quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Filigranas do latim da Igreja

Artigo de autoria de Mário Masagão, publicado originalmente na revista Hora Presente (nº 13, novembro de 1972 - mantive o estilo dele nas citações e maiúsculas):

Não chegou até nós o registro das palavras aramáicas de Nosso quando instituiu a Eucarisitia.

De antigas referências de PAPIA e de PANTENO consta que SÃO MATEUS escreveu "em sua língua" o Evangelho. SÃO JERÔNIMO declarou que vira exemplar desse texto na Biblioteca de Cesarea, sem esclarecer se era hebráico ou aramáico. A segunda hipótese é a mais forte, porque foi aceita por SANTO IRINEU e por EUSÉBIO, e também por ser provável que SÃO MATEUS, para fixar e divulgar a mensagem do Salvador, preferisse a língua que o povo falava, e não o antigo idioma dos profetas, que os judeus, na época, já não entendiam.

Existe, assim, possibilidade de que a consagração, em aramáico, tenha sido referida por SÃO MATEUS em XXVI-26, e lida por SÃO JERÔNIMO, o qual também examinou a tradução, para "koiné", desse primeiro Evangelho, feita nos fins do primeiro século, por SÃO JACOMO, Bispo de Jerusalém.  

Os outros três escritores sagrados (S. MARCOS, XVI-22; S. LUCAS, XXII-19; S.PAULO, I Cor. XI-24), que referiram o episódio em grego bárbaro, concordam admiravelmente com SÃO MATEUS, o que é verificável pela Vulgata, dada a sempre escrupulosa fidelidade da tradução de SÃO JERÔNIMO. E, nos quatro textos, figuram as palavras "Hoc est corpus meum".

Os pronomes demonstrativos latinos distinguem-se por acentuada maleabilidade. O triforme "hic, haec, hoc", principalmente, servia de pau para toda obra. Por isso, grande é o número dos equívocos, nas traduções, pela costumeira trasladação desse demonstrativo em "este, esta, isto".

Por exemplo. A expressão de TERÊNCIO "Haec est quam" não significa "Esta é aquela que", mas sim "Eis ali aquela que". A frase de CÍCERO "Vos his testimoniis credatis?" não indaga "Acreditareis vós nestes testemunhos?", mas sim "Acreditareis vós em semelhantes testemunhos?". As palavras de PLAUTO "Lucet hoc" não significam "Isto reluz", mas sim "Amanhece", ou "Já é dia". Ao escrever "Haec finis", não pretendeu VIRGÍLIO significar "Este fim", mas "Tal foi o fim". E assim por diante.

O uso do neutro "hoc" nas palavras latinas da consagração nada tem de anormal, porque "corpus" támbém é neutro. Mas, se tivesse sido aplicado a nome masculino ou feminino, teria sentido pejorativo, como na frase de TERÊNCIO: "Quid hoc hominis est?". 

Não há em português gênero neutro. "Corpo", em vernáculo, é masculino. Por conseguinte, usar "isto" em relação a "corpo", é aplicar vestígio do neutro latino a nome masculino. Em português, esse uso tem sentido pejorativo, quando alusivo a pessoa.

Por isso, CÂNDIDO FIGUEIREDO (Dicionário, 4.ª ed.), restringe a significação "isto" a "estes objetos", "este negócio", "esta coisa". O preclaro CONSTÂNCIO (Dicionário, ed. 1854), adverte o leitor de que não deve empregar "isto" em relação a pessoas, exceto quando só aparecerem como vultos indistintos, v.g., "isto que vês ao longe he um homem".

BUARQUE DE HOLANDA, em seu "Pequeno Dicionário", declara que "isto", em realação a pessoas, é "depreciativo". E, no "Dicionário do Português Básico", avisa mestre ANTENOR NASCENTES que se diz "isto" em relação a pessoas quando se quer desfazer de alguém.

Por essa circunstância, formaram-se antigamente em Portugal, na tradução "Hoc est corpus meum", duas correntes. Entendiam os católicos que dizer "isto" em relação a "corpus meum", ou seja, ao Corpo de Cristo, onde está o Senhor em corpo, sangue, alma e divindade, é brutalidade intolerável. Os nossos irmãos separados, entretanto, acreditam, em sua maioria, que a partícula é apenas "um sinal", mas não realmente o Corpo de Deus, pelo que não viam maior inconveniente no uso do "isto".

Assim, os católicos traduziam "Este é meu corpo", e os protestantes "Isto é o meu corpo". 

Os nossos clássicos tinham extremo cuidado nste ponto.

Para quem quiser averiguar, ponho aqui lista deles, incompleta mas suficinete. Incompleta porque só enumera os sujeitos de dupla qualidade: a de serem sacerdotes católicos, e a de serem mestres da língua, como tais incluídos pela Academia Real das Sciências, de Lisboa, na lista, organizada em 1743, dos autores que se deveriam ler para a feitura do projetado "Diccionario da Língua Portuguesa".

Traduziram: "Este é meu corpo": Padre ANTÔNIO VIEIRA, Sermões, Lisboa, 1688, vol X, p. 114, clo. 2 in medio; D. Frei BARTHOLOMEU DOS MÁRTIRES, Catechismo da Doutrina Cristã, Braga, 1564, p. 95 v.º; Frei LUIZ DE GRANADA, Compendio de Doutrina Christam, Lisboa, 1689, p. 324; Frei JOÃO DE CEITA, Quadragena de Sermões, Parte I, Lisboa, 1619, ps. 245 e 247; Frei PEDRO CALVO, Homilias, 2a. P., Lisboa, 1627, p. 603.

Muitos mestres, que traduziram da mesma forma, ficaram fora dessa lista, ou por não serem sacerdotes, ou por não terem sido postos no Catálogo da Academia, visto como vicejaram posteriormente a 1743.

Para exemplo citarei apenas um, ERNESTO ADOLFO DE FREITAS, altamente abeberado em clássicos, autor da famosa tradução da "Imitação de Cristo", e que mereceu ser incluído, por ALMEIDA GARRET, em rol de peritos no vernáculo, organizado, a pedido da Rainha D. Maria II, em 1838, para efeito de nomeação de professores.

Vertendo o versículo de SÃO MATEUS XXVI-26, burilou FREITAS esta pequena jóia: "Tomais e comei; este he meu corpo, que por vós será entregue: isto fazei em lembrança minha" (Imitação, ed. de 1884, p. 522).

Hoje, porém já se não usam melindres, como os dos nossos clássicos. Já não sabemos tanto latim e tanto português, para escrever como escreviam eles. Atualmente, como intuitos ecumênicos, o de que se cuida é de imitar os nossos irmãos separados. E, em matéria de delicadezas... Mas para que lembrar de coisas tristes?

2 comentários:

  1. Só não sei por que a introdução dizendo outras traduções para hic...

    As citações estão fora do contexto e nada contribuem para o fim do texto, o qual, de ante mão digo, CONCORDO.

    Isto é realmente depreciativo.

    Entretanto, sempre vi o isto como referência à espécie pão que, até aquele momento, é pão. E apenas depois da forma toda é o Corpo puríssimo do Senhor.

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