quinta-feira, 29 de abril de 2010

Dawkins, um delírio

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

O tabaco e a alma


Texto de Michel P. Foley (Publicado na revista First Things n.72, Abril de 97)

Tradução e Notas de Márcio Umberto Bragaglia

A atual, barulhenta e irresponsável[1] campanha mundial contra o fumo não só incutiu dolorosamente em quase todas as pessoas o medo dos efeitos do tabaco sobre o corpo humano, mas também serviu para obscurecer a mais profunda das razões de popularidade do ato de fumar: sua relação com nossa alma. Enquanto os dias de glória do fumo passam para as cinzas da história, é o momento de refletirmos sobre sua conexão com o espírito humano. 

Obviamente, a alma é algo de grande complexidade. Há muito tempo Platão sugeriu que nós considerássemos a alma como sendo dividida em três partes: a vegetativa-sensorial, a espiritual (ou sensitiva) e a racional[2], correspondendo cada parte com uma das três categorias básicas de desejos humanos, quais sejam: o desejo da satisfação dos apetites físicos, o desejo pelo reconhecimento perante as demais pessoas, e o desejo de conhecer a Verdade. Desde que nos lembremos desta divisão proposta pelo filósofo, podemos entender melhor a relação que existe entre o consumo de tabaco e a alma humana: as três formas mais comuns de fumá-lo - cigarros, charutos e cachimbos, correspondem respectivamente a cada uma das três partes da alma. 

Os cigarros correspondem à parte vegetativa, (o apetite sensorial) da alma, fato que explica sua corrente associação tanto com a comida quanto com o sexo. A conexão sexual é particularmente óbvia: pense no famoso “fumar um cigarrinho” após o coito, ou na presença invariável dos cigarros nos bares para solteiros. 

Pessoas com fortes desejos físicos demandam satisfação instantânea, e tentam tornar o que desejam parte de seus corpos, ao máximo possível: a fome requer comer, a sede beber, e a luxúria tornar o corpo do amante parte de seu próprio corpo. Isso vale para os cigarros. Um cigarro é tragado: é necessário que seja consumido completamente no interior do indivíduo para provocar o prazer. Um cigarro, com sua rápida finalização, igualmente é satisfação instantânea. Até mesmo a notória conexão entre o cigarro e a morte pode ser entendida como um apetite – ambos são indiferentes em relação à saúde de seu objeto no que tange à satisfação, e ambos, quando atingem o nível final, tornam-se hostis ao indivíduo, fatais. 

Os Charutos, por outro lado, correspondem à parte espirituosa, sensitiva, da alma. Isto explica porque são tão populares entre homens que procuram honra e reputação - políticos, executivos, etc. A razão para esta correspondência pode ser encontrada na similaridade que há entre os charutos e a ambição. Um charuto impressiona, visualmente falando: com seu grande tamanho e suas enormes nuvens de fumaça, geralmente causa um impacto maior no expectador do que no próprio fumante. Está mais ligado ao poder masculino do que à sua satisfação propriamente dita. “Testis”, em latim, significa “testemunha”: a aparência fálica do charuto serve para demonstrar ao público que testemunha a virilidade do fumante, sua potência. O fato de que o charuto não é inalado reflete esta abordagem exterior, superficial. 

A ambição também tem estas características: é muito mais exterior do que interior. Diferentemente dos desejos físicos, que são satisfeitos pelo simples consumo, a ambição requer o consenso e o reconhecimento de terceiros. Os homens que procuram as honrarias, por exemplo, necessitam se sentir reconhecidos pelo maior número de pessoas possível para satisfazerem suas demandas de caráter. 

