domingo, 24 de abril de 2011

Cristo ressuscitou!

(A Ressurreição - Dionísio, 1502)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Tríduo


Programação na paróquia de Nossa Senhora da Soledade (Recife/PE):

Quinta-Feira:

17h - Missa (versus deum) na capela Nossa Senhora da Conceição dos Artistas (lava pés).

18:30h Missa na matriz (lava pés). Após a Missa transladação do Santíssimo e adoração até as 22h.

Sexta-Feira:

Via Sacra paroquial (Procissão do Encontro):

07h - Igreja matriz (início da Via Sacra);

07:30h - Basílica Menor (Salesiano);

07:50h - Instituto Nossa Senhora de Fátima;

08:00h - Praça Chora Menino, encontro das imagens do Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora da Soledade.

15:00h - Liturgia da Paixão na Capela de Nossa Senhora Conceição dos Artistas.

17:00h Liturgia da Paixão na matriz. Procissão do Senhor Morto.

Sábado:

18:30h Víglia Pascal na igreja matriz. 

OBS: no domingo, antes da Missa das 18:00h na matriz, haverá adoração às 15:00h e a Caminhada da Ressurreição às 16:00h.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

La otra Cuba

De fato, os anos 1960 foram decisivos para a propagação do modelo revolucionário cubano no espaço continental. Na prática, no entanto, embora Fidel Castro ainda permaneça à frente do poder na ilha-cárcere, a expansão do seu socialismo por meio da luta armada, conforme previsto, fracassou feio. Ou melhor, fracassou miseravelmente.

É justamente do fracasso da Revolução de Fidel que trata o bem estruturado "A outra Cuba", documentário dirigido por Orlando Jiménez-Leal e Jorge Ulla, tendo como âncoras os jornalistas exilados Valério Riva e Carlos Franqui - este último autor do livro "Retrato de Família com Fidel" e um dos homens-chave dos primeiros anos da revolução, com poderes para convocar e dispensar ministros.

O documentário em pauta, de 2 horas de duração, com formato para exibição em capítulos televisivos, representa a soma de dois anos de trabalhos empreendidos pelas produtoras SPA, SACI, R.A.I. e Guede Films.

O documentário, agora disponível no Youtube, é um painel abrangente, dividido em onze partes, evoluindo numa montagem célere, convergente e divergente, a confrontar fatos e versões que nos dão conta da ruinosa presença da revolução cubana dentro e fora da ilha-cárcere.

O relato cinematográfico começa por citar a frase de Cristóvão Colombo que distingue Cuba como "a terra mais formosa já vista pelos olhos humanos", para depois, por antagonismo, em corte seco, mostrar levas de cubanos (dez mil, de início) invadindo a Embaixada do Peru para pedir asilo.

Neste enrodilhado concêntrico, dividido em temas e subtemas, o documentário evoluí de forma objetiva e envolve plenamente o espectador. Na sua primeira parte, o rico acervo de imagens nos mostra a Cuba do ditador Fulgêncio Batista que, ao contrário do que se imagina, não era apenas a república "bananena" decantada por Fidel, mas, sim, uma nação catalogada entre as cinco potências do continente. De fato, em que pesem os tentáculos da violência política e da corrupção praticadas durante o governo do ex-sargento telegrafista, Cuba apresentava um padrão de vida qualificado, nele incluídos elevados índices de educação e saúde, longe de se definir apenas como o "prostíbulo da América" vulgarizado por Castro - ou pelo menos não tanto quanto a imagem projetada hoje pela ilha caribenha, transformada num "paraíso sexual" para o regozijo da ávida burguesia peninsular ibérica.

No histórico, passados os primeiros dias de entusiasmo com a vitória de "la revolución", logo o povo cubano se deu conta das mentiras de Fidel. Fuzilamentos em massa, desapropriações de terras e de empresas nacionais e estrangeiras, perseguições, prisões, falta de liberdade e de democracia são, nesta fase, os ingredientes mais corriqueiros a nutrir o revolucionário cardápio do novo ditador.

O povo, neste caldeirão efervescente, representa muito pouco. Com o passar dos tempos, sucessivas crises se instalam no seio da revolução e o "paraíso" caribenho se transforma num autêntico inferno. Os alimentos são racionados e repassados em cotas à população. Pela total incompetência dos seus dirigentes, fracassam os projetados aumentos de produção nas safras de açúcar e café. E a solução encontrada por Fidel para sair do atoleiro não poderia ser pior: transformar Cuba, localizada no quintal dos Estados Unidos, num satélite de Moscou.

Mas se o povo não tem direito a nada, os integrantes da nova classe dirigente têm todos os direitos. Como informa um dos irados depoentes do filme, "Eles (os dirigentes) navegam em limousines, bebem exaustivamente, se apropriam dos melhores palacetes, viajam, se hospedam nos bons hotéis e freqüentam os melhores restaurantes" - reproduzindo, em tudo, o esquema da famigerada nomenklatura soviética, que curtia a vida na base do vinho e da lagosta.

Vinte anos após a revolução redentora de Fidel, para fugir das filas, fome, prisões e trabalhos forçados, cerca de meio milhão de cubanos procuraram a todo custo sair do paraíso caribenho transformado em inferno. Destino: Miami, Florida, o antigo feudo dos Irmãos Moreno. Objetivo: começar vida nova.

Em menos de uma década já não se fala mais na Miami das praias e dos cassinos, mas, sim, na Miami dos cubanos, a "Little Havana" ocupada por advogados, comerciantes, artistas, operários, políticos e camponeses. No novo mundo livre, eles, os exilados de Fidel, se transformaram em presidentes de empresas, gerentes de companhias aéreas, laureados fotógrafos de Hollywood, prósperos homens de negócios, diligentes industriais. Enriquecidos pelo trabalho com dignidade, carregam nas costas a "velha Cuba", a ilha revolucionária e miserável, onde sobrevivem, às duas penas, sob o tacão dos irmãos Castro, os velhos e inesquecíveis parentes, familiares e amigos.

- Ipojuca Pontes





















O ex-covarde

Nelson Rodrigues, sempre atual - In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10:

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.

O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a Igreja, e da Igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.

Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.

Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.

Eis o que eu queria explicar a Marcelo: depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".

Missa cantada no rito gregoriano

sábado, 16 de abril de 2011

Quando as prostitutas rezavam...

A Semana Santa está chegando e, mais uma vez, o resultado da desastrosa falta de respeito pelo sagrado que tomou conta de nossa sociedade (e vai matá-la), faz-se presente. As pessoas acham que nesta época do ano temos um "feriado"... realmente, é o fim da picada. Aqui em Pernambuco uma cidade serrana próxima a Recife (Gravatá) se tornou um pólo de "diversões" durante o Tríduo... Bem, para refletir posto hoje uma artigo de 2010 do bispo anglicado D. Robinson Cavalcanti, que mostra como mesmo um não-católico pode condenar a mudança cultural das últimas décadas.

Quando as prostitutas rezavam...

