quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Participação na Santa Missa (rito gregoriano/tridentino)

Dando continuidade às postagens sobre uma vivência prática do rito gregoriano, vou agora apresentar um pequeno guia sobre a postura dos fiéis em missas desse rito.

(católicos indianos numa Missa no rito gregoriano)

Introdução

Vamos seguir o que disse o Papa Pio XII na Instrução sobre Música Sacra e Sagrada Liturgia, em 3 de setembro de 1958. Este é o último documento que tratou do assunto até o ano de 1962 e, portanto, é o referencial normativo para as celebrações no rito gregoriano.

1) Noções prévias

A Santa Missa pode ser:

a) Missa Papal (não é celebrada desde os anos 60 e seria muito difícil voltar a ser, pois muitas regras consuetudinárias se perderam e não há mais a corte papal que tinha um papel importante nesse tipo de celebração).

(paramentos do Papa Pio XII)

b) Missa Pontifical: é a Missa celebrada por um bispo. Esta pode ser:

»Solene: celebrada com canto e ministros sagrados.

»Rezada: sem canto e com a ajuda de dois sacerdotes capelães (mesmas normas de participação da Missa dialogada ou rezada por um padre).

c) Missa com canto: quando o sacerdote canta as partes que lhe são próprias. Subdivide-se em:

»Solene: quando o sacerdote é ajudado por um diácono e subdiácono.

»Cantada (ou de guardião - denominação antiga no nosso país): quando o sacerdote é ajudado só por acólitos.

d) Missa dialogada: quando os fiéis participam liturgicamente, ou seja, respondendo ao celebrante e rezando com ele o Glória, Credo, Sanctus e Agnus Dei.

e) Missa rezada: quando os fiéis participam em silêncio ou em comum por meio de orações e cânticos de piedade popular (extra-litúrgicos).

2) Princípios gerais sobre a participação dos fiéis

A natureza da Santa Missa exige que todos os presentes dela participem segundo seu modo próprio.

a) Esta participação deve ser, em primeiro lugar, interna, isto é, por meio da atenção piedosa da alma, exercitada pelos afetos do coração, pela qual os fiéis “se unam com o Sumo Sacerdote... e juntamente com Ele e por Ele ofereçam o sacrifício e unidos com Ele se ofereçam” (Pio XII, Mediator Dei).

b) Porém, a participação dos presentes torna-se plena se, à atenção interna, soma-se a participação externa, ou seja, manifestada por atos externos, como a posição do corpo, gestos rituais e, sobretudo, respostas, orações e cantos.

c) A participação ativa perfeita na Santa Missa se obtém pela participação sacramental.

d) Porém, como a participação consciente e ativa dos fiéis não pode ser obtida sem sua suficiente instrução, deve-se recordar o que manda o Concílio de Trento (Sess. 22, cap. 8): “Manda este Santo Sínodo que os Pastores e todos os que tem cargo de almas expliquem freqüentemente durante a celebração da Santa Missa [i.e., na homilia depois do Evangelho] algo dos textos da Missa e exponham algo sobre o mistério deste santíssimo Sacrifício, sobretudo nos domingos e festas”.

3) Participação dos fiéis nas missas com canto


Na Missa Solene a participação ativa dos fiéis pode se realizar em três graus:

a) Primeiro grau: quando todos os fiéis cantam as respostas litúrgicas: Amen; Et cum spiritu tuo; Gloria Tibi, Domine; Habemus ad Dominum; Dignum et justum est; Sed libera nos a malo; Deo gratias. Deve-se trabalhar para que em todos os lugares os fiéis sejam capazes de cantar essas respostas.

b) Segundo grau: quando todos os fiéis cantam as partes do Ordinário da Missa: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. Deve-se esforçar para que os fiéis saibam cantar partes da Missa com as melodias gregorianas mais simples.

c) Terceiro grau: quando todos os presentes estejam de tal modo exercitados no canto gregoriano que saibam cantar as partes do Próprio da Missa. Deve-se urgir essa participação plena sobretudo nas comunidades religiosas e seminários.