Finalmente, o cachimbo corresponde à parte racional da alma, o que explica porque tendemos a representar pessoas sábias fumando cachimbos: o estudioso, em Oxford, cercado por seus bons livros, ou Sherlock Holmes, que, nas histórias originais de Conan Doyle também fumava outras formas de tabaco[3], mas que, graficamente, é quase sempre representado na companhia de um cachimbo. Diferentemente dos cigarros e charutos, o cachimbo persiste, não se consome. Similarmente, as questões que intrigam o filósofo em muito superam tanto os menores desejos físicos quanto as ambições humanas relativas ao status social. Ainda, enquanto o charuto é completamente masculino, o cachimbo tem elementos masculinos e femininos (a piteira e o fornilho, respectivamente). Isto corresponde à atividade intelectual do filósofo, que é tanto masculina quanto feminina: masculina no que tange à procura pela “Verdade Absoluta”, e feminina na sua característica de ser receptivo à tudo que dele descobre. Finalmente, o efeito do cachimbo nas outras pessoas é análogo ao efeito da filosofia: o adocicado aroma de um cachimbo, como a boa filosofia, é uma benção para todos que se aproximam. 

É apropriado que todos os três referidos tipos de consumo do tabaco envolvem o uso do fogo, pois cada um deles se relaciona com o nível de resposta da alma ao apelo da razão, e o fogo, pelo menos desde os dias de Prometeu, é o emblema mitológico da razão. Mas também há partes não humanas na alma do homem[4]. O crescimento dos cabelos e das unhas, por exemplo, se deve à atividade da alma (vida), mesmo que não se relacione com o comando da razão. 

O uso do tabaco que não envolve o fogo, portanto, de certo modo corresponde a estes elementos não-humanos, ou mais precisamente sub-humanos da alma. Mascar tabaco, por exemplo, é uma atividade sub-humana por definição. É a ruminação do homem bovino. Ou talvez, devêssemos dizer do homem camelo, pois os camelos não só mascam, mas também cospem. De qualquer modo, a idéia é clara: mascar o tabaco é uma atividade sub-racional, e por isso nós normalmente à associamos aos homens mais brutos e menos intelectualmente refinados. 

Cheirar (aspirar) o tabaco também pode ser classificado nesta categoria, mas com algumas pequenas diferenças. Primeiro, porque, não sendo tão repugnante, não carrega o mesmo grau de conotação negativa do processo de mascar o tabaco. (Obviamente, as atividades podem ser sub-racionais sem serem más). Em segundo lugar, aspirar pelo nariz não é atividade que se possa categorizar no mesmo nível das anteriores. Todas as formas já discutidas envolvem a boca, o que é mais natural, já que a boca foi feita para receber coisas dentro de si. Mas aspirar algo diferente de ar para dentro do nariz, isso já não é tão natural assim...[5] 

Como todo leitor de Platão sabe, o que tem relação com a alma tem necessariamente relação com a cidade [6]. Logo, se nossa teoria é mais do que a fumaça que pretende explicar, ela pode ser usada na análise de alguns fenômenos políticos contemporâneos. Por exemplo, nos últimos anos temos testemunhado um esforço de ajuste social que objetiva esterilizar nossas relações eróticas, diminuindo seu perigo, mas também seu vigor. 

As vazias e desestimulantes palavras que usamos para referenciar estas ligações confirmam nossa hipótese. Ao invés de “amante” e “amado”, por exemplo, nos referimos a “parceiro” (termo que retira das questões do coração toda excitação, aproximando a tão emocionante matéria da frieza das relações comerciais). Considerando este ambiente social deliberadamente alterado, não é de se espantar que nossa guerra moral mais violenta nos dias atuais seja contra os fumantes e cigarros, nem que a única guerra tão intensa que a sociedade trava seja a favor do “sexo seguro”, de preservativos que não esterilizam o sexo apenas no sentido literal, mas também metafórico. 

Além disto, a relação que há entre os charutos e as pessoas fracas, em busca de reconhecimento social, explica o crescimento significativo do incremento de fumantes de charuto do sexo feminino. Como as mulheres continuam a penetrar em mundos de competição social tradicionalmente dominados pelos homens[7], muitas estão os vencendo em seu próprio jogo, utilizando-se das mesmas técnicas de incremento de poder, e, com as técnicas e táticas vêm os símbolos. 

