quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Missa cantada de Réquiem em Recife

Filmagem da primeira Missa cantada de Réquiem em quase 50 anos na cidade de Recife: vejam aqui.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

De como criar uma perseguição fantasiosa do nada

No último dia 19 de novembro do corrente ano, ao abrir o jornal de manhã (Jornal do Commercio) me deparei com a notícia da morte de um jornalista goiano (Lucas Fortuna, 28 anos) na praia de Gaibu, município do Cabo de Santo Agostinho. Ele foi encontrado trajando apenas uma cueca, com sinais de espancamento e muito sangue pelo corpo. Lucas tinha vindo a Pernambuco para atuar como árbitro num campeonato de voleibol e acabou assassinado. Até aí nada incomum, seria mais um caso absurdo de violência como os que vemos todo dia.

Contudo, a matéria começou a fazer ligações estranhas. Primeiro ela relatou que o jornalista era um militante gay ligado ao PT no seu estado de origem, tendo sido o fundador do Grupo GLBT Colcha de Retalhos na UFG. Logo em seguida, éramos informados da repercussão nas "redes sociais" e do fato de um professor da citada universidade (Juarez Ferraz) ter afirmado suspeitar de um "crime homofóbico". Daí uma ativista gay era entrevistada, dizendo-se chocada. Ou seja, do nada, totalmente do nada, surgiu a tese de que se tratava de um "crime homofóbico". É como se eu pegasse um assassinato de um católico e dissesse que se trata de um crime de ódio religioso, ou de um negro e dizer que é o resultado do racismo. Um completo non sense.  

Comecei a pensar e logo lembrei que essa tese se tornava mais absurda ainda se levarmos em consideração que a praia de Gaibu atualmente é conhecida como Gaybu, pois virou um point de pegação homossexual (um local para flertes e sexo descompromissado), isto é, seria mais fácil outro gay ter matado Lucas que pensar num homofóbico doentio escondido no meio dos gays a espera de uma vítima. Resolvi esperar para ver se o provável se confirmaria, ou se, de fato, teríamos algo sui generis nessa morte gratuita.

Nesse meio tempo, o "movimento gay" e delirantes associados (como grupos do "movimento estudantil") resolveram fazer barulho, procurando lucrar politicamente com essa morte (até chegaram a associá-la ao caso de  Matthew Shepard nos EUA).

Todavia, o próprio pai do rapaz ao ser entrevistado disse o seguinte (Jornal do Commercio, 20 de novembro):

Alguém já deu algum detalhe sobre o caso?

Me disseram que ele foi encontrado na praia, com sinais de violência. Como era homossexual, existe suspeita de que seja caso de violência homofóbica.

O senhor acredita?

Prefiro não levantar bandeiras para não cometer mais injustiça.

O que o senhor gostaria de pedir à polícia?

Que essa morte sirva para todos refletirem sobre o que estamos permitindo que aconteça. Homossexual ou não, ele tinha uma vida pela frente. Infelizmente, não foi dada a ele a chance de prosseguir. 

Mais equilíbrio de quem deveria estar mais desequilibrado impossível!

Não foi sem surpresa, portanto, que o resultado do inquérito policial contrastou totalmente com a tese dos militantes homofascistas: um outro gay, após fazer sexo com Lucas, matou-o para roubá-lo. Vejam como o Diário de Pernambuco (6/12) publicou a conclusão da investigação:

De acordo com a delegada Gleide Ângelo, do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP), na noite de 18 de novembro, Lucas Fortuna teria saído da pousada acompanhado por dois desconhecidos em direção às pedras da praia de Calhetas, onde um deles teria mantido relaxões sexuais com o consentimento da vítima. Em seguida, a dupla teria assaltado o jornalista. Insatisfeitos em roubar o celular e vinte reais que estavam na carteira do jovem, os criminosos teriam espancado o rapaz e o jogado no mar para que pudessem ter tempo de entrar no quarto e roubar os pertences da vítima.

Após o crime, os homens ainda teriam trocado de roupa e tentado entrar no quarto da pousada, usando a chave roubada. A entrada no estabelecimento, no entanto, não teria sido permitida pela recepcionista.

Aqui um vídeo:


Infelizmente, também não foi sem surpresa que li que os representantes do "movimento gay" disseram que "foi homofobia sim", tal qual uma criancinha batendo o pezinho, e foram para uma praça do centro do Recife fazer uma "vigília".

Fica claro, portanto, como esse povo é pilantra, como tentam ter ganho político em cima de tudo, até de uma mentira (e uma mentira improvável). Todo cuidado com eles é pouco.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Língua falada e língua escrita

A linguagem falada é popular. A linguagem escrita é aristocrática. Quem aprendeu a ler e a escrever deve conformar-se com as normas aristocráticas que vigoram n'aquele campo aristocrático.

A linguagem falada é nacional e deve ser o mais nacional possível. A linguagem escrita é – ou deve ser – o mais cosmopolita possível. Philosopho deve escrever-se com 2 vezes PH porque tal é a norma da maioria das nações da Europa, cuja ortografia assenta nas bases clássicas ou pseudo-clássicas.

- Fernando Pessoa in «Pessoa Inédito» (via Acção Integral)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O conceito de sabedoria no Antigo Testamento

Artigo do Frei Geraldo de Araújo Lima, O. Carm., publicado no jornal A Partilha (Paróquia do Sagrado Coração Eucarístico de Jesus - Espinheiro, Recife/PE) em agosto de 2009 (mantive as traduções bíblicas dele, mas mudei a numeração dos versículos e/ou capítulos para as da Vulgada, bem como coloquei a indicação dos capítulos e livros em algarismos romanos):

Trata-se de um conceito bastante complexo, difícil de ser enquadrado nos nossos esquemas mentais. Efetivamente, sabedoria pode significar a perícia de um artista, como os que fizeram as vestes da Aarão (Êx. XXVIII, 3), ou os carpinteiros que construíram o Tabernáculo (Êx. XXXI, 3-5; XXXVI, 1). Pode denotar a habilidade de uma carpideira profissional (Jr. IX, 16-17) ou de um marinheiro tarimbado (Sl. CVII, 27). O sábio tanto pode ser um conselheiro real (Est. I, 13), como também uma simples mulher astuta (II Sm. XX, 16).

A sabedoria também possui um intenso aspecto religioso, identificando-se com o temor do Senhor (Pr. I, 7). De alguma maneira, ela é divina (Pr. VIII, 22-23; Sb. VII, 25-26; Eclo. XXIV, 3).

As inúmeras facetas da sabedoria não entram num esquema lógico. Aqui abordaremos apenas algumas indicações da variedade dos seus usos dentro da própria literatura sapiencial bíblica.

I - Sabedoria e experiência

É justamente na área da experiência e da observação que uma certa perspicácia chega a ser reconhecida como sabedoria. É a "sabedoria experimental"; ou como diria Camões: "o saber de experiências feito". Ela resulta do posicionamento do homem diante da realidade em vários níveis. Quando o sábio escreve: "A arrogância prece de a ruína" (Pr. XVI, 18), ele está simplesmente se baseando na observação prática. Note-se, com freqüência, na Bíblia um paralelo entre as ações da natureza e a conduta humana. Por exemplo: o que dizer do homem que "promete mas não cumpre? E semelhante a nuvens e vento não acompanhados de chuva" (Pr. XXV, 14). Embora Israel nunca tenha desenvolvido uma atitude científica com relação à natureza, os fenômenos observáveis se tornaram um quadro acessível de referência para comparações com a conduta humana: "Anda, preguiçoso, olha a formiga, observa o seu proceder, de torna-se sábio" (Pr. VI, 60.

II - Sabedoria, conduta moral e retribuição

A conexão entre sabedoria e virtude é frequentemente enfocada na Bíblia, e de maneira bastante clara. Basta que se leia Pr. X, 22 para se observar o contraste entre o justo e o perverso: "Com a bênção dos justos prospera a cidade; pela boca dos ímpios ela se destrói" (Pr. XI, 11).

Foi precisamente a partir do exílio na Babilônia, com a dolorosa lição do desastre nacional, que a sabedoria passou a adquirir cada vez mais um caráter moral e ético. Talvez o melhor exemplo de tal desenvolvimento seja a introdução aos Provérbios (Pr. I, 8), escrita depois do exílio. A sabedoria tornou-se "temor do Senhor" (Pr. I, 7). O sábio incentiva o jovem a entender "a justiça e o direito, a retidão e todos os caminhos da felicidade" (Pr. II, 9), "a confiar no Senhor com todo o coração" (Pr. III, 5). O sucesso do sábio não é um mero resultado feliz em alguma aventura, mas "favor e bom sucesso aos olhos de Deus e dos homens" (Pr. III, 4).