OBS: Concretamente, o terceiro grau, não existe, pois o coral é que acaba cantando.

Nos domingos e festas deve-se optar (optandum est) para que a Missa paroquial ou principal seja celebrada com canto.

Para as missas cantadas, aplicam-se as mesmas normas de participação das missas solenes.

Deve-se notar o seguinte nas missas com canto:

a) Durante a Consagração, deve cessar todo canto e, onde há o costume, também o som do órgão e de qualquer outro instrumento musical.

b) Terminada a Consagração, salvo que se tenha de cantar o Benedictus, sacrum suadetur silentium (deve-se guardar o sagrado silêncio) até o Pater Noster.

c) Quando o celebrante abençoa o povo no fim da Missa, não se deve tocar o órgão. O celebrante deve pronunciar as palavras da bênção de modo a ser entendido por todos os fiéis.

d) Não se responde às Orações ao Pé do Altar, pois o Introito é cantado nessa hora.

OBS: Na prática, existem variações consideradas legítimas a essas normas, como, por exemplo, o órgão ser tocado bem baixo, bem grave, durante a Consagração.

4) Participação dos fiéis nas missas rezadas

Deve-se cuidar para que os fiéis não assistam às missas rezadas “como estranhos ou mudos expectadores” (Constituição Apostólica Divini cultus), mas que tenham aquela participação requerida por tão grande mistério, e que traz riquíssimos frutos.

O primeiro modo com o qual os fiéis podem participar da Missa rezada dá-se quando, cada um, por própria indústria, participa internamente, ou seja, com atenção às partes principais da Missa, ou externamente, segundo costumes aprovados das diversas regiões.


São principalmente dignos de louvor os que, com um pequeno livreto adaptado à sua capacidade, rezam com o sacerdote as mesmas orações da Igreja (antigamente, livros como o Adoremos cumpriam essa função). Como, porém, nem todos os fiéis são igualmente idôneos para entender os ritos e fórmulas litúrgicas, estes podem participar de um modo mais apto e fácil, ou seja, “meditando piamente nos mistérios de Jesus Cristo, ou fazendo exercícios de piedade e orações que, embora difiram da forma dos ritos sagrados, pela sua natureza a eles convém (Mediator Dei).

O segundo modo de participação dá-se quando os fiéis participam da Santa Missa com orações comuns e cânticos. Deve-se cuidar para que tais orações e cânticos estejam de acordo com as diversas partes da Missa.

O terceiro modo de participação e o mais perfeito de todos, dá-se quando os fiéis respondem liturgicamente ao celebrante, como que dialogando com ele e rezando em voz alta as partes que lhes são próprias. Esta participação plena se distingue em quatro graus:


a) Primeiro grau: se os fiéis dão ao celebrante as respostas mais fáceis: Amen, Et cum spiritu tuo...

b) Segundo grau: se os fiéis dizem todas as respostas dos acólitos, rezam o Confiteor antes da Comunhão e o Domine non sum dignus(essas duas últimas orações podem ser ditas em português, mas só recomendo isso em dias de semana).

c) Terceiro grau: se os fiéis rezam com o celebrante as partes do Ordinário da Missa: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei.


d) Quarto grau: se os fiéis rezam juntamente com o celebrante as partes do Próprio da Missa: Intróito, Gradual, Ofertório e Comunhão. Este último grau só é indicado para o uso com dignidade por grupos mais seletos e cultos, mas, na prática, não existe.

Outras normas:

Nas missas rezadas, todo o Pater Noster pode ser rezado pelos fiéis juntamente com o celebrante, mas somente em língua latina, e acrescentando o Amen. Em razão do costume, enquanto o celebrante reza o Pai Nosso em latim, os fiéis podem rezá-lo junto em português.

Nas missas rezadas os fiéis podem cantar hinos populares, guardando-se, porém, a lei de que estejam de acordo com cada parte da Missa.