Quando da minha infância, nos anos 1950 a Semana Santa era formada por dias santos e não por feriados. Na Sexta-feira, os trens, da concessionária inglesa Great Western não trafegavam por esse Nordeste de meu Deus. As emissoras de rádio (não havia televisão por aqui) somente tocavam músicas clássicas e músicas sacras. Os cinemas (nossa principal diversão) apenas exibiam películas de cunho religioso. Havia uma generalizada atmosfera de reverência, e as marcas de religiosidade de nossa cultura eram evidentes. Gastronomicamente, somente comíamos peixe, que eram deliciosamente cozinhados dentro das tradições regionais. As procissões grandemente concorridas, com todos os seus desvios para a ótica protestante, eram plásticos, emocionados e emocionantes espetáculos de fé.

O prostíbulo da nossa cidade (União dos Palmares, Alagoas) tinha a sua “zona do baixo meretrício” localizada na área denominada de Alto do Cruzeiro (depois de removida do perímetro urbano do 'Jatobazinho'). Pois bem, naquele tempo (segundo depoimentos fidedignos dos aficionados) não havia dinheiro que fizesse as hoje politicamente denominadas de “trabalhadoras do sexo” atuarem em seus ofícios, antes, contritas, e com a cabeça coberta com um véu, compareciam à missa das 6h (menos concorrida do que a mais popular e mais burguesa missa das 9h) e acompanhavam devotas a Procissão do Senhor Morto.

Lembrei-me dessas coisas em nosso tempo secularizado, em que os bares e restaurantes estão cheios, no lugar do peixe algum Mac-alguma-coisa, e as prostitutas atuais (profissionais, amadoras ou semi-profissionais) não mais abandonam o batente para rezar.

É claro que o Secularismo tem raízes mais profundas no Ocidente, em que, ao contrário de muitos países, os Estados Unidos nunca tiveram como feriado a Sexta-feira da Paixão, com sua origem puritana-congregacional, que terminou, por seus descentes, facilitando a secularização.

Quando criança, fiquei chocado no Recife (bairro de Casa Amarela) quando uma Igreja Batista, em uma agressão cultural, e uma burrice evangelística, promoveu em seu amplo pátio um festivo churrasco de carne de porco na Sexta-feira Santa.

Essa semana, os profissionais que estiveram na coletiva de imprensa com os atores da “Paixão de Cristo”, em Nova Jerusalém, PE, voltaram escandalizados com a irreverência, o deboche e o estado de alta ingestão etílica de muita gente no elenco, um verdadeiro balde de água fria após o “enlevo” do espetáculo.

Nesse sentido, o mundo mudou para pior. Como sexagenário evangélico/anglicano, continuo a levar a sério a Semana Santa, a não comer carne da quarta-feira ao sábado e a ter saudades dos velhos bons tempos em que até as prostitutas rezavam...

A salvação dos pagãos mediante a Lei Natural

Pergunta feita pelo leitor Ruan:

Os pagãos se salvam mediante o cumprimento da Lei Natural?

Não, é incompleto dizer isso. Mais na frente pretendo fazer uma postagem só para aprofundar esse tema, mas, de maneira resumida, guarde o seguinte: um pagão em ignorância invencível, que cumpra a Lei Natural e acredite num Deus remunerador, pode se salvar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nós não temos dúvidas existenciais!

No mundo contemporâneo, guiado por falsos referenciais (falsas religiões e/ou falsas filosofias), os homens se mechem sofregamente em busca de algo que nunca irão possuir: o bem que lhes dará sentido à existência. Felizmente, mesmo no deserto em que vivemos, a bondade do Senhor permite a existência de oásis, que no papel de "sinais de contradição" nos lembram da Verdade, nos lembram o que faz tudo ter sentido (trecho do documentário O Grande Silêncio):

Arte católica antiga: introdução

 (afresco românico)

Jacó, despertando de seu sono, exclamou: “Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!” (Gênesis XVIII, 16)

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. (João I, 14)

Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo. Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. (Apocalipse 21, 2-3)

Possam essas fundações ser dignas de ser por Ti fortalecidas, estes tetos de estar sob Teu abrigo; possas Tu entrar nessas portas e penetrar o mais recôndido santuário… para que a paz feliz, a davidosa hospitalidade, uma abundante provisão, a reverência religiosa e a abundância de salvação jamais faltem neste lugar. (trecho da cerimônia de consagração de uma igreja no rito gregoriano)

O espaço sagrado (a igreja) é a “Jerusalém Celeste” onde acontece o “Mistério da Liturgia”.

Infelizmente essa verdade parece ter sido ofuscada na vida católica atual. Os sinais perderam seus valores.

Não é necessário ficar muito tempo numa igreja para notar que o sentido do Sagrado desapareceu. Os gestos mais simples da vida cristã, os ritos mais comuns de nossa liturgia foram invencivelmente esvaziados de sua significação. Um sinal da cruz, uma genuflexão é hoje, quando feita, um vago gesto banal de um ato que na sua realidade original traduzia a fé do ser humano por inteiro: espírito, alma e corpo (usando a divisão paulina).

A ausência do Sagrado, que é uma linguagem universal, leva-nos a não mais ler e usar os devidos símbolos, materiais e estilos no lugar e hora exata. O resultado é o caos, a desordem, o desequilíbrio, a ruptura. O pior é que a medida que o católico vai perdendo seus referenciais simbólicos, ele mesmo se desequilibra e se perde (quando se esquece o sentido do Sagrado, tudo passa a ser permitido).

O resgate do significado dos símbolos, o estudo da história da arte, é, portanto, um sinal de vitalidade eclesial, é um ponto do qual o católico culto e combativo não pode abdicar, já que com ele revivemos os valores perdidos e nos direcionamos ao Sagrado.

Quando teve início a arte cristã?

Não foi durante a existência de Cristo. Com efeito, não há nenhuma referência à arte nos Evangelhos, nem qualquer retrato contemporâneo de Cristo, embora conste que São Lucas tentou retratá-lo (os “ortodoxos” acreditam que esse apóstolo escreveu um ícone de Nossa Senhora).

A arte cristã começou nas catacumbas; era parte de um movimento clandestino (por isso, era uma arte que falava aos “iniciados”). Os primitivos católicos de Roma, obrigados a esconder-se nas catacumbas pela perseguição, formaram uma resistência com forte núcleo de fé. O tempo ou a oportunidade para as artes era limitado; quando ocorria a necessidade de se transmitir uma mensagem, sempre havia paredes onde escrevê-la. Essas catacumbas, escuras, úmidas e limosas, só podiam constituir um refúgio temporário, de modo que as pinturas murais que nelas sobreviveram são impressionistas, isto é, são destinadas a transmitir uma impressão, em vez de representar toda uma cena. O artista não estava interessando no belo, antes procurava recordar aos fiéis os exemplos de poder e misericórdia de Deus. No estilo, estão ligadas às pinturas dos gregos que decoram as paredes da Pompéia romana. Contudo, os artistas da Grécia, que trabalhavam em Pompéia, estavam decorando as casas dos ricos, ao passo que os católicos, pela maior parte, eram pobres e tinham um modo totalmente diferente de encarar a vida. Queriam que suas pinturas narrassem uma história ou transmitissem uma idéia; os habitantes de Pompéia gostavam da decoração pura. Não obstante, o costume grego de encerrar a pintura numa moldura ou entre cortinas abertas sobreviveu e pode ser encontrado nas catacumbas.

