sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Por que a religião está vencendo?

"Os vigorosos, os saudáveis e os felizes sobreviverão e se multiplicarão" 

(Charles Darwin - A origem das espécies)

Muito se falou no século passado sobre a formação de um mundo sem religião. Isso, que não passava de um delírio, foi desmentido pelos fatos. Em quase todo o planeta vemos o crescimento da prática religiosa. Mesmo para a Europa, que muitos gostam de ver como um continente secularizado, isso é uma verdade, pois só há vigor social ali nos bolsões que continuaram cristãos ou entre as massas que são ou estão aderindo ao Islã. De maneira global, o cristianismo deverá ter uma explosão de crescimento mundial nos próximos cem anos (Phillip Jenkins- A Próxima Cristandade), mas a vasta maioria dos fiéis não será branca nem européia, nem tampouco euro-americana. Hoje, por exemplo, o anglicano típico não é um homem inglês, mas uma mulher mulher nigeriana.

Nesse quadro, apresento para reflexão mais um texto de Dinesh D´Souza (o capítulo 2 de sua obra A verdade sobre o cristianismo): 

Por que a religião está vencendo?

O constante crescimento da religião por todo o mundo não passou despercebido pelos principais ateístas. Alguns desses não-cristãos, darwinistas em sua maioria, expressam uma perplexidade espontânea diante da persistente vitalidade da religião. Esses darwinistas estão convencidos de que deve haver alguma explicação biológica para o fato de que, em toda cultura desde o início da história, o homem ter encontrado e ainda encontrar consolo na religião. O biólogo Richard Dawkins confessa que a religião propõe um "grande quebra-cabeças para qualquer pessoa que pense de modo darwiniano".

Pela perspectiva evolucionista, este é o ponto. Estudiosos como o antropólogo Scott Atran entendenm que as crenças religiosas nada mais são do que ilusões. Atran afirma que a crença religiosa exige considerar "o que é materialmente falso como verdadeiro" e "o que é materialmente verdadeiro como falso". Atran e outros acreditam que a religião exige um comportamento com "mundos efetivamente impossíveis". A pergunta, então, é: por que os humanos evoluiriam de tal maneira que viessem a acreditar no que não existe?

O filósofo Daniel Dennett discorre com clareza sobre o problema: "A medida definitiva do valor evolutivo é a adaptação - a capacidade de reproduzir-se de forma mais bem-sucedida do que os competidores". Contudo, diante disso, a religião parece inútil do ponto de vista evolutivo. Além de custar tempo e dinheiro, induz seus membros a minar seu bem-estar por meio de sacrifícios pelo bem dos outros, às vezes estranhos completos.

Religiosos constroem catedrais e pirâmides que têm muito pouca utilidade, exceto como lugares para adorações e funerais. Os antigos hebreus sacrificavam seus bezerros mais gordos a Deus, e até hoje pessoas sacrificam bodes e galinhas sobre altares. Religiosos às vezes se abstém de determinadas comidas - a vaca é sagrada para os hindus e o porco é profano para os muçulmanos. Os cristãos dão dízimos e ofertas financeiras na igreja. Os judeus guardam o sábado como um dia sagrado, enquanto os cristãos guardam o domingo para a igreja. Religiosos recitam preces e fazem peregrinações. Alguns se tornam missionários ou dedicam a vida a servir aos outros. Outros até se dispõem a morrer por suas crenças religiosas.

O biólogo evolucionista está perplexo: por que criaturas evoluídas como os seres humanos, empenhados na sobrevivência e reprodução, fariam coisas que parecem incompatíveis com esses objetivos e até prejudiciais a eles? Esta é uma questão importante, não só porque a religião propõe um dilema intelectual para os darwinistas, mas também porque os darwinistas esperam, ao explicar a existência da religião, conseguir expor suas raízes naturais e sabotar sua autoridade sobrenatural. O biólogo E. O. Wilson escreve que "chegamos ao estágio crucial na história da biologia em que a própria religião está sujeita às explicações das ciências naturais". Wilson expressa a esperança de que, em um futuro próximo, "a vantagem decisiva desfrutada pelo naturalismo científico venha de sua capacidade de explicar a religião tradicional, sua principal concorrente, como um fenômeno totalmente físico". 

Assim, até onde essas teorias evolucionistas avançaram no sentido de explicar o sucesso da religião? "A causa imediata da religião talvez seja a hiperatividade em uma conexão no cérebro", escreve Dawkins. Ele também especula que "a idéia de imortalidade sobrevive e contagia porque faz eco ao pensamento positivo". Mas, na cosmovisão evolucionista, não faz sentido que a mente desenvolva crenças reconfortantes que evidentemente são falsas. O psicólogo cognitivo Steven Pinker explica: "Quem morre de frio não encontra conforto em acreditar que está aquecido. Quem se encontra frente a frente com um leão não relaxa por causa da convicção de que ele é um coelho". O pensamento positivo desta natureza rapidamente teria desaparecido uma vez que seus praticantes congelassem ou fossem devorados.