Comentário: Nessa fase de reimplantação do rito gregoriano, para a glória da Igreja e respeito às nossas raízes, é recomendável que nas missas com canto seja instaurado o primeiro grau de participação e nas rezadas o terceiro grau do terceiro modo (a participação nas missas rezadas com essa conformação tornará quase automática uma assistência de primeiro grau nas cantadas).

5. Posição dos fiéis na Santa Missa

Missa Rezada

Recepção do bispo (Ecce Sacerdos): de joelhos

Entrada do celebrante: de pé

Canto do Asperges: de pé

Orações ao pé do altar: de joelhos

Ao subir ao altar: de joelhos

Incensação: -

Intróito e Kyrie: de joelhos

Gloria: de joelhos

Coleta (oração do dia): de joelhos

Epístola: sentados

Gradual/Aleluia: sentados

Evangelho: de pé

Credo: de pé

Et incarnatus est: genuflexão

Dominus vobiscum/Oremus: de pé

Ofertório: sentados

Incensação do celebrante: -

Orate frates: de pé

Após o Sanctus (rezado ou cantado): de joelhos

Todo o Cânon: de joelhos

Pater Noster/Agnus Dei: de joelhos

Após o Agnus/comunhão: de joelhos

Abluções até Communio: de joelhos

Postcommunio: de joelhos

Bênção final: de joelhos

ÚltimoEvangelho: de pé

Orações finais ao pé do altar: de joelhos

Saída do celebrante: de pé

Missa Dialogada

Recepção do bispo (Ecce Sacerdos): de joelhos

Entrada do celebrante: de pé

Canto do Asperges: de pé

Orações ao pé do altar: de joelhos

Ao subir ao altar: de pé

Incensação: -

Intróito e Kyrie: de pé

Gloria: de pé

Coleta (oração do dia): de pé (exceção: nos dias de penitência - Advento, Quaresma-, salvo domingo, e nas missas de defunto, deve-se ajoelhar durante a Coleta)

Epístola: sentados

Gradual/Aleluia: sentados

Evangelho: de pé

Credo: de pé

Et incarnatus est: genuflexão

Dominus vobiscum/Oremus: de pé

Ofertório: sentados

Incensação do celebrante: -

Orate frates: de pé

Após o Sanctus (rezado ou cantado): de joelhos

Todo o Cânon: de joelhos

Pater Noster/Agnus Dei: de pé

Após o Agnus/comunhão: de joelhos

Abluções até Communio: de joelhos

Postcommunio: de pé (exceção: nos dias de penitência - Advento, Quaresma-, salvo domingo, e nas missas de defunto, deve-se ajoelhar durante a Postcommunio)

Bênção final: de joelhos

ÚltimoEvangelho: de pé

Orações finais ao pé do altar: de joelhos

Saída do celebrante: de pé

Missa Cantada e Solene

Recepção do bispo (Ecce Sacerdos): de joelhos

Entrada do celebrante: de pé

Canto do Asperges: de pé

Orações ao pé do altar: de pé

Ao subir ao altar: de pé

Incensação: de pé

Intróito e Kyrie: de pé

Gloria: de pé/sentados

Coleta (oração do dia): de pé (exceção: nos dias de penitência - Advento, Quaresma-, salvo domingo, e nas missas de defunto, deve-se ajoelhar durante a Coleta)

Epístola: sentados

Gradual/Aleluia: sentados

Evangelho: de pé

Credo: de pé/sentados

Et incarnatus est: de joelhos

Dominus vobiscum/Oremus: de pé

Ofertório: sentados

Incensação do celebrante: de pé

Orate frates: de pé

Após o Sanctus (rezado ou cantado): de joelhos

Todo o Cânon: de joelhos

Pater Noster/Agnus Dei: de pé

Após o Agnus/comunhão: de joelhos

Abluções até Communio: de pé

Postcommunio: de joelhos (exceção: nos dias de penitência - Advento, Quaresma-, salvo domingo, e nas missas de defunto, deve-se ajoelhar durante a Postcommunio)

