sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu, um subversivo


Na manhã de ontem, como tinha anunciado, participei de uma panfletagem no centro do Recife, distribuindo um texto que apresentava a opinião de lideranças católicas, protestantes e espíritas contra a prática do aborto, e, à luz de tais opiniões, pedindo aos eleitores um posicionamento  contrário ao PT e seus candidatos.

Cheguei cedo no centro. Deixei meu carro numa rua do bairro da Boa Vista e me pus a caminhar até o de Santo Antônio. No percurso, antes de atravessar a Ponte Velha, fui abordado por um homem que, ao ver minha camisa com a estampa "Aborto? Não!", gritou:

- Ele, Lula, tem mais o que pensar.

Sei... como se o Apedeuta pensasse...

Reação reveladora! Reveladora porque mostra que as pessoas associam, com automatismo, uma posição contrária ao horror abortista a uma posição refratária ao PT; revelador porque indica o claro incômodo que o tema provoca em certas almas.

Um pouco antes de chegar à igreja em cuja frente seriam distribuídos os panfletos, passei num outro templo católico, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, para tomar um pouco d´água e ir ao banheiro; nele encontrei uma consócia de minha conferência vicentina, uma senhora com idade avançada mas cheia de energia, que vibrou com minha camisa e com o evendo do qual eu participaria logo mais. Ela fez um contraponto ao petista do outro lado do rio...

Bem, fui finalmente para a igreja de Santo Antônio. Lá chegando não encontrei ninguém, mas uma Missa ocorria e inferi que alguns dos participantes podiam estar nela. Esperei e acerte. Logo apareceram dois "companheiros de luta", um que é carismático e simpático aos Legionários de Cristo e outro que é tradicionalista e (espero) futuro seminarista da FSSPX. Conversamos um pouco. Apareceu mais um colega, só que logo ele teve de sair para buscar as caixas com os panfletos no Círculo Católico de Pernambuco. Outros foram se apresentando (carismáticos, tradicionalistas e neoconservadores).

Quando as caixas com o material chegaram, oramos, nos separamos em pequenos grupos e começamos a distribuir as publicações. Em geral a recepção das pessoas foi positiva, rapidamente minha resma de panfletos acabou. Passamos a entregar, por duplas, em ruas próximas ao "centro do centro do Recife"; vez ou outra alguém falava ou perguntava algo:

- Jesus não vai deixar ela ganhar.

- Também sou contra o aborto.

- Vocês são de Serra? (Resposta sincera: - Somos contra o aborto)

- Vocês são contra o aborto mesmo em caso de estupro ou risco de vida da mãe? (Resposta estratégica: - Isso pode ser discutido noutro momento momento, o que estamos tentando impedir aqui é que as possibilidades de se abortar sejam ampliadas)

- Minha irmá foi estuprado e fez aborto. O que você me diz disso? (Esse não quis ficar para ouvir a resposta)

Infelizmente, de repente, um de nossos amigos veio correndo avisar que três militantes do PT tinham abordado uma das duplas dizendo que aquilo era ilegal e que, por isso, iam informar ao TRE e à polícia.

Logo nos reunimos e um dos confrades, que também é advogado, ponderou que pelo fato dos impressos não estarem assinados, talvez os "arautos do PT" encontrassem substrato para fazer uma confusão.

Assim sendo, mudamos de tática. Recolhemos os panfletos para uma igreja próxima, abrimos quatro cartazes e passamos a rezar em plena rua o terço. Rapidamente reações diversas pipocaram. Uma hora era uma cara de espanto, outra hora um olhar de aprovação, uma hora era uma dedada, outra hora alguém que passava a falar contra a candidatura de Dilma. Foi interessante que algumas senhoras que, por acaso, rezam diariamente o rosário na intenção da derrota da abortista, se juntaram a nós. Terminamos cantando a Salve Regina

Mais um fatinho interessante antes de continuar: quando levamos as caixas para a outra igreja, a fim de protegermos os panfletos, duas senhoras que lá estavam, ao saberem da perseguição que se avizinhava, ficaram revoltadíssimas, passaram a lançar impropérios contra o PT  :) e levaram um bom número dos impressos para seus conhecidos.

Em seguida, adotamos uma estratégia de guerrilha: distribuir os panfletos andando pelas ruas do centro ou ficando apenas alguns minutos em pontos nevrálgicos, pois desse modo os dilmistas não poderiam dar uma localização precisa para a polícia. Com tal método, percorremos uma distância razoável, sempre topando com um ou outro petista aloprado e mal encarado que soltava gracinhas e, ao mesmo tempo, contando com ampla acolhida da maior parte das pessoas (algumas, é engraçado, ficavam com ar de bobas ao nos verem, como se pensassem "como eles têm coragem?"). Entreguei uma boa quantidade de impressos na Ponte Velha e no "vuco-vuco" em torno da Basílica da Penha e do Mercado de São José, sempre dizendo:

- Pela família, contra o aborto!

ou

- Pela família, contra o aborto, a lei de Deus em primeiro lugar!

