quarta-feira, 13 de abril de 2011

Arte católica antiga: introdução

 (afresco românico)

Jacó, despertando de seu sono, exclamou: “Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!” (Gênesis XVIII, 16)

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. (João I, 14)

Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo. Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. (Apocalipse 21, 2-3)

Possam essas fundações ser dignas de ser por Ti fortalecidas, estes tetos de estar sob Teu abrigo; possas Tu entrar nessas portas e penetrar o mais recôndido santuário… para que a paz feliz, a davidosa hospitalidade, uma abundante provisão, a reverência religiosa e a abundância de salvação jamais faltem neste lugar. (trecho da cerimônia de consagração de uma igreja no rito gregoriano)

O espaço sagrado (a igreja) é a “Jerusalém Celeste” onde acontece o “Mistério da Liturgia”.

Infelizmente essa verdade parece ter sido ofuscada na vida católica atual. Os sinais perderam seus valores.

Não é necessário ficar muito tempo numa igreja para notar que o sentido do Sagrado desapareceu. Os gestos mais simples da vida cristã, os ritos mais comuns de nossa liturgia foram invencivelmente esvaziados de sua significação. Um sinal da cruz, uma genuflexão é hoje, quando feita, um vago gesto banal de um ato que na sua realidade original traduzia a fé do ser humano por inteiro: espírito, alma e corpo (usando a divisão paulina).

A ausência do Sagrado, que é uma linguagem universal, leva-nos a não mais ler e usar os devidos símbolos, materiais e estilos no lugar e hora exata. O resultado é o caos, a desordem, o desequilíbrio, a ruptura. O pior é que a medida que o católico vai perdendo seus referenciais simbólicos, ele mesmo se desequilibra e se perde (quando se esquece o sentido do Sagrado, tudo passa a ser permitido).

O resgate do significado dos símbolos, o estudo da história da arte, é, portanto, um sinal de vitalidade eclesial, é um ponto do qual o católico culto e combativo não pode abdicar, já que com ele revivemos os valores perdidos e nos direcionamos ao Sagrado.

Quando teve início a arte cristã?

Não foi durante a existência de Cristo. Com efeito, não há nenhuma referência à arte nos Evangelhos, nem qualquer retrato contemporâneo de Cristo, embora conste que São Lucas tentou retratá-lo (os “ortodoxos” acreditam que esse apóstolo escreveu um ícone de Nossa Senhora).

A arte cristã começou nas catacumbas; era parte de um movimento clandestino (por isso, era uma arte que falava aos “iniciados”). Os primitivos católicos de Roma, obrigados a esconder-se nas catacumbas pela perseguição, formaram uma resistência com forte núcleo de fé. O tempo ou a oportunidade para as artes era limitado; quando ocorria a necessidade de se transmitir uma mensagem, sempre havia paredes onde escrevê-la. Essas catacumbas, escuras, úmidas e limosas, só podiam constituir um refúgio temporário, de modo que as pinturas murais que nelas sobreviveram são impressionistas, isto é, são destinadas a transmitir uma impressão, em vez de representar toda uma cena. O artista não estava interessando no belo, antes procurava recordar aos fiéis os exemplos de poder e misericórdia de Deus. No estilo, estão ligadas às pinturas dos gregos que decoram as paredes da Pompéia romana. Contudo, os artistas da Grécia, que trabalhavam em Pompéia, estavam decorando as casas dos ricos, ao passo que os católicos, pela maior parte, eram pobres e tinham um modo totalmente diferente de encarar a vida. Queriam que suas pinturas narrassem uma história ou transmitissem uma idéia; os habitantes de Pompéia gostavam da decoração pura. Não obstante, o costume grego de encerrar a pintura numa moldura ou entre cortinas abertas sobreviveu e pode ser encontrado nas catacumbas.

 (Peixe eucarístico na catacumba de São Calixto - Roma)

Os fossores, artistas coveiros que mais trabalharam nas catacumbas, faziam parte de uma grande corporação helênica juntamente com os pictores, musivarii e os quadratarii. Este grupo pertencia à classe dos servis ou libertos, e foi onde mais o catolicismo penetrou. Tais artistas viveram intensamente nas catacumbas romanas do século I ao IV quando já faziam parte dos “sagrados ministérios”, logo abaixo dos diáconos e acima dos clérigos menores.

As imagens bíblicas preferidas foram aquelas que exprimem o pensamento que o poder de Deus salva da morte: Noé na Arca, o sacrifício de Isaac, Moisés que faz jorrar água da rocha, a história de Jonas, Daniel com os leões, a ressurreição de Lázaro, a cura da hemorroíssa.

(Daniel entre os leões - catacumba romana)

(Ressurreição de Lázaro - catacumba romana)

(Cura da hemorroíssa - catacumba romana)

A catacumba de Priscila, em particular, contém algumas pinturas típicas do século III. Ali, com alguns traços, o artista representou os três judeus na fornalha ardente (Daniel III, 8-30), dançando alegremente entre as chamas que deveriam tê-los destruído – motivo inspirador para as pessoas perseguidas que podiam esperar, diariamente, a morte pelo fogo. Em pinturas como esta há pouca beleza consciente. De novo: somente a mensagem era importante em todas as primitivas ilustrações de temas cristãos.