 (Peixe eucarístico na catacumba de São Calixto - Roma)

Os fossores, artistas coveiros que mais trabalharam nas catacumbas, faziam parte de uma grande corporação helênica juntamente com os pictores, musivarii e os quadratarii. Este grupo pertencia à classe dos servis ou libertos, e foi onde mais o catolicismo penetrou. Tais artistas viveram intensamente nas catacumbas romanas do século I ao IV quando já faziam parte dos “sagrados ministérios”, logo abaixo dos diáconos e acima dos clérigos menores.

As imagens bíblicas preferidas foram aquelas que exprimem o pensamento que o poder de Deus salva da morte: Noé na Arca, o sacrifício de Isaac, Moisés que faz jorrar água da rocha, a história de Jonas, Daniel com os leões, a ressurreição de Lázaro, a cura da hemorroíssa.

(Daniel entre os leões - catacumba romana)

(Ressurreição de Lázaro - catacumba romana)

(Cura da hemorroíssa - catacumba romana)

A catacumba de Priscila, em particular, contém algumas pinturas típicas do século III. Ali, com alguns traços, o artista representou os três judeus na fornalha ardente (Daniel III, 8-30), dançando alegremente entre as chamas que deveriam tê-los destruído – motivo inspirador para as pessoas perseguidas que podiam esperar, diariamente, a morte pelo fogo. Em pinturas como esta há pouca beleza consciente. De novo: somente a mensagem era importante em todas as primitivas ilustrações de temas cristãos.

(Judeus na fornalha ardente - catacumba romana)

Observem, o pintor não queria representar uma cena dramática apenas para agradar a si mesmo. Para apresentar o exemplo consolador de fortaleza de ânimo e de salvação, era mais do que suficiente que fossem reconhecíveis os três homens em seus trajes persas, as chamas e a pomba (um símbolo da ajuda divina). Tudo que não fosse estritamente relevante era melhor deixar de fora.

Uma figura (conhecida como Orante), que freqüentemente aparece na arte das catacumbas, representa uma pessoa de pé, com os braços erguidos em oração, no mesmo gesto que o sacerdote usa hoje no Cânon da Missa. A atitude é magnífica, aberta e livre; parece reunir o mundo inteiro em seu ato de louvor.

(Orante - catacumba romana)

Muitos significados têm sido dados ao Orante. Alguns arqueólogos acreditam que ele representa a alma que partiu, gozando a ventura da liberdade absoluta no Céu. As mãos estão erguidas num gesto clássico de oração, seja de adoração ou intercessão.

A figura é representada com algumas ligeiras camadas de cores simples que seriam visíveis mesmo à luz bruxuleante de velas. Tudo o que era irrelevante à mensagem de oração foi deliberadamente omitido. A função do Orante é espiritual e é desempenhada sem tentar expressar qualquer outro tipo de beleza.

Como o catolicismo era perseguido e precisava ocultar-se para sobreviver, não surpreende que, no começo, ele raramente se atrevesse a revelar-se, retratando Nosso Senhor Jesus Cristo; o uso de símbolos para representá-Lo era o mais comum. Um modo popular de representar Cristo, o Bom Pastor, era na forma de um jovem com trajes e sandálias de um pastor grego, trazendo aos ombros a ovelha perdida e flautas de Pã na mão. Ele era concebido segundo o modelo de Orfeu ou de Hermes. Nas catacumbas, tudo era feito deliberadamente para enganar o inimigo; porém, mais tarde, talvez isso se desse porque as pessoas sentissem, subconscientemente, que o deus que despertara o reino animal com a sua flauta havia cedido lugar ao Deus que não só criara os animais como também viera chamar a selvagem raça humana com uma música mais sublime.

 (Bom Pastor - catacumba romana)

As pinturas marianas são relativamente comuns nas catacumbas e cemitérios. Elas atestam a antigüidade do culto e o mistério preferido pelos antigos cristãos, a saber, o da maternidade divina, o da Encarnação.

 (Nossa Senhora e o Menino na catacumba de Priscila - Roma)

Essas pinturas catacumbais, na sua simplicidade e até rusticidade, nos ensinam que os fiéis daquele tempo professavam a mesma fé que nós possuímos: tinham crença na divindade de Jesus, na Eucaristia, na instituição divina do pontificado, na maternidade divina, na intercessão dos santos, no purgatório, na eficácia da oração pelos defuntos. Ainda testemunham a esperança nos méritos do Salvador, o perdão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna.

Além das catacumbas encontradas em Roma, existem outras na Ásia Menor, em Alexandria, na Síria e na África do Norte. Os artistas cristãos fora de Roma modelavam sua obra à maneira oriental, vigorosa e emocional, com fortes influências egípcias (já contidas na própria arte judaica). Cristo será barbudo e cabeludo, desde seus primórdios, revelando o Cristo que viveu na Palestina, segundo a grande tradição da “pintura de Edessa”.

(Nosso Senhor barbudo e cabeludo numa pintura de uma catacumba)

Mais tarde, a influência oriental e a greco-romana clássica se fundiram e, juntas, produziram um artesanato altamente refinado, que pode ser visto nas esculturas de marfim de Constantinopla

 (Ícone de marfim, Deesis - Constantinopla)

e nos túmulos de pedra dos cristãos influentes no Império Ocidental.

(Cristo com São Pedro e São Paulo - relevo em mármore do sarcófago de Junius Bassus; cripta de São Pedro, Roma. Em vez da figura barbada oriental, vemos um Jesus em plena beleza juvenil, entronizado entre São Pedro e São Paulo, ambos exibindo a digna aparência de filósofos gregos. Há um detalhe, em especial, que nos lembra até que ponto essa representação ainda está ligada aos métodos da arte helenística pagã: para indicar que Nosso Senhor está entronizado nas alturas, os escutor fez seus pés descansarem no dossel do firmamento sustentado pelo antigo deus do céu.)

(Sacrifício de Isaac - relevo em mármore do sarcófago de Junius Bassus; cripta de São Pedro, Roma)

Oito dicas para uma boa convivência entre ensino e aprendizagem

De algumas passagens onde Santo Tomás de Aquino fala de relações idênticas ou similares às de professor/aluno, podemos extrair oito dicas (sigo um texto do confrade Sávio Laet):

1- Aprendizagem e disciplina comedida: “Se a dor ou tristeza é moderada, pode acidentalmente ajudar a aprender, enquanto retira o excesso dos prazeres. Mas, por si, impede o estudo, e se for intensa, suprime de todo.” [TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, 37, 1, ad 2];

2- Correção moderada: “[...] é vicioso reparar nos erros do próximo para menosprezá-lo, difamá-lo ou, simplesmente, inquietá-lo, sem proveito algum” [Idem. Ibidem. II-II, 167, 2, ad 3];

3- Princípio de caridade: “Deve-se dizer que é louvável atentar, com boa intenção, para o que os outros fazem, se for para utilidade própria, vendo as boas ações alheias como estímulo a ser melhores, ou se for para a utilidade do próximo, para que este, seguindo as regras da caridade e do seu dever do ofício, se corrija no que estiver praticando de mal.” [Idem. Ibidem. II-II, 167, 2, ad 3];