Contudo, a própria solução de Pinker para o problema não é melhor que a de Dawkins. Ele sugere que talvez haja um "módulo Deus" no cérebro que predisponha as pessoas a acreditarem no Todo-poderoso. Tal módulo, escreve Pinker, talvez não sirva para fins de sobrevivência, mas poderia ter evoluído como um subproduto de outros módulos com valor evolutivo. Esta é outra maneira de dizer que não há explicação darwiniana. Afinal, se um "módulo Deus" produz crença em Deus, que tal um "módulo Darwin" que produz crença na evolução?

Não obstante, a questão levantada pelos darwinistas não é insensata. Biólogos como Dawkins e Wilson apenas insistem na existência de alguma explicação natural e evolutiva para a universalidade e a persistência da crença religiosa, e eles estão certos. Existe tal explicação, e fico feliz em apresentar uma neste capítulo. O reverendo Randy Alcorn, fundador do Eternal Perspective Ministries, em Oregon, às vezes apresenta às suas platéias duas versões da criação e pergunta-lhes se interessa saber qual delas é verdadeira. Na história secular, "você descende de uma célula minúscula do protoplasma original levado pelas ondas a uma praia deserta há três bilhões e meio de anos. Você é o produto cego e arbitrário do tempo, do acaso e das forças naturais. Você é um mero amontoado de partículas atômicas, um conglomerado de material genético. Você existe em um planeta minúsculo em um sistema solar minúsculo, em um canto escuro de um Universo sem significado. Você é uma entidade puramente biológica, diferente apenas em nivel, mas não em espécie, de um micróbio, vírus ou ameba. Você não tem essência além de seu corpo e, na morte, você deixará de existir por completo. Em sua, você veio do nada e não vai para lugar algum".

Na visão cristã, em contrapartida, "você é uma criação especial de um Deus bom e todo-poderoso. Você foi criado à imagem dele, e com uma capacidade de pensar, sentir e adorar que o coloca acima de todas as outras formas de vida. Você difere dos animais não somente em nível, mas em espécie. Sua espécie não só é única, mas você é único dentre os de sua espécie. Seu Criador ama tanto você e deseja sua companhia e afeição de forma tão intensa que tem um plano perfeito para sua vida. Além disso, Deus deu a vida de seu único Filho para que você pudesse passar a eternidade com ele. Se você estiver disposto a aceitar o dom da salvação, poderá se tornar um filho de Deus". 

Agora imagine dois grupos de pessoas - vamos chamá-los de tribo secular e tribo religiosa - que apóiam essas duas visões de mundo. Qual das duas tribos tem mais chance de sobreviver, prosperar e se multiplicar? A tribo religiosa é formada por pessoas que têm um senso animador de propósito. A tribo secular é formada por pessoas que nem sabem ao certo por que existem. A tribo religiosa é composta de indivíduos que consideram importante cada um de seus pensamentos e ações. A tribo secular é formada por uma matéria que não pode sequer explicar por que é capaz de pensar.

Evolucionistas como Dennett, Dawkins, Pinker e Wilson deveriam ficar surpresos, então, por testemunhar o crescimento das tribos religiosas? Em todo o mundo, os grupos religiosos atraem um número impressionante de seguidores, e os religiosos demonstram confiança em seu estilo de vida e no futuro ao terem mais filhos. Em contrapartida, as convenções ateístas arrastam apenas um punhado de pessoas amarguradas. Uma das maiores organizações ateístas, Ateístas Americanos, tem cerca de 2.500 membros. Jogue uma pedra no estacionamento de uma universidade de elite norte-americana ou européia e você terá uma boa chance de acertar um ateísta. Mas jogue uma pedra em qualquer outro lugar e você, na verdade, terá de fazer pontaria. 

O ponto essencial não é só que os ateístas são incapazes de competir com a religião em se tratando de atrair seguidores, mas também que o estilo de vida do ateísmo prático parece produzir tribos apáticas que não podem sequer se reproduzir. Os sociólogos Pippa Norris e Ron Inglehart observam que muitos países mais ricos e mais seculares estão "gerando cerca de metade do número de crianças necessário para repor a população adulta", enquanto muitos países mais pobres e mais religiosos estão "gerando duas ou três vezes mais o número de crianças necessário para repor a população adulta". A consequência, tão previsível que poderíamos quase chamá-la de lei, é que "a população religiosa está crescendo rapidamente, enquanto o número secular está diminuindo".

A Rússia é um dos países mais ateístas do mundo, e os abortos nesse país excedem o número de nascimentos vivos em uma razão de dois para um. (...) O Japão, talvez o país mais secular da Ásia, também está em uma espécie de dieta populacional: espera-se que seus 130 milhões de habitantes caiam para algo em torno de cem milhões nas próximas décadas. Canadá, Austrália e Nova Zelândia encontram-se em uma crise similar. 

