sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Relativismo X Sofrimento



Neste trecho de um episódio de ER (Plantão Médico) vemos como o relativismo religioso não fornece respostas para os sofrimentos desta vida.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Estrutura e espiritualidade da Liturgia das Horas

Vou tratar um pouco da estrutura e da espiritualidade do Ofício Divino (já há uma postagem sobre a história dele). Usarei o Ofício do rito paulino e a obra A Liturgia na Igreja (de Julian Lopez Martin - Paulinas).


1. Oração ao Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo

A Liturgia das Horas tem uma dimensão trinitária, pois, enquanto louva Deus Pai é sempre cristológica e pneumatológica. O Ofício reflete o colóquio amoroso e eterno entre as Pessoas divinas (SC 83; IGLH 3).

Se toda liturgia é obra de Cristo que associa a Igreja no culto do Pai (SC 7), a Liturgia das Horas manifesta ainda mais essa vinculação. À imitação do seu Senhor e seguindo sua ordem, a Igreja louva, dá graças e invoca o Pai no Ofício Divino. É a norma dada por Jesus (Lucas XI, 2): "Quando orardes dizei: Pai nosso". A oração das horas, por ser eclesial, conta com a presença prometida do Senhor (SC 7) e se realiza "na comunhão do Espírito Santo. O Espírito Santo ...está em Cristo, na Igreja toda e em cada um dos batizados... Por conseguinte, não pode haver oração cristã sem a ação do Espírito Santo, que unifica a Igreja inteira, levando-a pelo Filho ao Pai" (IGLH 8). A assistência do Espírito produz no homem a sinergia divina para glorificar o Pai e santificar as realidades deste mundo.

2. Oração em nome da Igreja

A Liturgia das Horas é a prece “da Igreja”, que se realiza “com a Igreja” e “em nome da Igreja”.

Esta última expressão não deve ser entendida limitando-a ao mandato jurídico ou delegação que a Igreja dá a certas pessoas, especialmente obrigadas à sua celebração. Embora essa dimensão exista (SC 84, 85, 87, 90, etc.), o Ofício "em nome da Igreja" implica primeiramente um fato teológico e simbólico. Com efeito, a oração das Horas é por si "função de toda a comunidade", uma vez que por ela "a oração de Cristo continua sem cessar na Igreja" (IGLH 28).

A ignorância ou o esquecimento dessa verdade produziu equívocos lamentáveis. Enquanto foi geral a identificação entre os conceitos de “eclesial” e “jurídico” ou entre “liturgia” e “função do ministro”, o Ofício Divino aparecia como ação exclusiva dos monges e dos clérigos encarregados juridicamente disso. Porém, essa visão é reducionista e incompleta (no post sobre a história mostrei como as Horas, no Ocidente, eram populares até parte da Idade Média). A Igreja é também o povo cristão, e a liturgia é também função da comunidade. Todo batizado e confirmado possui a capacidade sacerdotal para o culto ao Pai "no Espírito Santo e na verdade" (João IV, 23). Portanto, há Liturgia das Horas em nome da Igreja sempre que um grupo de católicos se reúne para orar seguindo a forma estabelecida, especialmente sob a presidência dos pastores. Daí a preferência pela forma comunitária na celebração do Ofício Divino

Mas "aos ministros sagrados se confia de maneira tão especial a Liturgia das Horas, que, embora não havendo povo, deverão celebrá-la..., pois a Igreja os encarrega da Liturgia das Horas, para que essa missão da comunidade seja desempenhada, ao menos por eles de maneira certa e constante, e a oração de Cristo continue sem cessar na Igreja" (IGLH 28).

3. Santificação do tempo e da existência

As recomendações do Senhor e dos Apóstolos convidando à oração constante (Lucas XVIII, 1; XXI, 36; Romanos XII, 12; Colossenses III, 2; I Tessalonicenses III, 10) estão na origem da Liturgia das Horas. Nesse sentido, a Igreja, fiel à sua missão, jamais cessa de elevar suas preces e nos exorta com estas palavras: "Por ele ofereçamos a Deus sem cessar sacrifícios de louvor..." (Hebreus XIII, 15). Esse preceito se cumpre não apenas pela Celebração Eucarística, mas também por outras formas de oração, de modo particular pelo Ofício. Como vimos na parte histórica, as Horas santificam todo o curso do dia e da noite (IGHL 10; SC 84).

Santificar o tempo é dedicá-lo ao serviço de Deus e dos homens, e vivê-lo como um espaço de graça e uma oportunidade de salvação (II Coríntios VI, 2). É glorificar, no Espírito, o Pai e Jesus Cristo, submetendo todas as coisas, para que a existência fique impregnada de louvor, de súplica e de ação de graças. Por isso a Igreja insiste em que a celebração da Liturgia das Horas se faça "no tempo que mais se aproxima do momento de cada hora canônica" (SC 94; IGLH 11).

Por outro lado, se o Ofício consagra a existência, isso "aplica-se principalmente a quem de modo especial se confiou a celebração da Liturgia das horas... em prol de sua grei e de todo o povo de Deus" (IGLH 17).

4. Valor Pastoral

A oração, porém, é também de todo o povo de Deus, que participa da missão pastoral da Igreja. Nesse sentido, "aqueles que tomam parte na Liturgia das Horas fazem crescer o povo do Senhor, através de misteriosa fecundidade apostólica (Perfectae Caritatis 7); pois “o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Batismo se reúnam em assembléia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor” (SC 10)" (IGLH 18).

Por esse motivo, o Ofício pertence à essência da Igreja do mesmo modo que a evangelização e os Sacramentos e a ação caritativa e social. Os que celebram as Horas devem saber que colaboram plenamente para a difusão do Reino da mesma forma que quando em outras tarefas pastorais igualmente necessárias, "porque somente o Senhor, sem o qual nada podemos fazer (Jo 15, 5), é quem pode, a nosso pedido, dar eficácia e incremento às obras (SC 85), para que nos edifiquemos cada dia como templos de Deus no Espírito (Ef 2, 21-22), até alcançarmos a estatura de Cristo em sua plenitude (Ef 4, 7), e ao mesmo tempo robustecemos nossas forças, a fim de anunciarmos Cristo aos que se encontram de fora (SC 2)" (IGLH 18).

5. Dimensão escatológica

A Liturgia das Horas é, finalmente, pregustação e participação "na liturgia celestial... onde Cristo está sentado à direita de Deus, como ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro (Ap XXI, 2; Cl 3, 1; Hb 8, 2)" (SC 8), para interceder por nós (Hebreus 7, 25; I João 2, 1). Em Cristo se estabelece um vínculo de comunhão entre o povo peregrino, que se associa a toda a criação na liturgia, e os bem-aventurados, que tomam parte no louvor àquele “que está sentado no trono e ao Cordeiro” (Apocalipse V, 13; IGLH 16).

Por outro lado, nessa dimensão escatológica da liturgia em geral, e do Ofício em particular, não há nenhum escapismo. Ao contrário, a esperança do Reino, avivada na celebração das Horas, impele os católicos no sentido da transformação do mundo presente: "a era final do mundo já chegou até nós (cf. 1Cor 10, 11), e a renovação do mundo foi irrevogavelmente decretada e, de certo modo real, já antecipada no tempo presente (LG 48). Pela fé, somos de tal maneira instruídos sobre o sentido de nossa vida temporal, que junto com toda a criação aguardamos a revelação dos filhos de Deus (Rm 8, 15). Na Liturgia das Horas proclamamos nossa fé, expressamos e alimentamos essa esperança, e, em certo sentido, já participamos daquela alegria do louvor perene e do dia que não conhece ocaso" (IGLH 16).

Estrutura das Horas

Laudes (Oração da manhã)

· Invitatório: V. Abri, Senhor os meus lábios. R. E minha boca anunciará vosso louvor. V. Glória ao Pai... R. Como era...

· Salmo Invitatório: geralmente o 94, mas pode ser também o 23, o 66 ou o 99..

· Hino: um para cada dia, exceto em tempos fortes (quando o hino é próprio).

· Salmodia: dois Salmos intercalados por um Cântico do AT.

· Leitura Breve

· Responsório breve

· Cântico Evangélico: Benedictus

· Preces

· Pai Nosso

· Oração final

Horas Intermediárias (Nove, Doze, Quinze)

· Introdução: V. Vinde o Deus em meu auxílio. R. E minha boca proclamará vosso louvor. V. Glória... R. Como era..

· Hino: fixo para cada hora.

· Salmodia: três Salmos ou 1 menor e outro maior dividido em duas partes

· Leitura breve

· Responsório breve

· Oração final

Vésperas (Oração da Tarde)

· Introdução: V. Vinde o Deus em meu auxílio. R. E minha boca proclamará vosso louvor. V. Glória... R. Como era..

· Hino: um para cada dia, exceto em tempos fortes (quando o hino é próprio).

· Salmodia: dois Salmos seguidos de um Cântico do NT.

· Leitura Breve

· Responsório breve

· Cântico Evangélico: Magnificat

· Preces

· Pai Nosso

· Oração final

Completas (antes do repouso da noite)

· Introdução: Vinde o Deus...

· Hino: fixo

· Salmodia: um Salmo ou dois

· Leitura breve

· Responsório breve (fixo)

· Cântico Evangélico: Nunc dimittis

· Oração final

· Antífona final a Nossa Senhora

Ofício das Leituras (sem hora marcada)

· Introdução: Vinde o Deus...

· Hino

· Salmodia: geralmente um Salmo dividido em três partes

· Leitura Bíblica

· Responsório breve

· Leitura Hagiográfica (de um santo) ou Patrística (de um dos primeiros escritores da Igreja)

· Responsório breve

· Oração final

Observações (feitas no Orkut pelos confrades Karlos e Vitola):

· O invitatório pode ser feito ao Ofício das leituras, desde que essa seja a primeira Hora a ser rezada no dia.

· A salmodia das Horas intermediárias pode ser ou três salmos, ou um salmo menor e outro maior dividido em duas partes ou um único salmo dividido em três partes (como no I Domingo). O ordinário são três salmos.

· A salmodia das Vésperas pode ser um salmo dividido em dois e depois o cântico do Novo Testamento ou dois Salmos seguidos de um Cântico do Novo Testamento (este é a forma ordinária).

. Cada dia da semana tem seu prórprio canto do Novo Testamento, sendo um especial para os domingos da Quaresma e um especial só recitado em duas festas, a saber, Epifania e Transfiguração. Ou seja, tem-se ao todo 9 cânticos do Novo Testamento.

· Para as Completas, entre o hino e a introdução da Hora, pode ser feito um exame de consciência com a absolvição como na Missa.

. Os dias que tem dois salmos é a quarta-feira e a oração despois das I Vésperas.

· Para a salmodia do Ofício das leituras segue o que foi dito na Hora média.

. Entre o segundo responsório breve e a oração final, há o hino Te Deum nos dias de festa, solenidades e nos domingos (exceto os da Quaresma, se não me engano).

. Pode-se, nos domingos, solenidades e festas, acrescentar ao Ofício de Leituras mais três cânticos, que variam conforme o tempo litúrgico (havendo alguns especiais para determinadas festas e solenidades, mas não para os Domingos), seguidos de uma lição do Evangelho (há uma para cada Domingo, solenidade e festa), para só então fazer-se o Te Deum. É o que se chama de Vigílias, uma das formas de Ofício de Leituras, com origem no antigo rito romano como recitado pelos monges. Foi uma grande sacada da reforma litúrgica.

