quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Os itinerários culturais da revolução

Algumas vezes o óbvio precisa ser dito. Foi isso que senti ao ler a definição de cultura  ("cultura é aquilo que resta quando já se esqueceu tudo") no artigo que transcrevo abaixo, de autoria de Lois Daujarques (Hora Presente, outubro de 1970). De fato, fazendo eco ao que disse Olavo de Carvalho num texto postado neste blog, o que realmente importa no que chamamos cultura é aquilo que vai traduzir nossa adaptação à ordem do real quanto tudo o mais não existir (é o caso de Dom Quixote no que se refere à Espanha ou a arquitetura gótica no que se refere à cristandade medieval). Por isso mesmo, o ódio da Revolução (o processo multissecular de desagregação das instituições e modelos de pensamento nascidos da propagação do Evangelho) ao que é real é uma ameaça à cultura, à verdadeira cultura. De tal ameaça tratará o texto de Lois Daujarques; é um artigo que permanece atual e que, portanto, pode ainda hoje nos ajudar a entender como se dá a "revolução cultural". Atualizei a ortografia (para as normas anteriores às do último acordo ortográfico) e modifiquei uma parcela das palavras com letras maúsculas e das reticências usadas pelo autor.

Os itinerários culturais da revolução

"...Se fosse preciso com uma palavra definir o teatro de hoje nos Estados Unidos, a palavra revolução é que ocorreria com mais freqüência... a palavra da moda é revolução. Revolução dos negros, do terceiro mundo, da juventude... Utiliza-se em demasia a palavra, por mais que a coisa continue a causar medo..."

Esta afirmação não é, como se poderia paensar, de um "nostálgico rabugento", mas de uma jornalista inteiramente apta ao diálogo, pois escreve nas colunas do Le Monde (1).   

Dai a razão pela qual nos julgamos autorizados a tratar, por nossa vez, dessa revolução cultural e também, uma vez que se trata de percorrer os seus itinerários, a tomar, de início, o caminho dos escolares, recorrendo às duas anedotas seguintes:

A primeira tem por quadro o Festival de Avignon de julho de 1968. A antiga cidade dos papas é então uma cidade ocupada pelas tropas "hippie" e em particular pelo Living Theatre, cujo diretor, Julian Beck, proclama em todas as esquinas (2):

"Se a arte não é suficiente para a revolução, pode ao menos preparar o espírito para ela. Pode ajudar o movimento revolucionário dando aos operários uma idéia do que a revolução lhes pode proporcionar. Uma representação de Paradise Now (3) pode levar o operário à revolução, ao passo que de outra forma ele a temeria".

A segunda anedota se situa em Paris, alguns meses mais tarde. Sam Francis apresenta uma exposição de telas, mas essas telas têm a particularidade de serem completamente vazias e debruadas somente com uma fita de cor pintada sobre 2 ou 3 cm... Um crítico de arte vai a essa exposição e escreve a respeito dela algumas linhas que provam, que ele é um gênio espantoso, mas até então bem dissimulado, ou que possui uma total inconsciência, que a medicina certamente diagnosticaria. Eis esse belo trecho de antologia (4):

"A pintura se desprende, desliza, sangra nas bordas onde faz o último esforço para se agarrar. O pintado enquadra o não-pintado. Com essa inversão, o relacionamento tradicional entre o finito das formas e o infinito da extensão é expresso no que tem de grotesco e de trágico".

Estas duas anedotas são apenas exemplos colhidos entre muitos outros e cada um de nós poderia citar vários não menos significativos. O interesse de ambas está em ilustrar dois aspectos da nova cultura. Primeiro, o da cultura "engajada". Segundo, o da cultura "engana-pateta", isto é, no caso, engana-crítico. Entretanto, estes dois aspectos participam do mesmo movimento que é o movimento revolucionário, e tomam os mesmos itinerários, que são culturais. Por isso, a finalidade desta exposição introdutória é tratar das relações privilegiadas que mantêm entre si a Revolução e a cultura. Não se trata pois de uma reflexão sobre temas sensacionalistas como a "revolução estudantil", mas antes um recuo, um distanciamento de sucessos recentes, a fim de procurar os seus elementos primeiros para melhor compreendê-los, e inclusive para melhor combatê-los. Desse modo, após propormos uma definição do fenômeno revolucionário, tentaremos mostrar como a Revolução da sociedade passa pela subversão da cultura
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I - O que é a Revolução?

Antes de responder diretamente a essa difícil questão, é preciso primeiro dizer o que a Revolução não é e denunciar assim certas interpretações correntes, mas incompletas, senão erroneas, do fenômeno. No sentido forte em que a entedemos, a Revolução não é nem a violência, nem um acontecimento histórico preciso, nem mesmo o marxismo pura e simplesmente. 

A Revolução não é sempre a violência

A mentalidade burguesa associa de bom grado o motim, as badernas, as revoltas, enfim todas as ações violentas à Revolução, o que a leva a opor-se somente à violência e a negligenciar tudo o mais que não pertube sua quietude ou não ameace imediatamente seus interesses. Esta é, por exemplo, a atitude daqueles que condenam as sublevações estudantis, clamam pela repressão, sem se aperceberem de que essas violências que eles reprovam não são senão uma conseqüência: a conseqüência de uma subversão intelectual que eles mesmos jamais combateram - se é que não a encorajaram..Mas esta é também a reação daqueles que, confundindo Revolução com violência, pretendem lutar contra a Revolução através de reformas - portanto, dentro da lógica deles, através de meios pacíficos - esquecendo que existem reformas perfeitamente revolucionárias (como a tal lei Neuwirth relativa à regulação dos nascimentos e perfeitamente contrária à Humanae Vitae). Os que retomam o sofisma de Proudhon, escrevendo a propósito das revoluções: "O único meio de conjurar-lhes os perigos é fazê-las direito; são as resistências exageradas que determinam as explosões violentas " (5) - esses vêm a realizar por por vias reformistas o programa da Revolução. Esta não é um romantismo e sabe, por razões de eficiência, não ignorar a paciência e utilizar as reformas em seu proveito, com o fito exclusivo de solapar metodicamente o edifício social (6).