4- Facilitador: “Observamos que os noviços nesta doutrina encontram grande dificuldade nos escritos de diferentes autores, seja pelo acúmulo de questões, artigos e argumentos inúteis; seja porque aquilo que lhes é necessário saber não é exposto segundo a ordem própria da disciplina, mas segundo o que vai sendo pedido pela explicação dos livros ou pelas disputas ocasionais; seja ainda pela repetição freqüente dos mesmos temas, o que gera no espírito dos ouvintes cansaço e confusão.” [Idem. Ibidem. Prólogo I]

5- Municiar o aluno de instrumentos e elementos que o permitam desenvolver o seu trabalho. Tomás não indicava livros. Por vezes, tirava dúvidas ou respondia a questões compondo um opúsculo e dedicando-o ao aluno. É o exemplo do Compendium Theologiae: “Para transmitir, caríssimo filho Reginaldo, um compêndio da doutrina cristã de modo a tê-lo sempre diante dos olhos, a nossa intenção, no presente trabalho, é tratar das três virtudes: primeiro, da fé; depois, da esperança; e, por fim, da caridade.” [TOMÁS DE AQUINO. Compêndio de Teologia. I. p. 30.]

6- Intervalos prazerosos: “Ora, assim como a fadiga corporal desaparece pelo repouso do corpo, assim também é preciso que o cansaço mental se dissipe pelo repouso mental. O repouso da mente é o prazer, (...). Daí a necessidade de buscar remédio à fadiga da alma em algum prazer, afrouxando o esforço do labor mental.” [Idem. Suma Teológica. II-II, 168, 2, C];

7- O lúdico no ensino: “Assim é que as próprias ações lúdicas, que parecem não se dirigir para um fim determinado, têm o seu fim devido, a saber, por meio delas a mente se distraia e, após, possa o homem estar mais apto para as operações mais difíceis.” [Idem. Suma Contra os Gentios. III, XXV, 7];

8- Ensinar a brincar pode evitar brincadeiras agressivas mais tarde, como certos trotes: “Ora, os que se privam de toda diversão, nem eles dizem pilhérias e são molestos aos que a dizem não aceitando brincadeiras normais dos outros. E, por isso, tais pessoas são viciosas, ‘duras e mal educadas’, como diz o Filósofo.” [Idem. Suma Teológica. II-II, 168, 4, C}.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Como fazer uma monografia pseudo-intelectual nota 10

A comédia da vida universitária nacional (infestada por adeptos de "movimentos", pela esquerdopatia e pela falta de apreço à verdade e ao conhecimento como bens em si mesmos - muitos fazem o que fazem só para aumentar um pouco o "lates"):

Doze teses para uma Filosofia Concreta

Por Álvaro Antônio da Costa

A dialética é a arte de esclarecer através das idéias. E esclarecer, porque a alétheia, a verdade dos gregos (que não deve ser confundida com o nosso conceito fáustico de verdade, nem com o aristotélico de adequação) significava iluminar o que está em trevas. Revelar a verdade era vê-la, penetrar por entre suas sombras e ver com os olhos do espírito a beleza real das coisas.

(Mário Ferreira dos Santos em "Lógica e Dialética")

Tese I

A abstração separa os diversos entes considerados, o conceito os une numa síntese inteligível. 

A filosofia deve ser concreta como o mundo real é concreto1. A experiência onipresente da presença infinita do ser é o que articula e torna possível a unidade do mundo real. Se a realidade sempre se apresenta por inteiro, e os entes do mundo real se apresentam sempre em sua singularidade, é porque há algo que existe para além e que é a garantia mesma da permanência da estrutura da realidade. Estrutura da realidade essa que nada tem a ver com o puro pensamento.

Por outro lado, a experiência real da eterna mudança do ser, que se dá sob um pano de fundo de permanência, vai definindo, de acordo com a proporcionalidade intrínseca de cada ser, as possibilidades do real que, por sua vez, é um composto de elementos misteriosamente organizados. Esse mistério da concreção permanente do real e a guerra amorosa entre a permanência e a mudança compõem a teatralidade ontológica do ser. Essa teatralidade se oferece somente assim ao nosso pensamento.

Como contemplar esse espetáculo? Ele se apresenta por inteiro, mas, passado o trabalho da percepção natural, das sensações, da imaginação e memória, resta o da classificação e definição do drama vivenciado para articulá-lo concretamente no pensamento. Essa concreção no pensamento, veremos no presente ensaio, ocorre singularmente e dialeticamente à atividade natural do espírito, que é a abstração.  É o espírito que procura amorosamente a unidade do mundo concreto para captar uma imagem deste, imagem que será amadurecida no conceito. Mas a atividade de abstrair e conceituar possui suas próprias características: a abstração separa os diversos entes considerados, o conceito os une numa síntese inteligível.

Tese II

Conceituar é sempre abstrair no início até o espírito encontrar a unidade na diversidade.

O filósofo é aquele que busca sempre absorver a unidade do real. O espírito se inspira na concreção do real porque o horror à dispersão é compensado pelo amor à integridade física e espiritual de uma filosofia sistemicamente organizada. Organizada e única como o corpo, que é o testemunho visível da virtude do filósofo. Um só corpo e uma só vontade que, assim como sua filosofia, é concreta.

Se a atividade do espírito, que é a abstração, trabalha dialeticamente para o conceito2  é porque a concreção é a perfeição do espírito. A abstração aqui não é entendida como a vulgar dispersão, mas a abstração que duplica gradativamente os níveis de atenção até objetivar a concreção do real.

Ao mesmo tempo em que o nosso espírito vai separando e organizando as imagens captadas do espetáculo da vida, também vai formando o conceito que traz consigo o resumo vivo e orgânico da concreção do real. Todo conceito provém de uma imagem. Mas o conceito une concretamente todos os entes que, porventura, na imaginação poderiam estar separados; e esta reunião é a síntese e unidade do inteligível. Conceituar é sempre abstrair no início até o espírito encontrar a unidade na diversidade.

Tese III

O concreto pode se tornar abstrato e o abstrato pode se tornar concreto. 

A filosofia deve ser concreta como a unidade do real é concreta.  Entre inúmeros aspectos da multiplicidade do real se destaca o uno. Mas o ser uno, de acordo com a variação do nosso olhar, existe sempre numa cadeia de inúmeras conexões e tensões que, no entanto, suavemente se harmonizam. A suavidade do olhar curioso, que está sempre buscando ver as coisas, já é a luminosidade que testemunha a mesma unidade concreta e visível do mundo real.

Mas é uma visibilidade completada pela imaginação que transcende a opacidade do mundo. O ser é algo que ora se oculta, ora se revela. A imaginação preenche a concreção do mundo que reúne o um e o múltiplo. Esses entes não são meramente quantitativos, mas ontologicamente significativos 3.

O fato do ser se ocultar e revelar é uma condição para a existência da realidade que, por sua vez, oferece uma condição para a existência do pensamento e do espírito: o concreto pode se tornar abstrato e o abstrato pode se tornar concreto.

