

3. O tempo de celebração do Ofício, com seu caráter simbólico, faz também parte dessa oração cuja finalidade é santificar o curso inteiro do dia e da noite.

Além disso, a celebração das Horas supera algumas antinomias nem sempre fáceis de serem resolvidas, na prática, em outras ações litúrgicas:

a. Identificação entre palavra e rito. Na Liturgia das Horas, a ação ritual é mínima. Nela a palavra é recitada, cantada, proclamada, escutada e meditada, segundo este esquema: salmodia, leitura da Palavra de Deus (e leitura patrística ou hagiográfica no Ofício de Leituras), oração. Nas demais celebrações, a liturgia da Palavra precede o rito, formando uma unidade com ele e tendo quase a mesma amplitude. No Ofício Divino, não há outro rito a não ser o próprio diálogo entre Deus e seu povo, mas de maneira que a Palavra divina se oferece ao homem não apenas nas leituras, mas também como componente de sua oração nos Salmos e nos responsórios.

b. Integração entre o pessoal e o comunitário. A recomendação da celebração comunitária das Horas (IGLH 21, 33, etc.), de acordo com sua índole eclesial, não significa que se ignore ou se dê menos valor à recitação individual. Tanto numa forma como na outra "permanece a estrutura essencial dessa liturgia: o diálogo entre Deus e o homem" (IGLH 33).

c. Integração entre o objetivo e o subjetivo. A objetividade da prece litúrgica, que dinama da presença do mistério de Cristo na liturgia, de modo algum pretende esgotar a piedade pessoal e as tendências espirituais de cada um e dos grupos eclesiais (esse é o erro do chamado liturgicismoSC 10; LG 11). Não obstante, a liturgia é fonte e ápice (SC 10; LG 11), bem como referência necessária para todos os atos de piedade (SC 13). A própria organização da Liturgia das Horas, ao apontar o que constitui a estrutura básica dessa forma de oração que se deve respeitar sempre, abre, ao mesmo tempo, espaços para a criatividade sadia e para a adaptação responsável (IGLH 244-252).

As Laudes e as Vésperas

As Laudes e as Vésperas são as horas originais do Ofício e, nas últimas décadas, foi feito um esforço para reacender a centralidade delas.

Simbolismo

O progresso moderno alterou muito a relação entre o homem e a natureza, entre o ritmo da vida humana e as cadências naturais do universo. No entanto, o homem atual conserva viva sua sensibilidade diante da beleza do mundo visível, posta em destaque pela luz do amanhecer e pela chegada da tarde que se aproxima da escuridão da noite. A linguagem da criação, o dia que fala de luz e calor, de energia e de vida, e a noite que sugere frio, sono e morte, continua sendo inteligível para o homem moderno, secularizado e simbolicamente analfabeto. O dia e a noite, a luz e as trevas, terão sempre um significado dialético capaz de comover profundamente o coração humano.

Para os católicos, cuja visão de mundo se nutre em grande parte da Bíblia, esse simbolismo tem grande importância. A liturgia das Laudes e das Vésperas se nutre desse fato.

As Laudes como oração da manhã


As Laudes como oração da manhã têm um duplo significado: santificam o dia em seu começo e lembram com alegria a Ressurreição do Senhor.

1. "As laudes matutinas são dirigidas e orientadas para santificar a manhã, como se vê claramente em muitos de seus elementos. São Basílio expressa muito bem esse caráter matinal com as seguintes palavras: Ao começar o dia oramos para que os primeiros movimentos da mente e do coração sejam para Deus (...), e não empregamos nosso corpo no trabalho antes de praticar o que foi dito: 'Pela manhã ouves a minha voz, bem cedo te invoco e fico esperando' (Sl V, 4-5)" (IGLH 38a). Com efeito, na oração das Laudes, os fiéis, antes de iniciar as atividades do dia, dedicam a Deus todas as suas tarefas e buscam potencializar sua capacidade humana criativa com impulso santificador da graça divina.