Mais significativa, entretanto, é a relação entre a raridade numérica dos fumantes de cachimbo na América, e a crise intelectual que o país enfrenta. Se o cachimbo enfatiza um modo de vida intelectual e racional, é de espantar que não possa ser encontrado em um país no qual as escolas substituem a filosofia real pela ideologia do “politicamente correto”, onde a inteligentsia, ao invés de se engajar no pensamento aprofundado, tende para o ativismo irresponsável? É surpresa que o mais famoso fumante de cachimbo dos EUA nos últimos trinta anos seja Hugh Hefner[8], profeta banal do hedonismo? Não, a era dos fumantes de cachimbo está tão longe de nós quanto o dia em que os filósofos serão reis e os reis irão filosofar – uma realidade triste que a densa neblina azul dos cigarros e charutos é a única a atestar. 

Também não é de nos surpreender, nesta era sem cachimbos, que a batalha feroz travada contra o tabaco perdeu o ponto relevante sobre seu poder de viciar: o tabaco influencia a alma tanto quando o faz ao corpo. As qualidades que ele a faz incorporar nas suas formas variadas o torna um complemento irresistível para os desejos dominantes da alma de cada um. Como reagimos a estas influências diz muito do nosso posicionamento pessoal em relação ao que moralmente desejamos, talvez tanto quanto diz a erva aos desejos do corpo, por si só.

[1] O autor utiliza o termo brouhaha para qualificar a campanha contra o fumo. Significa um distúrbio relevante, muito mais do que os méritos da discussão que o gerou. Preferi adjetivar, no mesmo sentido. (N.do T.) 

[2] A divisão tripartite da alma, na abordagem do autor deste texto, se relaciona com a ética segundo a interpretação que Aristóteles adotou, modificando o escopo original da discussão em Platão. (N. do T.)

[3] Holmes também apreciava um charuto ao investigar seus casos, conforme nos ilustra a passagem abaixo, do conto The Sign of Four: “"Well, Jonathan Small," said Holmes, lighting a cigar, "I am sorry that it has come to this". (N.do T.). 

[4] Alma em sentido platônico, é o que, em diversos níveis, anima o corpo, dá vida. Pode ser compreendida como uma essência adicional à matéria, presente nos vegetais, nos animais e no homem. Cada nível de ser tem um incremento nestas categorias. Assim, as plantas possuem apenas a alma vegetativa, os animais a vegetativa e a sensível, e os homens as duas mais a intelectiva.

[5] Neste trecho, o autor se desvia um pouco do assunto e trata de diferenciar a maconha do tabaco. Para nós, fumantes apenas deste último, não há a menor necessidade de enfatizar-se a qualidade deste e os efeitos desprezíveis daquele, que, segundo o autor, se resumem no seguinte: “enquanto o cigarro, o charuto e o cachimbo soltam a língua apenas o suficiente para estimular a boa conversação e a amizade, a maconha desprende a língua do cérebro, afastando a razão”.(N.doT.) 

[6] No sentido grego, é claro, com o Estado, a comunidade politicamente organizada. Aí vem a introdução da discussão política deste artigo. (N.doT.) 

[7] Ainda bem, penso eu! Ao contrário do que alguns consideram, o charme e a delicadeza feminina se adaptam muito bem ao uso do charuto. (N.doT.)

[8] O fundador e editor da revista Playboy, desde 1953.

OBS: fiz pequenas correções ortográficas e de estilo 

terça-feira, 27 de abril de 2010

Viderunt Omnes de Perotin (1198)

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Datena e Dilma

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A filosofia de São Boaventura

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cinco perguntas que nenhum protestante consegue responder (mas qualquer católico consegue)

Revirando meus papéis, encontrei um pequeno panfleto apologético de autoria de Carlos Ramalhete, que imprimi em 2001. Ele é bem interessante e, por isso, vou reproduzi-lo (com pequenas modificações).

Cinco perguntas que nenhum protestante consegue responder (mas qualquer católico consegue)

1 – Por favor, diga-me uma razão para aceitar a Bíblia que um muçulmano não poderia usar para considerar o Corão inspirado por Deus?