Já próximo do meio-dia, queimado pelo sol (devia ter botado protetor solar) e extenuado pelo calor infernal, resolvi encerrar minha participação e caminhei de volta ao meu carro.

Assim que cheguei, recebi um telefonema de um amigo que ainda estava na panfletagem, contando que uma moça que nos ajudava foi cercada por uma malta de eleitores de Dilma e forçada a parar de distribuir os folhetos. Isso, somado a novas ameaças de acionamento da polícia, fez com que todos recolhessem o material. 

Não me fiz de rogado e, durante a tarde, resolvi andar por prédios próximos ao local onde preparo o projeto para o mestrado na UFPE com minha camisa contra o aborto. Resultado: olhares atônitos ou raivosos. Reação bem diferente da da massa popular no centro da cidade.

Me senti um verdadeiro subversivo no meio disso tudo. Tristes dias os nossos em que defender a vida inocente virou algo passível de perseguição!!! 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ato público em Recife

Nesta quinta-feira, dia 28 de outubro, em Recife, realizaremos diante da igreja de Santo Antônio  (às 9  horas da manhã) um ato público de afirmação da nossa fé e da posição da Igreja frente às questões fundamentais de defesa e valorização da vida.

Sendo o último dia de campanha política rezaremos o terço pedindo a intercessão de Nossa Senhora Aparecida para que afaste de nossa amada pátria os males que se insinuam.

Na ocasião também distribuiremos os folhetos confeccionados pelo Círculo Católico de Pernambuco constando de declarações de prelados da Igreja, assim como de lideranças de outras crenças.

Convido então a todos os que puderem participar; peço também que o evento seja divulgado ao máximo, mas com cuidado. Lembrem que hoje somos os novos subversivos:


Não esqueçam que a SA petista já começou a perseguir e intimidar quem é contra os objetivos desse partido. Neste vídeo petistas intimidam e constrangem ilegalmente o representante da gráfica Pana (uma verdadeira horda pressiona o homem para que mostre os documentos da encomenda que recebeu, como se ele estivesse imprimindo material ilegal):

Tetraedro do real

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O concílio traído: o clero e a política

Lendo um antigo exemplar da revista Hora Presente (janeiro/fevereiro de 1969) encontrei um artigo (Clero e política - sem assinatura) que, além de ser adequado para se refletir sobre o atual clima de ativismo político que tomou conta da Igreja no Brasil, também perfaz uma resposta ao texto absurdo que católicos ditos progressistas distribuíram em Recife (modifiquei a ortografia, em especial no uso das maiúsculas):  

O Concílio Vaticano II foi bem explícito ao dispor que a "missão própria confiada por Cristo à sua Igreja, por certo não é de ordem política, econômica ou social, pois a finalidade que Cristo lhe prefixou é de ordem religiosa. Mas na verdade, desta missão religiosa decorrem benefícios, luzes e forças que podem auxiliar a organização e o fortalecimento da comunidade humana segundo a lei de Deus. Do mesmo modo, onde for necessário, de acordo com as circunstâncias de tempo e lugar, a Igreja pode e deve promover atividades destinadas ao serviço de todos, sobretudo dos indigentes, como são as obras de misericórdia e outras semelhantes" (Constituição Gaudium et Spes, 42).

Desse texto se deduz que a Igreja não tem uma função precípua no campo político. Não lhe cumpre chamar a si a "direção da cidade terrena". Ela sempre ensinou a doutrina da autonomia dos dois Poderes, o Espiritual e o Temporal.

Como deveriam, pois, os cristãos de hoje, orientar-se nas atividades econômico-sociais, de conformidade com esses princípios? "Os cristãos que participam ativamente no atual desenvolvimento econômico-social e lutam pela justiça e caridade estão convencidos de que podem contribuir muito para o bem-estar da humanidade e a paz do mundo. Todo aquele que, obedecendo à graça, procura em primeiro lugar o reino de Deus, encontrará em conseqüência, um amor mais forte e mais puro para ajudar a todos os irmãos e realizar a obra da justiça inspirada pela caridade".

Cabe, pois, indagar: a ação política é ação eclesial ou não é ação eclesial? A atuosidade católica resolve ou não resolve os problemas econômico-sociais? A cidade de Deus controla ou não controla a cidade dos homens? O reino dos céus tem perspectivas exclusivamente profético-sacramentais ou também temporal-reformistas?

Situemos a questão na realidade histórica.

Uma pastoral popular que tende a secularizar a Igreja e, como se diz hoje, "desmitizar" o catolicismo, insiste mais na linha civilizadora do que na messiânica de Cristo. Jesus é apresentado mais como um "progressista" do que como santificador. A ação de Jesus seria mais cultura e promoção humana do que graça e santidade.

Temos assim um versão mundana do Reino dos Céus. Oferecem-nos um Cristo temporalizado, profanizado. Dizem que só assim Ele será aceito pelo homem do século XX.

Antes de mais nada, há uma questão histórica: o que foi, o que fez o Cristo real?