. Em alguns países, ademais, aprovou-se um segundo volume do lecionário do Ofício das Leituras, com lições bíblicas, patrísticas e hagiográficas para um segundo ano, alternando-se, então, as lições que constam dos volumes originais da Liturgia das Horas (primeiro ano) com as desse segundo lecionário. Nesse segundo lecionário, ademais, constam também um outro elemento para o Ofício de Leituras: as homilias, de ancestral tradição e presentes no rito anterior à reforma litúrgica (o Breviário de 1961/62). Essas homilias do segundo volume servem tanto para o primeiro quanto para o segundo ano.

O Ofício como celebração

Antes de aprofundarmos na análise das Horas em si, cabe uma palavra sobre o Ofício como celebração.

Em toda ação litúrgica se distinguem o aspecto visível, que não é outro senão a presença do mistério da salvação, e o aspecto visível e sacramental, isto é, expressivo e simbólico de mediação a serviço do Mistério. Na celebração da Liturgia das Horas o primeiro aspecto é a presença sacerdotal de Cristo no meio dos seus, que garante a eficácia da prece litúrgica (SC 7; 83-84). O segundo aspecto é constituído pelos componentes a seguir:

1. As Horas, mesmo quando recitadas individualmente por um ministro da Igreja, tem sempre como sujeito integral a própria Igreja.

2. A ação comum celebrativa, no Ofício Divino, consiste essencialmente na oração, com poucos gestos. Mas é uma prece muito variada quanto aos gêneros (hino, salmodia, leitura, responsórios, preces, aclamações, etc.) e quanto ao ritmo, com uma cadência de cantos, palavras e silêncios que, de acordo com a festa e o tempo litúrgico, apresenta um dinamismo amplo e equilibrado (IGLH 33).

3. O tempo de celebração do Ofício, com seu caráter simbólico, faz também parte dessa oração cuja finalidade é santificar o curso inteiro do dia e da noite.

Além disso, a celebração das Horas supera algumas antinomias nem sempre fáceis de serem resolvidas, na prática, em outras ações litúrgicas:

a. Identificação entre palavra e rito. Na Liturgia das Horas, a ação ritual é mínima. Nela a palavra é recitada, cantada, proclamada, escutada e meditada, segundo este esquema: salmodia, leitura da Palavra de Deus (e leitura patrística ou hagiográfica no Ofício de Leituras), oração. Nas demais celebrações, a liturgia da Palavra precede o rito, formando uma unidade com ele e tendo quase a mesma amplitude. No Ofício Divino, não há outro rito a não ser o próprio diálogo entre Deus e seu povo, mas de maneira que a Palavra divina se oferece ao homem não apenas nas leituras, mas também como componente de sua oração nos Salmos e nos responsórios.

b. Integração entre o pessoal e o comunitário. A recomendação da celebração comunitária das Horas (IGLH 21, 33, etc.), de acordo com sua índole eclesial, não significa que se ignore ou se dê menos valor à recitação individual. Tanto numa forma como na outra "permanece a estrutura essencial dessa liturgia: o diálogo entre Deus e o homem" (IGLH 33).

c. Integração entre o objetivo e o subjetivo. A objetividade da prece litúrgica, que dinama da presença do mistério de Cristo na liturgia, de modo algum pretende esgotar a piedade pessoal e as tendências espirituais de cada um e dos grupos eclesiais (esse é o erro do chamado liturgicismoSC 10; LG 11). Não obstante, a liturgia é fonte e ápice (SC 10; LG 11), bem como referência necessária para todos os atos de piedade (SC 13). A própria organização da Liturgia das Horas, ao apontar o que constitui a estrutura básica dessa forma de oração que se deve respeitar sempre, abre, ao mesmo tempo, espaços para a criatividade sadia e para a adaptação responsável (IGLH 244-252).

As Laudes e as Vésperas

As Laudes e as Vésperas são as horas originais do Ofício e, nas últimas décadas, foi feito um esforço para reacender a centralidade delas.

Simbolismo

O progresso moderno alterou muito a relação entre o homem e a natureza, entre o ritmo da vida humana e as cadências naturais do universo. No entanto, o homem atual conserva viva sua sensibilidade diante da beleza do mundo visível, posta em destaque pela luz do amanhecer e pela chegada da tarde que se aproxima da escuridão da noite. A linguagem da criação, o dia que fala de luz e calor, de energia e de vida, e a noite que sugere frio, sono e morte, continua sendo inteligível para o homem moderno, secularizado e simbolicamente analfabeto. O dia e a noite, a luz e as trevas, terão sempre um significado dialético capaz de comover profundamente o coração humano.

Para os católicos, cuja visão de mundo se nutre em grande parte da Bíblia, esse simbolismo tem grande importância. A liturgia das Laudes e das Vésperas se nutre desse fato.

As Laudes como oração da manhã


As Laudes como oração da manhã têm um duplo significado: santificam o dia em seu começo e lembram com alegria a Ressurreição do Senhor.

1. "As laudes matutinas são dirigidas e orientadas para santificar a manhã, como se vê claramente em muitos de seus elementos. São Basílio expressa muito bem esse caráter matinal com as seguintes palavras: Ao começar o dia oramos para que os primeiros movimentos da mente e do coração sejam para Deus (...), e não empregamos nosso corpo no trabalho antes de praticar o que foi dito: 'Pela manhã ouves a minha voz, bem cedo te invoco e fico esperando' (Sl V, 4-5)" (IGLH 38a). Com efeito, na oração das Laudes, os fiéis, antes de iniciar as atividades do dia, dedicam a Deus todas as suas tarefas e buscam potencializar sua capacidade humana criativa com impulso santificador da graça divina.

Tudo o que o homem é e tudo o que o homem produz deve ser dedicado ao Senhor durante o dia, de modo que a graça divina seja o impulso contínuo da atividade humana. O trabalho aparece como uma colaboração com o Criador. Por outro lado, no começo do dia, quando o coração se alegra ao passar da escuridão para a luz, se pede que nosso espírito e nossa vida sejam um contínuo louvor ao Senhor, e que cada uma de nossas ações seja plenamente dedicada a ele.

2. As Laudes recordam a Ressurreição do Cristo, e o celebram como luz do mundo: "esta hora é celebrada ao despontar a luz do novo dia e evoca a Ressurreição do Senhor Jesus, que é a a luz da verdade que ilumina todo ser humano (Jo 1, 9); é o sol da justiça (Ml 4, 2) que nasce do alto (Lc 1, 78)" (IGLH 38b). A Páscoa do Senhor é comemorada diariamente na Eucaristia e nas Laudes; é comemorada a hora em que Cristo passou da escuridão para a luz, da morte para a vida, verdadeira epifania do Primogênito dentre os mortos (Colossenses I, 15, 18; Apocalipse I, 5); é comemorada a hora em que o Esposo sai do quarto nupcial (Salmo XVIII, 6) e se torna as primícias de uma nova humanidade (I Coríntios XV, 20).

Ao começar o dia, as Laudes fazem contemplar Deus como fonte de toda a luz (I João I, 5) e a Igreja pede para ser iluminada pela luz da Palavra divina que é Cristo. Sendo Cristo “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro” as Laudes invocam também Jesus Cristo que ilumina todo homem que vem a este mundo.

As Vésperas como oração do fim do dia


São três os grandes temas que a IGHL considera fundamentais na segunda grande oração do dia: a ação de graças, a memória da Redenção e a esperança da vida eterna.

1. A ação de graças, quando o dia já declina, é celebrada por aquilo "que nele temos recebido ou o bem que nele fazemos" (IGLH 39a). Com efeito, ao terminar o dia sobe a Deus a oferenda do trabalho, transformado em sacrifício espiritual, e se pede a Deus que continue sua ajuda, conceda o perdão dos pecados e deficiências do dia que termina.

2. A evocação do mistério pascal: "Relembramos também a nossa Redenção por meio da oração, que elevamos “como o incenso na presença do Senhor”, e na qual 'o levantar nossas mãos' é como 'sacrifício vespertino' (Sl 140, 2). Isso pode também 'entender-se no sentido mais sagrado daquele verdadeiro sacrifício vespertino que nosso Senhor e Salvador entregou aos apóstolos enquanto ceavam juntos ao instituir os sacrossantos mistérios da Igreja. Ou também aquele outro sacrifício vespertino, isto é, na plenitude dos tempos, pelo qual ele mesmo, no dia seguinte, estendendo as mãos, se entregou ao Pai pela salvação do mundo inteiro' (Cassiano)" (IGHL 39b).

Essa mesma relação entre Vésperas e o mistério pascal aparece expressa numa oração que, ambientada na cena dos discípulos de Emaús (Lucas XXIV, 13-32), coloca os orantes no contexto pascal e eucarístico da tarde do dia da Ressurreição (oração das Vésperas da segunda-feira IV). Por outro lado, as Vésperas das sextas-feiras das quatro semanas expressam com profunda inspiração bíblica, alusões claras à Paixão e Morte do Redentor.

3. Significado escatológico das Vésperas: "E para que nossa esperança se focalize afinal naquela luz que não conhece ocaso 'oramos e pedimos para que a luz venha de novo a nós, rogamos pela vinda gloriosa de Cristo o qual nos trará a graça da luz eterna' (São Cipriano)" (IGLH 39c). O tema da luz é contemplado ao avançarem as primeiras sombras da noite. O Senhor, “origem de toda luz” nas Laudes, aparece como “luz sem ocaso” nas Vésperas. É o momento de pedir o Senhor do dia e da noite que nos guarde e ilumine não somente para a vida presente, mas também para a eterna.

Estrutura da celebração

Já vimos um resumo da estrutura da celebração das Laudes e das Vésperas, agora podemos detalhar um pouco.

Em primeiro lugar, temos de ter em mente que ambas as celebrações são quase idênticas nos elementos que as integram e esses lhes conferem um dinamismo peculiar.

O início é marcado pela invocação "Vinde, ó Deus, em meu auxílio" (Salmo 69, 2), a doxologia glória ao pai e a aclamação aleluia, salvo na Quaresma. O hino "foi disposto de maneira a dar colorido próprio a cada hora..., a fazer com que comece com mais facilidade e encanto" (IGLH 42). Durante a introdução do Ofício, os fiéis e quem o preside estão em pé.

Nas Laudes, a salmodia compreende um Salmo, um cântico do Antigo Testamento e outro Salmo de louvor; cada um com suas antífonas respectivas. Nas Vésperas há dois Salmos e um cântico tirado das Epístolas ou do Apocalipse. Essa organização corresponde a antiga tradição romana. A assembléia está sentada.

A leitura breve "muda de acordo com o dia, o tempo e a festa. Deve ser lida e ouvida como verdadeira proclamação da Palavra de Deus, frisando algum pensamento bíblico. Ajudará a destacar alguns pensamentos breves que na leitura contínua da Sagrada Escritura poderiam passar (IGLH 45). Por outro lado, há liberdade para fazer uma leitura bíblica mais longa" (IGLH 46). A leitura pode ser seguida de uma homilia (IGLH 47), de silêncio (IGLH 48), e sempre do responsório.

O cântico evangélico, o Benedictus nas Laudes, e o Magnificat nas Vésperas, "ratificados pelo costume secular e popular da Igreja romana, expressam o louvor e a ação de graças pela redenção" (IGLH 50). Ambos os cânticos são, com efeito, uma síntese preciosa da história da salvação culminada em Cristo. São cantados em pé, porque são o Evangelho proclamado. As antífonas do cântico (tiradas muitas vezes do Evangelho da Missa) de Zacarias e do cântico de Maria têm uma importância e dignidade especiais e unem o Ofício à festa do dia ou ao templo litúrgico.

As preces são "tanto as intercessões que se fazem nas vésperas como as invocações que, para consagrar o dia a Deus, são feitas nas laudes" (IGLH 182). Significam um momento de intercessão comparável ao da oração dos fiéis na Missa, embora sejam feitas de modo distinto (IGLH 180). "Nas preces das vésperas, a última intenção será sempre pelos defuntos" (IGLH 186).