Nós, católicos, aceitamos a Bíblia como Palavra de Deus porque a Igreja que Cristo fundou e confiou a Pedro (Mateus XVI, 18), e que é a Coluna e Firmamento da Verdade (I Timóteo III, 15), diz que a Bíblia é a Palavra de Deus. Como dizia Santo Agostinho, “creio nos Evangelhos porque a Santa Madre Igreja me diz para crer neles”.

2 – Por favor, diga-me porquê você aceita apenas uma parte da Bíblia (afinal, a lista de livros que compõem o Novo e o Antigo Testamento foi determinada ao mesmo tempo – aliás, junto com o título de Mãe de Deus para Nossa Senhora – e você aceita apenas parte do Antigo Testamento), e com que autoridade o faz.

Nós, católicos, aceitamos a Bíblia em sua íntegra porque a lista de livros que a compõem foi definida em 397 d.C., sob a autoridade do Sucessor de Pedro, o Papa São Damaso I.

3 – Por favor, diga-me porque a Bíblia teria precisado de quase 1.600 anos para ser entendida corretamente, se ela é teoricamente algo que qualquer um pode entender.

Nós, católicos, sabemos que a Bíblia não é algo que qualquer um pode ler e entender sem ajuda (II Pedro III, 16; Atos VIII, 31), e sabemos que Cristo confiou a São Pedro, o primeiro Papa, a tarefa de tomar conta de Seu rebanho, a Igreja (João XXI, 15-17). Nós seguimos o que os sucessores de Pedro nos transmitiram.

4 – Por favor, explique como alguém pode saber se entendeu a Bíblia corretamente, se só pode confiar na Bíblia e em mais nada; afinal, existem mais de 30.000 seitas protestantes no mundo, cada uma entendendo a Bíblia de maneira diferente e todas achando que estão certas.

Nós, católicos, sabemos que é a Igreja que Cristo fundou e confiou a São Pedro (Mateus XVI, 18), e que é a Coluna e Firmamento da Verdade (I Timóteo III, 15), quem tem a missão de ensinar (Mateus XXVIII, 19), e que as Escrituras não devem sofrer interpretação particular (II Pedro II, 20), pois quem o faz comete erros que o conduzem à perdição (II Pedro III, 16). Assim, sabemos que a explicação feita pela Igreja está certa, e está errada qualquer interpretação diferente desta.

5 – Por favor, prove usando apenas a Bíblia que ela é o que você considera que ela seja (isto é, a única fonte da Verdade Revelada, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles). Claro que todo mundo sabe que a Bíblia é Palavra de Deus, boa para o ensino, etc. e tal, mas, por favor, tente provar que ela é a única fonte de Palavra de Deus, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles.

Ao contrário dos protestantes, que acreditam na heresia chamada Sola Scriptura, segundo a qual apenas a Bíblia é a Palavra de Deus, os católicos sabem que além da Bíblia, que não tem toda a Palavra de Deus e não está completa (João XX, 30-31; XXI, 25; II Tessalonicenses II, 14), há ainda a Santa Tradição que deve ser segujida ( I Coríntios XI, 2; Gálatas I, 14; II Tessalonicenses II, 15; III, 6; I Timóteo VI, 20; II Timóteo I, 13; II, 2; etc.). O próprio São Paulo, em Atos XX, 35, cita palavras de Cristo que não estão em nenhum dos Evangelhos, dizendo aos bispos de Éfeso que eles devem lembrar-se delas. Sabemos ainda que os livros que compõem a Sagrada Escritura são os que a Igreja determinou em 397 d.C., mais de mil anos antes dos primeiros protestantes arrancarem sete livros de suas bíblias em 1517 d.C..

Catecismo sobre o sedevacantismo

A versão corrigida e atualizada deste post, com os comentários originais, pode ser lida aqui.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Vídeos sobre o PNDH-3

Deputado Paes de Lira critica palhaçada de Lula:



O famoso jurista Ives Gandra Martins também deu declarações sobre o decreto, considerando-o um instrumento preparatório para uma ditadura:



Padre Paulo Ricardo comenta sobre o PNDH-3:





O que fazer com objetos religiosos velhos ou danificados?