A Revolução não somente um acontecimento político preciso

Trata-se, com efeito, de não confundir a Revolução com as revoluções, quer dizer, com as datas que estão ligadas na história a golpes de Estado, a mudanças de personagens políticos e mesmo a inversões de regime. Sem dúvida, dir-nos-ão, nas pegadas de Valéry, que "uma revolução faz em dois dias a obra de cem anos e perde em dois anos a obra de cinco séculos". Mas, por outro lado, trataremos de não insistir  sobre tal ou qual acontecimento particular, porque então haveria o grande risco de operar-se um "bloqueio político" prejudicial à serenidade da doutrina. Além do mais, uma revolução é freqüentemente um fenômeno complexo, no qual os erros do poder antigo se misturam com os erros dos novos dirigentes. Enfim, é sobretudo, uma inversão de regime nunca é senão o resultado visível, e por vezes longínquo, de uma crise cultural e humana cujos verdadeiros responsáveis freqüentemente desaparecem. É por isso, aliás, que alguns sociólogos puderam definir uma revolução como uma tentativa desesperada dos homens de edificar, em lugar da ordem antiga que foi destruída, uma nova ordem e para encontrar uma aparência de estabilidade indispensável à sua consciência. Por isso, convém não nos pedermos na diversidade do evento revolucionário. Opor-se à Revolução não é ser hostil a 1789, a 1848, a 1871, ou mesmo a 1917, ou antes, não é somente, não é fudamentalmente isso.

A Revolução não se reduz também ao marxismo

É bom lembrar que, em Marx, o termo "revolução" tem um sentido preciso: não é qualquer mudança, mas a mudança qualitativa que consiste em passar de um tipo de relação de produção a outro. É pois uma aproximação muito parcial da Revolução, a que vigora singularmente hoje. De resto, o marxismo teórico não aparece senão em 1848 e não explica as revoluções anteriores. Sua influência é considerável. Pode inclusive ser considerado - precisaremos isso logo - como uma espécie de coroamento, de apoteose do pensamento revolucionário, do qual entretanto não possui nem o monopólio nem a paternidade.

Chegamos assim a uma primeira conclusão: a luta contra-revolucionária não é verdadeiramente nem oposição à violência, nem solidariedade com os reformistas de todas as cores, nem a hostilidade a um acontecimento preciso da história, nem o anti-marxismo. A contra-revolução, como dizia Joseph de Maistre, é o contrário da Revolução, que continua, dir-me-ão, por definir!...

A Revolução ou a razão negativa

Falando da Revolução, muitos se apegam à definição que dela dá Littré: "mudança nas coisas do mundo, nas opiniões". Mas em vista de qual critério tal mudança se produz? Para o relativista, esse critério varia segundo as épocas. Uma tal concepção integra pois já a noção de mudança de raciocínio. É praticamente revolucionária ela própria, porque leva aqueles que a esposam a engendrar uma corrente revolucionária  antes de renegar uma posteridade que não deixa nunca de ultrapassá-los. Para dar um exemplo, os liberais destroem em 1789 a sociedade do Antigo Regime, sem suspeitar que 150 anos mais tarde se agarrarão aos escombros do que resta dela. Seja-nos permitido achar essa atitude pouco razoável e estimar que o critério da Revolução não é um dado tão flutuante. A "mudança" da qual fala Littré é uma noção que, pelo menos por um  momento, deverá ser absoluta: no momento em que se produzir uma sociedade de estabilidade, quer dizer, numa sociedade onde reine a unidade. Ora, esta unidade se exprime historicamente da maneira mais fulgurante na Idade Média cristã e, intelectualmente, na obra de Santo Tomás de Aquino. Tal obra, que é ao mesmo tempo teologia, moral e política, se apóia sobre uma hierarquia majestosa de leis: a Lei Eterna, que preexiste em Deus, a Lei Natural, que é seu reflexo no coração do homem, e a lei humana - adaptação da Lei Natural à diversidade das situações e das pátrias.  Assim, de baixo para cima e de cima para baixo, circula o mesmo espírito e se manifesta de maneira luminosa a unidade fundamental do plano divino. Há domínios distintos - a religião, a moral, a política - mas neles sopra o mesmo Espírito e penetra a mesma doutrina, fundada sobre o Evangelho. E se observarmos a história, veremos isto: através das diversas revoluções, a Revolução aparece, quaisquer que sejam suas formas variáveis, como uma tentativa de subversão dessa civilização cristã, de negação do Decálogo aplicado à organização da Cidade, quer aliás essa aplicação seja consciente ou não. É contra os fundamentos naturais da civilização cristã, unitária e estável, que vão insurgir-se, no curso dos séculos, os "intelectuais da moda": os da Reforma, em nome do humanismo e do livre-exame, celebrando o culto do indivíduo e não o de Deus, opondo a razão, a arte e a Fé, anunciam, após a pausa relativa da Idade Clássica, o demo-liberalismo do século XVIII. Este procede antes de tudo, quer seja entre os enciclopedistas ou entre os libertinos, por irreligião. Se ele se opõe ao Antigo Regime, é por hostilidade à Igreja e ao direito divino, e não por ideal de liberdade (porque Voltaire admira déspotas que ele chama de "esclarecidos" e o Contrato Social está muito afastado do aparente anarquismo que se pode patentear no resto da obra de Rousseau). A Revolução é já cultural.