Tese IV

A abstração e o conceito são dialéticos entre si.

Assim como Pitágoras, em seus Versos Áureos4 eu sigo a exposição jurando por “Aquele que nos deu o Quaternário”5. O quaternário é o que, entre outras coisas, pode representar o dinamismo e o fluxo da realidade. Conforme está sendo dito, a abstração e o conceito possuem uma afinidade entre si. A primeira separa e classifica, o segundo reúne e agrupa.

Para que haja uma possibilidade de analogia concreta entre o ato de abstrair e o de conceituar é necessário localizar o seu fundamento comum. E este fundamento é o movimento dinâmico do espírito em busca da inteligibilidade real, não da inteligibilidade pensada. O filósofo não vive num mundo de pensamentos, mas vive no mundo concreto. Sua filosofia não é meramente pensada, mas é vivida.

A filosofia é a biografia conscientemente assumida. A consciência autoral do filósofo o conduz à objetividade daquilo que ele não pode negar. O filósofo concreto é o centro para o qual converge toda a inteligibilidade do real, mas é um centro consciente. É por isso que, mediados por um mesmo espírito, a abstração e o conceito são dialéticos entre si.

Tese V 

Na demonstração lógica, a abstração e o conceito possuem suas respectivas identidades. 

A filosofia deve ser concreta como a vida do filósofo é concreta.  Se o mesmo espírito media a abstração e o conceito em busca da concreção do mundo da vida, esse mesmo espírito, a não ser que traia a sua percepção, jamais irá trocar as respectivas categorias. Essas categorias já são predicados dos seres mesmos e estão muito além das camadas verbais ou do falatório da quase totalidade do que se entende por “filosofia” hoje em dia 6.

Passado o trabalho da percepção e imaginação, nota-se que o espírito sabe em tudo reconhecer sua identidade e princípio. Operar com a realidade, e não apenas operar com esquemas, é a síntese espiritual que a filosofia concreta oferece. E operar com a realidade não é apenas lidar com as semelhanças e diferenças, mas é lidar com o múltiplo jogo das identidades, que, mesmo sendo múltiplas, permanecem sempre as mesmas.

A fidelidade à percepção e à imaginação como formadora do senso do real é a primeira condição do espírito filosófico.  O espírito recebe a imagem do mundo concreto e devolve essa imagem em forma de conceito em que a abstração trabalhou e ordenou. Mas para que isso aconteça é necessário que, na demonstração lógica, a abstração e o conceito possuam suas respectivas identidades.

Tese VI 

A identidade do mundo da vida é o seu próprio critério de classificação.

O princípio ontológico e universal da identidade é, justamente, um ponto de partida fundamental para a filosofia concreta. Isso se deve ao fato do princípio universal de identidade ser um dos elementos que tornam o real concreto. E ter fidelidade contínua à identidade é um caminho seguro para se chegar à verdade.

Fidelidade à identidade e fidelidade à verdade não são exatamente a mesma coisa. A identidade expressa o ser e, ao mesmo tempo, forma a possibilidade de oposição a esse ser. Nessa relação entre identidade e oposição entram, por mediação, as semelhanças e diferenças.

Mas a identidade dos seres concretos existentes no mundo da vida fornece ainda a matéria prima para o espírito objetivo. A abstração e o ato de conceituar o espetáculo do ser têm na identidade a sua única garantia7. Sem a identidade, a abstração torna-se impossível, a formação do conceito também, e a filosofia desaparece. E por isso a identidade do mundo da vida é o seu próprio critério de classificação.

Tese VII

A abstração é a marcha do pensamento em direção ao conceito. 

A filosofia deve ser concreta como a experiência da verdade é concreta. Reconhecer a identidade do mundo da vida8 não é uma dificuldade real. A dificuldade reside no salto que vai da percepção do concreto ao concreto pensado. A maioria dos filósofos se perde no caminho que vai da experiência vivida ao pensamento. É necessário direcionar o esforço filosófico para que este diga respeito sempre aos objetos da experiência real.

Uma filosofia concreta só é digna de nome se, para cada conceito formado, houver a possibilidade de apontar na realidade mesma onde a matéria deste conceito está presente. Sem a presença do ser não se pode falar em filosofia concreta. A filosofia concreta reconhece a unidade e integridade do ser em sua presença e é um testemunho deste. Presença e conhecimento concreto são absolutamente inseparáveis 9.

Se a abstração é o algoritmo do pensamento, se a formação do conceito concreto ocorre por meio de abstração, então o caminho está dado no mundo da vida e é muito bem conhecido. Da experiência ao pensamento há a mediação do espírito. É por isso que a abstração é a marcha do pensamento ao conceito.

Tese VIII

A ordem de inteligibilidade é um princípio que rege a abstração e a concreção. 

Já se sabe que tanto a abstração quanto a concreção do conceito dizem respeito ao mesmo principio de inteligibilidade. Mas, ao tornar a opacidade do real inteligível, a filosofia concreta apreende a ordem do ser. Essa ordem, como tudo que de fato existe, é concreta.

Na ordem do ser existem ainda as possibilidades múltiplas de causalidades e nexos acidentais. Uma vez que a ordem do ser é transpassada infinitamente, e uma vez que a realidade move-se o tempo inteiro, o movimento do mundo real só é possível de acordo com a existência daquilo que, no plano da realidade concreta, não se transforma.

A ordem do real implica em sucessivas transformações temporais em que as categorias vão se alternando; percebemos a realidade justamente de acordo com a oposição entre o movimento e a ausência dele. Mas, mesmo nesta tensão dialética real, existe a possibilidade da abstração e da concreção mediadas desde o princípio pela inteligibilidade universal. É por isso que a ordem de inteligibilidade é um princípio que rege a abstração e a concreção.

Tese IX

Entre a abstração e a concreção reina a oposição. 

A filosofia deve ser concreta como a ordem do real é concreta. As atividades fundamentais do espírito filosófico podem, muitas vezes, estar fragmentadas. Cabe ao filósofo concreto articular sempre os níveis de suas próprias atividades, que são uma reprodução dos próprios níveis de realidade existentes 10.

Mas é justamente no meio destas atividades filosóficas que reina a oposição, porque a oposição é o que torna o ser concreto.  A diversidade de aspectos sob os quais um determinado ser pode se apresentar, e a diversidade de pontos de vistas que se podem ter quanto a um mesmo ser, é uma conseqüência dos diversos planos de oposição que formam um ser finito. A infinitude que atravessa o ser finito é o que o torna concreto.
Entre os elementos que ajudam a integrar o ser concreto, o principal é a infinitude. O ser torna-se concreto perante o infinito. E a filosofia concreta coloca o filósofo perante o infinito, que é o fundamento primeiro e último da concreção da existência. A finitude se estabelece no mundo pela oposição. Por isso se diz que entre a abstração e a concreção reina a oposição.

Tese X

A oposição torna o abstrato concreto e torna o concreto ainda mais concreto.