Pergunta recebida:

"O que fazer com objetos religiosos velhos ou danificados (como imagens quebradas, missais irrecuparáveis, escapulários estragados)?"

Tudo que é sagrado deve ser tratado com respeito, e tanto mais respeito quanto mais sagrado. Por isso, essa pergunta é de grande importância.

Em outras palavras, a pergunta é: como se desfazer, de maneira respeitosa, de um objeto sagrado ou de um texto religioso que se deteriorou a ponto de não mais servir para uso (nesse último caso, dependendo do texto, é sempre bom avaliar a possibilidade de restauração, já que no nosso país, hoje em dia, é difícil conseguir uma boa literatura católica)?

Textos de orações, estampas religiosas, bíblias ou missais que se encontram esmaecidos pelo uso, ou se desfizeram em pedaços, estão, por isso mesmo, num estado tal que, em muitos casos, são indignos da condição sagrada. Assim, o próprio respeito ao seu conteúdo ou ao seu significado pede que sejam destruídos (isso até se tratando de objetos bentos, pois, por terem perdido substancialmente sua forma primitiva, é provável que já tenham perdido também a benção). Nada impede que sejam, por exemplo, queimados. É o melhor, aliás. Todavia, como isso nem sempre pode ser feito, sobretudo por quem vive numa grande cidade, será talvez recomendável rasgá-los em pedaços, envolvê-los num saco plástico e colocá-los num cesto de lixo.

Recomendação análoga pode ser feita em relação a imagens partidas que não têm mais concerto. O ideal seria enterrá-las, mas se isso não for possível, o melhor é terminar de fragmentá-las e envolvê-las também num plástico ou papel de embrulho por terem sido portadoras de bênçãos, e jogá-las no lixo.

Ao proceder dessa maneira, a pessoa imbuída de espírito religioso não está sendo movida pelo desprezo para com as coisas da Fé, antes, pelo contrário, pelo sumo respeito por tais objetos, deteriorados, é que procura a melhor solução para descartá-los.

Catecismo sobre o aborto

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Ló ou Lot?

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Exegese da continuidade na Nostra Aetate


O Concílio pastoral Vaticano II produziu o documento Nostra Aetate, que tratou do relacionamento do catolicismo com outras religiões, como o hinduísmo, o budismo, o islã e o judaísmo. Nele elementos positivos e negativos de cada uma delas foram abordados.

No que tange aos muçulmanos, diz o Concílio que eles adoram o Deus único, vivo e subsistente em si próprio.

Mas como pode ser isso, já que eles não crêem na Trindade e não aceitam Nosso Senhor como filho de Deus? Como podemos dizer que os muçulmanos adoram o mesmo Deus que nós? Vou analisar essa questão me baseando num texto do famoso apologeta Michael Jacob.

Bem, muitos dos críticos da Nostra Aetate passam ao largo da nota que ela faz a carta que o Papa Gregório VII escreveu ao rei Anzir da Mauritânia. Nela está dito (a tradução é minha e é livre):

“Vós e Nós estamos unidos, por uma caridade peculiar, comparada com o resto das nações, pois nós acreditamos e confessamos o Deus único, mas duma maneira diferente, a Quem nós louvamos e veneramos diariamente como Criador do tempo e Governante do Mundo.” (Papa Gregório VII, Epístola 21, Migne´s Patrologia Latina).

Texto original: “Hanc itaque charitatem nos et vos specialibus nobis quam caeteris gentibus debemus, qui unum Deum, licet diverso modo, credimus et confitemur, qui eum Creatorem saeculorum et gubernatorem hujus mundi quotidie laudamus et veneramur."

Esse texto, contudo, ainda não responde a questão. Nosso Deus é trino e temos a tendência de gritar:

- Heresia!

Prossigamos.