"A maioria dos francess pensava como Boussuet: de repente", escreve Paul Hazard, "os franceses pensam como Voltaire; é uma revolução" (7). E essa Revolução se empenha em mudar o sentido das palavras: a razão clássica de Boileau se torna a razão crítica de Pierre Bayle, a natureza humana criada por Deus se transforma em naturalismo - manifestação de independência da natureza física em relação ao sobrenatural, - a felicidade terrestre substitui a salvação, o progresso indefinido e linear se opõe  à Fé. É uma "religião leiga" - inversão do cristianismo - que se tenta instaurar, é uma "Cidade Celeste" (segundo expressão do norte-americano C. Becker) que se pretende edificar na terra: mas a ordem nova nega a soberania de Deus sobre o mundo. É aí que está o caráter permanente da Revolução, que Freurbach descreve assim em 1841 (8):

"A individualidade tomou o lugar da Fé, a razão o da Bíblia, a política o da Religião e da Igreja, a terra o do céu, o trabalho o da prece, a miséria o do inferno, o homem o de Cristo".

Este ódio ao cristianismo é fundamental nos revolucionários (9). A Revolução é anti-cristã porque seu Deus é o Homem liberto de Deus. É atéia porque substitui a eternidade pela história, e põe o homem face do nada do seu devir histórico. Portanto, implica não somente a recusa dos sistemas de valores tradicionais, mas, sobretudo, através dessa recusa, a negação perpétua de todo sistema de valores: porque um tal sistema vincularia o homem a elementos de referência estáveis, que ele não criaria por si mesmo, não reporia incessantemente em causa na sua ação histórica, e porque um tal sistema constituiria uma alienação, portanto um atentado à divindade do Homem e ao restabelecimento de Deus em sua soberania. A Revolução nega todo valor estável, toda ordem, todo dogma. É-lhe necessário, para viver, suprimir todo critério, abolir todo julgamento objetivo, velar pela destruição incessante dos equilíbrios que tendem a se reconstituir, a fim de arrastar o mundo ao movimento puro, à Ação livre, portadora de sua próprias riquezas.  

Sendo a Ação a única realidade da Revolução, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal não existem enquanto tais. O sim e o não perdem seu sentido, a própria afirmação não tem mais significação. É pois a inversão, por excelência, da inteligência cristã, que é fundada sobre a regra: "é, é... não, não". Compreende-se agora por que o marxismo não é senão um herdeiro da Revolução, mas também seu herdeiro privilegiado, na medida em que sua filosofia é a única que se supera a si mesma. É de Albert Camus o grande mérito de ter dito: "A profecia de Marx", escreve ele em L´homme revolté, "é revolucionária porque remata o movimento de negação começado pela Filosofia das Luzes. A Fé é substituída em 1789 pela razão. A Revolução se identifica com o ateísmo e com o reino do homem. O proletariado é antes de mais nada o portador inumerável da negação total" - essa negação total que Feuerbach exalta ao proclamar: "A verdadeira filosofia é a negação da filosofia. Nenhuma religião é minha religião. Nenhuma filosofia é minha filosofia" (10).

É esta Razão Negativa que caracteriza o espírito revolucionário. Esta Razão que não é mais meio de conhecimento e de julgamento, mas que é, segundo Marcuse, "o poder subversivo, o poder do negativo", esta Razão que nega tudo e que se nega a si mesma é de fato a desrazão. Ela implica em todo e qualquer caso - e esta será nossa segunda conclusão - "a certeza da infinita plasticidade do homem e a negação da natureza humana" (L´homme revolté). A Revolução é antagônica à natureza humana, que tem necessidade de estabilidade. Ela sabe que lhe é preciso "mudar a vida" e está nisso o sentido profundo da Revolução Cultural. Seus adeptos se deram conta de que os diversos comunismos e os múltiplos socialismos tinham cada vez mais a tendência a se congelar em novos dogmatismos e, portanto, a fracassar no plano do espírito revolucionário que postula o movimento puro. Conscientes desse fracasso, eles tentam demonstrar hoje em dia que:

II - A Revolução passa pela subversão da cultura

Eis a significação dessa tentativa que cumpre analisar agora, definindo a noção de cultura, descrevendo em seguida sua subversão.

O que é a cultura?

Excusar-me-ão, os leitores, espero, por citar esta fórmula por demais conhecida, mas ao dizer que "a cultura é aquilo que resta quando já se esqueceu tudo", Édouard Herriot não tentava somente desculpar-se pela ausência de memória de que o acusava Léon Daudet... Ele enunciava uma verdade. Com efeito, a cultura não é somente um conjunto de conhecimentos. Não é o saber, mas antes a influência desse saber sobre nosso raciocínio, o mecanismo intelectual que resta uma vez esquecidos os conhecimentos. Estes conhecimentos informam nosso espírito, que por sua vez os reflete. Quando se fala de cultura, evoca-se pois sobretudo um certo jeito do espírito, uma certa qualidade de inteligência, uma maneira de abordar os problemas. É neste sentido que se falará de cultura clássica, de cultura humanista, de cultura geral, etc. A cultura é sem dúvida um patrimônio intelectual, mas também uma qualidade do espírito. E essa qualidade do espírito dependerá das tendências do patrimônio e da parte que cabe à liberdade humana. Porque, como sublinhou o Cardeal Siri (11): "A cultura é somente um campo no qual tudo pode ser límpido ou conspurcado, segundo o comportamento dos homens. É uma grande coisa à maneira pela qual o homem é grande, e é coisa corruptível como o próprio homem". Como se põe o problema no mundo moderno?