O Pai-Nosso, síntese e ápice de toda oração cristã, segundo antiga tradição "será rezado solenemente três vezes ao dia: na missa, nas laudes e nas vésperas" (IGLH 195).

A oração de conclusão, própria (a oração do dia da Missa) ou tirada do curso ferial do saltério das quatro semanas, completa as preces, dando o tom de toda a celebração.

Por fim, o ministro ordenado (sacerdote ou diácono), se houver, abençoa a assembléia e a despede, ou, diversamente, aquele que dirigiu a celebração pronuncia uma fórmula invocativa como despedida.

O Ofício das Leituras e a Vigília


A hora que se chama Ofício das Leituras representa a última etapa da prece noturna surgida na Igreja apostólica a exemplo de Jesus (Mateus XIV, 23 e 25; Lucas VI, 12) e de acordo com sua exortação à vigilância (Mateus XXVI, 41; Lucas XXI, 36). O ofício monástico compreendia vários noturnos (divisões); geralmente se iniciava em plena noite, antes do canto do galo, e durava até a aurora. Aos poucos, o começo foi sendo deslocado para esse momento – matuta, de onde vem o nome ad matutinum ou Matinas. O Vaticano II, na reforma que propôs, conservou esse caráter de vigília nos mosteiros (SC 89c). O Ofício de Leituras paulino "pode ser recitado em qualquer hora do dia, e, inclusive, à noite do dia anterior, depois de se haver celebrado as vésperas" (IGLH 59).

Significado

O nome corresponde à realidade. É ofício, isto é, celebração litúrgica, não simples exercício devocional; e de leitura, ou seja, de assimilação orante da Palavra de Deus – lectio divina. Por outro lado, essa hora responde bem à vontade do Vaticano II de fomentar o conhecimento e o amor à Escritura (SC 24, 35, 51; DV 25; PO 13). Assim, a base desse ofício são as leituras bíblicas, precedidas de Salmos e acompanhadas de textos dos Santos Padres ou de outros autores (IGLH 56).

O fundamento da leitura bíblica na Liturgia das Horas é duplo:

a) A tradição cristã que vem da prática da sinagoga.

b) O vínculo entre a leitura proposta pela Igreja e a celebração do mistério de Cristo e da obra da salvação no ano litúrgico.

Já a leitura patrística ou hagiográfica ressalta o fato de que "a finalidade dessa leitura" (bíblica) "é, antes de tudo, a meditação da Palavra de Deus como é entendida pela Igreja em sua tradição" (IGLH 163, 164).

"A leitura dos Padres leva os cristãos ao verdadeiro sentido dos tempos e das festividades litúrgicas, lhes torna acessíveis as riquezas espirituais da Igreja... e coloca ao alcance dos pregadores exemplos insignes" (IGLH 165). O ofício anterior, em especial na edição típica de João XXIII, mesmo com sua pretensão universalista, deixava a desejar neste aspecto: por exemplo, de 650 leituras não-bíblicas havia somente 24 dos Padres gregos.

Quanto à leitura hagiográfica, baseada na vida dos Santos, a Igreja a coloca nas celebrações destes para que os fiéis encontrem exemplo e estímulo no seguimento de Cristo; elas estão a serviço do culto dos Santos como o entende e vive a Igreja (LG 49-51; SC 8, 104). "Com o nome de leitura hagiográfica se designa o texto de algum Padre ou escritor eclesiástico que ou fala diretamente do santo cuja festividade se celebra ou que pode ser-lhe aplicado devidamente, ou um fragmento dos escritos do santo em questão, ou a narração de sua vida" (IGHL 166).

Estrutura da celebração

Este ofício se compõe, como vimos no esquema geral, do invitatório ou abertura, da salmodia, das leituras e da conclusão.

A abertura da celebração é semelhante à das outras horas. Mas se o Ofício de Leituras é celebrado antes das Laudes, tem uma forma mais solene, como acontece no início de todo ofício do dia (veja-se o ordinário da Liturgia das Horas em qualquer dos volumes).

Na salmodia temos "três salmos, ou fragmentos, quando os salmos correspondentes são mais longos" (IGLH 62). Esses Salmos já são uma primeira abordagem da leitura bíblica. Costumam ser Salmos narrativos ou meditativos, às vezes de caráter histórico (IGLH 104-107), de colorido penitencial nas sextas-feiras, ou de tonalidade pascal nos domingos. Nas grandes festas da Páscoa e do Natal, os Salmos escolhidos têm o crédito do uso litúrgico tradicional.

As leituras constituem o corpo central da celebração. Antes das leituras se diz o versículo, que as une com a salmodia. A primeira leitura, bíblica, é retirada normalmente do Próprio do Tempo (IGLH 248), exceto nas solenidades ou festas dos Santos, quando se tira do Próprio dos Santos ou do Comum. Às leituras seguem-se os responsórios, selecionados da Sagrada Escritura, de forma a darem nova luz para o entendimento dos textos lidos (IGLH 169-170).

Para concluir esta Hora, recita-se o Te Deum nos domingos fora da Quaresma, nas festas e solenidades do Natal e da Páscoa. O ofício termina sempre com a oração própria do dia e com a aclamação Bendigamos ao Senhor: Demos graças a Deus.

As vigílias


São um Ofício de Leituras prolongado, para o começo da celebração do domingo e das grandes solenidades como Páscoa, Natal, Pentecostes e outras. Na Liturgia das Horas paulina conservam o caráter de louvor noturno das Matinas. Seguem a ordem da celebração que descrevemos, acrescentando-se cânticos bíblicos e o Evangelho. Depois, faz-se a homilia, se for oportuno, e se termina com o Te Deum (IGLH 73).

A hora média e as Completas


A oração das nove (Terça), das doze (Sexta) e das quinze horas (Nona) estão entre as Laudes e as Vésperas, "pois os cristãos costumavam, por devoção pessoal, orar em diversos momentos do dia, e no meio do trabalho, imitando a Igreja apostólica. No decurso dos tempos, essa tradição, de diversas maneiras, foi sendo dotada de celebrações litúrgicas. O costume litúrgico, tanto no Oriente como no Ocidente, adotou a oração das nove (terça), das doze (sexta) e das quinze horas (nona), sobretudo porque essas horas se relacionavam com alguns acontecimentos da Paixão do Senhor e da pregação inicial do Evangelho" (IGLH 74-75).


O Concílio Vaticano II, não querendo eliminá-las na reforma que propôs, determinou que as três fossem conservadas no ofício coral, e que fora do coro se reduzissem a uma, a mais cômoda do dia (SC 89E). Por esse motivo, são chamadas horas médias.


A hora média, que visa à santificação do dia inteiro, estimula a espiritualidade do trabalho e recorda os momentos principais da Paixão de Cristo, como se pode ver, sobretudo, nos hinos e nas orações conclusivas do saltério das quatro semanas. Sua estrutura é muito simples: abertura, hino, salmodia com três Salmos ou fragmentos, leitura breve, versículo e oração conclusiva. Os que celebram as três horas, quanto aos Salmos, devem recorrer à salmodia complementar.


As Completas, por sua vez, "são a última oração do dia, que se rezam antes do descanso noturno, mesmo passada a meia noite" (IGLH 84). Na sua estrutura, semelhante a de outras horas, temos a possibilidade, pouco depois do começo, de fazer um breve exame de consciência e um breve ato penitencial (IGLH 86). A salmodia compreende um Salmo ou dois muito curtos, e é permitido recitar todos os dias os Salmos do domingo (IGLH 88).

Essa hora, concebida como uma verdadeira celebração, inclui uma bênção final, e termina, pondo fim ao curso diário do Ofício, com a antífona à Virgem Maria (IGLH 92).

Palavra final

Ficou clara a importância do Ofício Divino na vida católica, mas devemos lembrar algo: nem todos são chamados a essa forma de celebração e ela não invalida as devoções populares (como o Rosário). Não levar esses dois pontos em conta foi um dos grandes erros do movimento litúrgico.

Um dia vai ser fogo!


Ateus comunistas um dia vão morrer e aí... bem, aí vai ser fogo!

Nota sobre a estupidez anticlerical

Apresento mais uma contribuição do confrade Alfredo, agora uma postagem de blog que ele fez no ano passado na finada versão 2.0 de nossa comunidade do Orkut:

Amiúde vemos, aqui e alhures, psitacídeos anticlericais que, faltos d’uma argumentação minimamente consistente e coerente, vivem a trouxe-mouxe atacando a Igreja por dá cá aquela palha; disparando toda sorte de estultícias e parvoíces, e não raro recorrendo aos mais grosseiros chistes e patranhas, chegam às raias do mais rompante irracionalismo e da mais solerte ignorância ao torpemente negarem o óbvio ululante: a ingente, decisiva importância da Igreja para a civilização ocidental! Destarte, o móvel desta breve nova é demonstrar quão estólidas e disparatadas são tais cavilações.

A importância e influência da Igreja são de tal monta que não há, com efeito, sequer como propriamente mensurá-las com precisão, que dirá avaliá-las em detalhe... basta assinalar, creio eu, que o próprio "Ocidente" (ou, caso prefiram, a "civilização" / "cultura" ocidental), essa grande síntese dialética entre as tradições greco-romana e judaico-cristã, é obra forjada pela Igreja.

Na medida, pois, em que a Igreja forjou a grande síntese entre as tradições greco-romana e judaico-cristã, e com isso criou a própria noção de "Ocidente", bem como os alicerces de nossa civilização, ela fatalmente condiciona e determina todo o nosso universo conceitual. De maneira que o indivíduo ocidental, mesmo rompendo com a Igreja, permanece nos marcos do processo civilizacional que a Igreja instaurou. Ou seja, até mesmo para se posicionar contra a Igreja, o sujeito provavelmente terá de recorrer a um aparato conceitual que, em larga escala, foi gestado sob a égide da própria Igreja... ou seja, não há escapatória: mesmo contra a Igreja, estais inelutavelmente dentro dela! Aliás, vale também relembrar que ao longo dos séculos a Igreja tem acompanhado, em irônica e silente contemplação, as exéquias de inúmeros de seus pretensos coveiros...

De resto, a influência da Igreja é de tal modo multifacetada e abrangente, de tal maneira complexa e pervasiva, que se manifesta mesmo nos contextos aparentemente mais insuspeitos... desejais um exemplo? Sabeis qual foi uma das maiores influências de Lenin em sua concepção de partido revolucionário? Ninguém mais ninguém menos que Íñigo López de Loyola (1491 - 1556), mais conhecido como Santo Inácio de Loyola, fundador da Societatis Iesu, a celebérrima Ordem Jesuíta, assombrai-vos! Lenin tinha grande admiração pelos métodos de Loyola, que serviram como modelo de organização e código de conduta para a Companhia de Jesus, sem dúvida a mais disciplinada, aguerrida e eficaz ordem da história da Igreja Católica, os 'soldados da Igreja'. Assim sendo, Ullianov modelou o regimento interno do Partido Bolchevique, sobretudo em seu aspecto de máquina partidária monolítica e disciplinada, bem como integrada por revolucionários 'profissionais', a partir dos ordenamientos de Loyola.

Vede, portanto, diletos confrades, que esplêndida e emblemática ironia: o ínclito "santo guerreiro" exerceu significativa influência sobre a obra mais importante do famígero ateu materialista que fundou o bolchevismo e liderou a primeira revolução proletária da História!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Breves considerações sobre o ateísmo

A existência de Deus não é um dado apenas da fé, pois Ele é cognoscível naturalmente, ou seja, sua existência pode ser verificada por meio de provas racionais. Dessa forma, como explicar que haja ateus? Será verdade que existem? E, se existem, quais são as causas e conseqüências do ateísmo?