O jornal Sim, Sim, Não, Não no ano de 2003, na sua série de reportagens sobre os supostos erros do Vaticano II, disse que as palavras do Papa derivavam da sua ignorância sobre a essência do islã e que o elogio ao rei não impediu que esse Papa louvasse uma expedição feita por países católicos contra os muçulmanos a fim de proteger católicos de rito oriental.

Esse argumento não satisfaz, pois vem do mesmo campo que insiste que os papas atuais são pessoalmente responsáveis por seus erros e que a ignorância não é desculpa, pois o Pontífice deve saber mais (na opinião deles). Além de que o fato do Papa Gregório VII ter lançado uma expedição contra os muçulmanos não tem relação direta com as crenças deles, mas de como as ações delas derivadas atingem os outros. É o mesmo que o combate medieval aos cátaros, que foi lançado após se constatar não o erro de fé deles, mas suas ações nefastas, como o assassinato de grávidas.

Uma resposta mais satisfatória pode ser dada ao nos aplicarmos a análise da forma e estrutura do texto conciliar. Ela começa falando do hinduísmo e do budismo e termina com o judaísmo; no meio é que encontramos as referências ao islã. Essa estrutura é importante, pois revela certa progressão: dos que são panteístas ou ateus práticos, aos que acreditam no Deus único, o Deus de Abraão (mas não de Isaac), e aqueles que crêem no Deus único, o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó, o Deus do Antigo Testamento.

Indo do hinduísmo e budismo ao islã e do islã ao judaísmo, o Concílio começa com o que é mais distante da verdadeira religião e termina com o que é mais próximo. Nesse contexto é que a Nostra Aetate deve ser analisada: é uma consideração sobre a crença islâmica justaposta ao hinduísmo e budismo. Ela apresenta um contraste: hindus e budistas não acreditam no Deus único e Criador, eles acreditam em muitos deuses ou em nenhum deus; os muçulmanos, por sua vez, acreditam num deus único criador do universo.

Há um texto das Escrituras do livro dos Salmos geralmente citado contra o documento do Concílio:

“Porque o Senhor é grande, e mui digno de ser louvado; terrível é sobre todos os deuses; Porque todos os deuses das gentes são demônios; mas o Senhor fez os céus” (Salmo XCV, 4-5).

Esse trecho, na verdade, dá razão a Nostra Aetate! Geralmente as pessoas se concentram na primeira parte do versículo 5, “...os deuses das gentes são demônios...”, e se esquecem dos resto, “...mas o Senhor fez os céus”. Aqui temos o contraste claro: o Deus único, o Deus verdadeiro, o Deus que está apartado dos “deuses” que são demônios, é o Deus que fez os céus. A criação é o ponto de identificação. O fato dos muçulmanos acreditarem no Deus único criador dos céus os coloca na segunda parte do versículo. Eles acreditam no único Deus, não em “deuses”; eles acreditam num Deus que criou o universo (significado de “céus” na Bíblia). Se nós dissermos que eles cultuam demônios, temos um sério problema: que demônio criou os céus?

Por essa conexão entre o Deus único e sua criação ser tão importante é que ela é alvo de reflexão por Gregório VII e pelo Concílio pastoral.

Mesmo assim, como adoramos o mesmo Deus se nosso Deus é trino?

Urge, então, fazer uma distinção entre fé e vontade. A virtude da fé pertence ao intelecto, o culto pertence à vontade. A Igreja sempre ensinou que um homem pode ser salvo ao cumprir a Lei Natural, quando sua vontade está voltada fundamentalmente para o Criador, mesmo quando sua fé não tem um caráter explícito. Se sua vontade está voltada ao Bem Supremo, sua fé na Verdade pode ser implícita.

Isso quer dizer que um homem pode sofrer de um defeito do intelecto que faz com que seu culto seja direcionado para aquilo que ele conhece imperfeitamente e, ao mesmo tempo, ter sua vontade suficientemente dirigida ao Deus verdadeiro.

Façamos uma analogia. Tenho um amigo e acredito firmemente que ele tem um pai. Acredito que ele tem um pai porque esse meu amigo existe, o fato dele ser criado indica que há um criador. Entretanto, acredito que seu pai seja obeso, tem outros 7 filhos, afina pianos e se chama José.

