terça-feira, 26 de outubro de 2010

O concílio traído: o clero e a política

Lendo um antigo exemplar da revista Hora Presente (janeiro/fevereiro de 1969) encontrei um artigo (Clero e política - sem assinatura) que, além de ser adequado para se refletir sobre o atual clima de ativismo político que tomou conta da Igreja no Brasil, também perfaz uma resposta ao texto absurdo que católicos ditos progressistas distribuíram em Recife (modifiquei a ortografia, em especial no uso das maiúsculas):  

O Concílio Vaticano II foi bem explícito ao dispor que a "missão própria confiada por Cristo à sua Igreja, por certo não é de ordem política, econômica ou social, pois a finalidade que Cristo lhe prefixou é de ordem religiosa. Mas na verdade, desta missão religiosa decorrem benefícios, luzes e forças que podem auxiliar a organização e o fortalecimento da comunidade humana segundo a lei de Deus. Do mesmo modo, onde for necessário, de acordo com as circunstâncias de tempo e lugar, a Igreja pode e deve promover atividades destinadas ao serviço de todos, sobretudo dos indigentes, como são as obras de misericórdia e outras semelhantes" (Constituição Gaudium et Spes, 42).

Desse texto se deduz que a Igreja não tem uma função precípua no campo político. Não lhe cumpre chamar a si a "direção da cidade terrena". Ela sempre ensinou a doutrina da autonomia dos dois Poderes, o Espiritual e o Temporal.

Como deveriam, pois, os cristãos de hoje, orientar-se nas atividades econômico-sociais, de conformidade com esses princípios? "Os cristãos que participam ativamente no atual desenvolvimento econômico-social e lutam pela justiça e caridade estão convencidos de que podem contribuir muito para o bem-estar da humanidade e a paz do mundo. Todo aquele que, obedecendo à graça, procura em primeiro lugar o reino de Deus, encontrará em conseqüência, um amor mais forte e mais puro para ajudar a todos os irmãos e realizar a obra da justiça inspirada pela caridade".

Cabe, pois, indagar: a ação política é ação eclesial ou não é ação eclesial? A atuosidade católica resolve ou não resolve os problemas econômico-sociais? A cidade de Deus controla ou não controla a cidade dos homens? O reino dos céus tem perspectivas exclusivamente profético-sacramentais ou também temporal-reformistas?

Situemos a questão na realidade histórica.

Uma pastoral popular que tende a secularizar a Igreja e, como se diz hoje, "desmitizar" o catolicismo, insiste mais na linha civilizadora do que na messiânica de Cristo. Jesus é apresentado mais como um "progressista" do que como santificador. A ação de Jesus seria mais cultura e promoção humana do que graça e santidade.

Temos assim um versão mundana do Reino dos Céus. Oferecem-nos um Cristo temporalizado, profanizado. Dizem que só assim Ele será aceito pelo homem do século XX.

Antes de mais nada, há uma questão histórica: o que foi, o que fez o Cristo real?

Espalha-se ultimamente a afirmação de que Cristo foi condenado à morte pelos políticos imperialistas sob a acusação de ser subversivo. E citam a favor desta nova posição histórica o texto de S. Lucas, cap. XXIII:

"Acusaram-no dizendo: Encontramo-lo subvertendo nosso povo e proibindo pagar tributo a Cesar, e dizendo-se Cristo Rei".

Assim O delataram os fariseus, ante Pilatos. O pró-consul, em face das três acusações, achou as duas primeiras inverossímeis e, tendo em consideração somente a terceira, perguntou a Jesus:

"De fato és rei dos judeus?"

"Tu o disseste", respondeu Jesus, afirmando a sua realeza.

Realeza que tinha por império, ou âmbito de poder, a verdade. "Reino que não é deste mundo", não interessava a um magistrado de província romana.

O serviço secreto do exército acompanhava os agitadores daquele tempo passo a passo, como nos conta Salústio. O procurador romano estava a par. No entanto acrescenta:

"Vós me apresentastes esse Homem como se estivesse subvertendo o povo, e eis que eu, diante de vós, interrogando-o, nenhuma culpa acho nele daquilo de que O acusais" (Luc. XXIII, 74).

O governador romano, um homem fraco, pusilâmine, quis ainda libertar a Cristo das mãos dos sacerdotes. Não o conseguindo, lavou as mãos: "Inocente sou eu do sangue deste justo". Dessa forma tratou de tirar de si a responsabilidade da condenação de Jesus, procurando atirá-la toda sobre aqueles que O haviam trazido perante ele. E com isso o nome de Pilatos ficou na história como o padrão da covardia e da irresponsabilidade.


"Que seu sangue caia sobre nós e nossos filhos", respondeu a turba dos judeus.

Porque?

Porque "nós temos uma lei e segundo esta lei deve morrer, pois se fez Filho de Deus", assim responderam os judeus (Jo. XIX, 7).

Eis aí a verdadeira razão da morte de Cristo.