Ateu é o que não crê na existência de Deus.

Desta definição se vê que não devemos incluir no número dos ateus:

a) Os indiferentes, que põem de parte o problema da origem do mundo e da alma, e vivem sem preocupações acerca de seu destino. Ainda que esta disposição de espírito conduza ao ateísmo, os indiferentes não são ateus propriamente ditos.

b) Os agnósticos, para os quais Deus pertence ao domínio do incognoscível. Esta atitude equivale a um ceticismo religioso.

c) Muito menos devem ser tidos por ateus aqueles que ignoram quase por completo a religião e professam exteriormente o ateísmo, porque julgam essa atitude própria dos espíritos fortes, ou porque têm interesse de seguir a corrente do favoritismo oficial.

Portanto, devemos somente considerar como ateus os homens de ciência e os filósofos que, depois de ponderar maduramente as razões, pró e contra, da existência de Deus, optam pela negativa. Embora pouco numerosos proporcionalmente, os ateus têm um número crescente e geralmente atuam em conjunto com agnósticos.

As causas do ateísmo podem ser intelectuais, morais e sociais.

Causas intelectuais:

a) A incredulidade dos homens de ciência, deve atribuir-se ordinariamente a preconceitos e ao emprego de um método falso. É evidente que nunca poderão ultrapassar os fenômenos e atingir as substâncias se nesta  busca empregam o método experimental, que só admite o que pode ser objeto da experiência e ser observado pelos sentidos. Notem ainda que algumas fórmulas, por eles usadas, não são verdadeiras, pelo menos no sentido em que tomam. Por exemplo, quando alegam que a matéria é necessária e não contingente, invocam para o demonstrar a necessidade da energia e das leis. Ora, é bem claro que a palavra necessária neste caso é equívoca. A necessidade pode ser absoluta ou relativa. É absoluta, quando a não-existência encerra contradição; relativa quando a coisa em questão, na hipótese de existir, deve possuir tal ou tal essência, esta ou aquela qualidade, por exemplo: uma ave deve ter asas, sem elas já não seria ave. Como a energia e as leis são necessárias somente no sentido relativo, os materialistas erram em concluir que a matéria é o “Ser necessário no sentido absoluto”.

b) O ateísmo dos filósofos contemporâneos tem a sua origem no criticismo de Kant e no positivismo de Conte. Segundo os criticistas e os positivistas, a razão não pode chegar à certeza objetiva, nem conhecer as substâncias que se ocultam sob os fenômenos. Diminuindo assim o valor da razão, rejeitam todos os argumentos tradicionais da existência de Deus. Podemos, pois, dizer que a crise de fé, na maioria dos filósofos contemporâneos, é de fato uma crise da razão. Mas há de acontecer a esta o que acontece aos que estão injustamente detidos: será um dia reabilitada e retomará os seus direitos.

Causas morais:

a) A falta de boa vontade. Se as provas da existência de Deus fossem estudadas com mais sinceridade e menos espírito de crítica, não haveria tanta resistência à força dos argumentos. Também não se deve exigir dos argumentos mais do que eles podem dar: é evidente que a sua força demonstrativa, ainda que real e absoluta, não nos pode dar evidência matemática.

b) As paixões. A fé é um obstáculo para as paixões. Ora, quando alguma coisa nos incomoda, encontramos sempre motivos para nos afastar. “Há sempre no coração apaixonado, motivos secretos para julgar falso o que é verdadeiro... facilmente se crê o que muito se deseja; e quando o coração se entrega à sedução do prazer, o espírito abraça voluntariamente o erro que lhe dá razão” (Frayssinous, Defense du christianisme. L´ incrédulité dês jeunes gens). P. Bourget (Essai de psychologie contemporaine), refletindo sobre a realidade francesa, numa análise penetrante que faz da incredulidade, escreve as seguintes linhas: “O homem quando abandona a fé, desprende-se, sobretudo, duma cadeia insuportável aos seus prazeres... Nenhum daqueles, que estudaram nos nossos liceus e universidades, ousará negar que a impiedade precoce dos livres pensadores de capa e batina começou por alguma fraqueza da carne, seguida do horror de a confessar. Acode imediatamente a razão a aduzir argumentos (!!!) em defesa duma tese de negação, que já antes admitira por causa das necessidades da vida prática”.

Causas sociais:

a) A educação. Não é exagero dizer que as escolas neutras são um terreno excepcionalmente próprio para a cultura do ateísmo. A sociedade hodierna, em geral, caminha para o ateísmo porque assim o quer.

b) O respeito humano. Muitos têm medo de parecer crentes porque a religião já não é estimada em certos círculos influentes e temem cair no ridículo.

c) Os veículos de comunicação. Não aludo aos que são claramente imorais, mas aos que atacam disfarçadamente e continuamente os fundamentos da moralidade e, em nome de um pretendido progresso e de uma suposta ciência, querem fazer-nos crer que Deus, a alma e a liberdade são apenas palavras a encobrir quimeras.

Conseqüências do ateísmo:

O ateísmo, pelo fato de negar a existência de Deus, destrói radicalmente o fundamento da moral e dá origem às mais funestas conseqüências para o indivíduo e para a sociedade.

Para o indivíduo:

a) O ateu deixa-se arrastar pelas paixões mais facilmente. Se não há Deus, se não existe um Senhor Supremo que possa impor a prática do bem e castigar o mal, por que razão não se hão de satisfazer todos os apetites e correr atrás da felicidade terrena por todos os meios que estiverem ao alcance de cada um?

b) Além disso, o ateísmo priva o homem de toda a consolação, tão necessária nos reveses da vida.

Para a sociedade:

As conseqüências do ateísmo são ainda mais prejudiciais à sociedade. Suprimindo as idéias de justiça e de responsabilidade, o ateísmo leva os Estados ao despotismo e à anarquia, e o direito é substituído pela força. Se os governantes não vêem acima de si um Senhor que lhes pedirá contas da sua administração, governarão a sociedade segundo os seus caprichos. Mais ainda: os homens, na realidade, não são todos iguais nas honras, nas riquezas, nas situações e nas dignidades; ora, se não existe um Deus para recompensar um dia os mais deserdados da fortuna, que cumprem animosamente o seu dever e aceitam com resignação as provas da vida, por que não haveriam de se revoltar contra um mundo e uma sociedade injusta e reclamar para si, a todo custo, o seu quinhão de felicidade e prazer?

Neo-ateísmo

Pelo que foi dito, fica claro como o estranho fenômeno do neo-ateísmo  (um ateísmo militante) deve gerar preocupação. De fato, temos mais uma faceta do movimento revolucionário, que instrumentaliza as massas incultas e infantilizadas pela "cultura do coitadismo". Nesse sentido, tendo em vista o tipo de absurdos que recentemente foram escritos neste blog, proponho para os amigos e leitores os seguintes textos que desvendam de vez a ilusão do neo-ateísmo:

1. Por que estudar o neo-ateísmo? 

2. A interpretação delirante e a mente revolucionária

3. Marxismo cultural

4. A engenharia da subversão

5. Estratégia gramsciana

6. A origem da picaretagem intelectual

7. Lavagem cerebral e reforma do pensamento

8. O ilusionismo neo-ateísta

9. O neo-ateísmo como subproduto de outra coisa

10. Suicídio intelectual

E, para terminar, um apanhado das estratégias e cacoetes mentais dos neo-ateus em debates:

Conhecendo o inimigo

Sobrevivente de um aborto

Gianna Jessen sobreviveu a um aborto por envenenamento salino. Deveria estar morta, mas milagrosamente sobreviveu. Nesse discurso, na Austrália, Gianna nos comove com o exemplo de sua vida. Diga NÃO ao aborto! 



segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Tiara de João Paulo II

Vocês sabiam que João Paulo II teve uma tiara? Ela foi dada de presente a ele em 1981 pelos católicos da Hungria e nunca foi usada.

Deísmo e Teísmo

O leitor Lucas perguntou:

"Qual a diferença entre deísmo e teísmo?"

Caríssimo, os dois termos não são sinônimos.

Deísmo: vem do latim deus e representa a postura dos filósofos que rejeitam a existência de Deus, tal como apresentado pelas religiões monoteístas, mas admitem a existência de um Ser supremo, de caráter indeterminado. Pode-se falar também de religião natural. Voltaire é certamente o melhor exemplo e deísta.

Teísmo: vem do grego théos e representa aquelas maneiras de pensar, inclusive filosóficas, que afirmam a existência de um Deus pessoal. Em outros termos, para essas maneiras de pensar, Deus é um Ser que, apesar de diferente da pessoa humana, conhece perfeitamente a vida dos humanos, por ter sido seu criador e por dialogar com eles. Essa concepção funda-se na noção de pessoa, que foi especialmente desenvolvida por filósofos gregos convertidos ao catolicismo. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Por que a religião está vencendo?

"Os vigorosos, os saudáveis e os felizes sobreviverão e se multiplicarão" 

(Charles Darwin - A origem das espécies)

Muito se falou no século passado sobre a formação de um mundo sem religião. Isso, que não passava de um delírio, foi desmentido pelos fatos. Em quase todo o planeta vemos o crescimento da prática religiosa. Mesmo para a Europa, que muitos gostam de ver como um continente secularizado, isso é uma verdade, pois só há vigor social ali nos bolsões que continuaram cristãos ou entre as massas que são ou estão aderindo ao Islã. De maneira global, o cristianismo deverá ter uma explosão de crescimento mundial nos próximos cem anos (Phillip Jenkins- A Próxima Cristandade), mas a vasta maioria dos fiéis não será branca nem européia, nem tampouco euro-americana. Hoje, por exemplo, o anglicano típico não é um homem inglês, mas uma mulher mulher nigeriana.

Nesse quadro, apresento para reflexão mais um texto de Dinesh D´Souza (o capítulo 2 de sua obra A verdade sobre o cristianismo): 

Por que a religião está vencendo?

O constante crescimento da religião por todo o mundo não passou despercebido pelos principais ateístas. Alguns desses não-cristãos, darwinistas em sua maioria, expressam uma perplexidade espontânea diante da persistente vitalidade da religião. Esses darwinistas estão convencidos de que deve haver alguma explicação biológica para o fato de que, em toda cultura desde o início da história, o homem ter encontrado e ainda encontrar consolo na religião. O biólogo Richard Dawkins confessa que a religião propõe um "grande quebra-cabeças para qualquer pessoa que pense de modo darwiniano".

Pela perspectiva evolucionista, este é o ponto. Estudiosos como o antropólogo Scott Atran entendenm que as crenças religiosas nada mais são do que ilusões. Atran afirma que a crença religiosa exige considerar "o que é materialmente falso como verdadeiro" e "o que é materialmente verdadeiro como falso". Atran e outros acreditam que a religião exige um comportamento com "mundos efetivamente impossíveis". A pergunta, então, é: por que os humanos evoluiriam de tal maneira que viessem a acreditar no que não existe?

O filósofo Daniel Dennett discorre com clareza sobre o problema: "A medida definitiva do valor evolutivo é a adaptação - a capacidade de reproduzir-se de forma mais bem-sucedida do que os competidores". Contudo, diante disso, a religião parece inútil do ponto de vista evolutivo. Além de custar tempo e dinheiro, induz seus membros a minar seu bem-estar por meio de sacrifícios pelo bem dos outros, às vezes estranhos completos.

Religiosos constroem catedrais e pirâmides que têm muito pouca utilidade, exceto como lugares para adorações e funerais. Os antigos hebreus sacrificavam seus bezerros mais gordos a Deus, e até hoje pessoas sacrificam bodes e galinhas sobre altares. Religiosos às vezes se abstém de determinadas comidas - a vaca é sagrada para os hindus e o porco é profano para os muçulmanos. Os cristãos dão dízimos e ofertas financeiras na igreja. Os judeus guardam o sábado como um dia sagrado, enquanto os cristãos guardam o domingo para a igreja. Religiosos recitam preces e fazem peregrinações. Alguns se tornam missionários ou dedicam a vida a servir aos outros. Outros até se dispõem a morrer por suas crenças religiosas.