Espalha-se ultimamente a afirmação de que Cristo foi condenado à morte pelos políticos imperialistas sob a acusação de ser subversivo. E citam a favor desta nova posição histórica o texto de S. Lucas, cap. XXIII:

"Acusaram-no dizendo: Encontramo-lo subvertendo nosso povo e proibindo pagar tributo a Cesar, e dizendo-se Cristo Rei".

Assim O delataram os fariseus, ante Pilatos. O pró-consul, em face das três acusações, achou as duas primeiras inverossímeis e, tendo em consideração somente a terceira, perguntou a Jesus:

"De fato és rei dos judeus?"

"Tu o disseste", respondeu Jesus, afirmando a sua realeza.

Realeza que tinha por império, ou âmbito de poder, a verdade. "Reino que não é deste mundo", não interessava a um magistrado de província romana.

O serviço secreto do exército acompanhava os agitadores daquele tempo passo a passo, como nos conta Salústio. O procurador romano estava a par. No entanto acrescenta:

"Vós me apresentastes esse Homem como se estivesse subvertendo o povo, e eis que eu, diante de vós, interrogando-o, nenhuma culpa acho nele daquilo de que O acusais" (Luc. XXIII, 74).

O governador romano, um homem fraco, pusilâmine, quis ainda libertar a Cristo das mãos dos sacerdotes. Não o conseguindo, lavou as mãos: "Inocente sou eu do sangue deste justo". Dessa forma tratou de tirar de si a responsabilidade da condenação de Jesus, procurando atirá-la toda sobre aqueles que O haviam trazido perante ele. E com isso o nome de Pilatos ficou na história como o padrão da covardia e da irresponsabilidade.


"Que seu sangue caia sobre nós e nossos filhos", respondeu a turba dos judeus.

Porque?

Porque "nós temos uma lei e segundo esta lei deve morrer, pois se fez Filho de Deus", assim responderam os judeus (Jo. XIX, 7).

Eis aí a verdadeira razão da morte de Cristo.

No Sinédrio, o Pontífice interrogava Jesus com estas palavras: "Eu Te conjuro, por Deus vivo, que nos diga se és o Filho de Deus".

Respondeu-lhe Jesus: "Tu o disseste".

"Blasfemou! Que vos parece?", concluia Caifás, e a esta interrogação do Pontífice todos proclamaram: "É réu de morte!".

Não foram, pois, as reformas de base que mataram a Cristo. A Ação Popular ou o Partido Comunista do Brasil, ao afirmarem isto, procuram revestir-se com pele de cordeiro divino, mas seu empenho em deformar a história já demonstra que por dentro são lobos vorazes.

Quem aparece como sedioso no Evangelho é Barrabás.

A calúnia de sedioso que os sacerdotes lançaram contra Cristo foi publicamente refutada.

Mas dizem, o Evangelho é revolucionário.

As palavras-talismãs, os vocábulos mágicos, são introduzidos muitas vezes como condicionamento de uma certa pastoral de "conscientização". É um condicionamento pelo qual passa a doutrina para ser melhor assimilada na atmosfera pré-revolucionária.

São razões dialéticas do momento histórico socializante. O Cristo-político é uma criação a serviço de uma ideologia em marcha.

Pergunta-se: este Cristo político existiu? É uma imagem que corresponde à realidade histórica, ao que foi na verdade o Filho de Deus encarnado?

Não se pode negar que a pátria de Jesus estava subjugada pelo imperialismo estrangeiro. Seus patrícios eram tributários de uma superpotência colonizadora.

Qual a atitude de Cristo ante a opressão de seu país?

Posição de fato:

"Pagas o tributo?

"Apesar de Filho de Deus, sim, porque sou cidadão."

Posição de direito:

"A Cesar o que é de Cesar. A Deus o que é de Deus". 

Onde está a oposição sistemática ao imperialismo estrangeiro? Onde o Cristo político, o Cristo revolucionário?

Cristo se insere na Humanidade como um imperativo da mesma humanidade. A graça supõe a natureza e não a destrói, nem a subverte, antes lhe dá a possibilidade de realizar plenamente todas as suas virtualidades.

Revolução é subverter a ordem e estabelecer esquemas novos. Jesus veio realizar os esquemas mais autênticos e verdadeiros da nossa natureza, restabelecendo a ordem pertubada pelo pecado, transfigurando a ordem natural, reconduzindo o homem à ordem sobrenatural.

O Concílio e o Evangelho, para não falar do velho Direito Canônico, vedam ao clérigo a política pela política. Não é de sua alçada. 

Bem outra é a função sacerdotal, repudiada pelos sacerdotes da Ação Popular, que agem como "ativistas" e se entregam obcecadamente à "politização".

Insiste o Concílio Vaticano II em que se reconheça aos leigos a competência precípua no campo político. Neste âmbito, o sacerdote deve reconhecer aos leigos autonomia com plena responsabilidade. Por sua vez, os leigos - guardando plena fidelidade à doutrina tradicional da Igreja, que devem procurar conhecer perfeitamente, e sem quebra da devida obediência aos legítimos pastores, seus chefes espirituais - devem atuar segundo suas responsabilidades e reivindicar a autonomia que lhes cabe na ordem temporal. Nem laicismo, nem clericalismo! 