Tudo o que o homem é e tudo o que o homem produz deve ser dedicado ao Senhor durante o dia, de modo que a graça divina seja o impulso contínuo da atividade humana. O trabalho aparece como uma colaboração com o Criador. Por outro lado, no começo do dia, quando o coração se alegra ao passar da escuridão para a luz, se pede que nosso espírito e nossa vida sejam um contínuo louvor ao Senhor, e que cada uma de nossas ações seja plenamente dedicada a ele.

2. As Laudes recordam a Ressurreição do Cristo, e o celebram como luz do mundo: "esta hora é celebrada ao despontar a luz do novo dia e evoca a Ressurreição do Senhor Jesus, que é a a luz da verdade que ilumina todo ser humano (Jo 1, 9); é o sol da justiça (Ml 4, 2) que nasce do alto (Lc 1, 78)" (IGLH 38b). A Páscoa do Senhor é comemorada diariamente na Eucaristia e nas Laudes; é comemorada a hora em que Cristo passou da escuridão para a luz, da morte para a vida, verdadeira epifania do Primogênito dentre os mortos (Colossenses I, 15, 18; Apocalipse I, 5); é comemorada a hora em que o Esposo sai do quarto nupcial (Salmo XVIII, 6) e se torna as primícias de uma nova humanidade (I Coríntios XV, 20).

Ao começar o dia, as Laudes fazem contemplar Deus como fonte de toda a luz (I João I, 5) e a Igreja pede para ser iluminada pela luz da Palavra divina que é Cristo. Sendo Cristo “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro” as Laudes invocam também Jesus Cristo que ilumina todo homem que vem a este mundo.

As Vésperas como oração do fim do dia


São três os grandes temas que a IGHL considera fundamentais na segunda grande oração do dia: a ação de graças, a memória da Redenção e a esperança da vida eterna.

1. A ação de graças, quando o dia já declina, é celebrada por aquilo "que nele temos recebido ou o bem que nele fazemos" (IGLH 39a). Com efeito, ao terminar o dia sobe a Deus a oferenda do trabalho, transformado em sacrifício espiritual, e se pede a Deus que continue sua ajuda, conceda o perdão dos pecados e deficiências do dia que termina.

2. A evocação do mistério pascal: "Relembramos também a nossa Redenção por meio da oração, que elevamos “como o incenso na presença do Senhor”, e na qual 'o levantar nossas mãos' é como 'sacrifício vespertino' (Sl 140, 2). Isso pode também 'entender-se no sentido mais sagrado daquele verdadeiro sacrifício vespertino que nosso Senhor e Salvador entregou aos apóstolos enquanto ceavam juntos ao instituir os sacrossantos mistérios da Igreja. Ou também aquele outro sacrifício vespertino, isto é, na plenitude dos tempos, pelo qual ele mesmo, no dia seguinte, estendendo as mãos, se entregou ao Pai pela salvação do mundo inteiro' (Cassiano)" (IGHL 39b).

Essa mesma relação entre Vésperas e o mistério pascal aparece expressa numa oração que, ambientada na cena dos discípulos de Emaús (Lucas XXIV, 13-32), coloca os orantes no contexto pascal e eucarístico da tarde do dia da Ressurreição (oração das Vésperas da segunda-feira IV). Por outro lado, as Vésperas das sextas-feiras das quatro semanas expressam com profunda inspiração bíblica, alusões claras à Paixão e Morte do Redentor.

3. Significado escatológico das Vésperas: "E para que nossa esperança se focalize afinal naquela luz que não conhece ocaso 'oramos e pedimos para que a luz venha de novo a nós, rogamos pela vinda gloriosa de Cristo o qual nos trará a graça da luz eterna' (São Cipriano)" (IGLH 39c). O tema da luz é contemplado ao avançarem as primeiras sombras da noite. O Senhor, “origem de toda luz” nas Laudes, aparece como “luz sem ocaso” nas Vésperas. É o momento de pedir o Senhor do dia e da noite que nos guarde e ilumine não somente para a vida presente, mas também para a eterna.