Sabedoria significa, sobretudo, vida (Pr. VIII, 35). Os detalhes da vida diária constituem a matéria prima da moralidade. Por este motivo, qual deveria ser a avaliação das más companhias? Responde o sábio: - "Quem caminha com os sábios torna-se sábio; quem se ajunta aos insensatos torna-se mau" (Pr. XIII, 20). Que males a inveja e o ciúme poderiam acarretar a uma pessoa? -  "Um coração bondoso é a vida para o corpo, mas a inveja é a cárie para os ossos" (Pr. XIV, 30). A que fim o orgulho nos conduz? - "O orgulho do homem o humilha, mas o espírito humilde torna-o honrado" (Pr. XXIX, 23). E o que pensar das meretrizes? - "A prostituta é a cova profunda, e a estranha, um poço estreito. Como um salteador, ela também fica espreitando, e entre os homens multiplica os infiéis" (Pr. XXIII, 27-28). Além disso, a experiência corrobora a ordem moral: "O homem misericordioso faz bem a si mesmo; o homem cruel destrói sua própria carne" (Pr. XI, 17). Muitas ações especificamente imorais são condenadas, como: o ganho injusto (Pr. X, 2-3), o falso testemunho (Pr. XV, 18), o suborno (Ez. XXII, 12), a mentira e a bajulação (Pr. XVI, 28). Por outro lado, certos ideais morais são inculcados, tais como: a piedade para com o indigente (Pr. XIV, 31), o temor no Senhor (Pr. XIX, 23), a confiança em Deus (Pr. XVIII, 25).

A recompensa prometida àqueles que adquirem a sabedoria está expressa no conceito de vida: "Na senda da justiça está a vida; o caminho dos ímpios leva à morte" (Pr. XII, 28). A consecução da sabedoria e da virtude está associada com a "árvore da vida" (Pr. XI, 30; XIII, 12; XV, 4), com o "caminho da vida" (Pr. VI, 23; XV, 24) e com a "fonte da vida" (Pr. X, 11; XVI, 22).

Embora não esteja envolvida neste conceito, a noção de imortalidade pessoal é susceptível de desenvolvimento. E tal desenvolvimento levou Israel a descobrir que o Xeol (= "mansão dos mortos") permanece aberto diante do Senhor (Pr. XV, 11), o qual não abandona o seu fiel (Sl. L, 16; LXXII, 23-28). E quando chega à triunfante afirmação da imortalidade, está é expressa de um modo tipicamente israelita: a imortalidade não é uma conseqüência da natureza humana (alma imortal), mas é "a justiça que é imortal" (Sb. I, 15). A união com o Senhor nesta vida, simplesmente haverá de perdurar!

III - A sabedoria e Deus

No pensamento israelita primitivo, a sabedoria pertence ao nível humano, não ao nível divino. Javé "faz o sábio" ou "dá a sabedoria", do mesmo modo como "faz o rico" ou "dá a riqueza".

Com o progresso da revelação, a sabedoria começou a ser atribuída a Deus (Jó XII, 13; Dn. II, 20); tornou-se uma característica de Sua atividade criadora (Sl. CIII, 24; Pr. III, 19). Começava então aquilo que se convencionou chamar de "teologização da sabedoria". Não existe uma pronta explicação para tal desenvolvimento; todavia, dentre os dados fornecidos pelo Antigo Testamento, a inacessibilidade ou transcendência da sabedoria pode ser tomada como um ponto de partida.

Tal características parece estranha diante da visão prática da sabedoria apresentada em Pr. I, 9, convidando homens a conquistá-la; mais ainda: convidando os próprios sábios a adquiri-la. A inacessibilidade é frequentemente inculcada: conforme Jó XXVIII, a sabedoria não pode ser encontrada em nenhum lugar da criação. Somente Deus conhece o caminho para se chegar a ela, e mais ninguém.

Naturalmente, a razão desta intangibilidade é porque ela é divina, gerada desde a eternidade (Pr. VIII, 23-24), "saída da boca do Altíssimo" (Eclo. XXIV, 3), "emanação puríssima da glória do Onipotente" (Sb. VII, 25).

A sabedoria não é apenas apresentada como procedente do Altíssimo, mas também como ativo "artista" na criação (Pr. VIII, 30; Sb. IX, 9). Tais descrições levantaram o problema da sabedoria como pessoa. Ela parecer ser uma personificação, exatamente como outros aspectos de Deus são personificados no Antigo Testamento: sua Palavra (Is. LV, 10-11) e seu Espírito (Is. LXIII, 10-11).

A identificação da sabedoria com o Espírito de Deus é particularmente clara no livro da Sabedoria. Ela é chamada de "o Espírito Santo da disciplina" (Sb. I, 5), o qual foge da duplicidade. Em Sb. IX, 17-18, ela é colocada em paralelo com "o Espírito Santo enviado dos céus", que revela os conselhos de Deus aos homens e assim os salva.

Comentando o belíssimo elogio da sabedoria em Sb. VII, 22-28, a Bíblia de Jerusalém conclui: "Este elogio da Sabedoria, que participa da intimidade de Deus, que possui Sua onipotência e que colabora com Sua obra criadora, já anuncia toda uma teologia do Espírito a quem ela é assimilada e do qual ela recebe as funções tradicionais; anuncia sobretudo a cristologia de João, de Paulo e da Carta aos Hebreus". 

Realmente, Paulo não tem o menor receio em identificar Cristo com a Sabedoria:

"Nós anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gregos é loucura, mas para aqueles que são chamados tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (I Cor. I, 23-24).

No prólogo do seu Evangelho, João parece ir ainda mais longe ao afirmar: "No princípio era o Verbo (= Logos, a Sabedoria), e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo. I, 1.14).

A partir daí não há mais nada a dizer, somente bendizer!


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tempo tríbio: de Burke a Gilberto Freyre

Texto que escrevi para a última edição da ótima Revista Vila Nova, reunindo algumas reflexões próprias com as dicas de leitura do confrade Fernando Carvalho numa comunidade do Orkut:

Um dos maiores problemas que encontramos no quadro institucional de nosso país é a falta de compromisso dos políticos com as ideias que dizem defender, de modo que ao se votar num socialista muitas vezes estamos escolhendo apenas mais um exemplar do velho coronelismo e ao se votar num liberal apostamos num defensor de todas as formas de mal corporativismo. Para quem é católico, isso até acarreta uma complicação extra, já que o uso dos referencias dados pelo Magistério da Igreja para a arte de governar fica condicionado à reflexão sobre o que as coisas são na realidade, pois, simplesmente, não é prudente uma aplicação direta baseada em rótulos.

De qualquer forma, mesmo com toda a sua esquizofrenia, esse quadro não consegue absorver a corrente de opinião mais próxima daquilo que o Brasil profundo valoriza: o conservadorismo. A sabotagem em torno dela é tão grande, que é como se a mesma não existisse; o conservadorismo não é considerado uma opinião, uma postura legítima, mas um conjunto de tabus. Todavia, as oportunidades em que o povo se manifestou com liberdade, como no caso do referendo sobre o desarmamento, mostram que nossa alma não tem nada de revolucionária, ela quer a permanência daquilo que com sucesso as gerações anteriores nos legaram e, no que pode ser mudado, prudência e comedimento.

Teoricamente, o conservadorismo moderno começou com a obra Reflexões sobre a revolução na França (1790), do político e pensador anglo-irlandês Edmund Burke, e se desenvolveu ao longo de todo o século XIX e XX como uma vertente política contrária às utopias. Mais tarde, o filósofo americano Russel Kirk formulou uma lista de 10 princípios que resumem a marcha do conservadorismo em tantas décadas e que pode facilmente ser encontrada na internet numa tradução feita pelo famoso Pe. Paulo Ricardo. Pois bem, dessa lista se infere que uma das principais características do conservador é valorizar as lições do passado para bem viver o presente e planejar o futuro, e isso, sem surpresa alguma dada a genialidade do autor, casa com perfeição no conceito de tempo tríbio do intelectual pernambucano Gilberto Freyre.

Segundo o Mestre de Apipucos:

“Pois o presente (…) é um presente sempre em expansão, para trás e para adiante. Tanto evoca quanto profetiza. A ciência que se considere Futurologia – ciência relativa – tende a ser uma disciplina da tendência humana para a profecia, em ligação com a tendência, também muito humana, para a evocação; e, sem que falte qualquer dessas tendências o terra-a-terra da observação da realidade imediata. Realidade imediata na qual se cruzam sobrevivências e antecipações. O homem nunca está apenas no presente. Se apenas se liga ao passado, torna-se arcaico. Se apenas procura viver o futuro, torna-se utópico. A solução para as relações do homem com o tempo parece estar no reconhecimento do tempo como uma realidade tríbia; e como o homem vive ele mesmo imerso no tempo, ele próprio é um ser – um estar sendo, diria talvez Gasset – tríbio” (FREYRE, Gilberto. Futurologia. In: Antecipações. Recife: EDUPE, 2001, p. 171 – Coleção Nordestina).

Temos aqui uma tentativa de humanização da noção de tempo, uma tentativa de distinção entre o tempo biológico e o tempo físico-matemático. “Tempo tríbio”: tempo resultado do ciclo biológico, em sua inexorável ordenação do “antes” e do “depois”. Do “antes” que se aproxima irresistivelmente para a transformação em “depois”, dando-nos ilusão análoga à de todo sistema em movimento, a ilusão de um movimento exterior, em sentido oposto. Vemos o tempo avançar sobre nós, vindo do “futuro”, para perpassar, fugaz, e precipitar-se em passado, quando nós avançarmos para ele, avançarmos para o que não é, vindos do que passou para o que está passando, e arrasta o que virá de imediato, puxando depois de si outros porvires. Esses tempos, não é a mensuração que os cria, nem é, na verdade, a mensuração que os rege. Também a mensuração é nossa, é ato, é manifestação de dinâmica e, afinal, de vida. Desta muito prezada e muito precária humana vida nossa (DANTAS, Pedro. Depoimento sobre Gilberto Freyre. In: Convivência. Rio de Janeiro, n. 2, 1976/1977, pp. 34-39).