A cultura tradicional não é nada mais do que essa organização particular do espírito que exprime a necessidade de unidade do conhecimento humano, de homogeneidade do mundo exterior, quer dizer, a adequação do objeto e da inteligência e a procura incessante de uma finalidade. Suas obras visam na prática mostrar a beleza e a harmonia da ordem natural. Testemunham uma realidade exterior ao homem, uma submissão do homem a essa realidade e sustentam um conhecimento especulativo. A cultura tradicional reproduz o real: pode interpretá-lo, subestimá-lo por vezes, mas não o nega. Dá assim ao homem, através do tempo, elementos de referência estáveis e corresponde precisamente às exigências fundamentais da natureza humana. É, poder-se-ia dizer, o seu suporte intelectual e sua expressão artística. Eis porque essa cultura clássica, à base de "humanidades", que serve para nutrir as jovens gerações e para sustentar as antigas com suas disciplinas imutáveis, que informa de maneira tão justa a natureza humana, essa cultura clássica só pode ser rejeitada pelo espírito revolucionário, que exige - como acabamos de ver - o abandono de toda filosofia estável, de toda reflexão especulativa, e passagem à Ação, à prática. Esta cultura patrimonial e humana é pois, no plano intelectual, o pior inimigo da Revolução, que vai empenhar-se em destruí-la. E esse empenho prova principalmente que o que se chama "cultura tradicional" não é o simples reflexo de uma classe ou de uma época, mas ao contrário é a cultura fundamental  e permamente da humanidade. esta cultura que, através da história da civilização, tem traduzido sempre os mesmos sentimentos e preocupações idênticas no coração dos homens, constitui o mais gritante desmentido que exista ao materialismo histórico, pois este é o desmentido do espírito e da inteligência. Isto explica o ódio da Revolução em relação a ela, ódio que conduz a Revolução, porque é necessário transformar ou antes abolir a natureza humana para tentar o transtorno da cultura pela e para a Revolução (12).  

O transtorno da cultura

É evidente que a Cidade tende constantemente a um estado de equilíbrio e que as políticas acabam inevitavelmente em dogmas. E é do mesmo modo evidente que a sociedade industrial contemporânea não escapa, muito pelo contrário, a essa regra. Que sua ordem estabelecida seja, em larga medida, artificial, isso é outra questão. O que importa aqui é que ela cria uma ordem, um equilíbrio, insuportáveis à Revolução. Esta vai pois utilizar a cultura para perverter o espírito humano e forçá-lo a não mais pensar em termos de finalidade. Aliás, é o que dá a entender Francis Jeanson, quando declara:

"A única ação política que entrevejo hoje em dia é uma forma de ação cultural. A politização das consciências se tornou mais ou menos passiva. Creio que a ação cultural pode abrir-lhes possibilidades novas: nisso eu veria muito bem uma espécie de propedêutica à ação política. Digamos, se assim o preferirem, que o fim é mudar as estruturas, mas que é preciso também que os homens estejam em condições de querer essa mudança" (13).

Estando traçado o caminho, basta definir suas etapas sicessivas: será primeiramente o "apodrecimento" da "cultura burguesa", será a seguir a criação de uma "cultura totalitária".

O "apodrecimento" da "cultura burguesa"

Para aprender todo o sentido dessa tentativa, o melhor seria sem dúvida citar simplesmente uma porção de autores revolucionários. Isto seria muito probante, mas também muito monótono. Daí porque citarei apenas um, falecido recentemente, o escritor pró-chinês Jean Baby, que expõe assim o fim perseguido: "...Transformar a consciência dos homens e das mulheres para que renunciem pouco a pouco a todos os prejuízos, todos os hábitos, todas as crenças que são o produto de um passado muito longo de temor, de servidão e de privilégios (...). Será preciso ajudar os homens e as mulheres a, progressivamente, por em dúvida todos os hábitos de pensamento e todas as condutas que guiaram sua vida até então. Toda a cultura anterior, todas as formas de civilização deverão ser passadas no crivo para rejeitar tudo o que constitui obstáculo à organização da sociedade nova" (14). Trata-se pois de denunciar na "velha cultura" a expressão intelectual da classe no poder, que será batizada "burguesa" muito sumariamente, a fim de que este tema tenha um valor mobilizador de "slogan". Tudo o que tender à "reposição em dúvida" será celebrado e constituirá o objeto de sábias análises, a fim de ser reinjetado no corpo social por meio da "seringa asseptizada do sociólogo". Face a semelhante assalto, a maioria dos artistas será tomada de um terrível temor: o de estar "fora da moda". Mas então a cultura não existirá mais: a moda a terá substituído. E essa mutação vai ser ainda acelerada em nossos dias pela comercialização dos objetos culturais e sua pretensa democratização no seio da sociedade de massa (15). Daí resulta que as elites, seja por conformismo, seja por exclusão dos circuitos de difusão artística, serão pouco a pouco eliminadas e a própria cultura tradicional será desacreditada, senão inexistente. Será então o reino dos "ídolos" da cultura, que nada mais são do que falsários da inteligência e contra os quais Cocteau teve estas palavras tão duras:

"Não somente a mediocridade pensa, mas também a bestice. Oferecem-lhe tribunas e estrados. Ela aí sobe, com pé firme, se desnuda e consterna (...). Demasiados livros, sob os quais aqueles que deveriam ser lidos desaparecem e morrem abafados. Demasiadas cançõezinhas tomadas por poemas. Demasiadas tragédias que cantam. Demasiadas conversinhas distribuídas sem controle. A gente imagina facilmente até onde desceria uma escola em que o mestre obedecesse" (16).

