segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Grau de certeza e grau de censura

Debate recente no Orkut:

Eu: Ricardo, eu não vejo problema algum na relação sinal-graça no que se refere ao sacramento citado. A graça sacramental do Matrimônio se dirige ao bom desempenho dos esposos na sociedade conjugal (qualquer catecismo digno do nome diz isso de maneira simples e clara) e, desse modo, só tem uma relação indireta com a simbologia Cristo-Igreja (um sacramento pode ter mil e uma simbologias sem que isso implique em muita coisa sobre sua graça própria). O Matrimônio, portanto, é sacramento em sentido estrito. E não há controvérsia alguma sobre quem o ministro desse sacramento, se os ortodoxos afirmam algo diferente do que ensina a Igreja isso é erro, é heresia, não é controvérsia (controvérsia existe dentro da Igreja, como a que se refere à matéria da Penitência, ou a existência de uma coisa chamada "restrição mental").

Rui: Thiago, nem toda doutrina apresentada como certa pelos teólogos ocidentais implica em heresia para seus contraditores.

Eu: Nada disso é algo apresentado como certo por teólogos ocidentais, mas pela Igreja e, portanto, contradizer que o Matrimônio é sacramento ou que os noivos é que são os ministros do mesmo é objetivamente uma heresia. Evidente que se tivéssemos um problema de definição lingüística, de modo que o que chamamos de "ministro" não fosse equivalente ao uso que os ortodoxos fazem dessa palavra, o problema seria só aparente; e falar em heresia objetiva não implica necessariamente em heresia subjetiva.

Rui: Certo, mas não basta uma doutrina ser proposta pela Igreja, pois ela pode ser proposta infalivelmente ou de um modo meramente autêntico. Nem toda doutrina das encíclicas é proposta com o máximo grau de autoridade como formal ou virtualmente revelada.

Eu: Você está falando em tese ou concretamente? Se for em tese, para casos hipotéticos, eu concordo, mas se for para o que acabei de explicar, sua colocação está equivocada.

Rui: No caso do matrimônio ser sacramento, é evidentemente uma verdade de fé divina e católica definida, mas sobre os ministros do matrimônio não, muito embora seja certa em teologia e doutrina católica, ensinada por Pio XII na "Mystici corporis".

Eu: Não há margem de dúvida que o Matrimônio é sacramento e que os noivos são seus ministros (ou, de outro modo, seria o cúmulo da ilogicidade considerar como válidos e sacramentais os matrimônios realizados em locais onde não aparece um padre a décadas - como ocorre em certos lugares da China). Não faço idéia de como se chegou a isso ou de qual a classificação dada pelos teólogos (supondo que esse fosse um grande critério para se avaliar algo, dada a variedade de posicionamentos), mas a mera reflexão em torno dos problemas que surgiriam com a hipótese contrária já faz com que ela tenha de ser rejeitada sem nem precisar aprofundar muito.

Rui: Thiago, eu não expressei a mínima dúvida sobre a questão, e sim sobre a censura. É de fato uma doutrina infalível, decorrente da própria disciplina eclesiástica, que permite que o matrimônio se contraia sem a assistência de um sacerdote. O que eu falei não é sobre o grau de certeza da sentença, e sim do grau da censura.

Eu: Bem, então eu não entendo sobre o quê você está falando. Você pode explicar qual a diferença e implicação prática entre essas qualificações (grau de certeza e grau de censura)?

Rui: Pe. Ceriani, num ensaio sobre o sedevacantismo (Monsenhor Lefebvre e a Sé Romana) diz que nem todo que nega uma doutrina infalível (definida pela Igreja sem ser formalmente revelada) é herege, embora o é, na opinião de Santo Tomás, se a negação levar indiretamente à corrupção de um artigo de fé (IIaIIae, q.11, a.2).

Eu: Como ele chega a tal conclusão (suponto que fale de uma negação formal, isto é, sem dirimente subjetiva)?

Rui: Penso que tenha chegado a ela pela definição que se dá de herege no Código de Direito Canônico. Santo Tomás, por sua vez, não dá uma definição canônica, mas lógica, pois quem nega indiretamente alguma coisa, ainda assim, o nega.

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