Mas... e o movimento de secularização da Igreja? A "desmitização" do catolicismo quer orientá-lo com exclusividade para a cidade terrena. A santidade para depois. O cristianismo deverá surgir, segundo eles, de uma promoção universal. Fruto de uma evolução da humanidade em marcha para o "ponto Ômega". Trata-se de uma economia evangélica às avessas: "Procurai primeiro o reino da terra e sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo".

O Cristo real, o Cristo da história, o Cristo que viveu entre os homens, apresentava à sua Igreja uma outa prioridade, a da graça de Deus. Esta, sim, conforme o texto conciliar citado de início, é que tem no Evangelho a primazia. A graça divinizando e dinamizando nossas tendências humanas. Todos os problemas sociais se resolvem a partir do interior do homem pela justiça personalizante. Os seculizadores da Igreja apagam sobre o altar a função sacrifical e santificadora da presença real de Cristo, no jazz-band da "concientização", para a ´promoção da cidade terrestre. Primeiro o desenvolvimento, depois o Cristo. Ite Missa est

Acabou-se, para eles a Missa. Acabou-se o sagrado. Prevalece o terreno e o mundano na exaltação do homem, que se faz o ídolo de si mesmo.

A verdade, porém, é que os céus e a terra passarão, mas a palavra de Cristo permanecerá em todos os tempos. Por isso, continua a valer hoje e há de valer sempre aquele ensinamento do Sermão da Montanha: Quaerite primum regnum Dei... "Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas em acréscimo" (Mat. VI, 33).

A essa lição do Evangelho corresponde aquela expressão de Pio XI - tão oportuna para a hora presente! - reproduzida na constituição conciliar Gaudium et Spes: "A Igreja não evangeliza civilizando, senão que civiliza evangelizando".

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Amalec

Porém isso não significa que Amalec desapareceu. Amalec está vivo e bem hoje, embora numa forma diferente. Não sendo mais uma nação estrangeira, o Amalec de hoje é um inimigo interno. Cada um de nós tem um amalequita espreitando dentro de si. O Amalec interior é o cinismo profano. A vozinha dentro de cada um de nós que despreza e ataca a verdade e a bondade; nossa tendência irracional de zombar das pessoas que agem moralmente, de sermos cínicos quando vemos o altruísmo, de duvidar da sinceridade dos outros – estes são os amalequitas de hoje. Eles lutam uma guerra letal contra nossa alma. Se deixarmos, o cinismo pode matar toda tentativa nossa de melhorarmos e lançar por terra todo movimento que fizermos no sentido de refinar nosso caráter e expressar nossa alma.

- Rafael Daher no Orkut

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Grave denúncia

Terça-feira a noite, ao passar pela frente da Universidade Católica de Pernambuco, encontrei Frei Aloísio Fragoso (antigo superior dos Franciscanos Menores) usando um boné com o emblema do PT e entregando o seguinte panfleto:

 
Temos  7 padres, uma religosa, várias catequistas e dois teólogos conhecidos assinando um texto favorável à abortista Dilma Rousseff e nivelando Nosso Senhor Jesus Cristo a Che Guevara. Um absurdo! Vamos analisar parte por parte desse libelo revolucionário:

Caro jovem, cara jovem

O texto já começa com o lenga-lenga politicamente correto de não usar o masculino como neutro, algo próprio da tradição da língua portuguesa. Um mal sinal! Suspeita de "bagninanismo".

Talvez, neste momento, você esteja procurando apaixonadamente as chances de construir seu futuro, de acordo com seus talentos e seus sonhos.

No entanto, suas chances, no presente, foram construídas pelas gerações passadas. Centenas de outros jovens pagaram com sangue e tortura a sua "loucura" de crer em um outro mundo possível, mais justo, mais humano. Por ex. Buda, Jesus, São Francisco, Gandhy, Che Guevara e tantos outros.

Que espécie de maluquice é essa? Nivelar Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus Encarnado, com meros homens e, ainda por cima, com um psicopata (Che Guevara) é o cúmulo do absurdo. Isso é revelador: o entendimento que essas pessoas têm do cristianismo é meramente natural.   

Além disso, por "outro mundo possível" essas pessoas não compreendem apenas o concerto de uma coisa aqui e outra acolá, mas uma espécie de transmudação da realidade que é típica do pensamento revolucionário e está na base de quase todos os desastres políticos do século passado (do comunismo marxista ao nazismo).

Decerto você não se lembra, pois era ainda criança ou adolescente, no entanto, isso aconteceu também no nosso país, faz poucos anos, foi na época das ditaduras militares e das lutas libertárias. As classes dominantes propagaram que o martírio desses jovens foi um sacrifício inútil. Não é verdade, todo sangue derramado em nome da Justiça fecunda a terra e faz história.

Claro, querer implantar um regime stalinista no nosso país era luta libertária... Luta pela Justiça só se for uma luta em comunhão com Deus (ou, pelo menos, paltada na Lei Natural); lutar pelo materialismo dialético foi um exemplo de iniqüidade.  