O que se deve dizer ainda sobre a oposição é que, sem ela, não existe movimento, transformação, evolução, nem nenhuma lei característica do ser finito. Mas todas as leis que regem o ser finito concorrem sempre e simultaneamente para a sua assunção11. É verdade que há corrupção e destruição das coisas neste mundo. Mas a corrupção não chega a formar uma lei, é apenas uma condição. A destruição pode ser considerada uma primeira etapa da transformação, que é algo muito mais amplo do que a própria destruição. A transformação implica também em criação de novos seres.

A faculdade abstrativa do espírito ocorre diretamente sobre as coisas. A abstração retira das coisas apenas algumas de suas propriedades que podem ser ditas como essenciais. Mas a conexão essencial na estrutura real de um ser concreto não é, obviamente, abstrata. Quando se fala em conexão essencial dos seres se fala em realidade e não necessariamente em pensamento.

Mas o pensamento concreto, que se inspira na concreção do real, é o que forma a unidade entre o filósofo e o mundo. Nesse sentido, filosofar é, por oposição, tomar parte da realidade; não para substituí-la, e sim para integrar no binômio natureza/sociedade humana a inteligibilidade que está no centro do coração humano. Assim, cada vez mais o filosofar é um filosofar concreto. É por isso que a oposição torna o abstrato concreto e torna o concreto ainda mais concreto.

Tese XI 

A abstração é a singularidade na diversidade, o conceito é a unidade na diversidade. 

A filosofia deve ser concreta como a totalidade do ser é concreta. A realidade não se faz por fragmentos, ela se faz na relação entre a singularidade e a diversidade. O real é único e múltiplo ao mesmo tempo12. Porém, não sob o mesmo ponto de vista. O ponto de vista do filósofo é o de decifrar na totalidade do ser as marcas de sua própria consciência concreta.

Captar a singularidade na diversidade é o mesmo que abstrair. Encontrar a unidade na diversidade é o mesmo que conceituar. A singularidade e a diversidade estão presentes o tempo todo na totalidade do real. As faculdades fundamentais do espírito se integram também na totalidade da própria experiência humana.

Há mesmo, inclusive, uma tendência inevitável da possibilidade humana à transcendência. A assunção do espírito humano à universalidade é o resultado final do filosofar concreto, plenamente realizado. Este filosofar reúne no pensamento as condições reais e existentes para o exercício da liberdade humana. É por isso que a abstração é a singularidade na diversidade, e o conceito é a unidade na diversidade.

Tese XII 

A realidade é concreta (e o real sempre se apresenta por inteiro). A abstração se separa da totalidade do real para regressar depois à essência do mundo.

A conclusão de que existe uma efetiva separação e um efetivo retorno à essência do mundo é dada pelo caráter reflexivo da consciência humana. A consciência não é a realidade, mas a consciência existe na medida em que ela tende para a realidade. Já se sabe que, para a realidade concreta, é necessária a consciência concreta do mundo. Somente a filosofia concreta pode se referir à realidade concreta.

Na organização do real existem ainda muitas sugestões para a organização do pensamento. O filosofar penetra na estrutura do cosmos e recebe deste o influxo permanente de sua integridade. O filósofo passa a ser ele mesmo uma imagem do Supremo Bem, e a integridade do cosmos passa a ser a integridade do próprio filósofo.

O filosofar implica numa ascensão gradativa, não-linear, numa tomada de consciência da estrutura e da totalidade do real. O filosofar concreto busca a unidade do mundo na unidade da própria vida. A integração entre o sujeito e o objeto, como identidade única, é o início e o fim da filosofia concreta.
É por isso que a filosofia deve ser concreta como o mundo real é concreto.

Notas

1. Este ensaio trata de um breve sistema filosófico que eu escrevi especialmente para a revista Filosofia Concreta. Nessas doze teses eu proponho, em linhas gerais, a fundamentação de uma gnoseologia concreta inspirada na cosmologia e no simbolismo tradicional. Eu procuro também combater um dos pecados da filosofia contemporânea, que é o abstracionismo, a fuga da realidade. Eu apresento o que penso ser o verdadeiro lugar da abstração no método científico, como técnica fundamental para a formação do conceito filosófico. Estou bastante próximo de considerar como interesse do método a ser seguido uma curiosa “abstração concreta”. Agradeço ao professor e filósofo Olavo de Carvalho, com quem venho aprendendo imensamente. Agradeço aos alunos e colegas do Curso Online de Filosofia, em especial aos amigos do Recife. Agradeço, oportunamente, ao Renan Santos, que me convidou para escrever no presente número da revista.

2. Concordo com Mário Ferreira dos Santos quanto à impossibilidade de um conceito, qualquer que o seja, esgotar a totalidade da experiência real. Mas é sempre bom lembrar que a filosofia de formação de conceitos, desde a dialética socrática, possui o objetivo de captar a essência do ser e, com alguma variação, articular matéria, forma e proporção. Digo isso porque há um pecado original na epistemologia e método das Ciências Sociais, na sociedade moderna, de que o conceito é um modelo que não é capaz de abarcar a realidade como ela é; mas de apenas fazer medições ou comparações aproximadas do real. Isso parece ser uma boa intenção da filosofia moderna, mas é uma desculpa para manter o ser oculto entre as trevas do desespero ante a presença infinita do ser; de onde nasce o medo de conhecer a realidade. Penso que toda essa série de limitações e inibições começou com o Sr. Immanuel Kant e suas Categorias. A filosofia de Kant criou um buraco negro na realidade, e quase todos os filósofos posteriores, com raras exceções, ficaram com medo de perguntar o que existe dentro deste buraco.

3. O sistema filosófico que apresento não pretende ser exaustivo. Mas é muitíssimo interessante a perspectiva pitágorica resgatada por Mário Ferreira dos Santos para iluminar o problema dos números, que deixam de ser entendidos apenas como símbolos de quantidade ou como classes que relacionam e agrupam outras classes, para serem compreendidos em sua universalidade ontológica, que rege ordens de realidade e pela qual concrecionam um ser finito. Inspirado nessa imensa perspectiva aberta por Mário Ferreira dos Santos, eu pretendo ter criado um novo método para conectar a matemática à ontologia, concrecionando a abstração matemática ante a infinitude metafísica, e ter resolvido um problema filosófico antigo: como a matemática expressa a realidade? Minha investigação, neste sentido, é sobretudo heurística e aporética, e serve como técnica para a resolução de problemas matemáticos. Num futuro número de nossa Filosofia Concreta eu prometo oferecer os fundamentos expostos do meu método.

4. Na verdade, os versos são atribuídos ao filósofo pitagórico Lysis. Transcrevo alguns desses versos áureos aqui: “Que se não passe um dia, amigo, sem buscares/Saber: Que fiz eu hoje? E, hoje, que olvidei?/ Se foi o mal, abstém-se; e, se o bem, persevera./ Meus conselhos medita; e os estima; e os pratica:/ E te conduzirão às divinas verdades. (…) A seu dever, invoque, e com fervor, os Deuses,/Cujo socorro imenso e valioso e forte/Te fará concluir as obras começadas/ Segue-lhes o ensino, e não te iludirás:/ Dos seres sondarás, a mais estranha essência;/ Conhecerás de Tudo o princípio e o termo./ E, se o Céu permitir, saberás que a Natura,/ Em tudo semelhante, é a mesma em toda parte;/ (…) O Erro discernir, e saber a Verdade./A Natureza os serve. E tu que a penetraste,/ Homem sábio e ditoso, a paz esteja contigo!” Para mais versos, consultar Pitágoras e o Tema do Número, de Mário Ferreira dos Santos.