O biólogo evolucionista está perplexo: por que criaturas evoluídas como os seres humanos, empenhados na sobrevivência e reprodução, fariam coisas que parecem incompatíveis com esses objetivos e até prejudiciais a eles? Esta é uma questão importante, não só porque a religião propõe um dilema intelectual para os darwinistas, mas também porque os darwinistas esperam, ao explicar a existência da religião, conseguir expor suas raízes naturais e sabotar sua autoridade sobrenatural. O biólogo E. O. Wilson escreve que "chegamos ao estágio crucial na história da biologia em que a própria religião está sujeita às explicações das ciências naturais". Wilson expressa a esperança de que, em um futuro próximo, "a vantagem decisiva desfrutada pelo naturalismo científico venha de sua capacidade de explicar a religião tradicional, sua principal concorrente, como um fenômeno totalmente físico". 

Assim, até onde essas teorias evolucionistas avançaram no sentido de explicar o sucesso da religião? "A causa imediata da religião talvez seja a hiperatividade em uma conexão no cérebro", escreve Dawkins. Ele também especula que "a idéia de imortalidade sobrevive e contagia porque faz eco ao pensamento positivo". Mas, na cosmovisão evolucionista, não faz sentido que a mente desenvolva crenças reconfortantes que evidentemente são falsas. O psicólogo cognitivo Steven Pinker explica: "Quem morre de frio não encontra conforto em acreditar que está aquecido. Quem se encontra frente a frente com um leão não relaxa por causa da convicção de que ele é um coelho". O pensamento positivo desta natureza rapidamente teria desaparecido uma vez que seus praticantes congelassem ou fossem devorados.

Contudo, a própria solução de Pinker para o problema não é melhor que a de Dawkins. Ele sugere que talvez haja um "módulo Deus" no cérebro que predisponha as pessoas a acreditarem no Todo-poderoso. Tal módulo, escreve Pinker, talvez não sirva para fins de sobrevivência, mas poderia ter evoluído como um subproduto de outros módulos com valor evolutivo. Esta é outra maneira de dizer que não há explicação darwiniana. Afinal, se um "módulo Deus" produz crença em Deus, que tal um "módulo Darwin" que produz crença na evolução?

Não obstante, a questão levantada pelos darwinistas não é insensata. Biólogos como Dawkins e Wilson apenas insistem na existência de alguma explicação natural e evolutiva para a universalidade e a persistência da crença religiosa, e eles estão certos. Existe tal explicação, e fico feliz em apresentar uma neste capítulo. O reverendo Randy Alcorn, fundador do Eternal Perspective Ministries, em Oregon, às vezes apresenta às suas platéias duas versões da criação e pergunta-lhes se interessa saber qual delas é verdadeira. Na história secular, "você descende de uma célula minúscula do protoplasma original levado pelas ondas a uma praia deserta há três bilhões e meio de anos. Você é o produto cego e arbitrário do tempo, do acaso e das forças naturais. Você é um mero amontoado de partículas atômicas, um conglomerado de material genético. Você existe em um planeta minúsculo em um sistema solar minúsculo, em um canto escuro de um Universo sem significado. Você é uma entidade puramente biológica, diferente apenas em nivel, mas não em espécie, de um micróbio, vírus ou ameba. Você não tem essência além de seu corpo e, na morte, você deixará de existir por completo. Em sua, você veio do nada e não vai para lugar algum".

Na visão cristã, em contrapartida, "você é uma criação especial de um Deus bom e todo-poderoso. Você foi criado à imagem dele, e com uma capacidade de pensar, sentir e adorar que o coloca acima de todas as outras formas de vida. Você difere dos animais não somente em nível, mas em espécie. Sua espécie não só é única, mas você é único dentre os de sua espécie. Seu Criador ama tanto você e deseja sua companhia e afeição de forma tão intensa que tem um plano perfeito para sua vida. Além disso, Deus deu a vida de seu único Filho para que você pudesse passar a eternidade com ele. Se você estiver disposto a aceitar o dom da salvação, poderá se tornar um filho de Deus". 

Agora imagine dois grupos de pessoas - vamos chamá-los de tribo secular e tribo religiosa - que apóiam essas duas visões de mundo. Qual das duas tribos tem mais chance de sobreviver, prosperar e se multiplicar? A tribo religiosa é formada por pessoas que têm um senso animador de propósito. A tribo secular é formada por pessoas que nem sabem ao certo por que existem. A tribo religiosa é composta de indivíduos que consideram importante cada um de seus pensamentos e ações. A tribo secular é formada por uma matéria que não pode sequer explicar por que é capaz de pensar.

Evolucionistas como Dennett, Dawkins, Pinker e Wilson deveriam ficar surpresos, então, por testemunhar o crescimento das tribos religiosas? Em todo o mundo, os grupos religiosos atraem um número impressionante de seguidores, e os religiosos demonstram confiança em seu estilo de vida e no futuro ao terem mais filhos. Em contrapartida, as convenções ateístas arrastam apenas um punhado de pessoas amarguradas. Uma das maiores organizações ateístas, Ateístas Americanos, tem cerca de 2.500 membros. Jogue uma pedra no estacionamento de uma universidade de elite norte-americana ou européia e você terá uma boa chance de acertar um ateísta. Mas jogue uma pedra em qualquer outro lugar e você, na verdade, terá de fazer pontaria. 

O ponto essencial não é só que os ateístas são incapazes de competir com a religião em se tratando de atrair seguidores, mas também que o estilo de vida do ateísmo prático parece produzir tribos apáticas que não podem sequer se reproduzir. Os sociólogos Pippa Norris e Ron Inglehart observam que muitos países mais ricos e mais seculares estão "gerando cerca de metade do número de crianças necessário para repor a população adulta", enquanto muitos países mais pobres e mais religiosos estão "gerando duas ou três vezes mais o número de crianças necessário para repor a população adulta". A consequência, tão previsível que poderíamos quase chamá-la de lei, é que "a população religiosa está crescendo rapidamente, enquanto o número secular está diminuindo".

A Rússia é um dos países mais ateístas do mundo, e os abortos nesse país excedem o número de nascimentos vivos em uma razão de dois para um. (...) O Japão, talvez o país mais secular da Ásia, também está em uma espécie de dieta populacional: espera-se que seus 130 milhões de habitantes caiam para algo em torno de cem milhões nas próximas décadas. Canadá, Austrália e Nova Zelândia encontram-se em uma crise similar. 

E então temos a Europa. O continente mais secular do mundo é decadente no sentido muito literal de que a população está diminuindo rapidamente. As taxas de natalidade estão extremamente baixas em países como França, Itália, Espanha, República Tcheca e Suécia. Os países da Europa Ocidental, hoje, mostram algumas das taxas de natalidade mais baixas já registradas, e as taxas de natalidade na Europa Oriental são comparativamente baixas. Historiadores têm observado que a Europa está sofrendo a redução mais comprovada em sua população desde a Peste Negra no século 14, quando um em cada três europeus sucumbiu à doença. Sem a forte identidade religiosa que antes caracterizava a cristandade, a Europa ateísta parece ser uma civilização que está de partida. Nietzsche predisse que a decadência européia produziria um miserável "último homem" destituído de qualquer propósito além de tornar sua vida confortável e estabelecer critérios para a fornicação regular. Bem, o "último homem" de Nietzsche finalmente está aqui, e seu nome é Sven [nome nórdico que significa "jovem"].

Eric Kaufmann observou que, nos Estados Unidos, onde os altos níveis de imigração ajudaram a compensar as taxas de natalidade decrescentes dos norte-americanos, as taxas de natalidade entre pessoas religiosas são quase duas vezes maiores do que aqueles entre pessoas seculares. Essa tendência também foi observada na Europa. O que isso significa é que, por uma espécie de seleção natural, é provável que o Ocidente siga em uma direção mais religiosa. Essa tendência provavelmente acelerará se as sociedades ocidentais continuarem a importar imigrantes de sociedades mais religiosas, sejam eles cristãos ou muçulmanos. Portanto, podemos esperar que até as regiões mais seculares do mundo, pela lógica pura da demografia, tornem-se menos seculares ao longo do tempo. 

Nas décadas anteriores, os estudiosos tentaram elaborar uma explicação puramente econômica para as tendências demográficas. A idéia geral ea de que a população era uma função de afluência. Os sociólogos observaram que, à medida que enriqueciam, as famílias optavam por menos crianças, fenômeno observável também no nível global. Presumivelmente, as sociedades primitivas precisavam de crianças para ajudar nos campos, e as sociedades mais prósperas não mais. Acreditava-se também que famílias pobres tivessem mais filhos porque o sexo oferecia um de seus únicos meios de recreação. Além disso, muitas vezes desconhecem métodos de contracepção ou não têm acesso a eles. Por essa perspectiva, explicam-se as famílias grandes como um fenômeno de pobreza e ignorância.

Essa explicação econômica é, em parte, verdadeira, mas falha em não apresentar o quadro todo. Muitas famílias pobres optam conscientemente por mais filhos, mesmo quando têm acesso a métodos contraceptivos e ingresso para cinema. Sem dúvida, são mais economicamente dependentes de seus filhos, mas, por outro lado, pessoas ricas podem sustentar mais filhos. As pessoas abastadas nos Estados Unidos, hoje, têm um filho ou não têm filhos, mas as famílias abastadas do passado costumavam ter três ou mais filhos. A verdadeira diferença não está simplesmente na renda - mas sim que, no passado, os filhos eram valorizados como dádivas de Deus, e as culturas tradicionais ainda os vêem assim. 

Os países muçulmanos, com seus rendimentos provenientes do petróleo, não são, de modo algum, os mais pobres do mundo e, não obstante, estão entre os que têm as mais altas taxas de natalidade. Católicos praticantes, judeus ortodoxos, mórmons e protestantes evangélicos não são, de modo algum, os grupos mais pobres dos Estados Unidos e, não obstante, têm famílias grandes. Fatores claramente religiosos estão atuando aqui. As taxas decrescentes de natalidade no Ocidente como um todo, em boa parte, devem-se à secularização. (...)

Os profetas econômicos do desaparecimento da religião provaram ser falsos. Não só a religião está prosperando, mas está prosperando porque ajuda das pessoas a se adaptarem ao mundo e a sobreviverem nele. Em seu livro Darwin´s Cathedral [A Catedral de Darwin], o biólogo evolucionista David Sloan Wilson argumenta que a religião oferece algo que a sociedade secular não oferece: uma visão transcendente de propósito. Consequentemente, os religiosos desenvolvem um apreço pela vida que é, de certo modo, contrário à natureza, demonstrando uma esperança incomum em relação ao futuro. Além disso, forjam princípios de moralidade e de caridade que simplesmente as tornam mais coesas, adaptáveis e bem-sucedidas do que grupos cujos membros deixam de lado essa permanente e encorajadora força. 

Minha conclusão é que não é a religião, mas o ateísmo que requer uma explicação darwiniana. O ateísmo é um pouco semelhante à homossexualidade: não se sabe ao certo onde encaixá-lo em uma doutrina de seleção natural. Por que a natureza escolheria pessoas que acasalam com outras do mesmo sexo, um processo sem nenhuma vantagem reprodutiva? Parece igualmente intrigante por que a natureza iria produzir um grupo de pessoas que não vêem um propósito maior para a vida ou para o Universo. É aqui que o conhecimento biológico de Dawkins, Pinker e Wilson poderia provar-se iluminador. Talvez eles possam voltar suas lentes darwinianas para si mesmos e ajudar-nos a entender de que forma o ateísmo, assim como o cóccix humano e o polegar do panda, de algum modo sobreviveu como uma sobre evolucionária de nosso passado evolutivo.