Passado, presente e futuro, nessa perspectiva, articulam-se e influenciam-se mutuamente. O tempo social os encontra com a predominância ora de um, ora de outro, mas sem abdicar de nenhum, pois além de sermos viventes, somos conviventes. Convivemos com o legado de nossos ancestrais e convivemos com as repercussões ou precipitações do possível.

O conceito, então, fala por si no que tange à sua relação com o conservadorismo, mas eu gostaria de ressaltar que a genialidade de Freyre a que fiz referência converge para tal corrente de pensamento devido a uma característica que as une numa base anterior a da teorização: o realismo. Tanto o pensamento de Gilberto Freyre quando o conservadorismo são realistas, rejeitam tanto a utopia quanto o saudosismo caricato, pois, nestes dois casos, o que temos são posturas artificiais. As transformações das estruturas sociais, econômicas e políticas devem beber em elementos do passado com capacidade de permanência (REBELO, Aldo. Cem anos de Gilberto Freyre. Um homem que entendeu o Brasil.), ou a renovação será uma aposta arriscada, como provaram as tentativas de engenharia social do século passado (vinculadas a regimes autoritários) e a quase anomia pela falta de nexos de união em que o antigo Ocidente foi jogado pelo liberalismo (isso pode ser facilmente verificado pela inflação normativa que atinge os países dessa parte do mundo). Para os conservadores ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício, de modo que sua manutenção requer cuidados sérios, não se podendo “brincar” nesse âmbito, sob a pena de ver tudo desmoronar com rapidez. O governo da civitas, mediante esse tratamento, inclui, nos seus domínios, o que deve ou pode vir a ser, tanto quanto o que é e o que foi.

Tal característica também é convergente com a Doutrina Social da Igreja, que desde a Rerum Novarum (encíclica de Leão XIII que iniciou a reflexão sobre a aplicação do Evangelho aos problemas socioeconômicos do mundo moderno) rejeita com a mesma ênfase as falsas soluções do marxismo, com sua negativa de direitos naturais, como o de propriedade, e o canto de sereia do dinheirismo capitalista, com sua postura contrária à tendência cooperativista da dinâmica social (presente em entidades como a família e os sindicatos, por exemplo). Observem que a tônica em ambas as rejeições deve-se ao apego à realidade, pois esta nos mostra que a propriedade é nada mais que o trabalho acumulado e que a perspectiva de ver o esforço transformado em algo duradouro é um dos principais motivadores da responsabilidade entre os homens, e que a fragilidade de nossa condição neste verdadeiro “vale de lágrimas”, como diz a Salve Regina, pede a ajuda mútua.

Vemos, portanto, que não precisamos recorrer só a autores estrangeiros para formular uma aplicação nacional do conservadorismo na sua vertente cristã. Aliás, como já fiz referência, nesse caso não estaríamos tratando de algo puramente teórico, na verdade teríamos uma mera interpretação daquilo que é percebido, sentido e vivido pela maioria silenciosa de nosso país. Teríamos uma construção em cima do que é real, e não uma tentativa de modificar a sociedade com base numa proposta abstrata. O conservadorismo não é uma ideologia, mas um tipo de olhar sobre a ordem social como ela é de fato.

E Gilberto Freyre, nesse sentido, foi um verdadeiro intérprete do Brasil, num tempo em que isso soava transgressor, mas que, na verdade, apenas era a reação a ideologias revolucionárias de toda ordem (positivismo, racialismo, liberalismo, etc.) que infestavam nossa vida social e geravam toda sorte de rejeição internalizada do que era próprio da terra. Sim, o Mestre de Apipucos, mesmo usando roupa de hippie, foi um reacionário, pois reacionário é aquele que reage!

Será, então, que o caráter cínico que as eleições assumiram não deriva do fato de que nenhum candidato tenta interpretar a alma nacional? Será que decisões judiciais e leis que fazem pouco de nossas raízes, isto é, não convivem com os que nos legaram a pátria, não são também causa do sentimento de injustiça que assola o país? Um futuro que se constrói em descompasso com o presente e o passado não já está mandando recados de que se será desastroso?

Todas essas são questões que Burke tentou responder na sua época para seu contexto particular e que agora nos afligem com força maior. Hoje, contudo, podemos ir além, podemos ir “além do apenas moderno”, pois no pensamento de Freyre encontramos sugestões fecundas, caracterizadas pela agilidade e liberdade de uma concepção fenomenológica que não se deixa amarrar a uma tese fixa e imutável (DANTAS, Pedro. 1976/1977, pp. 34-39), mas tira da mobilidade sua força e capacidade de interpretação. Vamos, então, ficar parados, ou reagir?

Beicinho requentado

Uns 8 anos atrás, logo nos primeiros debates em que me envolvi no Orkut, um dos argumentos usados pelos tradicionalistas mais radicais (que hoje chamo de traditional borings) para criticar o Papa João Paulo II era o fato dele ter como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé um teólogo que duvidava da Presença Real ao escrever que as visitas ao Santíssimo numa igreja não faziam sentido. Para provar isso, eles traziam uma citação da obra Die Sacramentale Begründung Christliche Existenz que dizia o seguinte:
A devoção eucarística ou visita silenciosa à igreja não pode ser considerada uma conversa com Deus. Isso supõe que Deus esteja presente de maneira local e circunscrita. Afirmações do tipo “Deus mora aqui” e conversas com o Deus que se imagina estar naquele lugar, baseadas nesse modo de pensar, demonstram um equívoco, quanto ao evento cristológico e à idéia de Deus, que necessariamente repugna ao homem inteligente, sabedor da onipresença de Deus. Se alguém justificasse sua ida à Igreja com o argumento de que se deve visitar ao Deus que somente ali se faz presente, essa seria uma justificativa que não faria nenhum sentido e seria com toda razão rejeitada pelo homem moderno.
De fato, o texto soava bem estranho a tudo aquilo que se possa chamar de católico. Se não fosse pela margem de dúvida derivada do fato de ninguém parecer ter acesso ao original e de, se tivesse, a tradução ser complicada (já que ele estaria em alemão), o assentimento a essa crítica poderia ter tragado muitas almas para o erro do sedevacantismo no momento em que Ratzinger se tornou Bento XVI. Felizmente, no Seu tempo, o Senhor enviou uma resposta para esclarecer essa celeuma.

Não foi sem surpresa, portanto, que me deparei recentemente com um novo debate onde a velha citação era requentada, seguindo a gritaria que alguns blogs estão fazendo (exemplos aqui e aqui). Vou, então, sistematizar uma resposta, seja para responder a onda atual quanto para responder às ondas futuras (pois esse tipo de coisa sempre volta). 

Em primeiro lugar, no estilo de escrita de Ratzinger, que segue o de escolas filosóficas diferentes da aristotélico-tomista, não cabe a análise de trechos isolados do quadro argumentativo em que os mesmos se inserem (é como uma perícope na Bíblia). Não dá para buscar o significado das frases em si mesmas, o real sentido delas é dado a partir de uma leitura sistemática. Infelizmente muitos católicos parece que não sabem ler nada no âmbito religioso que não esteja escrito num estilo de catecismo de perguntas e respostas.

Em segundo lugar, mesmo que Ratzinger tivesse afirmado algo assim, como Papa o ensino dele seria bem diverso, tal qual se pode notar no que foi ensinado na sua primeira mensagem oficial (20/04/05):
De maneira mais do que nunca significativa, o meu Pontificado começa no momento em que a Igreja está a viver o especial Ano dedicado à Eucaristia. Como não tirar desta providencial coincidência um elemento que deve caracterizar o ministério para o qual fui chamado? A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi oferecido.

A Eucaristia torna constantemente presente Cristo ressuscitado, que continua a oferecer-se a nós, chamando-nos a participar da mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da comunhão plena com Ele brotam todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anúncio e testemunho do Evangelho, o fervor da caridade para com todos, especialmente para com os mais pobres e pequeninos.

Por conseguinte, neste ano deverá ser celebrada com particular relevo a Solenidade do Corpus Domini. Depois, a Eucaristia estará no centro, em Agosto, da Jornada Mundial da Juventude em Colônia, que se desenvolverá sobre o tema: "A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja". Peço a todos que intensifiquem nos próximos meses o amor e a devoção a Jesus Eucaristia e que exprimam de modo corajoso e claro a fé na presença real do Senhor, sobretudo mediante a solenidade e a retidão das celebrações.

...

Peço isto de modo especial aos Sacerdotes, nos quais penso neste momento com grande afeto. O Sacerdócio ministerial nasceu no Cenáculo, juntamente com a Eucaristia, como muitas vezes realçou o meu venerado Predecessor João Paulo II. ‘A existência sacerdotal deve a título especial tomar «forma eucarística»’, escreveu na sua última Carta para a Quinta-Feira Santa (n. 1). Para esta finalidade contribui antes de mais a devota celebração quotidiana da sua santa Missa, centro da vida e da missão de cada Sacerdote. 
E o que vale é o ensino dele como Sucessor de Pedro no comando da Igreja universal.