Estrutura da celebração

Já vimos um resumo da estrutura da celebração das Laudes e das Vésperas, agora podemos detalhar um pouco.

Em primeiro lugar, temos de ter em mente que ambas as celebrações são quase idênticas nos elementos que as integram e esses lhes conferem um dinamismo peculiar.

O início é marcado pela invocação "Vinde, ó Deus, em meu auxílio" (Salmo 69, 2), a doxologia glória ao pai e a aclamação aleluia, salvo na Quaresma. O hino "foi disposto de maneira a dar colorido próprio a cada hora..., a fazer com que comece com mais facilidade e encanto" (IGLH 42). Durante a introdução do Ofício, os fiéis e quem o preside estão em pé.

Nas Laudes, a salmodia compreende um Salmo, um cântico do Antigo Testamento e outro Salmo de louvor; cada um com suas antífonas respectivas. Nas Vésperas há dois Salmos e um cântico tirado das Epístolas ou do Apocalipse. Essa organização corresponde a antiga tradição romana. A assembléia está sentada.

A leitura breve "muda de acordo com o dia, o tempo e a festa. Deve ser lida e ouvida como verdadeira proclamação da Palavra de Deus, frisando algum pensamento bíblico. Ajudará a destacar alguns pensamentos breves que na leitura contínua da Sagrada Escritura poderiam passar (IGLH 45). Por outro lado, há liberdade para fazer uma leitura bíblica mais longa" (IGLH 46). A leitura pode ser seguida de uma homilia (IGLH 47), de silêncio (IGLH 48), e sempre do responsório.

O cântico evangélico, o Benedictus nas Laudes, e o Magnificat nas Vésperas, "ratificados pelo costume secular e popular da Igreja romana, expressam o louvor e a ação de graças pela redenção" (IGLH 50). Ambos os cânticos são, com efeito, uma síntese preciosa da história da salvação culminada em Cristo. São cantados em pé, porque são o Evangelho proclamado. As antífonas do cântico (tiradas muitas vezes do Evangelho da Missa) de Zacarias e do cântico de Maria têm uma importância e dignidade especiais e unem o Ofício à festa do dia ou ao templo litúrgico.

As preces são "tanto as intercessões que se fazem nas vésperas como as invocações que, para consagrar o dia a Deus, são feitas nas laudes" (IGLH 182). Significam um momento de intercessão comparável ao da oração dos fiéis na Missa, embora sejam feitas de modo distinto (IGLH 180). "Nas preces das vésperas, a última intenção será sempre pelos defuntos" (IGLH 186).

O Pai-Nosso, síntese e ápice de toda oração cristã, segundo antiga tradição "será rezado solenemente três vezes ao dia: na missa, nas laudes e nas vésperas" (IGLH 195).

A oração de conclusão, própria (a oração do dia da Missa) ou tirada do curso ferial do saltério das quatro semanas, completa as preces, dando o tom de toda a celebração.

Por fim, o ministro ordenado (sacerdote ou diácono), se houver, abençoa a assembléia e a despede, ou, diversamente, aquele que dirigiu a celebração pronuncia uma fórmula invocativa como despedida.

O Ofício das Leituras e a Vigília


A hora que se chama Ofício das Leituras representa a última etapa da prece noturna surgida na Igreja apostólica a exemplo de Jesus (Mateus XIV, 23 e 25; Lucas VI, 12) e de acordo com sua exortação à vigilância (Mateus XXVI, 41; Lucas XXI, 36). O ofício monástico compreendia vários noturnos (divisões); geralmente se iniciava em plena noite, antes do canto do galo, e durava até a aurora. Aos poucos, o começo foi sendo deslocado para esse momento – matuta, de onde vem o nome ad matutinum ou Matinas. O Vaticano II, na reforma que propôs, conservou esse caráter de vigília nos mosteiros (SC 89c). O Ofício de Leituras paulino "pode ser recitado em qualquer hora do dia, e, inclusive, à noite do dia anterior, depois de se haver celebrado as vésperas" (IGLH 59).