E Cocteau, hoje em dia, não teria inclusive mais necessidade da imaginação para observar essa "descida"...

Esse reino da moda é também o da originalidade a qualquer preço. Toda obra se torna uma pesquisa, todo pensamento uma dúvida. A linguagem deve ser inovadora e os assuntos devem virar problemas. Um único tema é tratado: chama-se o inédito. A originalidade se torna um costume e o não-conformismo se refugia na tradição. Em Nova York, a propósito de um espetáculo que é um pouco o manifesto "hippie" e que se chama "Hair", a publicidade afirmou que, depois disto, "a Broadway não será nunca mais como antes"... Na realidade, esse espetáculo é a pior imagem do teatro comercial e de baixo "atrativo", com uma sábia mistura, já agora ritual, de erotismo, de droga e de gritos de animais. Em nome da renovação, é a repetição monótona e fatigante do vício e da estupidez que se instala.

E essa ordem nova tem também os seus bufões na Confraria dos Intelectuais, cenáculo curioso no qual cada um é solicitado por tudo e não sofre de nada, no qual cada um, para citar a palavra do presidente Eisenhower, "utiliza mais palavras do que o necessário para dizer mais do que é preciso". Esses intelectuais terão um lugar privilegiado e invejado, visto que alimentam a corrente da nova arte de acusação e de dúvida. Eis toda a significação do teatro moderno, particularmente o de Bertold Brecht. O dramaturgo alemão estima efetivamente que a obra teatral deve cessar de identificar o espectador com os acontecimentos de cena, a fim de obter uma "dissociação", um "distanciamento". Qualquer coisa representada sobre um cenário deve pois, segundo Brecht, ser insólita, a fim de fazer nascer no público um sentimento de absurdo e uma necessidade de inverter o mundo insólito que lhe é mostrado. Utiliza-se assim o bom senso do espectador para incitá-lo a subverter um mundo intolerável, que é um mundo imaginário. Mais ainda, convida-se agora o espectador a subir para o palco e juntar-se aos atores, a fim de fazer com que ele perca todo sentido das realidades, a fim de abolir as antigas distinções. O espetáculo norte-americano "Dionysus in 69" visa "fazer o espectador participar de um delírio dionisíaco e que o força a entrar ele próprio no ritual teatral". Aliás, o teatro se desloca cada vez mais para a rua: em França, recentemente, um pintor não declarou ter realizado uma obra-prima teatral lambusando de vermelho o rosto de um ministro? E esse ministro não lhe deu a melhor das réplicas lambusando-o de vermelho por sua vez? O que conta, pois, é unicamente a possibilidade para a Arte desembocar na Ação. A imagem cultural deve possuir uma virtude de atrapalhação, deve permitir a negação da sociedade. Deve tender à Revolução, ela é o elemento essencial da luta política, instrumento de desagregação da "velha cultura" e em seguida da criação de uma nova inteligência, com critérios radicalmente opostos. 

A criação de uma cultura totalitária

Negando a necessária conformidade da cultura com a ordem, a Revolução, uma vez chegada ao poder, vai pôr essa cultura a serviço da ordem totalitária que ela engendrará inevitavelmente. Ela não constituirá mais do que um simples capítulo do seu Plano, e uma engrenagem da ditadura, submetendo-a a um constrangimento e uma empresa totais (17). Os Intelectuais não serão mais palhaços, mas clowns tristes. A comédia, para eles, terminará em drama, porque não lhes restará mais do que servir ou exilar-se, calar ou morrer. E se esta evocação faz sobretudo pensar em Zdanov, o mui famoso procurador cultural de Stalin, não deve com isso fazer esquecer que, sob o III Reich, Joseph Goebbels, ministro da Cultura, era também o ministro da Propaganda. Porque o termo "revolução cultural" vem do nacional-socialismo... Tratava-se já então, para os nazistas, de renovar profundamente a arte e de criar obras que viessem do mais profundo da alma popular. Mao não fez senão retomar essa ambição, compreendendo a importância do movimento cultural para a realização da Revolução (18). A grande Revolução Cultural proletária tem por fim, diz Mao, "a revolucionarização do pensamento do homem... Nosso trabalho é regido por milhares de regras que se podem resumir, em última análise, numa única frase: transformar a alma do homem".

A inspiração artística deve ser a expressão de uma prática: será haurida no povo, quer dizer, na massa de todos aqueles "que aprovam e sustentam a obra de edificação socialista e participam dela" (19). Os artistas se porão pois na escola das massas para traduzir sua vida numa arte revolucionária estilizada, para criar todas as categorias de personagens e ajudar assim as massas a "avançar no curso da História". De qualquer forma, e para falar no vocabulário marxista, a nova cultura será a infraestrutura de amanhã, mas como ela é na realidade uma superestrutura, deverá adquirir uma força material penetrando as massas e refletindo sua vida. É por esse dinamismo planificado que se entende mudar a alma humana... E é neste exato instante da reflexão que devemos passar à questão essencial:

Qual é a significação profunda dessa ambição?