Lembra quando numerosos rapazes e moças, com suas caras pintadas, tomaram as ruas do país e forçaram mudanças radicais na política nacional? Aqueles jovens mártires e esses "caras pintadas" fizeram história.

Não, não lembro de nenhum grupo de caras pintadas que "forçaram mudanças radicais". Lembro de jovens que se revoltaram com uma robalheira (bem menor que a do PT de hoje em dia) e só queriam o cumprimento das leis.

Certamente eles cometeram também muitos erros na escolha de seus caminhos e de seus líderes. Mas aventuraram. E graças a isso, aceleraram a volta das liberdades democráticas.

O "eles" são os jovens citados nos três parágrafos anteriores e, portanto, aqui se diz que Deus (Jesus Cristo) cometeu erros na escolha de seus caminhos e dos apóstolos!!! Saudades da Inquisição! O importante é se "aventurar"... não interessa se o socialismo só fez matar pessoas e provocar fome, o importante é continuar tentando... 

Pois bem, um dos frutos dessa luta foi levar à Presidência do Brasil, pela primeira vez, um homem do povo, representante das classes excluídas durante 500 anos, humilde trabalhador, ex-torneiro mecânico, Lula ("Este é o cara", disse o Presidente dos Estados Unidos. "Lula assombra o mundo", disse o Primeiro Ministro da Espanha). Ele acabou amado pelo povo, pela sua competência e autenticidade, e tornou-se o Presidente mais popular da História do Brasil, com 85% de aprovação nacional.

O general Médici era mais pobre que Lula e tinha um imenso índice de popularidade. Falta de dinheiro e influência entre a massa não é sinônimo de virtude. 

Chegou a hora de uma nova decisão política, importantíssima para o futuro do nosso país. O Projeto Popular iniciado por Lula deve ir adiante. A volta ao poder das elites retrógadas, representada pelo candidato José Serra, seria uma catástrofe.

Não sabia que Sarney e Collor tinham saído do grupo das "elites retrógadas" e que agora são parte "do grupo de esclarecidos que nos levarão ao eldorado igualitário".

Talvez muitos de vocês universitários viram em Marina aquele "Algo Novo" que tanto empolga os jovens. Contudo, a origem política dela e a formação do seu ideário nasceram e cresceram em companhia de Lula e do Partido dos Trabalhadores, nos mesmos campos de batalha.

Não vimos "algo novo". Vimos alguém que acredita que Jesus é Deus e que é contra o aborto. Simples assim.

Agora no segundo turno, a candidata Dilma representa a certeza de que terá continuidade o projeto revolucionário iniciado no Governo Lula.

Precisamente, ela vai continuar e ampliar o projeto revolucionário, ao lado de Collor e José Dirceu. Ótima confissão a de vocês.

Votar em Dilma Rousseff é fazer justiça a todos que no passado, especialmente os jovens, sacrificaram-se pelo sonho de um outro mundo possível, mais justo, mais humano. Confiamos na sua sensibilidade e capacidade de escolha. 

Votar em Dilma é imoral e perfaz um pecado mortal.

Dai-nos santos ministros do Vosso altar

Quarta-feira assisti à recepção dos ministérios por um amigo que estuda no Seminário de Olinda, logo logo ele será sacerdote. Nem parece que 7 anos se passaram e, ao mesmo tempo, eu sei das dificuldades enfrentadas nesse período. Muitos ficaram pelo caminho, por motivos justos e injustos, vocacionados ou não. Ele resistiu firme. Que seja um santo sacerdote.  

Então disse a seus discípulos: A messe é verdadeiramente grande, mas os operários são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da messe, que mande operários para sua messe. (Mateus IX, 37-38)


"Ó Pai, fazei com que surjam, entre os cristãos,
numerosas e santas vocações ao sacerdócio,
que mantenham viva a fé
e conservem a grata memória do vosso Filho Jesus
pela pregação da sua palavra
e pela administração dos sacramentos
com os quais renovais continuamente os vossos fiéis.

Dai-nos santos ministros do vosso altar,
que sejam atentos e fervorosos guardiães da Eucaristia,
o sacramento do supremo dom de Cristo
para a redenção do mundo.

Chamai ministros da vossa misericórdia,
os quais, através do sacramento da Reconciliação,
difundam a alegria do vosso perdão.

Fazei, ó Pai, que a Igreja acolha com alegria
as numerosas inspirações do Espírito do vosso Filho
e, dóceis aos seus ensinamentos,
cuide das vocações ao ministério sacerdotal
e à vida consagrada.

Ajudai os Bispos, os sacerdotes, os diáconos,
as pessoas consagradas e todos os baptizados em Cristo
para que cumpram fielmente a sua missão
no serviço do Evangelho.

Nós Vos pedimos por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Maria, Rainha dos Apóstolos, rogai por nós."

(oração pelas vocações do Papa Bento XVI)
 


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Toc, toc, toc, bate na madeira, Dilma no comando, nem de brincadeira!

