quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Democratismo X Realismo


“É ainda possível esperar que uma mudança política nos possa salvar? Esta perspectiva nos parece, pelo menos no momento, improvável. Não é transformando instituições atuais, mais ou menos idênticas em todos os países, que chegaremos a um resultado. O mal é demasiado profundo para que possa desaparecer sob a única influência da mudança de regime. Vimos que o Estado moderno é um Estado sem sociedade: à sociedade do Antigo Regime nenhuma outra sociedade sucedeu. O que serve de vínculo social aos indivíduos desprovidos de vínculos sociais como são nossos contemporâneos, é o próprio Estado moderno, criação específica do estado de espírito individualista e democrático. Quanto mais persistir esse estado de espírito, tanto mais as sociedades naturais desaparecidas ou enfraquecidas não serão absolutamente ressuscitadas ou não terão retomado vigor; o Estado moderno ficará o quadro, o golilha ou o parelho de prótese que, substituindo a ausência de vida social, permitirá a seus súditos viver (se assim se pode falar) em ‘democracia’.

Ora, a democracia moderna não é um regime de que se possa mudar. Não é mesmo um regime. É uma mistificação, uma ilusão análoga no plano coletivo àquela que propicia o uso dos narcóticos ao indivíduo. Os homens crêem que se governam por si mesmos. Na realidade, a favor dessa crença sem objeto, outros homens os governam e continuam a governá-los propiciando-lhes sua ração quotidiana de droga. Todas as técnicas modernas de informação são utilizadas para esse fim. ‘É freqüente, dizia o Cardeal de Retz, que os homens queiram ser enganados’. Preferem o sonho à realidade. Inúmeros seres humanos, mortos nestes últimos dois séculos ou prestes a morrer pela ‘democracia’, demonstram-no de sobejo. Por mais que se lhes mostre que a ‘democracia’ tem por essência a de não a ter e de não existir mais que um quadrado redondo, estão persuadidos de que ela existe ou existirá. A ficção democrática penetra e impregna a tal ponto sua mentalidade desarraigada do real pelo individualismo e pelo subjetivismo que extirpá-la pela força ou pela luz radioativa da verdade equivaleria a matar o enfermo.

Aliás, a experiência de dois séculos provará que todas as tentativas de destruir a ‘democracia’ contribuíram para reforçá-la, dobrando ou triplicando a dose de narcótico necessária para esse objetivo. Toda arte dos mistificadores democratas é oferecer aos homens exiliados de suas comunidades naturais uma sociedade imaginária e persuadi-los de que o Estado moderno é capaz de realizá-la contanto que lhe confiem a eles, filantropos generosos, o poder de governar a Máquina. As mais vulgares vontades de potência podem assim manobrar o animal político que sua avulsão fora das sociedades naturais transformou em fantoche.

Não esperemos por mais tempo um socorro qualquer por parte da Igreja, tal como ela está, na iminência de entrar em ‘mutação’ sob nossos olhos. O tipo do bispo ‘defensor civitatis’ desapareceu. A vontade de potência clerical, que jorra sempre quando o padre substitui à vertical do sobrenatural a horizontal do ‘serviço do homem’, quer tomar a folga das vontades de potência política desfalecidas e ultrapassá-las. Ela não está mais na miragem democrática, está além mesmo do comunismo, esta ‘lógica viva da democracia’, como escreveu Balzac, tenta instaurar o Reino de Deus sobre a terra e sucumbe ao Tentador por excelência que promete a sua posse.

A única atitude a tomar é a do realismo integral.”

Marcel da Corte (Hora Presente, 1971)

2 comentários:

  1. Jeremias 1:5 nos diz que Deus nos conhece antes de nos formar no útero. Ou seja, pequenos inocentes já tem vida.
    Assistam> www.youtube.com/watch?v=ZMo_Sk6ald0
    A Igreja é a favor da vida.

    ResponderExcluir
  2. Leandro, qual a relação desse comentário com o post?

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...