Por último, e mais importante, ele não disse o que está dito na primeira citação! O texto completo (original em espanhol aqui e no anexo desta postagem) diz outra coisa, vejamos:
Não cabe dúvida: nossa piedade foi com freqüência um pouco superficial e motivou numerosos equívocos. A atitude crítica da consciência moderna pode fomentar uma sã purificação na autocompreenção da fé. Baste citar um exemplo, no que aparece claramente a crise e que dará luz sobre o sentido tão necessário de purificação A adoração eucarística ou a visita silenciosa a uma igreja não pode ser, em seu pleno sentido, uma simples conversa com o Deus que imaginamos presente a um lugar determinado. Expressões como «aqui vive Deus», e a linguagem com o Deus «local» fundado nelas, expressam uma idéia do mistério cristológico e de Deus que chocam necessariamente ao homem que pensa e conhece sua onipresença. Quando se funda o «ir à igreja» na obrigação de visitar ao Deus ali presente, este fundamento carece de sentido e pode ser recusado, com razão, pelo homem moderno. A adoração eucarística está unida ao Senhor que, por sua vida histórica e sua paixão, converteu-se em nosso «pão», isto é que por sua encarnação e morte se nos entregou. Dita adoração se refere, pois, ao mistério histórico de Jesus Cristo, à história de Deus com o homem, que se nos transmite no sacramento. E está unida ao mistério da Igreja: a relação com a história de Deus e os homens a põe em contato com todo o «corpo de Cristo», com a comunidade dos fiéis, através da qual Deus vem a nós. Deste modo, orar na igreja e na proximidade do sacramento eucarístico significa a encarnação de nossas relações com Deus no mistério da Igreja, como lugar concreto no que Deus se nos comunica. Este é o sentido de nosso ir à igreja: a imersão de mim mesmo na história de Deus com o homem, a única que me dá minha verdadeira condição humana e a única que me abre o âmbito de um autêntico encontro com o amor eterno de Deus. Porque este amor não procura um puro espírito isolado, que só seria um fantasma em comparação com a realidade do homem, senão que procura ao homem total, no corpo de sua historicidade, e lhe presenteia nos signos sagrados dos sacramentos a garantia da resposta divina que soluciona o problema do fim e plenitude de sua existência.
Está claríssimo: de forma alguma se nega a presença de Cristo no sacramento da Eucaristia, antes se aprofunda este mistério dentro da realidade eclesial. Agora, essa é uma clareza que só surge no contexto. Qualquer pessoa que saiba o mínimo do pensamento de Ratzinger sabe que ele desenvolveu uma eclesiologia centrada na Eucaristia, de modo que seja natural que o teólogo tenha aprofundado suas reflexões sobre este sacramento.

Enfim, o texto está aí, não há espaços para ambigüidades. Não há heresia nenhuma, não há negação da Presença Real. O que existe, isso sim, é a pressa temerária de alguns em condenar seja quem for, é a loucura farisaica que parece ter tomado conta de alguns combatentes da resistência católica às diatribes do pós-concílio.

Visita_Santíssimo_Ratzinger.txt


Quebrando mitos no paraíso sueco

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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Os abortistas e os marcianos

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Torna-te o que és

Um dos maiores problemas do mundo moderno (terá sido de todas as épocas?) é o que chamo de "espírito de rebanho", isto é, a completa falta de conformidade com aquilo que a reta consciência identifica como ético para seguir o comportamento da maioria. Em tempos como os nossos, de crise de identidade da Igreja, isso se torna ainda mais fulcral, pois muitos católicos, frente a obviedades, como a superioridade teológica do rito gregoriano frente ao paulino, não fazem aquilo que deveriam para não se indispor com os seus pares. Creio que a seguinte ilustração e o texto (de Ângelo Monteiro - Jornal do Commercio, Recife 17 de novembro de 2012) podem levar a uma boa reflexão dos leitores e confrades:

 

    A grande negação

Passando a vida inteira a defender-se de tudo, principalmente das próprias opiniões, e buscando cumprir ao máximo a célebre fórmula - "bem com Deus e bem com o Diabo" - muitos chegam ao fim da jornada, sem deixar a menor marca dos seus pés nas areias do mundo; temendo desagradar aos outros, esquecem-se de si mesmos, não por renúncia em vista de maiores valores, mas por estupidez e covardia. Todo mal começa quando deixam de falar com a voz com a qual nasceram, e passam a adotar a voz alheia, como forma de fugir da realidade que lhes foi dada, em demanda daquela mais afeita aos desvios de rota de toda a verdade originária. E não são poucos os que preferem a mentira ao perigo, ainda que redentor, da solidão de uma límpida verdade.

Sempre é mais confortável conviver com os fantasmas dos outros do que com os seus próprios fantasmas: enquanto estes exigem que os decifremos, aqueles servem de inconstante plateia para as nossas enganosas expectativas existenciais. Daí tantos mudarem artificialmente, ao longo dos dias, adotando os papéis mais contraditórios sem, entretanto, operarem qualquer mudança substancial em suas vidas, já que tais papéis correspondem menos às exigências interiores que às modas do momento. Em razão disso, cresce o número dos que simplesmente reproduzem, em sua vocação de esponjas, as aparências até das menores celebridades, por não saberem encarar sua indisfarçável face. Só um profundo horror à individualidade pode levar tanta gente a recuar do seu centro inviolável para envolver essa mesma face em máscaras tão diversas quanto incompatíveis entre si. Como entender que, ao custo da pior das perdas, alguém veja com júbilo semelhante negação, que não é o negar-se ao homem velho, porém antes um insuperável medo do homem novo? "Torna-te o que és": esta sentença de Nietzche veio a constituir-se numa forte ameaça para todos os que fazem do pensamento único e do sentimento das massas os pilares máximos da convivência social de qualquer rebanho.

Por que, então, a maior das certezas - que é a de que todos haveremos de morrer - não consegue comover esses frágeis personagens que abandonam sua mais íntima experiência em prol da concordância com uma maioria que costuma estar à deriva dos piores discursos produzidos pela decadência? Como nos escondermos de nós mesmos, quando se sabe que o homem pode se esconder de tudo, menos do túmulo que o aguarda, como há de aguardar, de modo especial, aqueles que desbarataram, sem dó, o sentido de sua intransferível experiência?

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Fumar maconha é pecado mortal?

Acompanhem aqui um debate interessantíssimo sobre a questão do consumo de maconha, que sempre causa controvérsias desnecessárias nos meios católicos conservadores pelo fato das pessoas misturarem a problemática espiritual com a social/jurídica.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O rito cartuxo

Este texto, refeito, agora pode ser lido aqui.

Sentinelas da noite

Um magnífico documentário que mostra a vida dos monges beneditinos do Barroux, um mosteiro francês que surgiu no meio da luta da resistência ao caos pós-Vaticano II e que até hoje cultiva a liturgia e a disciplina tradicionais da Igreja no Ocidente.

O documentário é em francês com legendas em espanhol.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Lembra-te de santificar o sábado

Artigo de autoria do Pe. Otorino Fantin, S. D. B., publicado originalmente na Revista Eclesiástica Brasileira de dezembro de 1951. Mantive a redação original, mas corrigi pequenos lapsos de sistematização, alterei o uso de maiúsculas em alguns casos e, no que se refere às citações bíblicas, coloquei a numeração dos livros e parágrafos em algarismos romanos, e a nomenclatura dos livros segundo o uso atual (mas, neste último caso, só para o texto, não para as notas). 

Memento ut Diem Sabbati Sanctifices

I. Razões de um Mandamento

O tempo e o espaço formam a moldura misteriosa de um quadro antigo e sempre vivo, cheio daquela luz que se torna mais viva de permeio aos contrastes chocantes das sombras e dos claros-escuros: a vida humana. Hoje, como pelo passado, as preocupações dos filósofos, dos físicos e matemáticos convergem para o problema do tempo e do espaço, que ainda se nos apresentam como enigmas indecifráveis a nos dizer que somos pequenos, grãozinhos de areia que a mão do Todo-poderoso lançou às largas no universo... Diante destes dominadores apercebemo-nos de nossa contingência! Somente Deus está cima e fora deles, porque é eterno e imenso: "Priusquam montes gignerentur et nasceretur terra et orbis, et ab aeterno in aeternum tu es, Deus" (Sl LXXXIX, 2); "Caeli caelorum te capere non possunt" (I Rs VIII, 27).

E a única atitude que a criatura racional pode e deve tomar ao contemplar as perfeições divinas é a de uma humilde adoração, de ação de graças, de reconhecimento do nada que ela é. Quem reconhece sua miséria, sua insignificância, está bem longe de atribuir a si próprio o pouco de riqueza que a bondade do Criador lhe outorgou. Uma conduta diferente mereceria sem mais a exprobação de São João ao anjo da igreja de Laodicéia: "Dizes: Estou rico, bem fornecido, de nada careço. Não sabes, entretanto, que é necessitado, completamente desprovido, pobre, cego e nu" (Apoc III, 17), ou que se lhe aplicasse aquilo que do Apóstolo: "Se alguém cuida ser alguma coisa, quando na realidade é um nada, esse tal se engana grandemente" (Gál VI, 3).