A fantástica fábrica dos clones!

Bíblia: rezar pelos mortos é santo e salutar

Recebi a seguinte pergunta do confrade Romualdo:

"O que a Bíblia fala sobre rezar pelos mortos?"

Meu caro, a Bíblia ensina que é santo e salutar rezar pelos mortos.

No 2º livro de Macabeus (II Macabeus, 43-45) temos:

"Depois, tendo organizado uma coleta [Judas Macabeu], enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata, a fim de que se oferecesse um sacrifício pelo pecado: agiu assim absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse sacrifício expeiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado."

São Paulo, na 2º Epístola a Timóteo (II Timóteo, I, 18), assim ora a Deus pelo amigo Onesíforo:

"Que o Senhor lhe conceda achar misericórdia junto ao Senhor naquele Dia."

Comparando os versículos 15 a 18 do capítulo I dessa epístola, com o versículo 19 do capítulo IV da mesma carta, vê-se que Onesíforo já era morto, porque nesses textos o Apóstolo se refere nominalmente a outras pessoas, e quando seria o caso de nomear Onesíforo, seu grande amigo e benfeitor, ele não o faz, mas só se refere "à família" de Onesíforo. Dai se conclui que ele não era mais do número dos vivos. E São Paulo reza por ele, pedindo que o Senhor tenha dele misericórdia.

É bom notar: reza-se pelos mortos porque a Sagrada Escritura e toda a Santa Tradição nos informam da existência do Purgatório. 

Purgatório é o lugar de purificação em que as almas dos justos, que não se santificaram suficientemente neste mundo, hão de completar a sua purificação, "por intervenção do fogo", para serem admitidas no Céu, "onde nada de impuro entrará" (Apocalipse XXI, 27). É, pois, o lugar em que as almas dos que morrem na amizade de Deus (estado de graça), mas com alguma dívida, por culpas leves, ou por culpas graves já perdoadas, mas não suficentemente expiadas, se purificam inteiramente para entrar na visão e posse de Deus. Ali gozarão para sempre da sua perfeita felicidade na glória celeste. Agora, só a alma. E depois da ressurreição da carne, todo seu ser.

Alguém, então, pode questionar: a Bíblia fala desse lugar de purificação?

Sim:

1) Um fogo que salva - na 1º Epístola de São Paulo aos Coríntios (I Coríntios III, 11-15) lemos: "Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso do que foi posto: Jesus Cristo. Se alguém sobre esse fundamento constrói com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um será posta em evidência. O Dia a tornará conhecida, pois ele se manifestará pelo fogo e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída sobre o fundamento subsistir, o operário receberá uma recompensa. Aquele, porém, cuja obra for queimada perderá a recompensa. Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que atavés do fogo."

2) O perdão na outra vida - o próprio Jesus Cristo ensinou, no Evangelho de São Mateus (Mateus XII, 32): "Se alguém disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado, mas se disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem nesta era, nem na outra."

O Divino Mestre, portanto, ensina que há algo relacionado ao pecado que será perdoado também na outra era, isto é, após a morte.

3) Uma prisão temporária - Nosso Senhor, segundo São Mateus (Mateus V, 25-26), exorta à reconciliação com os irmãos nesta vida "...para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao guarda e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo."

É evidente que esta prisão temporária, lugar de perdão na outra vida, através de um fogo que purifica e salva, não pode ser o Céu, "onde nada de impuro entrará" (Apocalipse XXI, 27), nem o Inferno, onde não há redenção e o fogo é eterno (Mateus XXV, 41).

Só resta que esses textos se refiram a um lugar intermediário, transitório e de expiação, que a Igreja, com toda a propriedade, chama de Purgatório, embora essa palavra não esteja na Bíblia. Sua realidade é que está.

Temos de admitir, portanto, com a Sagrada Escritura, a existência desse lugar de purificação que a Sabedoria de Deus, na sua infinita bondade, inventou para conciliar as exigências da sua justiça divina com as da sua misericórdia. Estão, pois, em erro os que só admitem a existência do Céu e do Inferno, e, com isso, não rezam pelos mortos.

Podemos e devemos fazer orações e sacrifícios pelos mortos em geral. Devemos rezar por todas as almas, porque não sabemos com certeza quais estão realmente precisando e em condições de receber os méritos impetrados por nossas ações em favor delas. Estas, sobretudo a Santa Missa que fizermos celebrar, não ficarão sem efeito, pois o Senhor saberá aplicá-las às almas mais necessitadas (além de que, com isso, prestamos a Deus as homenagens que Lhe devemos).

Anexos:


Como encontrei o Super-Homem

Tenho o pazer de apresentar aos amigos deste blog um texto de Chesterton, traduzido pelo confrade Alfredo.

Como encontrei o Super-Homem

G. K. Chesterton

Daily News, 1909

Os leitores do Sr. Bernard Shaw e outros autores contemporâneos talvez julguem interessante saber que o Super-Homem foi encontrado; eu o encontrei: ele vive em South-Croydon. Meu triunfo será um grande golpe para o Sr. Shaw, que no momento está procurando pela criatura em Blackpool; e no que tange à tentativa do Sr. Wells em gerar o Super-Homem a partir de gases químicos num laboratório, sempre a considerei condenada ao fracasso. Posso assegurar ao Sr. Wells que o Super-Homem de Croydon nasceu de modo ordinário, malgrado em si mesmo não seja, claro está, nada menos que algo extraordinário.

Tampouco seus pais são indignos do maravilhoso ente que trouxeram ao mundo. O nome de Lady Hypatia Smythe-Brown (atualmente Lady Hypatia Hagg) jamais será esquecido no East End, onde realizou um esplêndido trabalho social; seu renitente brado de "salvem as crianças!" referia-se à cruel negligência para com a visão dos pequenos em permitir que se divertissem com brinquedos toscamente pintados. Costumava citar estatísticas irreprocháveis, no intuito de provar que crianças com permissão para lidar com objetos em tom escarlate ou violeta frequentemente sofriam de vista cansada na velhice; e foi devido à sua incessante cruzada que a praga do 'macaco-na-vareta'* foi quase eliminada de Hoxton.

A devotada ativista percorria as ruas incansavelmente, confiscando brinquedos às crianças pobres, que não raro debulhavam-se em lágrimas graças à sua bondade. O bom trabalho que desenvolvia fora, contudo, interrompido, em parte por seu recente interesse pelo credo de Zaratustra, em parte pela violenta pancada de um guarda-chuva; o golpe foi-lhe infligido por uma irlandesa depravada, vendedora de maçãs, que retornando de alguma orgia para seu descuidado apartamento, encontrou Lady Hypatia no quarto retirando um oleógrafo da parede, o qual, para dizermos o mínimo, decerto não contribuía para a elevação do espírito.

A ignara e semi-embriagada celta então desfechou um rude golpe à reformadora social, ao que ainda acrescentou uma absurda acusação de roubo. A mente perfeitamente equilibrada de Lady Hypatia ficou em estado de choque; e foi durante esta breve alienação mental que ela casou-se com o Dr. Hagg.

Creio que a figura do Dr. Hagg dispensa maiores comentários: qualquer um remotamente familiarizado com os ousados experimentos em eugenia neo-individualista, que hoje constituem um dos maiores interesses da democracia inglesa, deve conhecer seu nome e recomendá-lo à proteção pessoal de um poder impessoal. Muito cedo na vida desenvolveu uma visão brutal da história das religiões, que adquiriu na mocidade como engenheiro-eletricista. Tornou-se mais tarde um de nossos maiores geólogos, adquirindo aquela profunda e luminosa visão a respeito do futuro do socialismo que tão somente a geologia pode proporcionar.

A princípio parecia haver algo como um descompasso, uma sutil mas perceptível fissura, entre suas concepções e as de sua aristocrática esposa: ela era favorável (para lançarmos mão aqui de seu marcante epigrama) a proteger os pobres contra si mesmos, ao passo que ele, numa nova e poderosa metáfora, advogava o fuzilamento dos mais fracos. 

Todavia, ao fim e ao cabo o casal percebeu a existência de uma conjunção essencial no caráter insofismavelmente moderno de ambas as visões de mundo; e nesta instrutiva e abrangente conclusão suas almas encontraram a paz de espírito. O facto é que esta união entre os dois tipos mais evoluídos de nossa civilização - a sofisticada aristocrata e o invulgar homem de ciência - foi abençoada pelo nascimento do Super-Homen, aquele ser por quem todos os trabalhadores de Battersea aguardavam ansiosamente, noite e dia.

Encontrei a residência dos Hagg sem maiores dificuldades; está situada numa das ruas mais afastadas de Croydon, e encoberta por uma fieira de álamos. Cheguei à porta lá pelo entardecer, e é compreensível que fantasiosamente divisasse algo de lúgubre e monstruoso na indistinta mole da casa que abrigava um ser mais extraordinário que os filhos dos homens. Ao entrar fui recebido com admirável cortesia por Lady Hypatia e seu marido. Tive, no entanto, enorme dificuldade para propriamente ver o Super-Homem, que hoje tem por volta de 15 anos, e é mantido solitário num aposento tranqüilo; mesmo a conversa que entretive com seus pais não logrou esclarecer a natureza da misteriosa criatura. Lady Hypatia, com suas feições lívidas e pungentes, envolta por aqueles inefáveis e patéticos tons de verde e cinza com os quais alegrara tantos lares em Hoxton, parecia falar sobre seu rebento sem o mais mínimo laivo da reles vaidade que sói caracterizar uma mãe comum. Arrisquei-me então a perguntar se o Super-Homem tinha uma aparência agradável.

"Veja, ele estabelece seus próprios parâmetros", ela respondeu, com um leve suspiro. "Em seu plano existencial é superior a Apolo; visto a partir de nosso plano inferior, obviamente...". E novamente suspirou. 
Movido por um terrível impulso, de súbito perguntei: "ele tem algum tipo de cabelo?"

Houve um silêncio longo e doloroso, e então o Dr. Hagg disse suavemente: "tudo em seu plano existencial é diferente; o que ele tem não é... bem, não é o que denominamos 'cabelo', claro está, mas..."

"Não te parece", atalhou sua mulher, muito delicadamente, "não te parece que deveríamos, à guisa de uma justificativa, denominar aquilo como 'cabelo' quando estivermos palestrando com terceiros?"

"Talvez estejas correta", replicou o doutor após refletir por alguns momentos, "tendo em vista um cabelo como aquele, deve-se falar através de parábolas".

"Bem, que diabos é então", perguntei com alguma irritação, "se não for cabelo? Seriam penas?"

"Não, penas não, não do modo que as concebemos", respondeu Hagg num tom de voz medonho.

Levantei-me agastado. "Afinal, será que posso vê-lo?", perguntei. "Sou um jornalista, e não tenho motivos mundanos, exceto curiosidade e vaidade pessoal. Gostaria de poder dizer que apertei a mão do Super-Homem".

Marido e mulher ergueram-se pesadamente, muito constrangidos.

"Bem, como o senhor decerto sabe", disse Lady Hypatia, com seu de facto encantador sorriso de anfitriã aristocrática, "não se pode exatamente apertar-lhe as mãos... não as mãos, o senhor compreende... a estrutura, é óbvio..." 

Rompi então com todas as convenções sociais, e corri para a porta do cômodo que me parecia abrigar a inaudita criatura; a abri de supetão. O quarto estava imerso em total escuridão; mas à minha frente escutei um breve guincho lamentoso, e por detrás um duplo gemido.

