quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Nota sobre a estupidez anticlerical

Apresento mais uma contribuição do confrade Alfredo, agora uma postagem de blog que ele fez no ano passado na finada versão 2.0 de nossa comunidade do Orkut:

Amiúde vemos, aqui e alhures, psitacídeos anticlericais que, faltos d’uma argumentação minimamente consistente e coerente, vivem a trouxe-mouxe atacando a Igreja por dá cá aquela palha; disparando toda sorte de estultícias e parvoíces, e não raro recorrendo aos mais grosseiros chistes e patranhas, chegam às raias do mais rompante irracionalismo e da mais solerte ignorância ao torpemente negarem o óbvio ululante: a ingente, decisiva importância da Igreja para a civilização ocidental! Destarte, o móvel desta breve nova é demonstrar quão estólidas e disparatadas são tais cavilações.

A importância e influência da Igreja são de tal monta que não há, com efeito, sequer como propriamente mensurá-las com precisão, que dirá avaliá-las em detalhe... basta assinalar, creio eu, que o próprio "Ocidente" (ou, caso prefiram, a "civilização" / "cultura" ocidental), essa grande síntese dialética entre as tradições greco-romana e judaico-cristã, é obra forjada pela Igreja.

Na medida, pois, em que a Igreja forjou a grande síntese entre as tradições greco-romana e judaico-cristã, e com isso criou a própria noção de "Ocidente", bem como os alicerces de nossa civilização, ela fatalmente condiciona e determina todo o nosso universo conceitual. De maneira que o indivíduo ocidental, mesmo rompendo com a Igreja, permanece nos marcos do processo civilizacional que a Igreja instaurou. Ou seja, até mesmo para se posicionar contra a Igreja, o sujeito provavelmente terá de recorrer a um aparato conceitual que, em larga escala, foi gestado sob a égide da própria Igreja... ou seja, não há escapatória: mesmo contra a Igreja, estais inelutavelmente dentro dela! Aliás, vale também relembrar que ao longo dos séculos a Igreja tem acompanhado, em irônica e silente contemplação, as exéquias de inúmeros de seus pretensos coveiros...

De resto, a influência da Igreja é de tal modo multifacetada e abrangente, de tal maneira complexa e pervasiva, que se manifesta mesmo nos contextos aparentemente mais insuspeitos... desejais um exemplo? Sabeis qual foi uma das maiores influências de Lenin em sua concepção de partido revolucionário? Ninguém mais ninguém menos que Íñigo López de Loyola (1491 - 1556), mais conhecido como Santo Inácio de Loyola, fundador da Societatis Iesu, a celebérrima Ordem Jesuíta, assombrai-vos! Lenin tinha grande admiração pelos métodos de Loyola, que serviram como modelo de organização e código de conduta para a Companhia de Jesus, sem dúvida a mais disciplinada, aguerrida e eficaz ordem da história da Igreja Católica, os 'soldados da Igreja'. Assim sendo, Ullianov modelou o regimento interno do Partido Bolchevique, sobretudo em seu aspecto de máquina partidária monolítica e disciplinada, bem como integrada por revolucionários 'profissionais', a partir dos ordenamientos de Loyola.

Vede, portanto, diletos confrades, que esplêndida e emblemática ironia: o ínclito "santo guerreiro" exerceu significativa influência sobre a obra mais importante do famígero ateu materialista que fundou o bolchevismo e liderou a primeira revolução proletária da História!

6 comentários:

  1. Alfredo, você acredita que a influência cristã no universo conceitual ocidental (e mundial, na medida em que todas as demais civilizações se ocidentalizaram) é algo que ainda ficará firme por um bom tempo ou, dada a velocidade com que a cultura muda desde o final da década de 1960, tem os dias contados? O uso da linguagem politicamente correta, que rejeita palavras consagradas a séculos, como "cego", não é um exemplo de como, no campo simbólico, nossos referenciais passam por uma mutação veloz?

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  2. Thiago, a chave da questão, a meu ver, passa por uma questão deveras complexa: a pertinência ou não da noção de "Teologia Política" no âmbito da doutrina católica e da história da Igreja. Vários autores notáveis já se debruçaram sobre o tema (de Santo Agostinho a Leo Strauss, passando por Sto. Tomás de Aquino, Ockham, Marsilio da Padova, De Maistre, Donoso Cortés, Charles Maurras, Hans Barion, etc.). Não obstante, do que já li a propósito, concordo com a perspectiva advogada por Carl Schmitt:

    "(...) todos os conceitos da moderna Teoria do Estado são conceitos teológicos secularizados, não somente nos marcos de seu desenvolvimento histórico (gradualmente transitando da Teologia para a Teoria do Estado, à medida que o Deus omnipotente converteu-se no legislador omnipotente), mas também em sua própria estrutura sistemática, cujo conhecimento é necessário para uma análise sociológica de tais conceitos. O conceito de 'estado de exceção', por exemplo, tem para a jurisprudência um significado análogo à noção de 'milagre' para a teologia." ( “Teologia Política” - 1922).

