sábado, 22 de outubro de 2011

Soletrando o inefável


Tomás de Aquino, que dedicou uns 2 milhões de palavras a explicar por extenso, na Summa Theologica, a natureza deste mundo, o objetivo de Deus ao criá-lo e nosso destino, ao percorrê-lo, terminou sua curta vida (curta para nossos padrões, pelo menos) em um estado de êxtase, declarando que tudo que tinha escrito não significava nada diante da visão beatífica que lhe tinha sido concedida e em face da qual todas as palavras se desvanecem. Seu exemplo de um filósofo que chega a crer que o sentido real do mundo é inefável talvez tenha sido o mais impressionante. Tendo chegado a este ponto, Aquino obedeceu à determinação de Wittgenstein, cujo Tractatus Logico-Philosophicus se encerra com a proposição: “aquilo do qual não podemos falar devemos consignar ao silêncio."

Mas Aquino foi excepcional. A história da filosofia é abundante em pensadores que, tendo concluído que a verdade é inefável, seguiram em frente, escrevendo página em cima de página a respeito disto. Um dos maiores transgressores é Kierkegaard, que sustenta de cem maneiras que o supremo é inexprimível, que a verdade é "subjetividade", que o sentido da vida não pode ser dado por uma fórmula, nenhuma proposição, nenhuma abstração, mas apenas pela experiência concreta da entrega, cujo conteúdo não pode ser nunca dado em palavras.

A mesma idéia ocorre em Schopenhauer, para quem a verdade do mundo é a Vontade, que não pode ser representada em conceitos. Schopenhauer dedicou aproximadamente 500 mil palavras a esta coisa que não há palavras que apreendam. E ele ditou uma moda que continua até hoje.

Estou atualmente lendo um livro piedosamente breve de Vladimir Jankélévitch, Music and the Ineffable [A Música e o Inefável], no qual a tese é enunciada na primeira página - a saber, que, já que a música opera através de melodias, ritmos e harmonias e não através de conceitos, ela não contém mensagens que possam ser traduzidas em palavras. Daí se seguem 50 mil palavras dedicadas à mensagem da música - muitas vezes palavras sugestivas, poéticas e envolventes, mas, todavia, palavras dedicadas a um assunto que não há palavras que apreendam.

A tentação de buscar refúgio no inefável não está limitada aos filósofos. Toda averiguação de princípios primeiros, causas originais e leis fundamentais irão esbarrar, em algum ponto, com uma pergunta irrespondível: o que torna verdadeiros estes princípios primeiros ou válidas estas leis fundamentais? O que explica estas causas originais ou condições iniciais? E a resposta é que não há resposta - ou nenhuma resposta que possa ser expressa em termos da ciência das quais estas leis, princípios e causas são o fundamento. E, no entanto, queremos uma resposta. Então, como devemos proceder?

Não há nada de errado, nesta altura, em nos referirmos ao inefável. O equívoco é descrevê-lo. Jankélévitch está certo em relação à música. Ele está certo sobre algo poder ser significativo, embora seu significado escape a todas as tentativas de pô-lo em palavras. A Balada em Fá Sustenido de Fauré é um exemplo; também é o sorriso no rosto de Mona Lisa; também é o sol da tardezinha sobre a colina atrás de minha casa. Wordsworth descreveria tais experiências como “sugestões," o que é justo, desde que não se acrescente (como ele fez) quaisquer particulares ulteriores e melhores. Qualquer um que passe pela vida com a mente aberta e o coração aberto irá se deparar com estes momentos de revelação, momentos que estão saturados de significado, mas cujo significado não pode ser posto em palavras. Estes momentos são preciosos para nós. Eles ocorrem como se, na escadaria sinuosa e mal iluminada da vida, nós subitamente dessemos com uma janela através da qual tivéssemos a vista de um outro e mais brilhante mundo - um mundo ao qual pertencemos, mas no qual não podemos entrar.


Também eu estou tentado soletrar o inefável. Como meus predecessores filosóficos, quero descrever o mundo além da janela, muito embora eu saiba que ele não pode ser descrito, mas apenas revelado. Não estou sozinho em pensar ser aquele mundo real e importante. Mas há muitos que o rejeitam como uma ficção não-científica. E pessoas com esta disposição mental me são incômodas. Sua convicção adolescente de que somente os fatos podem significar e que o "transcendental" e o eterno não são nada além de palavras os exclui como incompletos. Há um aspecto da condição humana que lhes é negado.

Além do mais, este aspecto é de primordial importância. Nossos amores e esperanças de algum modo revolvem sobre ele. Nós amamos uns aos outros como os anjos amam, tentando alcançar o "eu" incognoscível. Temos esperança como têm os anjos: com nossos pensamentos fixos no momento em que as coisas deste mundo se dispersam e somos envolvidos "na paz que dispensa o entendimento." Ao colocar a questão deste modo eu já disse demais. Pois minhas palavras a fazem parecer como se o mundo além da janela estivesse realmente aqui, como um retrato na escada. Mas não está aqui; está lá, além da janela que nunca pode ser aberta.

Mas uma pergunta me perturba, assim como eu sei que perturba você. O que os nossos momentos de revelação têm a ver com as perguntas supremas? Quando a ciência para diante daqueles princípios e condições a partir dos quais a explicação começa, será que a visão daquela janela fornece aquilo que a ciência não possui? Será que nossos momentos de revelação apontam para a causa do mundo?

Quando não penso nisto, a resposta parece clara. Sim, há mais no mundo do que um sistema de valores, pois o mundo tem um significado e este significado é revelado. Mas não, não há caminho, nem mesmo este, para a causa do mundo: pois aquilo de que não podemos falar devemos consignar ao silêncio - como fez Aquino.

- Roger Scruton 

Original: http://www.bigquestionsonline.com/columns/roger-scruton/effing-the-ineffable

Tradução: antigo blog Vera Dextra

Revisão: minha

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