Mudar a natureza humana! Eis o objetivo que a Revolução visa ao transformar a cultura. Mas a natureza humana tem uma origem divina. A cultura não é jamais senão um reflexo dela. Em seu ódio a Deus, os revolucionários atribuem pois à cultura um papel que ela não pode ter. Sua ambição é erigi-la em absoluto. Por que? Porque, ensina-nos Roger Geraudy, a cultura é "o que há em nós de especificamente humano... Não conhecemos outro culto a não ser o da cultura... nenhum outro sacramento além desta criação contínua do homem pelo homem, pelo combate militante, pela criação artística" (20). Para um revolucionário, a cultura simboliza o homem-criador, o homem-Deus. No universo ateu de um Malraux, a cultura é o que permite sobreviver após a morte. É a eternidade, "o que responde ao homem quando ele se pergunta o que faz sobre a terra" (21). É uma religião cujas catedrais seriam as "Casas da Cultura", mas cujos fiéis não rezariam todos com uma só e mesma voz, e, procurando Deus, para sair de sua miséria, se encontrariam finalmente face a face com sua própria miséria. Também essa religião da cultura não pode conduzir senão a recusas desesperadas e trágicas que povoam a literatura do século XX, de Rimbaud a Camus e passando por Drieu. Porque a lógica do absurdo acaba na revolta ou no suicídio, que não são senão as duas formas de uma mesma recusa, a da realidade e da ordem que nesta se descobre. A cultura não pode ser um absoluto, não pode ao mesmo tempo ser um meio e um fim. Erigida em absoluto, a cultura não tem mais autêntica finalidade. E, sem finalidade, sem conformidade à ordem natural, está votada a passar incessantemente do esoterismo para a animalidade e o absurdo do totalitarismo da arte oficial ou de algum realismo socialista (22).

E uma vez chegado o momento de concluir, precisamos tirar as lições dessa crise cultural. Não é ela o signo do pecado contra o Espírito Santo, contra o próprio Espírito Santo que dá aos homens a inteligência e a ciência, o conselho e a força, a piedade, a sabedoria e o temor de Deus? Pois, pela nova cultura, a Revolução não tenta separar essa inteligência e essa ciência da piedade e do temor de Deus? A cultura revolucionária, que ataca as verdades ensinadas pela Igreja, que desespera da salvação e que se obstina no pecado e na impenitência final, não comete esse pecado contra o Espírito "o único que não será perdoado, nem neste mundo, nem no outro" (Mat. XII, 31)?

Não podemos também ignorar a advertência lançada ao mundo por Paulo VI em sua mensagem de Natal de 1968, a propósito de "tantos espíritos representativos da cultura moderna":

"Jamais talvez como em nossos dias, a literatura, o espetáculo, a arte, o pensamento filosófico, testemunharam de maneira mais impiedosa a deficiência do homem, a sua fraqueza mental, a sensualidade que o domina, a sua hipocrisia moral, sua propensão à delinqüência, sua provocante crueldade, suas possibilidades de abjeção, sua inconsistente personalidade".

Eis aí, portanto, o pobre "deus" que a Revolução escolheu. Mas parece que ela o escolheu para melhor destruí-lo. Porque a sua negação da ordem natural a arrasta para cair cedo ou tarde sob o domínio de uma ordem totalitária. A Revolução quer fazer da cultura uma pura criação, mas essa criação se torna uma administração. Ela quer condenar a velha cultura, mas é a nova que ela deve matar. Porque o homem não é Deus, sua deificação não é senão a antecâmara de sua escravidão: após a morte de Deus, vem a execução de seu assassino. Aliás, que poderiam edificar aqueles cujo grito, retomado por Bakunine e Netchaiev, é "nossa missão é destruir, não construir"! Camus não deixou de sublinhá-lo em algumas palavras admiráveis:

"Os conquistadores modernos podem matar, mas parecem não poder criar (...) A longo prazo, a arte em nossas sociedades revolucionárias deveria portanto morrer (...) Milhões de escravos continuarão um dia uma humanidade para sempre alforriada (...) Finalmente, quando o Império alforriar a espécie inteira, a liberdade reinará sobre rebanhos de escravos" (L´homme revolté).

Missão para os jovens

Dessa forma, estando estabelecido o diagnóstico, perguntamos: vai-se deixar a cultura continuar em mãos de seus matadores? Isto não é inclusive concebível, e creio profundamente que pertence à geração nova, precisamente porque é ela que se tenta hoje utilizar a serviço da Revolução para encobrir a "falência" dos operários, creio que cabe a ela travar o combate que é também o combate da juventude eterna. Esse combate, ela deve travá-lo compreendendo que o prazer passa pelo saber e que a cultura de divertimento, mesmo esta, passa pelo conhecimento e pela tradição da ordem natural e sobrenatural. A juventude deve encontrar essa sabedoria que não é mais de ontem que de amanhã, mas é de sempre, e pode encontrar sobre esses itinerários eternos muitos mestres do seu século. A ela incumbe dar novamente vida e brilho a Bourget e a Barrès, a Maurras como a Claudel, a Saint-Éxupery, a Bernardos e a Péguy, a Chesterton e a Bazin... A ela cabe testemunhar por eles e por seu pensamento, cuja verdade profunda, apesar das diversidades legítimas e das lacunas inevitáveis, merece ser celebrada.

E se um dia se deixasse tomar, apesar de tudo, pelo desencorajamento ou pela lassidão, poderia então, recorrendo ainda a um de seus mestres, lembrar-se da palavra de Veuillot: "Receai que o medo de deixar de ser amáveis acabe por vos tirar toda coragem de ser verdadeiros".

E esse amor à Verdade é também a mensagem fundamental que nos transmite São Pio X (Carta sobre o Sillon):

"Não, a civilização não está por inventar, nem a cidade nova por construir nas nuvens. Ela existiu, existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Não se trata senão de instaurá-la e restaurá-la sobre os fundamentos naturais e divinos, contra os ataques sempre remanescentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade: omnia instaurare in Christo".