Já estamos quase no final do mês e o segundo turno das eleições se aproxima, mas só agora resolvi escrever algo aqui sobre essa segunda etapa da disputa pela presidência. Como o blog tem um objetivo analítico (não pretende acompanhar os fatos diários), creio que este é o momento certo para refletir sobre o que vem ocorrendo no país.

No começo do atual processo eleitoral, considerei a candidatura de Marina Silva como a apropriada para receber o voto dos católicos. 

Poucas pessoas entenderam essa opção. Em debates no Orkut julgaram que eu estava caindo no "conto do politicamente correto", fazendo algo absurdo para um conservador (dada a origem esquerdista da senadora) e traindo a causa católica (Marina é uma apóstata, entrou no protestantismo pentecostal no final da década passada). Isso para não falar do preconceito social que muitas vezes transparecia nos argumentos de meus opositores.

Com o tempo, contudo, a postura que assumi passou a ser melhor compreendida. Marina apareceu para muitos católicos (e cristãos de várias linhas) com o mal menor nestas eleições. Ela é uma mulher que realmente crê em Nosso Senhor Jesus Cristo; que é de esquerda, mas não da esquerda orfã da década de 1960 que estamos acostumados a ver no nosso país, e sim de uma esquerda que aceita a democracia liberal e o Estado de direito; e, acima de tudo, ela se mostrou como a candidata mais favorável à vida.

No dia da votação tal entendimento se mostrou vitorioso. Assim que os resultados começaram a se consolidar, os analistas políticos ficaram meio atordoados, achando que os 20 milhões de votos de Marina derivavam da penetração das questões ambientais na nossa sociedade. Isso é um puro sinal da desconexão desses jornalistas com a realidade profunda de nosso povo. O motivo da votação de Marina não foi esse; ainda na noite de domingo, num programa de debates na Bandeirantes, vi um líder petista fazer a análise certeira: a questão do aborto, a perspectiva religiosa de nosso povo, tinha sido o fator decisivo.

Com o passar dos dias isso ficou cada vez mais claro para todos e este comentário do Pe. Paulo Ricardo retrata bem o momento que estamos vivendo:







Agora, com Dilma e Serra no segundo turno, o que fazer? Bem, moralmente só há um caminho: procurar o mal menor. Temos de escolher entre abortistas!

Dilma e Serra são dois lados da mesma moeda revolucionária. Dilma é uma representante do socialismo gramsciano, com uma "pitada" do fisiologismo desenvolvimentista do governo Lula; ela é um "incêndio sem limites". Serra, por seu turno, é um típico representante do socialismo fabiano (a linha socialista que pretende implantar o desastre igualitário não por meio de uma revolução, mas por meio de mudanças na legislação); ele é um "incêndio controlado". Dilma e seu partido sempre foram abortistas e qualquer maquiagem com o intuito de esconder isso torna mais explicita a falta de princípios da candidata: 





Serra é um abortista prático, que nunca defendeu o assassinato de crianças como bandeira política, mas que assinou uma norma técnica quando era ministro da saúde tornando o aborto, nos casos não punidos no Brasil, algo efetivo. O Pe Lodi comentou o seguinte sobre isso:

Sem negar a culpa nem a gravidade de seu ato, Serra conta com os seguintes atenuantes:

1) Serra não foi o autor da Norma Técnica por ele assinada. Ele já a encontrou em sua mesa, elaborada por militantes pró-aborto, quando assumiu o Ministério da Saúde;

2) Por não ser jurista, Serra deixou-se enganar pela falácia de que no Brasil o aborto é “legal” quando a gravidez resulta de estupro, confundindo assim a não aplicação da pena (“não se pune...”) com a licitude da conduta (art. 128, II, CP). Segundo essa interpretação (falsa), haveria da parte das gestantes um “direito” ao aborto e da parte do Estado o “dever” de financiá-lo em caso de violência sexual;

3) Em sua carreira política, antes ou depois da assinatura da terrível Norma Técnica, Serra nunca se destacou como um militante abortista. Nunca se comportou como o atual Ministro da Saúde José Gomes Temporão, que faz da promoção do aborto sua idéia obsessiva.

Portanto, frente a essas duas opções más, duas opções diabólicas inoculadas na vida política pelo veneno do laicismo e do materialismo que desde o final do século XVIII tenta destruir nossa civilização, Serra é a escolha que a moral impõe.

sábado, 16 de outubro de 2010

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Realidade é tensão

A realidade da Igreja é sempre atravessada por uma tensão, e essa tensão é atravessada por aquilo que somos, e pela dimensão utópica que a Igreja transporta. A Igreja não é um lugar de plenitude, é um lugar de procura. A nossa condição é a sede e o desejo. Não é aqui e agora que se realizam os sonhos. A Igreja é esse caminho comum, não isento de imperfeições, aberto a uma progressividade. A condição comum é que alguém se sinta desafiado a um caminho.