(Judeus na fornalha ardente - catacumba romana)

Observem, o pintor não queria representar uma cena dramática apenas para agradar a si mesmo. Para apresentar o exemplo consolador de fortaleza de ânimo e de salvação, era mais do que suficiente que fossem reconhecíveis os três homens em seus trajes persas, as chamas e a pomba (um símbolo da ajuda divina). Tudo que não fosse estritamente relevante era melhor deixar de fora.

Uma figura (conhecida como Orante), que freqüentemente aparece na arte das catacumbas, representa uma pessoa de pé, com os braços erguidos em oração, no mesmo gesto que o sacerdote usa hoje no Cânon da Missa. A atitude é magnífica, aberta e livre; parece reunir o mundo inteiro em seu ato de louvor.

(Orante - catacumba romana)

Muitos significados têm sido dados ao Orante. Alguns arqueólogos acreditam que ele representa a alma que partiu, gozando a ventura da liberdade absoluta no Céu. As mãos estão erguidas num gesto clássico de oração, seja de adoração ou intercessão.

A figura é representada com algumas ligeiras camadas de cores simples que seriam visíveis mesmo à luz bruxuleante de velas. Tudo o que era irrelevante à mensagem de oração foi deliberadamente omitido. A função do Orante é espiritual e é desempenhada sem tentar expressar qualquer outro tipo de beleza.

Como o catolicismo era perseguido e precisava ocultar-se para sobreviver, não surpreende que, no começo, ele raramente se atrevesse a revelar-se, retratando Nosso Senhor Jesus Cristo; o uso de símbolos para representá-Lo era o mais comum. Um modo popular de representar Cristo, o Bom Pastor, era na forma de um jovem com trajes e sandálias de um pastor grego, trazendo aos ombros a ovelha perdida e flautas de Pã na mão. Ele era concebido segundo o modelo de Orfeu ou de Hermes. Nas catacumbas, tudo era feito deliberadamente para enganar o inimigo; porém, mais tarde, talvez isso se desse porque as pessoas sentissem, subconscientemente, que o deus que despertara o reino animal com a sua flauta havia cedido lugar ao Deus que não só criara os animais como também viera chamar a selvagem raça humana com uma música mais sublime.

 (Bom Pastor - catacumba romana)

As pinturas marianas são relativamente comuns nas catacumbas e cemitérios. Elas atestam a antigüidade do culto e o mistério preferido pelos antigos cristãos, a saber, o da maternidade divina, o da Encarnação.

 (Nossa Senhora e o Menino na catacumba de Priscila - Roma)

Essas pinturas catacumbais, na sua simplicidade e até rusticidade, nos ensinam que os fiéis daquele tempo professavam a mesma fé que nós possuímos: tinham crença na divindade de Jesus, na Eucaristia, na instituição divina do pontificado, na maternidade divina, na intercessão dos santos, no purgatório, na eficácia da oração pelos defuntos. Ainda testemunham a esperança nos méritos do Salvador, o perdão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna.

Além das catacumbas encontradas em Roma, existem outras na Ásia Menor, em Alexandria, na Síria e na África do Norte. Os artistas cristãos fora de Roma modelavam sua obra à maneira oriental, vigorosa e emocional, com fortes influências egípcias (já contidas na própria arte judaica). Cristo será barbudo e cabeludo, desde seus primórdios, revelando o Cristo que viveu na Palestina, segundo a grande tradição da “pintura de Edessa”.

(Nosso Senhor barbudo e cabeludo numa pintura de uma catacumba)

Mais tarde, a influência oriental e a greco-romana clássica se fundiram e, juntas, produziram um artesanato altamente refinado, que pode ser visto nas esculturas de marfim de Constantinopla

 (Ícone de marfim, Deesis - Constantinopla)

e nos túmulos de pedra dos cristãos influentes no Império Ocidental.

(Cristo com São Pedro e São Paulo - relevo em mármore do sarcófago de Junius Bassus; cripta de São Pedro, Roma. Em vez da figura barbada oriental, vemos um Jesus em plena beleza juvenil, entronizado entre São Pedro e São Paulo, ambos exibindo a digna aparência de filósofos gregos. Há um detalhe, em especial, que nos lembra até que ponto essa representação ainda está ligada aos métodos da arte helenística pagã: para indicar que Nosso Senhor está entronizado nas alturas, os escutor fez seus pés descansarem no dossel do firmamento sustentado pelo antigo deus do céu.)

(Sacrifício de Isaac - relevo em mármore do sarcófago de Junius Bassus; cripta de São Pedro, Roma)

3 comentários:

  1. de que arte é essa? primitiva bizantina qual????

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  2. Não é nenhum estilo específico. É o tipo de arte que se fazia antes mesmo do bizantino.

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  3. fala amigo parabéns pelo blog, da uma olhada lá no meu proftamancoldi.blogspot.com

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