É, pois, em reconhecimento do domínio absoluto de Deus sobre nós que Lhe consagramos parte do tempo e do espaço. Do tempo: dedicando-Lhe um dia particular da semana, a fim do O louvar, impetrar a sua clemência, render-Lhe a homenagem carinhosa de filhos reconhecidos. Do espaço: consagrando a Deus o lugar que nosso corpo ocupa como templo sagrado onde mora a SS. Trindade: "Nescitis quia templum Dei estis, et Spiritus Dei habitat in vobis? Templum enin Dei sanctum est, quod estis vos" (I Cor III, 16.18).

Igualmente as catedrais majestosas que erguem aos céus suas torres esguias, quais braços abertos a pedir bênçãos sobre o povo devoto; as basílicas, brilhando ouros e mármores ou ostentando cúpulas arrojadas, bem como as capelinhas humildes e perdidas nas florestas e nas montanhas, ocupam parte do espaço consagrado pela Igreja ao Deus imenso e eterno.

A vida agitadíssima deste século tende funestamente a proscrever de seu horário algum tempo, de que não se pode dispor sem cometer um crime de lesa-majestade, furtando a Deus a glória que as criaturas Lhe deveriam dar e afastando os cristãos de um manancial fecundo de graças e merecimentos.

Para tudo há tempo [1]: para o trabalho, para os lazeres, para estreitar as relações sociais, para cuidar do corpo. Nisso não há mal. O mal está no fato de reduzir a este conjunto de coisas a existência humana. A que se reduz, deste modo, o homem? A um animal aperfeiçoado, e nada mais!...

Pelo Santo Batismo somos incorporados a Cristo, unimo-nos à grande comunidade dos remidos, adquirimos uma mãe carinhosa e comum: a Santa Igreja Católica.

Se em todo homem existe, por uma lei que lhe foi esculpida no coração, a necessidade de externar seus sentimentos de religiosa submissão a Deus, mediante atos que tendem a cultuá-Lo, será que desta lei estão dispensados os cristãos, os que tiveram a dita, a preferência de muitíssimos outros, de receber instrução mais aprimorada, de conhecer a religião católica?

Foi para sublimar esta obrigação natural que todos temos de prestar-Lhe reverente obséquio, que Deus determinou positivamenteo modo com que devíamos fazê-lo, sancionando a lei: "Lembra-te de santificar o sábado" (Êx XX, 8).

Pelo terceiro mandamento fica assim codificada uma obrigação de direito natural. Já não é suficiente para o cristão fazer algum ato de culto durante a vida. Com isto não satisfaz ao preceito divino. Deve praticá-lo no modo e na medida estabelecida ou por Deus diretamente, ou por quem d´Ele recebeu este encargo, que no caso é a Igreja Católica [2].

A obediência às ordens do Criador é o que de mais meritório há para a criatura, que, destarte, reconhece a supremacia e a excelência da divina Vontade, por um ato livre e final de submissão.

II. Origem e observância da Lei Sabática no Antigo Testamento

A reunião sistemática e sucessiva de um número fixo de dias em grupo de sete forma as 52 semanas que inteiram o ano.

Pode-se afirmar que a instituição da semana é de origem divina. Temos, de fato, argumentos a favor desta premissa. No Gênesis I, 1-31, o Autor sagrado organiza belamente a semana, atribuindo a cada um dos dias uma obra (ou mais) da criação. Conquanto seja visível o cunho literário na distribuição senária das obras criadas, está fora de dúvida que no primeiro capítulo há uma referência clara à instituição da semana, cujo último dia é pelo Senhor consagrado ao descanso (Gn II, 3).

O fato é concordemente admitido pelos comentaristas e exegetas católicos, embora haja diversidade de opinião quanto ao tempo da instituição da semana. Autores há, que afirmam ter sido instituída logo de início, no paraíso terrestre, com a consagração do sábado pelo Senhor. Remontaríamos, assim, aos nossos progenitores, que por primeiros teriam observado o sábado, e consequentemente adotado a semana.

Outros, argumentando pelo que nos é relatado no Êxodo (XXXI, 16), julgam mais acertadamente ter sido o sábado escolhido por Deus como dia de descanso durante a peregrinação dos hebreus pelo deserto [4].

Não consta, realmente, que semelhante prescrição vigorasse na época dos Patriarcas. Mais: dos antigos povos orientais, talvez só os assírios e babilônios adotassem o agrupamento setenário dos dias (hebdomada) em correspondência às fases da Lua. Costume este adotado por algum tempo também pelos israelitas. É verossímil que o repouso sabáticonão vigorasse entre os hebreus antes de sua peregrinação através do deserto do Sinai.

Em qualquer caso, é certo que a fixaçãodo sábado como dia santo é de instituição divina.

Indagando-se das razões desta disposição, qualquer conjectura é difícil, para não dizer temerária, pelo simples motivo de não encontrarmos outra razão formal, a não ser aquela que nos dá o próprio Autor inspirado: "Então Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele repousou de toda obra que havia criado" (Gn II, 3).

Moisés rematou as obras da criação distribuídas em seis dias, com um dia de descanso. A razão teológica do autor é excelente: como mesmo Deus repousou no sétimo dia, assim deverá fazer também o homem. À luz deste fato alicerçaram-se as determinações da lei: "Lembra-te de santificar o dia de sábado" (Êx XX, 8); "Não deixeis de guardar o meu sábado, porque é o sinal entre mim e vós pelas vossas gerações, para que saibais que eu sou o Senhor que vos santifico... Guardai o meu sábado, porque é santo para vós... Os filhos de Israel guardem o sábado e celebrem-no pelas vossas gerações. Este é um pacto sempiterno entre mim e os filhos de Israel, e um sinal perpétuo" (Êx XXXI, 13. 14. 16.17); "O dia sétimo será para vós santo, (porque é) o sábado do Senhor" (Êx XXXV, 2).

Além do sábado, outras festas havia para o povo de Israel, em que mais ou menos vigoravam as mesmas prescrições sabáticas. Algumas destas solenidades eram tradicionais e de instituição mosaica: Neomênias [5], Ano Sabático [6], Jubileu [7], Páscoa [8], Festa das Primícias (Pentecostes) [9], Festa dos Tabernáculos (Scenopégia) [10]. Outras de origem mais recente e posterior ao cativeiro: Purim [11], Eucênia [12], Festa da lenha[13].

O preceito de guardar os dias santos incluía, além da obrigação de os santificar com práticas apropriadas (orações, sacrifícios, leitura das Sagradas Escrituras) [14], a abstenção de todo trabalho manual: "O sétimo dia, porém, é o sábado do Senhor; não farás nele obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua criada, nem teu gado, nem o hóspede que está dentro de tuas portas. Porque o Senhor fez em seis dias o céu e a terra e descansou no sétimo dia. Por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou" (Êx XX, 10s).

Os judeus, honra lhes seja feita, tiveram sempre grande respeito para com o sábado e demais festas de preceito [15], obtemperando escrupulosamente às prescrições da lei, que aliás era muito severa para com os transgressores [16].

Não só, senão que fora esmiuçada e retalhada em um sem número de preceitos menores e cercada de mil e uma proibições pelos rabinos e doutores da lei, que a tornaram deste modo insuportável e de peso mesmo aos bons [17].

III. Atitude de Jesus Cristo perante as prescrições sabáticas

No célebre discurso da montanha, definido por S. Agostinho como sendo "perfectum vitae christianae modum": regra perfeita da vida cristã [18], Nosso Senhor, após ter rezado as consoladoras bem-aventuranças, sai com uma expressão que nos revela o estado d´alma dos maldosos que, por certo, não faltavam entre o povo simples que se acocorara pelas fraldas do outeiro: "Não julgueis tenha eu vindo abolir a lei ou o que ensinaram os profetas! Não vim para abolir e sim para aperfeiçoar" (Mateus V, 17).

Então Cristo não instaurou um novo pacto? É doutrina de fé que o Salvador não só remiu os homens, mais que lhes deu ainda uma verdadeira lei nova: "Qui habet mandata mea et servat ea, ille est qui diligit me" [19].

Por esta lei ficou ab-rogada a lei antiga [20]. Na verdade as leis cerimoniais, representativas do advento de Cristo, tornaram-se inúteis e perniciosas após a vinda do Messias, porque eram "sombra da realidade futura".

Do mesmo modo foram ab-rogadas as leis judiciárias, que concorriam para o governo teocrático e social do povo de Israel.

Nas leis morais positivas não houve mudanças ou ab-rogação. Foram reconfirmadas, ou melhor declaradas, as leis de direito positivo, e o Decálogorecebeu nova sanção, sendo repirstinado seu vigor na acepção que Deus lhe dera ao promulgá-lo [21].

Jesus Cristo pôs em especial evidência os mandamentos do amor de Deus e do amor ao próximo (Mt V), porque compreendiam toda a lei e os profetas.

À luz destes ensinamentos divinos compreende-se o alcance das palavras do Redentor: "non veni solvere... sed adimplere!" (Mt V, 17).