"O senhor conseguiu, enfim!", gritou o Dr. Hagg, enterrando a fronte calva entre as mãos. "Deixou entrar uma corrente de ar, e agora ele está morto".

Enquanto me afastava de Croydon naquela noite, vi homens de preto carregando um ataúde de formato inumano. O vento uivava sobre minha cabeça, fazendo turbilhonar os álamos, que se inclinavam e acenavam como penachos num funeral cósmico.

"De facto", disse o Dr. Hagg, "é o universo inteiro pranteando a morte de sua mais magnífica criatura". Não obstante, julguei perceber a presença de um assovio gargalhante no agudo bramir do vento.

*brinquedo popular entre as crianças inglesas na época.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Idade Média: idade da luz

Com o advento do Iluminismo (o Iluminismo da Europa continental, diferente do anglo-saxônico) a inteligência humana passou por um obscurecimento, uma degradação sem igual. Entramos, com muita propriedade, naquele tempo que o calendário hindu chama de Kali Yuga, a era do vício. E, sem dúvida, um dos maiores conjuntos de vícios que temos hoje é o dos vícios intelectuais; as pessoas (como ficou patente num recente debate neste blog) preferem refletir segundo os modelos que aprenderam, com os quais se acostumaram, que se lançar em busca da Verdade. Tristes dias os nossos onde slogans valem mais que fatos.

Nesse sentido, se entende porque a Idade Média é alvo de tanto preconceito (uso essa palavra no seu significado correto, de conceito prévio): ninguém quer, realmente, estudá-la como ela foi. Mas, para os que resistem a tudo isso, o "pequeno rebanho" que salga o mundo, apresento uma aula de Orlando Fedeli onde ele procura desmascarar muitos dos mitos historiográficos e culturais lançados pelos filhos intelectuais de Voltaire:













Tudo muda, menos o Homem

Eu não tenho dúvidas de que o Mundo se transforma, sob alguns aspectos, a nossos olhos, e também não as tenho de que nesse mundo, em que tudo se modifica, o que menos muda é o próprio Homem. E isso quer dizer que, passada a tormenta, é outra vez do Espírito e dos seus valores que os povos esperam a cura das feridas e o estabelecimento das condições da sua vida pacífica.

Antônio de Oliveira Salazar

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Gradual

Pergunta recebida do leitor Fernando:

"O que é o gradual na Missa? Sei que ele existe no rito gregoriano, também existe no rito paulino?"

(Graduale cisterciense)

Respondo usando o que aprendi com o confrade Karlos do Orkut. 

Gradual é, no rito tradicional, como o Salmo Responsorial do rito novo, entendeu?

No rito gregoriano, depois da Epístola, faz-se o Gradual (que é móvel dependendo da celebração), e que, geralmente,  nada mais é que um versículo de um Salmo.

Depois segue-se o Aleluia (que é o canto de aclamação ao Evangelho); só que desde a Septuagésima, Tempo da Paixão e outros tempos que eu esqueci no momento, não se pode dizer aleluia, por isso o canto do Aleluia é substituído pelo Tracto.

Como exemplo, cito a Missa do Comum dos Doutores:

A Epístola é essa: II Timóteo IV, 1-8.

Gradual: Salmo XXXVI, 30-31. Os justi meditábitur sapiéntiam, et lingua ejus loquétur judícium. ℣. Lex Dei ejus in corde ipsíus: et non supplantabúntur gressus ejus.

Aleluia: Allelúja, allelúja. ℣. Eclesiástico XLV, 9. Amávit eum Dóminus, et ornávit eum: stolam glóriæ índuit eum. Allelúja.

Tracto: Salmo CXI, 1-3. Beátus vir, qui timet Dóminum: in mandátis ejus cupit nimis. ℣. Potens in terra erit semen ejus: generátio rectórum benedicétur. ℣. Glória et divítiæ in domo ejus: et justítia ejus manet in sǽculum sǽculi.

Só se diz o Tracto nos tempos que eu disse, como afirma o Missal: "Post Septuagesimam, omissis Allelúja et Versu sequenti, dicitur".

No Tempo Pascal, se omite o Gradual e se faz o duplo Aleluia (o Aleluia "normal" acrescido de outro versículo). Que no caso do Comum dos Doutores é (Tempore autem Pascháli emittitur Graduale, et ejus loco dicitur):

Allelúja, allelúja. ℣. Eclesiástico XLV, 9. Amávit eum Dóminus, et ornávit eum: stolam glóriæ índuit eum. Allelúja. ℣. Oséias XIV, 6. Justus germinábit sicut lílium: et forébit in ætérnum ante Dóminum. Allelúja.

Já no rito paulino, para o canto gregoriano, usa-se o Gradual. Para o canto polifônico e popular, a letra do Gradual ou do Salmo. Para a recitação, o Salmo.

Ateísmo

Mais que gente ignorante!

Por algum estranho motivo, um post deste blog chamou uma enchurrada de "emoteus" (ateus emos) a escreverem comentários. Como era de se esperar, irracionalidades, fuga do tema e slogans clichetescos deram a tônica das colocações. Nesse âmbito, uma conversa mole foi repetida: a de que na Idade Média se acreditava, por causa da Bíblia, que nosso planeta era plano. Para responder a tal palhaçada, vou colar um texto do finado Orlando Fedeli (professor com quem eu tinha muitas divergências pessoais, mas de quem também sempre reconheci o valor do trabalho apologético - fiz pequenas correções).

Mas que gente ignorante

Dona Cleonira, minha professora primária - que fazia questão de ser chamada de Cleô - senhora baixinha e arredondada como uma chaleira, ensinou-me que foi Colombo quem provou que a Terra era "era redonda como uma bola, um pouco achatadinha nos pólos". Antes dele, os homens da Idade Média - gente muito ignorante... muito atrasada... - pensavam que a Terra era plana e chata. Boa Dona Cleô, que nos mandava recortar borboletas e desenhar carneirinhos em cada página do caderno, que queria bem limpinho: a pedagogia e a didática exigiam. E ela era uma pedagoga.

No ginásio, tive outras professoras de História. Uma delas, bem mocinha e de saia curta, mascava chicletes durante as aulas, mandava os alunos lerem o livro ou fazerem "trabalho em grupo" - pesquisa, dizia ela - e, enquanto isso, pintava os lábios olhando-se num espelho baratinho. De vez em quando fazia um curto comentário: "A Idade Média foi uma época muito ignorante e atrasada. Imaginem! Eles não tinham televisão nem moto! Andavam de carroça! A mulher não tinha direitos, não havia escola pública e eles pensavam que a Terra era plana. Hoje nós estamos adiantados: tem computador, o homem chegou à Lua, e qualquer uma sabe que a Terra é redonda."

No colegial, a professora de História - a Lenindira - era de outro estilo. Não se pintava nem usava espelhinho barato. Usava jeans, óculos de lentes redondas e enormes que tornavam seus olhos míopes minúsculos. Tinha preso na blusa um bottom onde se lia: "O povo unido jamais será vencido". Falava em mais valia e exploração do proletariado. Proclamava-se atéia, dizia que éramos filhos de macacos e desancava a Idade Média, idade das trevas e da ignorância, na qual o povo era obrigado a viver rezando, enquanto a Igreja queimava os hereges e ensonava que a Terra era plana.

Entrei num cursinho. As classes eram abarrotadas de moços e mocinhas preocupados com o vestibular e com rock. Alguns falavam em drogas. Os professores despejavam matéria aos borbotões. O professor de História, muito popular, recheava suas aulas de palavrões e slogans marxistas. Atacava a censura e defendia a liberdade. A cada cinco minutos dizia uma piada pornográfica. Todo mundo ria. Cinicamente. Debochadamente. Menos um colega, com cara desanimada, que fazia o cursinho pela terceira vez. Ele não ria. Explicou-me que já ouvira todas aquelas piadas três vezes. Sempre nas mesmas aulas. Sempre na mesma hora. Sempre do mesmo jeito. Sempre com os mesmos palavrões. O professor os repetia sempre do mesmo modo. Como um autômato. E falava em liberdade. E sempre a mesma história: "A Idade Média tinha sido uma época muito ignorante. Naquele tempo os homens acreditavam que a Terra era plana".

* * *

Um dia, um amigo me convidou para visitar um professor. Era um sobradinho, num bairro pobre. A sala pequena estava cheia de rapazes que riam. O professor falava pelos cotovelos enquanto tomava café. Não havia palavrões.

A conversa rolou para a Idade Média. Eu, ingênuo, repeti o que aprendera nos chatos e rabiscados bancos de minhas escolas. Soltei lá o "meu" comentário: "Eu acho que a Idade Média foi uma época de gente muito ignorante - é até chamada a Idade das Trevas - na qual se queimava quem não era católico e se ensinava que a Terra era plana e chata." Pensei que ia fazer sucesso e que todos apoiariam minhas palavras, já que essas eram teses universalmente aceitas em nosso científico, progressista e tolerante século XX.

O professor, rindo, me atropelou, contundente: "Quem lhe contou essa lorota?"

Quase engoli uma azeitona que comia, com caroço e tudo. A palavra "lorota" era uma trombada em minha erudição e cultura históricas.

Sem jeito, respondi que todo mundo sabia que era assim. Todos professores que tive me ensinaram isso. Por minha memória passavam rapidamente as imagens de Dona Cleô, recortando borboletas; a mocinha que mascava chicletes, se olhando em seu espelhinho barato; Dona Lenindira com o seu bottom; o professor do Cursinho, escarrando palavrões e vomitando pornografia.

Envergonhado com essas imagens, não as citei. Falei de livros vagos, de jornais, de um filme - "Vocês não viram O nome da rosa?"- todo mundo sabe que a Idade Média foi uma época de gente muito ignorante, que pensava que a Terra era plana, não esférica. Isso é indiscutível.

Meu adversário, na polêmica que se montara, sorria. Citou fatos e autores. Como eu não capitulava e insistia, buscando desesperado no fundo dos arquivos de minha memória - tão vazios! - as informações de Lenindira e as provas que o professor do cursinho não me dera, ele foi buscar uma pilha de livros que começou a me mostrar.

"Veja este livro (1). Aqui temos a reprodução de uma estátua de Carlos Magno. É um obra românica do século IX, embora o cavalo seja do século XVI. Repare que o Imperador está com os símbolos de seu poder: usa coroa, numa das mãos porta a espada e na outra segura um globo"

"Que você acha que significa esse globo? Pensa que Carlos Magno fosse talvez campeão de jogo de ‘boccia’? Esse globo representa a Terra, sobre a qual ele tinha poder. Se os medievais julgassem que a Terra era plana, deviam colocar na mão do Imperador algo como uma tábua, e não um globo. Gente realmente ignorante essa da Idade Média - ironizou o professor. Acreditavam que a Terra era plana e a representavam por meio de um globo".

O argumento era arrasador e a reprodução da imagem de Carlos Magno esmagava tudo o que me haviam ensinado nas planas e chatas aulas de História a que assistira em meus estudos do curso, bem secundário, e do cursinho, bem primário.

Enquanto eu examinava livro e gravura, por acaso meus dedos abriram uma página na qual havia uma figura do Imperador Otão III no trono. O professor não perdeu a ocasião:

"Note também essa gravura (2). É o Imperador Otão III, que reinou no Sacro Império entre 983 e 1002. Observe que ele também segura o globo na mão esquerda. Esse globo é a Terra."

Já o professor havia pego um outro livro (3) e prosseguia:

"Aqui está uma imagem de Nossa Senhora de Montserrat, padroeira da Catalunha, do século XI. É de madeira pintada, de estilo românico, até hoje venerada em Montserrat. Tanto ela como o menino Jesus têm nas mão o globo representativo da Terra, da qual a Virgem Maria é Rainha e da qual Cristo é Criador e Senhor.