- Padre Tolentino (Portugal)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Democratismo X Realismo


“É ainda possível esperar que uma mudança política nos possa salvar? Esta perspectiva nos parece, pelo menos no momento, improvável. Não é transformando instituições atuais, mais ou menos idênticas em todos os países, que chegaremos a um resultado. O mal é demasiado profundo para que possa desaparecer sob a única influência da mudança de regime. Vimos que o Estado moderno é um Estado sem sociedade: à sociedade do Antigo Regime nenhuma outra sociedade sucedeu. O que serve de vínculo social aos indivíduos desprovidos de vínculos sociais como são nossos contemporâneos, é o próprio Estado moderno, criação específica do estado de espírito individualista e democrático. Quanto mais persistir esse estado de espírito, tanto mais as sociedades naturais desaparecidas ou enfraquecidas não serão absolutamente ressuscitadas ou não terão retomado vigor; o Estado moderno ficará o quadro, o golilha ou o parelho de prótese que, substituindo a ausência de vida social, permitirá a seus súditos viver (se assim se pode falar) em ‘democracia’.

Ora, a democracia moderna não é um regime de que se possa mudar. Não é mesmo um regime. É uma mistificação, uma ilusão análoga no plano coletivo àquela que propicia o uso dos narcóticos ao indivíduo. Os homens crêem que se governam por si mesmos. Na realidade, a favor dessa crença sem objeto, outros homens os governam e continuam a governá-los propiciando-lhes sua ração quotidiana de droga. Todas as técnicas modernas de informação são utilizadas para esse fim. ‘É freqüente, dizia o Cardeal de Retz, que os homens queiram ser enganados’. Preferem o sonho à realidade. Inúmeros seres humanos, mortos nestes últimos dois séculos ou prestes a morrer pela ‘democracia’, demonstram-no de sobejo. Por mais que se lhes mostre que a ‘democracia’ tem por essência a de não a ter e de não existir mais que um quadrado redondo, estão persuadidos de que ela existe ou existirá. A ficção democrática penetra e impregna a tal ponto sua mentalidade desarraigada do real pelo individualismo e pelo subjetivismo que extirpá-la pela força ou pela luz radioativa da verdade equivaleria a matar o enfermo.

Aliás, a experiência de dois séculos provará que todas as tentativas de destruir a ‘democracia’ contribuíram para reforçá-la, dobrando ou triplicando a dose de narcótico necessária para esse objetivo. Toda arte dos mistificadores democratas é oferecer aos homens exiliados de suas comunidades naturais uma sociedade imaginária e persuadi-los de que o Estado moderno é capaz de realizá-la contanto que lhe confiem a eles, filantropos generosos, o poder de governar a Máquina. As mais vulgares vontades de potência podem assim manobrar o animal político que sua avulsão fora das sociedades naturais transformou em fantoche.

Não esperemos por mais tempo um socorro qualquer por parte da Igreja, tal como ela está, na iminência de entrar em ‘mutação’ sob nossos olhos. O tipo do bispo ‘defensor civitatis’ desapareceu. A vontade de potência clerical, que jorra sempre quando o padre substitui à vertical do sobrenatural a horizontal do ‘serviço do homem’, quer tomar a folga das vontades de potência política desfalecidas e ultrapassá-las. Ela não está mais na miragem democrática, está além mesmo do comunismo, esta ‘lógica viva da democracia’, como escreveu Balzac, tenta instaurar o Reino de Deus sobre a terra e sucumbe ao Tentador por excelência que promete a sua posse.

A única atitude a tomar é a do realismo integral.”

Marcel da Corte (Hora Presente, 1971)

Filigranas do latim da Igreja

Artigo de autoria de Mário Masagão, publicado originalmente na revista Hora Presente (nº 13, novembro de 1972 - mantive o estilo dele nas citações e maiúsculas):

Não chegou até nós o registro das palavras aramáicas de Nosso quando instituiu a Eucarisitia.

De antigas referências de PAPIA e de PANTENO consta que SÃO MATEUS escreveu "em sua língua" o Evangelho. SÃO JERÔNIMO declarou que vira exemplar desse texto na Biblioteca de Cesarea, sem esclarecer se era hebráico ou aramáico. A segunda hipótese é a mais forte, porque foi aceita por SANTO IRINEU e por EUSÉBIO, e também por ser provável que SÃO MATEUS, para fixar e divulgar a mensagem do Salvador, preferisse a língua que o povo falava, e não o antigo idioma dos profetas, que os judeus, na época, já não entendiam.

Existe, assim, possibilidade de que a consagração, em aramáico, tenha sido referida por SÃO MATEUS em XXVI-26, e lida por SÃO JERÔNIMO, o qual também examinou a tradução, para "koiné", desse primeiro Evangelho, feita nos fins do primeiro século, por SÃO JACOMO, Bispo de Jerusalém.  

Os outros três escritores sagrados (S. MARCOS, XVI-22; S. LUCAS, XXII-19; S.PAULO, I Cor. XI-24), que referiram o episódio em grego bárbaro, concordam admiravelmente com SÃO MATEUS, o que é verificável pela Vulgata, dada a sempre escrupulosa fidelidade da tradução de SÃO JERÔNIMO. E, nos quatro textos, figuram as palavras "Hoc est corpus meum".