No Sinédrio, o Pontífice interrogava Jesus com estas palavras: "Eu Te conjuro, por Deus vivo, que nos diga se és o Filho de Deus".

Respondeu-lhe Jesus: "Tu o disseste".

"Blasfemou! Que vos parece?", concluia Caifás, e a esta interrogação do Pontífice todos proclamaram: "É réu de morte!".

Não foram, pois, as reformas de base que mataram a Cristo. A Ação Popular ou o Partido Comunista do Brasil, ao afirmarem isto, procuram revestir-se com pele de cordeiro divino, mas seu empenho em deformar a história já demonstra que por dentro são lobos vorazes.

Quem aparece como sedioso no Evangelho é Barrabás.

A calúnia de sedioso que os sacerdotes lançaram contra Cristo foi publicamente refutada.

Mas dizem, o Evangelho é revolucionário.

As palavras-talismãs, os vocábulos mágicos, são introduzidos muitas vezes como condicionamento de uma certa pastoral de "conscientização". É um condicionamento pelo qual passa a doutrina para ser melhor assimilada na atmosfera pré-revolucionária.

São razões dialéticas do momento histórico socializante. O Cristo-político é uma criação a serviço de uma ideologia em marcha.

Pergunta-se: este Cristo político existiu? É uma imagem que corresponde à realidade histórica, ao que foi na verdade o Filho de Deus encarnado?

Não se pode negar que a pátria de Jesus estava subjugada pelo imperialismo estrangeiro. Seus patrícios eram tributários de uma superpotência colonizadora.

Qual a atitude de Cristo ante a opressão de seu país?

Posição de fato:

"Pagas o tributo?

"Apesar de Filho de Deus, sim, porque sou cidadão."

Posição de direito:

"A Cesar o que é de Cesar. A Deus o que é de Deus". 

Onde está a oposição sistemática ao imperialismo estrangeiro? Onde o Cristo político, o Cristo revolucionário?

Cristo se insere na Humanidade como um imperativo da mesma humanidade. A graça supõe a natureza e não a destrói, nem a subverte, antes lhe dá a possibilidade de realizar plenamente todas as suas virtualidades.

Revolução é subverter a ordem e estabelecer esquemas novos. Jesus veio realizar os esquemas mais autênticos e verdadeiros da nossa natureza, restabelecendo a ordem pertubada pelo pecado, transfigurando a ordem natural, reconduzindo o homem à ordem sobrenatural.

O Concílio e o Evangelho, para não falar do velho Direito Canônico, vedam ao clérigo a política pela política. Não é de sua alçada. 

Bem outra é a função sacerdotal, repudiada pelos sacerdotes da Ação Popular, que agem como "ativistas" e se entregam obcecadamente à "politização".

Insiste o Concílio Vaticano II em que se reconheça aos leigos a competência precípua no campo político. Neste âmbito, o sacerdote deve reconhecer aos leigos autonomia com plena responsabilidade. Por sua vez, os leigos - guardando plena fidelidade à doutrina tradicional da Igreja, que devem procurar conhecer perfeitamente, e sem quebra da devida obediência aos legítimos pastores, seus chefes espirituais - devem atuar segundo suas responsabilidades e reivindicar a autonomia que lhes cabe na ordem temporal. Nem laicismo, nem clericalismo! 

Mas... e o movimento de secularização da Igreja? A "desmitização" do catolicismo quer orientá-lo com exclusividade para a cidade terrena. A santidade para depois. O cristianismo deverá surgir, segundo eles, de uma promoção universal. Fruto de uma evolução da humanidade em marcha para o "ponto Ômega". Trata-se de uma economia evangélica às avessas: "Procurai primeiro o reino da terra e sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo".

O Cristo real, o Cristo da história, o Cristo que viveu entre os homens, apresentava à sua Igreja uma outa prioridade, a da graça de Deus. Esta, sim, conforme o texto conciliar citado de início, é que tem no Evangelho a primazia. A graça divinizando e dinamizando nossas tendências humanas. Todos os problemas sociais se resolvem a partir do interior do homem pela justiça personalizante. Os seculizadores da Igreja apagam sobre o altar a função sacrifical e santificadora da presença real de Cristo, no jazz-band da "concientização", para a ´promoção da cidade terrestre. Primeiro o desenvolvimento, depois o Cristo. Ite Missa est

Acabou-se, para eles a Missa. Acabou-se o sagrado. Prevalece o terreno e o mundano na exaltação do homem, que se faz o ídolo de si mesmo.

A verdade, porém, é que os céus e a terra passarão, mas a palavra de Cristo permanecerá em todos os tempos. Por isso, continua a valer hoje e há de valer sempre aquele ensinamento do Sermão da Montanha: Quaerite primum regnum Dei... "Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas em acréscimo" (Mat. VI, 33).

A essa lição do Evangelho corresponde aquela expressão de Pio XI - tão oportuna para a hora presente! - reproduzida na constituição conciliar Gaudium et Spes: "A Igreja não evangeliza civilizando, senão que civiliza evangelizando".

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