Bênção final: de joelhos

ÚltimoEvangelho: de pé

Saída do celebrante: de pé

Missa Pontifical

Recepção do bispo (Ecce Sacerdos): de joelhos

Entrada do celebrante: de pé

Canto do Asperges: de pé

Orações ao pé do altar: de pé

Ao subir ao altar: de pé

Incensação: de pé

Intróito e Kyrie: de pé

Gloria: de pé/sentados

Coleta (oração do dia): de pé (exceção: nos dias de penitência - Advento, Quaresma-, salvo domingo, e nas missas de defunto, deve-se ajoelhar durante a Coleta)

Epístola: sentados

Gradual/Aleluia: sentados

Evangelho: de pé

Credo: de pé/sentados

Et incarnatus est: de joelhos

Dominus vobiscum/Oremus: de pé

Ofertório: sentados

Incensação do celebrante: de pé

Orate frates: de pé

Após o Sanctus (rezado ou cantado): de joelhos

Todo o Cânon: de joelhos

Pater Noster/Agnus Dei: de pé

Após o Agnus/comunhão: de joelhos

Abluções até Communio: de pé

Postcommunio: de joelhos (exceção: nos dias de penitência - Advento, Quaresma-, salvo domingo, e nas missas de defunto, deve-se ajoelhar durante a Postcommunio)

Bênção final: de joelhos

ÚltimoEvangelho: de pé

Orações finais ao pé do altar: -

Saída do celebrante: de joelhos

Comentário: Como vocês podem ver, esse esquema tem algo a mais do que aquilo que em geral é encontrado na internet, pois ele mostra as diferenças entre uma Missa rezada pura e uma dialogada. Exatamente por ser algo diferente, é que, ao aplicar tais normas, enfrentei a máfia de alguns traditional borings aqui em Recife, que diziam que essas posições na Missa dialogada eram invencionice. Pois bem, num congresso sobre a liturgia tradicional que ocorreu na cidade de Garanhuns (PE), perguntei ao Pe. Claudiomar (liturgista da Adminsitração Apostólica São João Maria Vianney) a origem disso, e ele citou um documento papal (que não lembro mais qual é) e ainda disse que a base dessas posturas eram as posições da Missa cantada que a Santa Sé achou por bem levar à rezada dialogada (eu não sou nenhum normativista em termos de liturgia, mas como na cabeça desse povo as coisas só funcionam assim, tive que ir atrás). Naturalmente, quem, por devoção, quiser ficar ajoelhado até o final do Kyrie, pode.

Fontes

Uma apostila do Pe. Claudiomar, da Administração Apostólica São João Maria Vianney.

Apontamentos que fiz nessa apostila ao ouvir uma palestra dele.

Minha experiência pastoral com o rito gregoriano aqui em Recife.

8 comentários:

  1. Gostei do seu blog e o adcionei. Parabéns!

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  2. Obrigado, Umbelina. Comente ou pergunte com liberdade.

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  3. Eu gostaria de saber mais sobre a Missa Papal. Se puder me esclarecer....

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  4. Infelizmente não tenho mais informações sobre essa modalidade de Missa.

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  5. Gostei muito do blog! Parabéns.
    Olha,as posições dos fiéis da missa rezada devem ser feitas na missa dialogada?

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    Respostas
    1. Obrigado, Vitor.

      Elas "podem" ser feitas, mas o ideal é que se siga o que postei sobre as posições próprias da Missa dialogada (aliás, no que dependesse de mim, eu as adotaria nas próprias missa rezadas).

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  6. Irmão, você pode me informar qual a fonte que você usou para nos mostrar sobre essas posições? Tem algum documento papal? Estou perguntando pq vou começar a colocar em prática aqui e certamente o pessoal daqui vai querer saber.

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    1. Vítor, a fonte é que já está citada no fim do texto, isto é, uma apostila do então liturgista da Administração Apostólica de Campos, o Pe. Claudiomar. Certa vez perguntei a ele qual o material que ele usou para elaborar o texto e ele me citou uma relação de documentos, contudo não fiz registro disso.

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