Os pronomes demonstrativos latinos distinguem-se por acentuada maleabilidade. O triforme "hic, haec, hoc", principalmente, servia de pau para toda obra. Por isso, grande é o número dos equívocos, nas traduções, pela costumeira trasladação desse demonstrativo em "este, esta, isto".

Por exemplo. A expressão de TERÊNCIO "Haec est quam" não significa "Esta é aquela que", mas sim "Eis ali aquela que". A frase de CÍCERO "Vos his testimoniis credatis?" não indaga "Acreditareis vós nestes testemunhos?", mas sim "Acreditareis vós em semelhantes testemunhos?". As palavras de PLAUTO "Lucet hoc" não significam "Isto reluz", mas sim "Amanhece", ou "Já é dia". Ao escrever "Haec finis", não pretendeu VIRGÍLIO significar "Este fim", mas "Tal foi o fim". E assim por diante.

O uso do neutro "hoc" nas palavras latinas da consagração nada tem de anormal, porque "corpus" támbém é neutro. Mas, se tivesse sido aplicado a nome masculino ou feminino, teria sentido pejorativo, como na frase de TERÊNCIO: "Quid hoc hominis est?". 

Não há em português gênero neutro. "Corpo", em vernáculo, é masculino. Por conseguinte, usar "isto" em relação a "corpo", é aplicar vestígio do neutro latino a nome masculino. Em português, esse uso tem sentido pejorativo, quando alusivo a pessoa.

Por isso, CÂNDIDO FIGUEIREDO (Dicionário, 4.ª ed.), restringe a significação "isto" a "estes objetos", "este negócio", "esta coisa". O preclaro CONSTÂNCIO (Dicionário, ed. 1854), adverte o leitor de que não deve empregar "isto" em relação a pessoas, exceto quando só aparecerem como vultos indistintos, v.g., "isto que vês ao longe he um homem".

BUARQUE DE HOLANDA, em seu "Pequeno Dicionário", declara que "isto", em realação a pessoas, é "depreciativo". E, no "Dicionário do Português Básico", avisa mestre ANTENOR NASCENTES que se diz "isto" em relação a pessoas quando se quer desfazer de alguém.

Por essa circunstância, formaram-se antigamente em Portugal, na tradução "Hoc est corpus meum", duas correntes. Entendiam os católicos que dizer "isto" em relação a "corpus meum", ou seja, ao Corpo de Cristo, onde está o Senhor em corpo, sangue, alma e divindade, é brutalidade intolerável. Os nossos irmãos separados, entretanto, acreditam, em sua maioria, que a partícula é apenas "um sinal", mas não realmente o Corpo de Deus, pelo que não viam maior inconveniente no uso do "isto".

Assim, os católicos traduziam "Este é meu corpo", e os protestantes "Isto é o meu corpo". 

Os nossos clássicos tinham extremo cuidado nste ponto.

Para quem quiser averiguar, ponho aqui lista deles, incompleta mas suficinete. Incompleta porque só enumera os sujeitos de dupla qualidade: a de serem sacerdotes católicos, e a de serem mestres da língua, como tais incluídos pela Academia Real das Sciências, de Lisboa, na lista, organizada em 1743, dos autores que se deveriam ler para a feitura do projetado "Diccionario da Língua Portuguesa".

Traduziram: "Este é meu corpo": Padre ANTÔNIO VIEIRA, Sermões, Lisboa, 1688, vol X, p. 114, clo. 2 in medio; D. Frei BARTHOLOMEU DOS MÁRTIRES, Catechismo da Doutrina Cristã, Braga, 1564, p. 95 v.º; Frei LUIZ DE GRANADA, Compendio de Doutrina Christam, Lisboa, 1689, p. 324; Frei JOÃO DE CEITA, Quadragena de Sermões, Parte I, Lisboa, 1619, ps. 245 e 247; Frei PEDRO CALVO, Homilias, 2a. P., Lisboa, 1627, p. 603.

Muitos mestres, que traduziram da mesma forma, ficaram fora dessa lista, ou por não serem sacerdotes, ou por não terem sido postos no Catálogo da Academia, visto como vicejaram posteriormente a 1743.

Para exemplo citarei apenas um, ERNESTO ADOLFO DE FREITAS, altamente abeberado em clássicos, autor da famosa tradução da "Imitação de Cristo", e que mereceu ser incluído, por ALMEIDA GARRET, em rol de peritos no vernáculo, organizado, a pedido da Rainha D. Maria II, em 1838, para efeito de nomeação de professores.

Vertendo o versículo de SÃO MATEUS XXVI-26, burilou FREITAS esta pequena jóia: "Tomais e comei; este he meu corpo, que por vós será entregue: isto fazei em lembrança minha" (Imitação, ed. de 1884, p. 522).

Hoje, porém já se não usam melindres, como os dos nossos clássicos. Já não sabemos tanto latim e tanto português, para escrever como escreviam eles. Atualmente, como intuitos ecumênicos, o de que se cuida é de imitar os nossos irmãos separados. E, em matéria de delicadezas... Mas para que lembrar de coisas tristes?