Significado

O nome corresponde à realidade. É ofício, isto é, celebração litúrgica, não simples exercício devocional; e de leitura, ou seja, de assimilação orante da Palavra de Deus – lectio divina. Por outro lado, essa hora responde bem à vontade do Vaticano II de fomentar o conhecimento e o amor à Escritura (SC 24, 35, 51; DV 25; PO 13). Assim, a base desse ofício são as leituras bíblicas, precedidas de Salmos e acompanhadas de textos dos Santos Padres ou de outros autores (IGLH 56).

O fundamento da leitura bíblica na Liturgia das Horas é duplo:

a) A tradição cristã que vem da prática da sinagoga.

b) O vínculo entre a leitura proposta pela Igreja e a celebração do mistério de Cristo e da obra da salvação no ano litúrgico.

Já a leitura patrística ou hagiográfica ressalta o fato de que "a finalidade dessa leitura" (bíblica) "é, antes de tudo, a meditação da Palavra de Deus como é entendida pela Igreja em sua tradição" (IGLH 163, 164).

"A leitura dos Padres leva os cristãos ao verdadeiro sentido dos tempos e das festividades litúrgicas, lhes torna acessíveis as riquezas espirituais da Igreja... e coloca ao alcance dos pregadores exemplos insignes" (IGLH 165). O ofício anterior, em especial na edição típica de João XXIII, mesmo com sua pretensão universalista, deixava a desejar neste aspecto: por exemplo, de 650 leituras não-bíblicas havia somente 24 dos Padres gregos.

Quanto à leitura hagiográfica, baseada na vida dos Santos, a Igreja a coloca nas celebrações destes para que os fiéis encontrem exemplo e estímulo no seguimento de Cristo; elas estão a serviço do culto dos Santos como o entende e vive a Igreja (LG 49-51; SC 8, 104). "Com o nome de leitura hagiográfica se designa o texto de algum Padre ou escritor eclesiástico que ou fala diretamente do santo cuja festividade se celebra ou que pode ser-lhe aplicado devidamente, ou um fragmento dos escritos do santo em questão, ou a narração de sua vida" (IGHL 166).

Estrutura da celebração

Este ofício se compõe, como vimos no esquema geral, do invitatório ou abertura, da salmodia, das leituras e da conclusão.

A abertura da celebração é semelhante à das outras horas. Mas se o Ofício de Leituras é celebrado antes das Laudes, tem uma forma mais solene, como acontece no início de todo ofício do dia (veja-se o ordinário da Liturgia das Horas em qualquer dos volumes).

Na salmodia temos "três salmos, ou fragmentos, quando os salmos correspondentes são mais longos" (IGLH 62). Esses Salmos já são uma primeira abordagem da leitura bíblica. Costumam ser Salmos narrativos ou meditativos, às vezes de caráter histórico (IGLH 104-107), de colorido penitencial nas sextas-feiras, ou de tonalidade pascal nos domingos. Nas grandes festas da Páscoa e do Natal, os Salmos escolhidos têm o crédito do uso litúrgico tradicional.

As leituras constituem o corpo central da celebração. Antes das leituras se diz o versículo, que as une com a salmodia. A primeira leitura, bíblica, é retirada normalmente do Próprio do Tempo (IGLH 248), exceto nas solenidades ou festas dos Santos, quando se tira do Próprio dos Santos ou do Comum. Às leituras seguem-se os responsórios, selecionados da Sagrada Escritura, de forma a darem nova luz para o entendimento dos textos lidos (IGLH 169-170).