Ora bem, a perfeição da lei está no amor: "plenitudo legis, dilectio" (Rom XIII, 10). Por isso o amor, a caridade, a benignidade de Cristo são os elementos precípuos da perfeição que informa a lei do Novo Testamento.

Nesta nova ordem de fatos o Salvador enquadrou todos os seus ensinamentos, sua ação redentora. E como, quem não ama seu próximo, não pode amar sinceramente a Deus: "Se alguém disser que ama a Deus e odeia o seu irmão, este tal é mentiroso, porque quem não ama seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê" (I Jo IV, 20), Cristo quis demonstrar praticamente aos judeus que não amavam a Deus, porque entre eles reinava o ódio.

No tempo de Nosso Senhor faltava de fato o amor fraterno entre os filhos de Israel, e portanto não havia o verdadeiro amor de Deus, não podia haver culto agradável ao Senhor: "Populus hic labiis me honorat; cor autem eorum longe est a me" (Is XXIX, 13). Sim: o coração dos compatrícios de Jesus estava  afastado de Deus, porque o ódio, a inveja, o rancor, a vingança relegam os homens de Deus.

Esta falta de amor, de bondade Jesus encontrou-a especialmente na santificação do sábado: muita exteriolidade, muita formalidade! Não é, pois, de estranhar se, ao lermos o Evangelho, se nos deparam frequentes diatribes entre os hipócritas observantes do sábado e a pessoa misericordiosa de Cristo.

Não foi, por certo, sem motivo que Nosso Senhor realizou curas e milagres em dia de sábado. A lição era necessária e devia ser proveitosa.

Respiguemos aqui e acolá pelos Evangelhos.

Certo sábado, entrando na sinagoga, viu um homem cuja mão estava atrofiada. Comovido, disse ao infeliz: "Estende a mão! Estendeu-a e ela se tornou sã como a outra".  De antemão dera a razão do milagre: "É lícito praticar o bem em dia de sábado, porque mais vale o homem que uma ovelha" (Mt XII, 9-13).

Confundidos de outra feita pelas respostas eloquentes de um cego a quem Jesus restituíra a luz dos olhos, tiraram logo uma conclusão digna de sua ciência sofística: "Este homem não é Deus, porque não guarda o sábado" (Jo IX, 16).

Atravessavam, em outra ocasião, Jesus e os Apóstolos as searas douradas, onustas de espigas. Eram pobres e tinham fome. Arrancaram algumas espigas, debulharam-nas e comeram os grãos. Dera-se o fato num sábado. Os fariseus levantaram de pronto a voz, escandalizaram-se... Mas não faltou uma apologia divina, e tampouco uma declaração paradoxal: "Oxalá compreendêsseis o sentido desta palavra: Misericórdia é o que eu quero e não sacrifício... então não condenaríeis a inocentes; porque o Filho do homem é o senhor do sábado" (Mt XII, 1-8).

Ao menos seus conterrâneos ouvissem as palavras de paz e salvação. Mas não! Realizou-se à risca o que num sábado dissera na sinagoga de Nazaré: "Em verdade vos digo que nenhum profeta é estimado em sua pátria" (Lc IV, 24). E aqueles mesmos a quem Jesus queria abrir os olhos da fé [22] "correram da cidade e levaram-no ao alcantil do monte em que estava situada a sua cidade, para despenhá-lo" (Lc IV 29).

Cena triste e... acabrunhadora. Homens, em cujas faces se reflete a dor e cujos corpos estão vitimados por terríveis doenças; cegos, coxos, paralíticos (Jo V, 3), jazem ao longo dos pórticos que rodeiam a piscina de Betesda. Jesus apieda-se de um pobrezinho que sofria há 38 anos. "Levanta-te, toma te leito e anda!" (Jo V, 8). Aí estão, porém, os hipócritas a gritar escandalizados: " É sábado, não te é lícito carregar com teu leito". E como o felizardo lhes não prestasse ouvido, "perseguiram a Jesus, porque fizera aquilo em dia de sábado" (Jo V, 16).

Nem por isso Cristo deixou de executar seus planos. Bem sabia Ele da covardia dos falsos  zeladores da lei. Enfrentá-los  ou inquirir deles alguma coisa, era o mesmo que confundi-los ou reduzi-los ao silêncio. Perguntou, pois, um dia aos doutores da lei e aos fariseus: "É lícito curar em dia de sábado ou não? Eles, porém, permaneceram calados. Então tomou Jesus o homem, curou-o e mandou-o embora. Em seguida disse-lhes: "Se a alguém de vós cair no poço um filho ou um boi, não o tirará logo, mesmo em dia de sábado? Não sabiam eles que replicar a isto!" (Lc XIV, 3-6).

Às palavras dirigidas ao povo pelo chefe da sinagoga: "Seis dias há para o trabalho, neles vinde e fazei-vos curar, mas não em dia de sábado" (Lc XIII, 14), o Salvador  responde com um daqueles terríveis "Hipócritas!", demonstrando-lhe que o bem e a caridade estão cima da lei. O evangelista observa argutamente que "a estas palavras se envergonharam  todos os seus adversários" (Lc XIII, 17).

Estava salvo o aforismo: necessitas caret lege, ou em outras palavras: "Não foi feito o homem para o sábado e sim o sábado para o homem".

São estes os primeiros clamores matinais da aurora a dissipar as últimas trevas do Pacto antigo, abrindo caminho ao Sol glorioso que se levanta na manhã do primeiro dia: Surrexit Dominus.

IV. Dies Dominica

A ressurreição marca o apogeu de toda a economia divina da Redenção. Cristo libertou-se das mortalhas do sepulcro na madrugada do primeiro dia da semana: "Una autem sabbati valde diluculo..." (Lc XIV, 1). Era justo que tamanho acontecimento, único na história, fosse celebrado com solenidade e lembrado de modo especial.

O primeiro a lhe atribuir particular importância foi o mesmo Salvador. De fato, apareceu aos Apóstolos reunidos no cenáculo na tarde do mesmo dia (Jo XX, 19). Oito dias após, renovou a cena para confirmar na fé ao incrédulo Tomé (Jo XX, 26) [23].

Após a descida do Paráclito prometido, os Apóstolos, pedras angulares da Igreja nascente, foram paulatinamente deixando as prescrições da lei antiga [24], a que se ativeram de início por necessidade de circunstâncias, e integraram os fiéis vindos da gentilidade e os judeus convertidos na nova ordem religiosa-social que Cristo instituíra como continuação de sua obra redentora [25].

Não consta com certeza que Cristo tenha diretamente instituído algum dia santo, máxime o domingo, em substituição ao sábado dos judeus [26].

Provavelmente foram os Apóstolos que, em honra da Ressurreição do Mestre, substituíram o sábado pelo domingo. Este poder, na  verdade, é próprio e nativo da Igreja, que pode estabelecer ou tirar os dias santos, de acordo com as necessidades e conveniências [27].

O certo é que desde os primórdios do cristianismo, o domingo foi tido como dia santo, o dia do sacrifício eucarístico: "Una autem sabbati, cum convenissemus ad frangendum panen" (At XX, 7); o dia social do povo cristão: "Per unam sabbati unusquisque vestrum apud se seponat, recondens quod ei bene placuerit, ut non, cum venero, tunc collectae fiant" (I Cor XVI, 2).

Nem sempre a nomenclatura com que foi deseignado é idêntica. Contudo, as várias designações se correspondem. Geralmente até o fim do primeiro século prevaleceu a nomenclatura judaica: "prima sabbati, una sabbati [28], una sabbatorum[29]".

S. João é quem usou, provavelmente por primeiro, a expressão: "Dies Dominica" (Apoc I, 10): "Fui in spiritu in Dominica die" [30].

Em ordem de tempo, encontramos a mesma designação na Doutrina dos 12 Apóstolos (Didaché), onde se lê: "Reunidos no dia do Senhor, parti o Pão e dai graças após terdes confessados os vossos pecados, a fim de que o vosso sacrifício seja puro" [31].

Na célebre carta que o procônsul da Bitínia Plínio o Jovem enviou ao imperador Trajano em 112 da era cristã, entre outras coisas, lê-se que os cristãos se reuniam para assistir ao santo sacrifício em dia determinado [32].

S. Justino, na sua Primeira Apologia (escrita perto do ano 135), precisa-o, usando a terminologia dos pagãos - pois a eles escrevia - e o chama de Dies Solis. Para os romanos  o primeiro dia da semana era precisamente o Dia do Sol, e correspondia à expressão dos judeus Prima Sabbati [33].

Anos após, o mesmo Santo na Segunda Apologia, escrevia que os cristãos se reuniam para o sacrifício no domingo: "Die Dominica".

A mesma designação é usada por S. Ambrósio [34].

O ilustre arqueólogo João B. de Rossi encontrou nas catacumbas de Roma uma inscrição do ano 403, em que aparece a mesma nomenclatura [35].

Além desta expressão os Escritores Eclesiásticos e os Santos Padres empregaram outras muito significativas: Dies sanctus, Dies pacis, Dies remissionis, Dies lucis, Regina omnium dierum, Feria prima, etc [36].