E então temos a Europa. O continente mais secular do mundo é decadente no sentido muito literal de que a população está diminuindo rapidamente. As taxas de natalidade estão extremamente baixas em países como França, Itália, Espanha, República Tcheca e Suécia. Os países da Europa Ocidental, hoje, mostram algumas das taxas de natalidade mais baixas já registradas, e as taxas de natalidade na Europa Oriental são comparativamente baixas. Historiadores têm observado que a Europa está sofrendo a redução mais comprovada em sua população desde a Peste Negra no século 14, quando um em cada três europeus sucumbiu à doença. Sem a forte identidade religiosa que antes caracterizava a cristandade, a Europa ateísta parece ser uma civilização que está de partida. Nietzsche predisse que a decadência européia produziria um miserável "último homem" destituído de qualquer propósito além de tornar sua vida confortável e estabelecer critérios para a fornicação regular. Bem, o "último homem" de Nietzsche finalmente está aqui, e seu nome é Sven [nome nórdico que significa "jovem"].

Eric Kaufmann observou que, nos Estados Unidos, onde os altos níveis de imigração ajudaram a compensar as taxas de natalidade decrescentes dos norte-americanos, as taxas de natalidade entre pessoas religiosas são quase duas vezes maiores do que aqueles entre pessoas seculares. Essa tendência também foi observada na Europa. O que isso significa é que, por uma espécie de seleção natural, é provável que o Ocidente siga em uma direção mais religiosa. Essa tendência provavelmente acelerará se as sociedades ocidentais continuarem a importar imigrantes de sociedades mais religiosas, sejam eles cristãos ou muçulmanos. Portanto, podemos esperar que até as regiões mais seculares do mundo, pela lógica pura da demografia, tornem-se menos seculares ao longo do tempo. 

Nas décadas anteriores, os estudiosos tentaram elaborar uma explicação puramente econômica para as tendências demográficas. A idéia geral ea de que a população era uma função de afluência. Os sociólogos observaram que, à medida que enriqueciam, as famílias optavam por menos crianças, fenômeno observável também no nível global. Presumivelmente, as sociedades primitivas precisavam de crianças para ajudar nos campos, e as sociedades mais prósperas não mais. Acreditava-se também que famílias pobres tivessem mais filhos porque o sexo oferecia um de seus únicos meios de recreação. Além disso, muitas vezes desconhecem métodos de contracepção ou não têm acesso a eles. Por essa perspectiva, explicam-se as famílias grandes como um fenômeno de pobreza e ignorância.

Essa explicação econômica é, em parte, verdadeira, mas falha em não apresentar o quadro todo. Muitas famílias pobres optam conscientemente por mais filhos, mesmo quando têm acesso a métodos contraceptivos e ingresso para cinema. Sem dúvida, são mais economicamente dependentes de seus filhos, mas, por outro lado, pessoas ricas podem sustentar mais filhos. As pessoas abastadas nos Estados Unidos, hoje, têm um filho ou não têm filhos, mas as famílias abastadas do passado costumavam ter três ou mais filhos. A verdadeira diferença não está simplesmente na renda - mas sim que, no passado, os filhos eram valorizados como dádivas de Deus, e as culturas tradicionais ainda os vêem assim. 

Os países muçulmanos, com seus rendimentos provenientes do petróleo, não são, de modo algum, os mais pobres do mundo e, não obstante, estão entre os que têm as mais altas taxas de natalidade. Católicos praticantes, judeus ortodoxos, mórmons e protestantes evangélicos não são, de modo algum, os grupos mais pobres dos Estados Unidos e, não obstante, têm famílias grandes. Fatores claramente religiosos estão atuando aqui. As taxas decrescentes de natalidade no Ocidente como um todo, em boa parte, devem-se à secularização. (...)

Os profetas econômicos do desaparecimento da religião provaram ser falsos. Não só a religião está prosperando, mas está prosperando porque ajuda das pessoas a se adaptarem ao mundo e a sobreviverem nele. Em seu livro Darwin´s Cathedral [A Catedral de Darwin], o biólogo evolucionista David Sloan Wilson argumenta que a religião oferece algo que a sociedade secular não oferece: uma visão transcendente de propósito. Consequentemente, os religiosos desenvolvem um apreço pela vida que é, de certo modo, contrário à natureza, demonstrando uma esperança incomum em relação ao futuro. Além disso, forjam princípios de moralidade e de caridade que simplesmente as tornam mais coesas, adaptáveis e bem-sucedidas do que grupos cujos membros deixam de lado essa permanente e encorajadora força. 

Minha conclusão é que não é a religião, mas o ateísmo que requer uma explicação darwiniana. O ateísmo é um pouco semelhante à homossexualidade: não se sabe ao certo onde encaixá-lo em uma doutrina de seleção natural. Por que a natureza escolheria pessoas que acasalam com outras do mesmo sexo, um processo sem nenhuma vantagem reprodutiva? Parece igualmente intrigante por que a natureza iria produzir um grupo de pessoas que não vêem um propósito maior para a vida ou para o Universo. É aqui que o conhecimento biológico de Dawkins, Pinker e Wilson poderia provar-se iluminador. Talvez eles possam voltar suas lentes darwinianas para si mesmos e ajudar-nos a entender de que forma o ateísmo, assim como o cóccix humano e o polegar do panda, de algum modo sobreviveu como uma sobre evolucionária de nosso passado evolutivo.

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