5. Ao dar essa conotação ao Quaternário de Pitágoras, é necessário que eu faça algumas distinções:

1) A acepção mais comum do termo pode ser ilustrada pelo seguinte simbolismo de ordem cósmica: 1 + 2 + 3 + 4 = 10. O dez é o que representa a perfeição e a totalidade;

2) O Quaternário da figura geométrica do quadrado que, em oposição ao círculo, representa o quaternário estático e imóvel;

3) O simbolismo do Quaternário da cruz, que é o quaternário dinâmico unificador da totalidade do real. O simbolismo da cruz, nesse caso, representa a própria estrutura da realidade e integra a ordem humana e divina; a horizontal e a vertical, a temporalidade analógica e dinâmica das 4 estações do ano, das 4 fases da lua, das 4 direções no espaço com os quatro pontos cardeais. Os 4 elementos dinâmicos da Alquimia tradicional. As doze teses, assim, são como os doze signos do zodíaco que, por sua vez, são integrados pelos 4 elementos, conforme a imagem do céu na Astrologia tradicional. Dividindo os doze signos pelos 4 vértices da cruz, sempre encontraremos o ternário fundamental, uma analogia com a Trindade.

Neste caso, juro por aquele que nos deu o Quartenário dinâmico, isto é: por Nosso Senhor Jesus Cristo.

6. São as “filosofias do desespero”, na acepção de Mário. Não é coincidência que boa parte da filosofia contemporânea, ao mesmo tempo em que tentou suprimir a presença do ser, se fragmentou e terminou por perder de vista o senso de unidade do real. O que sobrou, apenas e em muitos casos, foi o desespero e a fuga da realidade.

7. Mário costumava dizer que o problema da abstração e de seu excesso no mundo moderno possui um topos bem definido. A classe acadêmica, o “clericalismo científico” (palavras minhas), as “coletividades pensantes”, tendem sempre ao abstrato, à fuga da realidade, à fabricação de ideologias. O filosofar autêntico só pode ser uma atividade do indivíduo concreto. É claro que há indivíduos intoxicados pela moral de rebanho e indivíduos que representam papéis sociais quando filosofam. Há os intelectuais orgânicos, praga do mundo moderno e traidores de sua condição ontológica. Suas filosofias são tão abstratas e mentirosas quanto as suas próprias vidas.

8. O mundo da vida não é uma evocação fantasmática que escraviza o homem. O filósofo, com o olhar atento, pode transfigurar poeticamente os objetos do seu dia a dia e transcender o seu cotidiano. O problema da abstração filosófica é conduzido pela imaginação até o problema da inteligibilidade. Um cão não é capaz de tirar o vermelho de uma maçã apenas com os olhos. Mesmo abstrações terríveis como mulas-sem-cabeça e lobisomens têm suas origens em mulas, homens e lobos. Isto é: em alguma experiência real.

9. Mário Ferreira dos Santos está certíssimo quando coloca o ser como o objeto do conhecimento. A origem deste pequeno sistema filosófico que proponho aqui está articulada com a presença total do Ser, sem a qual qualquer filosofia não passa de um abstracionismo, um algo vazio e sem vida. Eu apenas acrescento que o Ser não é apenas objeto do conhecimento, mas ele é o próprio sujeito sem o qual não existe conhecimento algum. O Ser infinito é a origem de todo o conhecimento possível, e muitos erros filosóficos poderiam ser evitados se houvesse a aceitação simples deste dado onipresente e absolutamente incontornável da realidade.

10. A pergunta que se faz necessária é: como articular um problema filosófico?

A resposta que eu dou é a seguinte: é no mundo da vida que se deve recolher as premissas para o trabalho científico. É no mundo da vida que os verdadeiros problemas filosóficos surgem.

Se “problema”, na definição precisa de Ortega y Gasset, é a “consciência de uma contradição”, o primeiro passo para resolver um problema filosófico é perceber se esta consciência da contradição foi colocada pela própria vida, ou se foi algo que o filósofo simplesmente inventou.

Caso seja um problema colocado pelo próprio mundo da vida, isso já é sinal de que o problema requer atenção e é digno de contemplação amorosa. Se o filósofo simplesmente inventou o problema, caiu no pecado filosófico de desprezar a essência e multiplicar os acidentes desnecessariamente, algo que deve ser deixado de lado para sua própria saúde.

O filósofo concreto deve perceber como o fundamento da ordem de realidade que vivencia todos os dias é tensional. O universo é tensional, o “todo” é tensional, a “parte” é tensional, absolutamente toda estrutura geral do ser finito se define pela tensão, este é o mundo da vida.

O filósofo concreto deve procurar sempre a unidade por trás das tensões do seu dia e verificar qual a exata contradição que o problema lhe revela. O filósofo concreto deve andar com um lápis e um pequeno caderno no bolso e anotar todas as tensões do dia, todo o lusco-fusco, a cintilação cósmica presente no seu dia-a-dia, todas as contradições do seu cotidiano, e verificar qual é a unidade por trás dessas tensões. Essa unidade dará o sentido subjacente aos seus problemas e será a sua bússola para navegar no mundo da vida.

No dia-a-dia, o próprio simbolismo natural vai lembrando e inspirando o filósofo concreto. Quando o sol vai se pondo, a lua vai ascendendo, impera o reino da analogia que é o reino da lógica poética. A metodologia para contemplar espetáculos como esse está dado no presente sistema filosófico.

Então, o filósofo concreto segue os seguintes passos na articulação do problema filosófico: 1. Elimina qualquer possibilidade de contradição virtual e potencial, ficando sempre com as insolúveis contradições reais; 2.Depois da investigação dialética, ingressa com o problema clarificado na apodíctica universalidade.

11. Aqui, obviamente, há mais um diálogo de consciência meu com o grande filósofo Mário Ferreira dos Santos. Tratam-se das Leis Eternas. Desde as formas de assunção ou evolução da matéria à forma concreta, do particular ao universal, do ser finito ao Ser infinito, está presente na atividade do filósofo concreto a tensão dialética real, uma vez que ele é finito e situa-se perante a totalidade cósmica. Há várias dessas leis implícitas neste ensaio, mas o centro deste sistema filosófico que proponho, assim como o centro da Árvore da Vida, assim também como o centro das Leis Eternas do próprio Mário Ferreira dos Santos, é, sobretudo, a beleza. Cf. A Sabedoria das Leis Eternas de Mário Ferreira dos Santos.

12. O real, por sua vez, é um conjunto infinito de conexões acidentais e, ao mesmo tempo, um emaranhado complexo de múltiplas causalidades e determinações que são sustentadas por uma essência concreta. A base de toda realidade possível é a concreção. O ser, se é real, é concreto. A abstração complementa o ser real concrecionando-o no pensamento, e se separa do ser real por um certo período de tempo para contemplá-lo melhor e para voltar a ele amorosamente.