Para concluir esta Hora, recita-se o Te Deum nos domingos fora da Quaresma, nas festas e solenidades do Natal e da Páscoa. O ofício termina sempre com a oração própria do dia e com a aclamação Bendigamos ao Senhor: Demos graças a Deus.

As vigílias


São um Ofício de Leituras prolongado, para o começo da celebração do domingo e das grandes solenidades como Páscoa, Natal, Pentecostes e outras. Na Liturgia das Horas paulina conservam o caráter de louvor noturno das Matinas. Seguem a ordem da celebração que descrevemos, acrescentando-se cânticos bíblicos e o Evangelho. Depois, faz-se a homilia, se for oportuno, e se termina com o Te Deum (IGLH 73).

A hora média e as Completas


A oração das nove (Terça), das doze (Sexta) e das quinze horas (Nona) estão entre as Laudes e as Vésperas, "pois os cristãos costumavam, por devoção pessoal, orar em diversos momentos do dia, e no meio do trabalho, imitando a Igreja apostólica. No decurso dos tempos, essa tradição, de diversas maneiras, foi sendo dotada de celebrações litúrgicas. O costume litúrgico, tanto no Oriente como no Ocidente, adotou a oração das nove (terça), das doze (sexta) e das quinze horas (nona), sobretudo porque essas horas se relacionavam com alguns acontecimentos da Paixão do Senhor e da pregação inicial do Evangelho" (IGLH 74-75).


O Concílio Vaticano II, não querendo eliminá-las na reforma que propôs, determinou que as três fossem conservadas no ofício coral, e que fora do coro se reduzissem a uma, a mais cômoda do dia (SC 89E). Por esse motivo, são chamadas horas médias.


A hora média, que visa à santificação do dia inteiro, estimula a espiritualidade do trabalho e recorda os momentos principais da Paixão de Cristo, como se pode ver, sobretudo, nos hinos e nas orações conclusivas do saltério das quatro semanas. Sua estrutura é muito simples: abertura, hino, salmodia com três Salmos ou fragmentos, leitura breve, versículo e oração conclusiva. Os que celebram as três horas, quanto aos Salmos, devem recorrer à salmodia complementar.


As Completas, por sua vez, "são a última oração do dia, que se rezam antes do descanso noturno, mesmo passada a meia noite" (IGLH 84). Na sua estrutura, semelhante a de outras horas, temos a possibilidade, pouco depois do começo, de fazer um breve exame de consciência e um breve ato penitencial (IGLH 86). A salmodia compreende um Salmo ou dois muito curtos, e é permitido recitar todos os dias os Salmos do domingo (IGLH 88).

Essa hora, concebida como uma verdadeira celebração, inclui uma bênção final, e termina, pondo fim ao curso diário do Ofício, com a antífona à Virgem Maria (IGLH 92).

Palavra final

Ficou clara a importância do Ofício Divino na vida católica, mas devemos lembrar algo: nem todos são chamados a essa forma de celebração e ela não invalida as devoções populares (como o Rosário). Não levar esses dois pontos em conta foi um dos grandes erros do movimento litúrgico.

3 comentários:

  1. Os padres são obrigados a recitar o Ofício?

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  2. Depende se são diocesanos ou religiosos. Os diocesanos são obrigados a rezar o Ofício todo (sob pena de pecado mortal), os religiosos, bem como os diáconos permanentes, só uma parte dele.

    Infelizmente, a maioria passa longe disso. Certa vez um oficial com alto cargo no Vaticano contou a seguinte anedota para um padre amigo meu sobre essa situação:

    Dois bispos na CNBB:

    1962

    - Meu caro, há um problema seríssimo na minha diocese!

    - Qual?

    - Alguns padres não rezam o Breviário.

    - É o laxismo da cultura moderna.

    2000

    - Companheiro, há uma coisa muito estranha na minha diocese!

    - O que?

    - Alguns padres rezam a Liturgia das Horas! Toda!

    - Nossa, de onde vieram esses radicais?

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