Respondamos, então, a questão: acredito no pai de meu amigo ou não? Claro que sim. Conheço todas as especificidades dele? Provavelmente não. Mas a falta dessa percepção intelectual perfeita implica que eu não acredite do pai de meu amigo? Não.

Consigo o endereço de meu amigo e de sua família e passo a mandar cartas para seu pai, todas endereçadas a José, perguntando sobre pianos, regimes e sobre seus outros 7 filhos. Minhas catas foram mandadas para o homem certo? Evidente. Ele recebeu minhas cartas? Sim. Ele gostou de minha correspondência? Provavelmente não, ele deve achar que sou um doido e minhas cartas lhe causaram aborrecimento e desconforto.

Aqui temos uma distinção importante. Se o Concílio pastoral nos diz que os muçulmanos cultuam nosso mesmo Deus, isso não implica que tal culto Lhe seja agradável e que Ele o aceita. Afinal, Caim cultuou o Deus verdadeiro e Ele não aceitou seus sacrifícios, pois eles foram feitos inapropriadamente.

Ensina Garrigou Lagrange (O nosso salvador e seu amor):

“Não podemos deixar de enfatizar esse ponto: no momento que a vontade fundamental de um homem está eficazmente direcionada para o Deus verdadeiro, este homem está justificado, ele está no estado de graça, ele possui o germe da vida eterna”.

Ensina D. Lefebvre (Carta aberta aos católicos confusos):

“A doutrina da Igreja também reconhece implicitamente o batismo de desejo. Ele consiste em fazer a vontade de Deus. Deus conhece todos os homens e conhece aqueles entre protestantes, muçulmanos e budistas que são de boa vontade. Eles recebem a graça do batismo, mesmo sem conhecê-lo, de uma maneira efetiva. Nesse sentido eles se tornam parte da Igreja”.

Diz o Espírito Santo (Lucas II, 13-14):

“E subitamente apareceu com o anjo uma multidão numerosa da milícia celestial, que louvavam a Deus e diziam: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade”.

Sendo assim, podemos dizer que os muçulmanos cultuam o Deus verdadeiro, Criador do universo, distinto dos falsos “deuses” que são demônios e que não criaram os céus e a terra, mas eles não possuem a fé verdadeira.

Conhecimento exato e fé não são um pré-requisito para um culto verdadeiro, contanto que a vontade esteja direcionada ao Sumo Bem. Isso também não implica que Deus aceite tal culto. Só pela razão (os muçulmanos não têm Revelação) ninguém chega a Trindade, mas chega-se ao Deus único, remunerador e criador de todas as coisas.

Palavras chaves:

intelecto - fé

vontade - culto

Os livros apócrifos e a catequese

Pergunta recebida sobre os livros apócrifos:

"As razões que levaram a Igreja a não considerá-los como Palavra de Deus, é que muitos são fantasiosos sobre a pessoa de Jesus e outros personagens bíblicos, além de possuírem até heresias como o gnosticismo, mas neles existem algumas verdades históricas. É correto do ponto de vista catequético, levar o conteúdo desses livros ao conhecimentos de leigos em teologia?"

De um ponto de vista catequético não! Na catequese devemos focar no básico e, certamente, aumentar o conhecimento sobre os apócrifos quando não se tem tempo direito de fazer as pessoas conhecerem os livros canônicos é algo que não faz sentido. Agora, as informações colhidas deles e que são corroboradas pela Igreja (por fazerem parte da Tradição), como os nomes dos pais de Nossa Senhora (São Joaquim e Sant´Ana), podem ser repassadas.

E nem todos os apócrifos são heréticos. Apócrifo não quer dizer herético, mesmo porquê vários livros citados tanto no Antigo como no Novo Testamento foram perdidos. Um exemplo é o da Epístola de S. Judas Tadeu, que cita O Livro de Enoch e A Assunção de Moisés, livros que não estão no cânon, mas não são heréticos.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A consciência e a vida correta

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Origem do Angelus

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