Por tornar a habitar nas múltiplas cadeias dos nexos lógicos e na imprevisibilidade de seus acidentes, a abstração sempre fará parte da realidade e abrirá a expansão das possibilidades como expressão simbólica do Ser.

Abstrair é criar símbolos para futuras manifestações da verdade. Esta é a boa abstração. Por meio dela, o ser pode ser pensado e apreendido em conceito, explicado, contemplado desde a sua essência, à qual retornaremos.

A criação geme em dores de parto

Recentemente participei de um debate no Orkut sobre os efeitos do pecado original na natureza (não a natureza humana, mas a natureza em geral - Romanos VIII, 22) e dele colhi o seguinte comentário do confrade Rui:

O mal moral é ausência de ordem em relação ao fim último. Como tudo se ordena naturalmente ao fim último, o mal moral só é possível na criatura racional, que possui livre arbítrio.

A única consequência do pecado original na criação pode ter sido uma ausência de ordem em relação ao seu domínio pelo homem. Competia ao homem, em estado de justiça original, possuir o domínio sobre toda criação, e agora não compete mais. Por isso, a natureza às vezes se volta contra o homem, e se voltará totalmente contra o homem condenado, após o juízo final.

Se se entende esse domínio do homem como natural, pode-se dizer que a natureza perdeu algo da sua disposição original, mas não se tornou pior intrinsecamente, no que ela é em si mesma, nos seus fins próprios, independentes do homem.

sábado, 9 de abril de 2011

As línguas, um desafio

A problemática da variedade lingüística sempre foi algo que chamou a atenção dos católicos, pois a missão de pregar o Evangelho a todos os povos teve (e tem) como um grande obstáculo a necessidade de comunicação (a Sagrada Escritura, inclusive, usa o mito da Torre de Babel - Gênesis XI, 1-9 - para dar conta dessa dificuldade humana). Do esforço para facilitar o entendimento surgiram várias traduções das principais obras em uso na Igreja (Bíblia, catecismos, escritos dos Santos, documentos papais, etc.) e a valorização de certas línguas na liturgia (latim, siríaco, grego, eslavão). Nesse quadro, creio que a seguinte série de pequenas aulas do famoso lingüista francês Claude Piron pode jogar uma luz sobre essa questão:

Compreensão


A diversidade das línguas


A desvantagem lingüística


As instituições internacionais


Passar de uma língua a outra


Isso custa…


O medo do real


O funcionamento do cérebro


A programação genética


A solução

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Estatuto ético do zigoto

Fui humano

Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente. Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção. Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre. Jamais empreguei o insulto ou a agressão de modo que homens dignos se considerassem impossibilitados de colaborar. No exame dos tristes períodos que nos antecederam esforcei-me sempre por demonstrar como de pouco valiam as qualidades dos homens contra a força implacável dos erros que se viam obrigados a servir. E não é minha culpa se, passados vinte anos de uma experiência luminosa, eles próprios continuam a apresentar-se como inteiramente responsáveis do anterior descalabro, visto teimarem em proclamar a bondade dos princípios e a sua correcta aplicação à Nação Portuguesa. Fui humano.

António de Oliveira Salazar in discurso de 7 de janeiro de 1949, no Palácio da Bolsa, Porto

Fonte: O Reaccionário

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ateísmo é sinônimo de intelectualidade?

Abaixo temos algumas citações extraídas do folheto Gott existiert, reproduzidas em Pergunte e Responderemos, n. 316, setembro de 1988, e da publicação alemã: Todos pensam que Deus existe ! (Königsbach; D – 67435 Neustadt – Burgunderstr. 44).

Charles Darwin, famoso autor da teoria da evolução:

“Nunca neguei a existência de Deus. Creio que a teoria da evolução é plenamente conciliável com a fé em Deus. A impossibilidade de provar e compreender que o grandioso e imenso universo, assim como o homem, tiveram origem por acaso parece-me ser o argumento principal para a existência de Deus”.

Isaac Newton (1642-1727), fundador da física clássica e descobridor da lei da gravidade:

“A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta” .

Alessandro Volta (1745-1827), físico italiano, descobridor da pilha elétrica e inventor, cujo nome deu origem ao termo voltagem:

“Submeti a um estudo profundo as verdades fundamentais da fé, e […] deste modo encontrei eloqüentes testemunhos que tornam a religião acreditável a quem use apenas a sua razão” .

James Prescott Joule (1818-1889), físico britânico, estudioso do calor, do eletromagnetismo e descobridor da lei que leva o seu nome:

“Nós topamos com uma grande variedade de fenômenos que […] em linguagem inequívoca falam da sabedoria e da bendita mão do Grande Mestre das obras”.

William Thompson Kelvin (1824-1907), físico britânico, pai da termodinâmica e descobridor de muitas outras leis da natureza:

“Estamos cercados de assombrosos testemunhos de inteligência e benévolo planejamento; eles nos mostram através de toda a natureza a obra de uma vontade livre e ensinam-nos que todos os seres vivos são dependentes de um eterno Criador soberano.”

Carl Gustav Jung (1875-1961), suíço, um dos fundadores da psicanálise:

“Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu aos seus adeptos, e nenhum se curou realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria”.

Albert Einstein (1879-1955), físico judeu alemão, criador da teoria da relatividade, Prêmio Nobel 1921:

“Todo profundo pesquisador da natureza deve conceber uma espécie de sentimento religioso, pois ele não pode admitir que ele seja o primeiro a perceber os extraordinariamente belos conjuntos de seres que ele contempla. No universo, incompreensível como é, manifeste-se uma inteligência superior e ilimitada. A opinião corrente de que eu sou ateu, baseia-se sobre grande equívoco. Quem a quisesse depreender de minhas teorias científicas, não teria compreendido o meu pensamento”.

Max Plank (1858-1947), físico, alemão, criador da teoria dos quanta, Prêmio Nobel 1928:

“Para onde quer que se dilate o nosso olhar, em parte alguma vemos contradição entre Ciências Naturais e Religião; antes, encontramos plena convergência nos pontos decisivos. Ciências Naturais e Religião não se excluem mutuamente, como hoje em dia muitos pensam e receiam, mas completam-se e apelam uma para a outra. Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão. (Gott steht für den Gläubigen em Anfang, fur den Phystker am Ende alles Denkens)”.

Thomas Alva Edison (1847-1931), inventor no campo da Física, com mais de 2.000 patentes:

Tenho… enorme respeito e a mais elevada admiração por todos os engenheiros, especialmente pelo maior deles: Deus”.

Fred Hoyle, astrônomo britânico, outrora ateu:

“A existência de Deus pode ser provada com probabilidade matemática de 10 40000”

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Olavo de Carvalho fala sobre o metacapitalismo

Um dos maiores problemas de entendimento da parte dos liberais sobre a crítica católica ao capitalismo sem limites que muitos deles ainda defendem, é julgarem que essa crítica implica numa condenação à economia de mercado como instrumento de criação de riquezas. Isso não é verdade. Creio que este vídeo, onde o Professor Olavo de Carvalho fala sobre o seu conceito de metacapitalismo, explica bem o que está na base do julgamento católico sobre o tema.