(1) Nicole Zandi: A Broadway descobre a "revolução" (Le Monde, de 31 de janeiro de 1969).

(2) Ouvido principalmente durante uma transmissão do Festival de Avignon pela TV (O.R.T.F., 2.ª cadeia, 21 de dezembro de 1968, 21h).

(3) Paradise Now ("O Paraíso já") é o espetáculo mais conhecido do Living Theatre ("O teatro é a vida") cuja finalidade é transformar o espectador em ator e fazer o teatro tender para a ação de rua. 

(4) Seu autor é Pierre Schneider. Esta anedota foi relatada de maneira mais completa em Le Figaro de 19 de dezembro de 1968, por Raymond Cogniat, sob o título "A crítica d´arte ou as ciladas da inteligência".

(5) Idéia geral da Revolução no século XIX.

(6) Stalin, em sua Doutrina da U.R.S.S., explica muito bem essa tática: "Para o reformista, a reforma é tudo (...) Para o revolucionário, ao contrário, o principal é o trabalho revolucionário e não a reforma; para ele, a reforma é apenas o produto acessório da revolução. Eis porque, com a tática revolucionária, nas condições de existência do poder burguês, uma reforma se torna naturalmente um instrumento de desagregação desse poder, um instrumento de reforço da revolução, um ponto de apoio para o desenvolvimento contínuo do movimento revolucionário". Que pensar, desde então, das apresentações de Raymond Aron, que é no entanto considerado como um bom especialista do fenômeno revolucionário, mas que, como bom liberal, escreve: "Não se melhora a condição dos homens pelo romantismo da revolução, mas por uma longa paciência"? (Le grand chisme, 1948). Não que a "longa paciência" seja inútil ao melhoramento da condição humana ou especificamente revolucionária. Ao contrário! Mas ela não é a alternativa verdadeira.

(7) "La crise de la conscience européenne".

(8) "L´essence du christianisme".

(9) Convém citar aqui a frase de Dom Gaume (citada por Jean Ousset em "Pour qu´ll règne" - pág. 122): "Eu sou o ódio a toda ordem que o homem tenha estabelecido e na qual não seja rei e Deus ao mesmo tempo... Sou a fundação do estado religioso e social sobre a vontade do homem em lugar da vontade de Deus. Sou Deus destronado e o homem em seu lugar... Eis porque eu me chamo Revolução, quer dizer, inversão". E W. Webster, em Secrets societies and subversive movements, precisa: "O fim da Revolução não é o socialismo, nem mesmo o comunismo; não é uma mudança no sistema econômico atual; não é a destruição da civilização num sentido material. A Revolução desejada pelos seus chefes é moral e espiritual; é uma anarquia de idéias na qual todas as bases admitidas desde há dezenove séculos serão invertidas, na qual serão espezinhadas todas as tradições até aqui honradas, e na qual acima de tudo, a idéia cristã será finalmente obliterada". É neste sentido que é preciso compreender a reflexão de Joseph de Maistre a propósito da Revolução: "Por muito tempo a tomamos por um acontecimento; incorríamos em erro; é uma época". De Maistre tem razão, pelo menos se entendemos "época" no sentido forte, no sentido grego  de "epokhé" (ponto de parada), retomado por d´Alembert em seu artigo da Enciclopédia: "É o estado de espírito pelo qual não estabelecemos nada, não afirmando e não negando o que quer que seja". Esse ponto de parada é com efeito também um ponto de partida, o ponto de uma cronologia particular, impregnada de um pensamento anticristão.

(10) É preciso compreender bem esse caráter fundamental da Revolução que é a negação. Trotsky afirma: "Todas as relações sociais se transformam no curso de uma luta interior contínua. A sociedade só faz mudar incessantemente de pele... Essas pertubações determinam combinações e relações recíprocas de tal modo complexas que a sociedade não pode chegar a um estado de equilíbrio. Nisto se revela o caráter permamente próprio da revolução socialista" (A revolução permanente). E Mao escreve em 1957: "A filosofia marxista considera que a lei de unidade dos contrários é a lei fundamental do universo... Os aspectos opostos da contradição coexistem tanto na unidade como na luta, e isto estimula o movimento e a mudança das coisas e dos fenômenos"... (De la juste solution des contradictions au sein du peuple). As divergências aparentes das diversas escolas revolucionárias não devem pois surpreender além da medida, porquanto a Revolução se supera sem cessar em se negando! Daniel Cohn-Bendit declarava, a 2 de setembro de 1968, no congresso anarquista de Carrara: "Para nós, o problema não é entre marxismo e anarquismo. É descobrir e por em prática os métodos mais radicais em vista da Revolução".

Citamos por fim esta declaração muito nítida de Proudhon: "Nosso princípio, para nós, é a negação de todo dogma; nosso dado, o nada. Negar, sempre negar, eis aí nosso método; ele nos leva a por como princípios: em religião, o ateísmo; em política, a anarquia; em economia, a não propriedade".

(11) Cartas Pastorais sobre Ortodoxia, erros e perigos - Ortodoxia, submissões, compromissos. Várias passagens tratam da cultura, principalmente em suas relações com a Fé.