"Repito. Esse globo não é uma bola de brinquedo. É a Terra. E se representavam a Terra por um globo, é porque sabiam que ela é redonda.

"Esta foto foi posta aí porque santo Inácio de Loyola passou uma noite de vigília diante dela e lhe ofereceu sua espada, quando de sua conversão.

"Examine agora esta esplêndida obra da escultura gótica radiante. É uma imagem de Nossa Senhora cultuada até hoje na Catedral de Notre Dame de Paris. Há reproduções dessa imagem em qualquer livro de arte gótica. Ela é muito famosa. Data de 1300, mais ou menos. O menino Jesus que ela tem nos braços segura, ele também, o globo da Terra entre seus dedos, como se brincasse com o nosso mundo."

Ousei levantar uma objeção: "Esse globo que Jesus e a Virgem Maria têm nas mãos não representaria o universo, o globo celestial, a esfera celeste?"

O professor nem se abalou:

"A objeção é fraca. Se fosse válida, Carlos Magno seria Imperador não da Terra, mas do globo celeste, o que igualaria a Deus. Ao fazer a imagem de Cristo, Sabedoria de Deus encarnada, segurando o globo na mão, brincando com a Terra, os artistas tinham se inspirado no texto da Sagrada Escritura, onde a Sabedoria de Deus diz: 'Et delectabar per singulos dies, ludens coram eo in omnitempore, ludens in orbe terrarum' (Provérbios VIII, 30-31): ‘E cada dia eu me deleitava brincando continuamente diante dEle, brincando sobre o globo da Terra’. É isso o que diz a Vulgata, texto da bíblia de S. Jerônimo, usado na Idade Média. Portanto, qualquer clérigo ou estudante medieval, conhecendo o texto bíblico, sabia que a Terra era um globo.

"E para que não reste qualquer dúvida de que a Bíblia fala em globo da terra - orbe terrarum -, veja o que diz o Dicionário Latino-Português de José Cretella Jr. e Geraldo de Ulhoa Cintra sobre o significado da palavra latina orbis:

"Orbis, is: masc. neutro=redondeza, círculo, a roda, coisa redonda ou circular.

"E o dicionário informa que em Virgílio, o grande poeta romano do tempo de Augusto e autor da Enêida, orbe terraqueo significa o globo da Terra. Temos aí mais um dado. Já Virgílio, na Antigüidade, dizia que a Terra é redonda. E Virgílio era muito lido na Idade Média. Dante Aliguieri o tinha como o modelo dos poetas e como seu mestre.

"Ainda outras passagens da Bíblia afirmam que a Terra é redonda, mas por ora deixe-me mostrar-lhe outras provas referentes à Idade Média, provas que as escolas de hoje ignoram... ou querem ignorar.

"Examine, por exemplo, este livro de Léon Gauthier (4), membro do Institut de France. Ele mostra um desenho medieval muito curioso, representando os antípodas: homens e cães de pé sobre um círculo que representa a Terra. Logo, eles não só tinham idéia de que a Terra é redonda, mas compreendiam também que haviam antípodas, uns de cabeça para baixo em relação aos outros. Repare na legendada ilustração, que registra ser esse um documento catalogado na Bibliothèque Nationale de Paris.

"Veja agora, no mesmo livro (5), um esquema do mapa-múndi medieval da mesma Bibliothèque Nationale. De novo o mundo é representado de forma circular.

"Há ainda (6) outra imagem parcial do mundo, focalizando a Europa. A curvatura do mapa demonstra que eles sabiam que a Terra é redonda."

Arrisquei outra objeção: "Todos esses documentos mostram mapas do mundo circulares, é verdade, mas não em forma de globo, e sim de discos chatos e planos."

"Em forma de pizza, você quer dizer? Também os nossos mapas atuais são circulares ou ovalados, mas sempre planos, como pizzas, apesar de conhecermos a perspectiva. Os medievais não conheciam a perspectiva; por isso nos desenhos representavam a Terra como disco. Mas em suas esculturas, como vimos, representavam nosso mundo como globo, como esfera. Ademais, se seu argumento fosse válido, daqui a 1000 anos alguém poderia pensar que no século XX era muito ignorante, pois nele se acreditaria que é plana e chata, como a mostram nossos mapas atuais."

O professor já pegara outro livro (7): "Século XIII, o maior dos séculos". "Temos aqui um mapa tosco e grosseiro do século XIII, que se encontra na Catedral de Hereford. Nele a Terra é apresentada perfeitamente redonda."

Eu já estava convencido, mas o professor queria deixar o assunto resolvido por completo.

"Veja agora este texto. É a Divina Comédia de Dante Alighieri. Ele escreveu seu poema por volta de 1300. Você bem sabe que é uma das mais belas e sábias obras poéticas jamais escritas. Dante foi um grande poeta e um grande sábio, embora muitas de suas idéias sejam inaceitáveis. Aqui, no Paraíso (8), ele repete o que aprendera com seu mestre Virgílio:

'Col viso ritornai per tutte quante
le sete sfere, e vidi questo globo
tal ch’io sorrisi del suo vil sembiante'.

"Traduzo os versos em linguagem corrente. É Dante que fala: ‘Com o rosto, com a vista percorri todas as sete esferas (os sete céus que Dante já visitara) e vi este globo tal que eu sorri de seu aspecto pequeno ou vil’. Ora, o globo aí designado é o globo terrestre, conforme explica o comentário a esses versos contido nessa edição (9)."

Estava eu já bem consciente de que me haviam impingido uma tolice. Ainda assim, perguntei: "Toda a Idade Média sabia que a Terra era redonda?". Retrucou-me o professor: "Evidentemente deviam existir pessoas rústicas, e até alguns estudiosos, que tinham teorias estranhas sobre esse e sobre outros temas. Também hoje há cientistas que aventam teorias exóticas. Você já leu o que a imprensa tem divulgado a respeito das teorias de Stephen Hawkings sobre a origem do universo? Há hoje também pessoas que pensam que existem seres movidos a pilhas e transístores em outros planetas. Daqui a séculos, quem assistir o filme ET e pensar que o século XX acreditava, todo ele, na existência de seres daquele tipo, estará incorrendo em erro grosseiro. Assim também, é um erro grosseiro pensar que a Idade Média, enquanto expressa por seus mais altos pensadores e artistas, pensava que a Terra era plana e não esférica.

"Veja agora, prosseguiu meu interlocutor, o que diziam os maiores filósofos medievais sobre esse problema. Santo Alberto Magno, que viveu entre 1193 e 1280, e que foi mestre de São Tomás de Aquino, defendeu as idéias geográficas de Aristóteles, inclusive a esfericidade da Terra. São Tomás de Aquino - o maior gênio medieval - tratou da questão em pauta na Suma Teológica (10). Veja o que diz S. Tomás ao cuidar dos fins das ciências:

'O astronômo, por exemplo, demostra a mesma conclusão que o físico, ou seja, a esfericidade da Terra.'

"Então o maior filósofo medieval afirmava que a Terra é redonda."

"É incrível, exclamei. Como é que ninguém diz que S. Tomás ensinava isso? Será que ninguém conhece esse texto? Parece-me impossível que ninguém o conheça."

"Realmente é impossível que ninguém o conheça, concordou o professor. Se os que o conhecem não o mencionam, é porque há tal preconceito contra a Idade Média, por ter sido uma época católica, que o mundo moderno ateu tem que denegri-la. E o preconceito é tão forte que ninguém se dá ao trabalho de verificar se uma acusação que se faz contra ela é verdadeira ou não.

"Repare que essas mesmas escolas atuais e esses mestres que tanto falam contra a ignorância medieval lembram que, na Antigüidade, Tales de Mileto (VI séc. A. C.) ensinara que a Terra era redonda e os mapas jônicos da Terra da Terra eram circulares.

"Os pitagóricos tinham ensinado que a Terra era esférica e Aristóteles (384-322 A.C.) provou isso pela sombra curva que nosso planeta projeta na Lua durante os eclipses lunares.

"Eratóstenes (9275-195 A. C.) foi o primeiro homem que calculou o comprimento do meridiano terrestre. Foi ele também quem fez o primeiro mapa com meridianos e paralelos.

"Crates de Malus (145 A.C.) foi o primeiro a construir um globo para representar a Terra, visto que ele era seguidor da escola estóica, a qual ensinava que a Terra era redonda" (11).

"Por todos esses dados você vê que a esfericidade da Terra deixara de ser um mistério há muito tempo. Se os sábios da Antigüidade, os geógrafos e filósofos estóicos e peripatéticos sabiam tudo isso, é bem de desconfiar que os medievais também o soubessem. Com efeito, se Aristóteles foi conhecido pelos medievais do século XIII, os estóicos foram conhecidos desde o início da Idade Média.

"Ademais, como já lhe mostrei, a própria Bíblia, muito lida e estudada pelos medievais, dizia que a Terra é redonda. Veja esse texto de Isaías: 'Porventura não chegou ao nosso conhecimento que (Deus) estabeleceu os fundamentos da Terra? Ele é o que está sentado sobre a redondeza da Terra'. (Is. XL, 21-22). A tradução é do Padre Mattos Soares. O texto latino da Vulgata dia aí que Deus está sentado sobre o 'gyrum terrae'. E o Dicionário latino-português diz que girum significa redondeza, circuito, giro, etc. Ora, a Vulgata era o texto da Bíblia usado na Idade Média, como já lhe observei."

Inconformado, voltei a perguntar: "Mas como todo mundo acredita que a Idade Média não sabia que a Terra era redonda?"

"É que de tanto se repetir uma mentira, os homens acabam acreditando nela como verdade. Como essa, há tantas outras mentiras sobre a Idade Média e sobre a História", respondeu-me o professor.

* * *

Saí plenamente convencido, satisfeito com o que aprendera e com raiva dos que haviam me enganado. E eis que, na avenida, quem vejo eu, vindo a meu encontro? As duas. Uma de saia curta e mascando chicletes, e a outra, magra, de óculos e jeans, azeda e amarga, sempre com o seu bottom na blusa onde se lia: "O povo unido jamais será vencido".

Cumprimentei-as. Estavam indo para um comício. Não perdi tempo e despejei sobre elas os argumentos que aprendera. A professorinha de saia curta continuou mascando chicletes e aproveitou a pausa para se olhar em seu espelho baratinho. A Lenindira, embaraçada, arriscou um sofisma azedo e oco: "Mas não será que o globo na mão de Carlos Magno significavam a perfeição e não a Terra? Você sabe, aqueles medievais gostavam muito de simbologia..."

Quase explodi de tanta raiva diante de tanta má fé. A outra, a de saia curta, pôs fim à conversa dizendo: "Quem foi que fez sua cabeça?". E lá se foram as duas pela avenida, para o comício. Convictas, uma de sua sabedoria e outra de sua sinceridade.

Mas que gente ignorante havia na Idade Média...

Orlando Fedeli

* * *
Bibliografia

(1) Walter Goetz, História Universal, Espasa-Calpe, Barcelona, vol. III, pág. 128
(2) Idem, pág. 385
(3) H. Rabner, Inácio de Loyola, ed. Desclée de Brower, Bruges, 1956, pág.115
(4) Léon Gauthier, La Chevalerie, ed. Arthaud, Paris, 1959, pág. 88
(5) Idem, pág. 78
(6) Ibidem, pág. 82
(7) James J. Walsh, The Thirteenth Greatest of the Centuries, New York, 1929, págs. 462/463
(8) canto XXII, versículos 132 a 135
(9) Dante, A Divina Comédia, ed. Ulrico Hoepli, Milão, 1985
(10) I., q.1, a.1, ad2
(11) Enciclopédia Espasa Calpe, Barcelona, verbete Mapa, vol. XXXII, pág.1132