Em força destes testemunhos, pode-se dizer que o domingo foi a célula primitiva de todo o ano eclesiástico. A sua liturgia tinha por fim direto honrar a Santíssima Trindade. Cada domingo era realmente uma Festa do Senhor, no sentido estritamente litúrgico.

Eis por que motivo a Igreja relutou sempre em abrir o domingo ao cultos dos Santos. Só numa época de decadência (do séc. XIII ao séc. XIX) é que ela pode tolerar a praxe contrária. A restauração da liturgia, levada a efeito pelo Beato Pio X, devia necessariamente fazer repristinar o antigo Ofício do Domingo, dando-lhe um caráter primitivo de Festa do Senhor.

Hoje o preceito de santificar o domingo (e as outras festas de guarda), traz uma dupla obrigação: a de ouvir Missa inteira e outra de abstenção dos trabalhos e obras servis. Na disciplina eclesiástica, estas obrigações foram sujeitas a ampliações e maiores restrições, segundo os tempos e as circunstâncias..

Na época das perseguições a Igreja foi muito benigna em dispensar os fiéis da abstenção dos trabalhos. E mesmo mais tarde, neste ponto houve muita compreensão e tolerância.

Os documentos que possuímos, levam-nos a estabelecer como data desta prescrição o século IV [37]. Constantino, após o célebre edito de Milão (313), ordenara que nos domingos o exército, os tribunais e os operários se abstivessem do trabalho, embora permitisse o trabalho nos campos [38]. Esse decreto foi sucessivamente reconfirmado pelos outros imperadores cristãos [39], sendo estendido também aos outros dias santos, em que se vedava assistir aos espetáculos teatrais e às exibições do circo.

Com a liberdade, a Igreja pode levar seu culto aos esplendores dos atos litúrgicos, cujo centro era constituído pela Missa. Tornava-se necessário, outrossim, cultuar a memória dos Mártires, que com seu sangue selaram a fé na doutrina de Cristo. Para tanto, era mister exigir desde cedo a abstenção das obras servis. Aparecem, deste modo, as primeiras prescrições eclesiásticas nas "Constitutiones Apostolicae" (séc. V ou VI) [40]

Por este tempo, os dias santos aumentaram consideravelmente [41]. Num decreto do Bispo Sonásio (614-631) [42] as festas são consideradas como dias de descanso. O Estado apoiava a Igreja com suas leis, de modo que a observância do preceito se tornava fácil para todo o cristão.

No "Corpus Iuris" encontramos dois catálogos de festas, um do século XII e outro do século XIII [43]. Urbano VIII em 1642 organizou outro, instituindo além das festas existentes, mais 36 festas afora os domingos. A estas o Papa Clemente XI acrescentou a festa da Imaculada Conceição. O Beato Pio X, pelo Motu Proprio Supremi Disciplinae, de 2 de julho de 1911, reduziu as festas de preceito aos 52 domingos e mais 10 festas.

A nova legislação catalogou os domingos e mais 10 festas de preceito. Dentro destas prescrições há exceções contempladas no Código [44].

Quanto à parte positiva do preceito - ouvir a Missa inteira - não possuímos documentos anteriores ao século VI [45]. Logicamente, porém, deve ter sido exarada antes a lei que obrigava à assistência à Missa, que a que proibia as obras servis [46]. É que nem sempre as leis nos chegam em sua ordem cronológica.

V. Et Deriserunt Sabbata eius

Atualmente para muitos católicos, despreocupados de sua alma e esquecidos de suas obrigações morais, cujo coração mais se inclina para a terra, que não se ergue aos céus, o domingo tornou-se um dia de excursão, um dia de negócios, uma isca para o pecado. Já se não importam com a Missa, com os sacramentos, com a oração. Trabalhar, trabalhar muito, fazer bons negócios!... gozar!

É o naturalismo pagão que revive sob outros aspectos, que vai amortecendo a consciência, desarraigando da alma do povo os sentimentos de respeito e veneração que dantes havia para com o Dia do Senhor.

É uma crise de fé que ameaça tornar-se crônica na vertiginosa fuga das almas rumo à felicidade ilusória, ao bem-estar material inatingível.

Os fatos, tristemente, relembram o ignominioso programa dos epicureus: "Carpre diem, coronemus nos rosis!" [47], já anatematizado pelo Apóstolo, quando escrevia: "Qui utuntur hoc mundo, tamquam non utantur" (I Cor VII, 31).

Para muitos negociantes, industriais, profissionais, os poucos dias que a Igreja reservou e consagrou ao culto de Deus durante o ano são causa de ruína, de perdas, de inconvenientes sociais. O comércio fica prejudicado, a indústria sofre na produção com a diminuição do trabalho.

Idéias errôneas e perniciosas que já abriram caminho na mente de muitos patrões e operários, com que pese a condenação da Igreja [48].

Para as gerações moças o domingo tornou-se dia de desporte: ginástica, cinema, praia, regatas, o futebol fanatizado, passeio, companhias pouco recomendáveis. Tudo, menos o cumprimento do dever religioso... Isso dói profundamente! Não que a Igreja proíba o divertimento honesto e moderado, pois S. Paulo diz claro que "quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a maior glória de Deus" (I Cor X, 31); mas ela quer que não ponhamos acima dos interesses espirituais as satisfações do corpo [49].

É comum ouvirem-se queixas por causa das muitas festas. O pior é que as razões aduzidas, além de levianas, são inconsistentes e descabidas. Que seria se a Igreja fosse exigente em matéria de festas como na Idade Média, em que os cristãos observavam o preceito 143 vezes por ano? Ao nosso século falta um pouco de espírito religioso, faltam convicções da própria dignidade, falta aquele sentido social e religioso que a vida do Corpo Místico exige necessariamente de seus membros.

O indiferentismo na observância do preceito festivo leva os homens ao desprezo, ao pouco caso para com as coisas divinas. Os mandamentos existem só para quem os quer observar e para os carolas, as beatas, as almas sentimentais. Põem-se em ridículo as práticas, os avisos dos padres, as prescrições dos bispos. Não freqüentando a Igreja, ao menos nos dias santos, a ignorância religiosa se alastra assustadoramente. Com a ignorância vem pois o desprezo: "Et deriserunt sabbata eius" (Lam I, 7). E a nós, ministros das misericórdias de Cristo, restam-nos  as queixas amargas dos divinos escritores contra os profanadores das festas: "Convertam festivitates vestras in luctum" (Am VIII, 10)  [50]. "Oblivioni tradidit Dominus in Sion festivitatem et sabbatum" (Lam II, 6).

E o mau exemplo, que geralmente vem do alto, arrasta também as crianças, os jovens, as moças. Mas o mal é maior para esta classe de pessoas, que, por causa da idade e da falta de ocupação, perde o tempo precioso dos domingos e dias de guarda em futilidades, em divertimentos muitas vezes ilícitos e pecaminosos, longe do olhar vigilante dos pais, que se não importam com a formação ou deformação de seus filhos.

A observação dolorosa é feita pelo Papa, que na alocução às senhoras da Ação Católica italiana por ocasião do trigésimo aniversário da fundação, lhes disse: "Hoje a observância do preceito festivo não é mais uma garantia segura da conduta moral da jovem. Esta cisão entre a religião e a moral é assaz significativa, pois estes dois elementos, se genuínos, formam uma unidade indivisível. Falhas morais houve, evidentemente, sempre. Mas quando a vida religiosa era sã e sólida, elas martelavam sempre a consciência pessoal e pública" [51].

A verificação do estado doloroso em que se acha presentemente a humanidade, que, esquecida de Deus, cometeu os crimes mais horrendos, perpetrou atos desumanos, favoreceu e aumentou o ódio e a discórdia entre irmãos, não seja tão só motivo de queixas estéreis. Sirva-nos de estímulo a trabalhar com afinco e zelo acendrado para reconduzir as almas a Cristo, para levar, com nossas palavras de redenção e vida, um pouco de calor e luz lá onde ainda reina frieza, desconfiança, treva de morte. Seja nossa ação sacerdotal digna imitação da vida do Divino Mestre que passou fazendo o bem a todos, consolando, doutrinando, aconselhando e chamando a si os corações aflitos e fatigados.

VI. Campanha pró-santificação do domingo

O lugar próprio para instruirmos o povo é a igreja. Nela está a cátedra da verdade, de onde o padre prega a palavra de Deus, consola e instrui. Se o povo não freqüentar a igreja, baldos são os esforços para doutriná-lo: "Quomodo ergo invocabunt, in quem non crediderunt? Aut quomodo credent ei quem non audierunt? Quomodo autem audient sine praedicante?... Fides ex audito, auditus autem per verbum Christi" (Rom X, 14, 17).

Para alcançar este objetivo torna-se necessário que os pastores d´almas, os pregadores, todos os padres, enfim, preguem cem cessar "opportune et importune" (II Tm IV, 2) sobre o dever que os cristãos têm de observar o preceito festivo e o modo conveniente de fazê-lo [52].

a) Dever de observar o preceito festivo. - O terceiro mandamento do Decálogo e o primeiro preceito da Igreja obrigam gravemente a todos os fiéis [53], desde que tenham chegado ao uso da razão [54], a ouvir a Missa nos domingos e festas de guarda, e absterem-se das obras servis [55].