(12) Esta pretensão não é nova. Para Rousseau, "aquele que ousa a empresa de instituir um povo deve sentir-se em estado de mudar, por assim dizer, a condição humana". Nos Cahiers de la Quinzaine, Péguy sustenta igualmente que: "As Revoluções não prendem ou pegam e não vingarão a não ser que pretendam inverter, reverter todo um sistema social e mental. Uma revolução não é nada se não  é a introdução de um novo plano, se não implica num olhar inteiramente novo, numa visão totalmente nova, numa vida totalmente nova. Uma revolução só é revolução quando é inteira, global, total, absoluta". E Jean de Fabrègues escreve por sua vez: "A Revolução é redenção, é também criação, nova criação do mundo... A Revolução engendra também um homem novo" (La Révolution ou la foi). Eis porque foi possível dizer que o projeto revolucionário era superponível ao projeto religioso (cf. principalmente Sociologie des révolutions, por André Decouflé - P.U.F.). Mas essa superposição é ao mesmo tempo uma inversão radical, que substitui a Fé pela ação, Deus pela história, o sobrenatural pelo mundo, o aperfeiçoamento espiritual pelo desempenho da consciência criadora no devir histórico. Assim também, o projeto revolucionário, que é "projeto em vista de outro mundo - percebido antes de ser construído" (François Perroux), que é projeto desse mundo em revolta contra Aquele que o criou, é um projeto propriamente satânico.

(13) Profil-Bourgogne nº 5, de 15 de maio de 1967. Citado por M. C. Gousseau em "Ação doutrinária, ação cultural" (artigo publicado em Permanences nº 45).

(14) Jean Baby. La grande controverse sino-soviétique (Ed. Bernard Grasset - 1966).

(15) Este aspecto atual da cultura é admiravelmente analisado no livro de Étienne Gilson: La societé de masse et sa culture (Ed. Vrin).

(16) La Nef (nº de dezembro de 1955): O Progresso ao serviço do homem.

(17) Ler a esse respeito: Planification de la Culture et des Loisirs, por M. C. Gousseau.

(18) É o tema geral da célebre discussão sobre a literatura e sobre a arte em Yenan, a 23 de maio de 1942.

(19) Da justa solução das contradições no seio do povo (1957).

(20) L´homme chrétien et l´homme marxiste (La Palatine - 1964): estes temas são também desenvolvidos em Marxisme di XXe siècle (1966).

(21) Discurso de André Malraux na "Casa de Cultura" de Amiens.

(22) Desejoso de ir ao essencial não julgamos útil falar da controvérsia que existe entre comunistas "ortodoxos" e "pró-chineses". Os primeiros estimam que a cultura progride por uma permamente reposição em dúvida do saber, que integra este sem rejeitá-lo, para em seguida ultrapassá-lo. Tentam assim recuperar no passado o que pode servir à Revolução, em virtude de sua concepção materialista da história. Assim, escrevia Engels:

"Que os dogmáticos façam valer sua fria razão às custas do que está superado nas obras de ontem, mas nós poremos nossa alegria em procurar aí os germes do futuro".

Concepção ilustrada hoje por Garaudy.

Os "pró-chineses" e os nihilistas estimam ao contrário que toda cultura adquirida é um obstáculo à cultura viva. É a opinião de Francis Jeanson ("a cultura viva se faz ao contrário de tudo o que existe, principalmente da própria cultura enquanto esta é do passado"). É também a de Dubuffet, autor da "Asfixiante cultura", cujas teses são retomadas pela "Revue de la Ligue de l´Enseignement" (nº de outubro de 1968), num artigo de Jean Audoin:

"De resto, talvez a solução proposta por Dubuffet nos faça descobrir horizontes insuspeitos: a posição fecunda é em definitivo a de recusa e contestação da cultura, e não da simples incultura (...) Ele acrescenta, para apoiar sua proposição, a criação de institutos de desaculturação, onde seria ministrado, por monitores especialmente lúcidos, um ensino de descondicionamento e de desmistificação, estendido por vários anos que mantenha viva, ao menos em pequenos círculos isolados e excepcionais, em meio ao grande deslanche geral de acordo cultural, o protesto".

Os nihilistas insistem pois sobre a negação e propõem operações tipo "Odeon 1968" ou "Living Theatre". É o aspecto "deterioração da cultura burguesa". Os comunistas do P.C., estes preconizam sobretudo a nacionalização dos meios de difusão artística e da cultura: é o aspecto totalitário. Mas já vimos que essa controvérsia não é senão o reflexo dos dois polos entre os quais oscila a revolução cultural.

Do mesmo modo, o P.C. julga que a cultura artística não basta para "libertar" o proletariado ("Não é o teatro que fará a revolução, é a revolução que fará o teatro" - Jean Vilar), ao passo que outros, como Jeanson e Malraux, atribuem à cultura esse poder. O P.C., com efeito, estima que somente novos bens de produção podem operar a "desalienação", mas não nega com isso o papel revolucionário do teatro ("Não creio que foi Beaumarchais que desencadeou a Revolução Francesa, o que não tira nada do valor de contestação crítica do Casamento de Figaro" - Jean Vilar). O P.C. desconfia da politização da cultura, na medida em que ela lhe escapa em proveito dos "esquerdistas libertários". Há, portanto, sobretudo, uma oposição de grau entre essas duas concepções. Além disso - como já dissemos - o marxismo sob sua forma atual constitui apenas uma variante da Revolução e talvez esteja em vias de sofer uma transformação profunda diante de nossos olhos. Enfim, o próprio Roland Leroy, secretário do Comitê Central do Departamento Político do P.C.F., declarou em Lyon, a 15 de novembro de 1968: "Creio impossível a qualquer um fixar limites ao desenvolvimento cultural, porque esses limites são atualmente rebatidos até o ponto que é nosso infinito de hoje, pelo poder criador da humanidade". Encontra-se aí, pois, muito clara, a pretensão já assinalada de considerar a cultura como um absoluto.     

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