    Em suma: a meu ver, a Igreja não é só Ecclesia, mas também Imperium. Hoje a Igreja, creio eu está, intimidada, acovardada... e o que é mais grave: assumiu compromissos obscuros e inconfessáveis com forças que vão inteiramente de encontro à essência da cosmovisão cristã. A Igreja sabe muito bem o quanto a modernidade lhe é hostil; não obstante, ao mesmo tempo, já foi cooptada pela "Hidra Iluminista" em vários aspectos, os quais teme olhar de frente.

    Enfim, é uma questão espinhosa...

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  3. De que modo a Igreja seria Imperium? E, levando em conta que uma solução para esse problema (caso um dia venha), será demorada, há algum meio mais prático de freiar a perda de referenciais simbólicos cristãos pela nossa cultura? Perda, é bom ressaltar, que às vezes ocorre no meio de um ódio irracional, como vemos na campanha que muitos movem contra a presença da cruz em prédios públicos.

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  4. Alfredo, em que aspectos você julga que houve essa "cooptação pela Hydra iluminista"?

    E, Thiago, "atravessando um pouco o samba", ousaria afirmar que há dois caminhos para o retorno à matriz cristã de pensamento: o filosófico, com o retorno à postura 'realista' (gnoseologicamente falando); ou, o que seria trágico, mas é o caminho que o Ocidente está trilhando atualmente, é pelos frutos, isto é, pela catástrofe que não é difícil prever que o ideário iluminista acabará por levar a Humanidade ( os regimes marxistas parecerão 'jardim de infância'...).

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  5. "De que modo a Igreja seria Imperium?"

    Bem, para Schmitt, há toda uma série de paralelismos históricos e conceituais - o poder temporal dos papas; o vínculo estrutural entre o direito romano e o direito canônico; a similaridade entre a estrutura de poder eclesiástica e o aparato estatal / imperial -; e, por outro, recorre a uma esfera mais profunda, do ponto de vista filosófico, em sua vindicação da 'Teologia Política': a noção de que não se pode extrair da política sua dimensão essencialmente metafísica e escatológica, vale dizer de conflito essencial entre "bem" e "mal", de maneira que a ação política seria um reflexo especular de tal confronto vital e perene.

    Em contraposição a Schmitt, autores como Hans Barion e Erik Peterson alegam que o conjunto de circunstâncias históricas que levaram à confluência entre Igreja e Império não seriam suficientes, por si só, como fundamento para a existência d’uma "Teologia Política", tendo em vista que tais eventos não dimanam da Revelação continha nos Evangelhos; para tanto, aliás, ambos soem mencionar, entre vários outros argumentos, uma célebre passagem da Bíblia: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Lucas 20:25). Schmitt, todavia, replica que a passagem aludida se refere a um poder político (o dos césares) que não está sob a égide da Revelação, de maneira que não se refere, a princípio, a um poder político que se formule como expressão secular da Revelação.

    Agora, em relação ao "ódio irracional", como bem definiste, bem como no que tange ao aluvião difamações, exageros insanos e sensacionalismo barato que a grande mídia usa para difamar a Igreja, creio que a única resposta a curto prazo é a adoção de uma atitude mais inicisiva... ou seja: do mesmo modo que os muçulmanos protestam, nos termos mais acerbos, contra qualquer atitude que encarem como uma blasfêmia contra sua fé, os católicos deveriam reagir enfaticamente em situações análogas, denunciando, boicotando, etc. os meios de comunicações que insistem em ofender as crenças e sentimentos de milhões de pessoas. É mister, enfim, assim creio, a adoção de uma postura mais "militante".

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  6. Bem, Schmitt ou esses outros autores não podem ser entendidos como referência exegética. De fato, nessa passagem Nosso Senhor não prega nenhuma espécie de alienação política, só coloca cada coisa no seu devido lugar: a César o imposto, a Deus a Religião; a César o respeito do código, a Deus a prática do Evangelho; à Pátria o sangue, à Religião a consciência. Por isso que, embora a Igreja tenha como dever fazer com que não só os indivíduos, mas também as sociedades sejam guiadas pela Boa Nova, tal ação, no que não lhe é próprio, em condições ordinárias, deve ser indireta. Toda "Teologia Política" tem de ter isso em conta, ou ao Corpo Místico de Cristo serão agregados elementos que não lhe convém, atrapalhando a "semeadura do campo" (Mateus XIII, 31-32).

    Quando a política perde a dimensão metafísica sua tendência é ficar mesquinha, só que tal problema não deve ser resolvido pela estrutura da Igreja, e sim pelas forças própria da política. A mistura sem critérios nesse tipo de coisa só deu problemas ao longo dos séculos.

    Dito isso, uma das melhores maneiras de influenciar a sociedade é ser "militante". Quando sabemos que temos o Evangelho de Cristo não há motivo para não anunciá-lo e defendê-lo. É só ver o que ocorreu com a recente polêmica do aborto em que esteve envolvido meu antigo arcebispo e que foi destaque nacional: hoje a maior parte das pessoas ao abrir a boca sobre o tema pensa duas vezes. Uma atitude incisiva é, realmente, a melhor maneira de deixar no ar, de fazer presente na cultura, os referenciais simbólicos do cristianismo e calar a imbecilidade de certos ateus militantes.

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