É necessário que estas duas partes (negativa e positiva) do preceito sejam convenientemente elucidadas e explicadas aos fiéis algumas vezes, durante o ano litúrgico, com prática ad hoc. Ótimo ensejo para isso pode ser o período quaresmal ou o Advento. O assunto não é tão fácil como poderia parecer. Aconselha-se consultar antes algum bom compêndio de Teologia Moral. A tratação desta matéria, se não for bem feita e clara, mas se perder em inúmeros casos, só gera confusão e complica a questão.

Após a exposição da doutrina, é oportuno mostrar que a desobediência às leis de Deus acarreta castigos nesta vida e na outra. O Santo Cura d´Ars dizia seriamente àqueles que violavam os dias santos: "Conheço um meio infalível para alguém cair na miséria: trabalhar nos dias santos!".

Em 19 de setembro de 1846 Nossa Senhora aparecia aos meninos Maximino Giraud e Melânia Matias Calvat, na aldeia francesa de Salette, e com voz de choro dizia-lhes: "Se meu povo não quiser submeter-se às leis de Deus, ver-me-ei forçada a deixar cair o braço de meu Filho; é tão forte e pesado que o já não posso sustentar. Há muito que sofro por vós, e para que meu Filho não vos abandone, sou obrigada a Lhe dirigir incessantes súplicas. Vós, porém, não fazeis caso disto! Por mais que rezeis e façais, jamais conseguireis recompensar minha solicitude por vós. Dei-vos seis dias para o trabalho. Reservei o sétimo para mim, e nem este quereis consagrar-me... Os carroceiros blasfemam o nome de meu Filho... Eis as duas coisas que tornam tão pesado o seu braço!".

Não estará, porventura, a humanidade de hoje experimentando o braço pesado da justiça divina?

Nunca será demasiado precaver os católicos das doutrinas dos pseudo-profetas e dos protestantes que, interpretando falsamente as palavras de Jesus: "Spiritus est Deus; et eos qui adorant Eum, in Spiritu et Veritate oportet adorare" (Jo VI, 24), ou ensinando que se deve respeitar o sábado (adventistas), provocam a confusão e suscitam a dúvida na mente dos simples e fomentam a má vontade dos relaxados. Tolices já condenadas, antes ainda que Lutero se rebelasse contra a Igreja [56]. Deve-se, de fato, adorar a Deus com espírito de fé, com amor, verdadeiramente, seguindo o que a Igreja, mestra infalível, nos prescreve. O culto externo é tão necessário à sociedade religiosa, como é necessária água aos peixes, e S. Agostinho diz com razão que "nullam religionem, neque veram nequem falsam sine caerimoniis constare posse" [57].

Insistamos sobre a beleza do culto externo, na sua função social na Igreja de Cristo para todos os membros. Não é só porque é mandado que se presta culto público a Deus. Tod cristão, pertencendo à Igreja fundada pelo Divino Mestre, torna-se ipso facto membro do Corpo Místico. Neste maravilhoso organismo, em foça do dogma da Comunhão dos Santos, podemos participar do bem que os membros fazem. E o bem que o sacerdote faz quando reza a Santa Missa e que os fiéis fazem quando unidos a ele, é de um valor incalculável.

O preceito festivo, à luz deste prisma divino, tem o caráter de uma instituição religiosa-social, e sua observância nos dá como que a fisionomia espiritual de um povo.

Que compreendam os cristãos que a assistência à Missa festiva é um ato de culto não só particular, homenagem de um indivíduo ao Criador, mas é principalmente um ato público que os indivíduos particulares realizam como parte de um todo orgânico, a sociedade dos Filhos de Deus. Por meio deste organismo vivo é-nos possível a união com Deus por Jesus Cristo, Centro e Cabeça: "ut sancta societate inhaereamus Deo" [58].

b) Modo conveniente de fazê-lo. - O Pontífice gloriosamente reinante, com maravilhosa clareza e iluminada sabedoria, apontou aos fiéis católicos o método para assistir com fruto à Santa Missa, na Encíclica "Mediator Dei".

Que este documento seja levado ao conhecimentos dos fiéis. E particularmente dos membros da Ação Católica, que se sentirão honrados em poder auxiliar aos párocos neste apostolado, abordando o problema em suas reuniões semanais (círculos), solucionando as dificuldades, excogitando os meios que o zelo e a indústria sempre encontram para alcançar o fim colimado. Será fácil, por meio deles, a penetração nas estações emissoras, nas redações de periódicos e jornais situadas no perímetro da paróquia. Uma campanha em vasta escala e pelos meios mais rápidos só poderá dar resultados consoladores, quando o povo for bem instruído sobre a importância, o sentido e os efeitos do Sacrifício da Missa.

Qualquer delonga neste ponto é prejudicial. Felizmente possuímos farta documentação a esse respeito, de fácil alcance para todo padre, onde se encontram ótimas normas.

Haja vista as seguintes:

1)"... optaret quidem sacrosancta (Tridentina) Synodus ut in singulis Missis fideles adstantes, non solum spirituali affectu, sed sacramentali etiam Eucharistiae perceptione communicarent, quod ad eos sanctissimi huius Sacrificii fructus uberior provenirent" (Sess. XXII, c. 6), conforme as palavras de Jesus Cristo: "Ego sum panis vivus qui de caelo descendi. Qui manducat ex hoc pane vivet in aeternum" (Jo VI, 51).

2) A "Instrução" da S. C. dos Ritos, de 14/07/1941, lembra que o Papa exorta os padres a fim de que admoestem os fiéis "de caelestis convivii saluberrima participatione, quoties Sacro intersunt, ut quo arctius Christo adhereant" (n°4).

A recepção da Sagrada Eucaristia é, portanto, o melhor modo de tirar proveito da Missa, pois é parte integrante da mesma. Neste sentido o Catecismo do Beato Pio X diz que "a Comunhão é a união real com a Vítima divina imolada, e é por isso a melhor participação ao Santo Sacrifício" (p. 354).

Para quem sabe ler e tem alguma cultura, a prática de seguir a Missa com o missalzinho, ou com folhetos explicativos trará à sua alma conforto, alento e encontrará nas frases e orações da liturgia o alimento da inteligência, o consolo para as aflições da vida, a força para seguir com denodo e constância as obrigações que a religião lhe impõe.

Insistamos no sentido de despertar a confiança do povo católico na bondade de Deus, que, em troca de nossa humilde vassalagem, esparge sobre nós seus ricos tesouros de graças e favores. Que o povo cristão compreenda que agrada a Deus o sacrifício feito com alegria: "Hilarem datorem diligit Deus" (II Cor IX, 7). O domingo é o dia da alegria por excelência, da confiança em Deus. Antigamente neste dia não era permitido ato algum de penitência, e na mesma liturgia havia prescrições que visavam fomentar no povo fiel os sentimentos de santo regozijo [59].

VII. Indústrias pessoais

Se já é muito instruir os fiéis acerca de seus deveres religiosos, movimentando os elementos melhores para que sejam o bom fermento no meio da massa (este trabalho é essencialmente de orientação, e serve para conseguir um válido auxílio no apostolado por meio do laicato), outro trabalho há, menos visível talvez, sempre eficaz e profícuo porém, próprio dos padres, máxime do que têm cura d´almas.

Compõe-se de uma série de iniciativas que, levadas a bom termo, nada ficam devendo às indústrias excogitadas nos meios seculares para atingir um objetivo importante.

Algumas são de domínio público, e têm a seu favor uma experiência mais o menos longa.

O Concílio Plenário Brasileiro aponta-nos algumas delas [60]. Outras são fruto do zelo e da inteligência dos interessados: comunicações radiofônicas ou irradiações por um sistema de alto-falantes, instruções e avisos nos jornais e folhetos da terra, etc.

E agora que na nova Constituição [61] há referências ao descanso dominical e aos feriados religiosos, seria talvez o caso de realizar entendimentos amistosos entre as autoridades religiosas diocesanas ou locais e os poderes competentes, no intuito de estabelecer quais os feriados religiosos (além dos domingos) que a tradição religiosa do povo requer sejam observados. Neste assunto não pode faltar a voz do padre, o único competente para depor em favor de uma tradição que se formou ao pé do altar. A documentação dos arquivos paroquiais ou de outras entidades religiosas poderá oportunamente prestar relevantes serviços.

Torna-se, por isso, necessário um contacto pessoal com os chefes, empresários e donos de fábricas, de forma que as deliberações das Câmaras Municipais possam ser observadas concordemente. Reconhecemos que o assunto abordado é delicado e difícil, e que os trabalhos do ministério e coisas outras ocupam de sobejo o tempo do padre.

Não resta dúvida! Mas a verdade é sempre a mesma: os sacrifícios, as humilhações, quiçá o desprezo, são os fatores divinamente fecundantes do nosso apostolado. De mais a mais, nos patrões e indústrias há sempre um fundo de boa vontade, e as incompreensões são muitas vezes fruto da ignorância religiosa e da falta de contacto com uma pessoa que lhes fale a linguagem da verdade, da fé e do amor.

Outra iniciativa: os Catecismos Dominicais. Neles os catequistas poderão facilitar a tarefa do padre, aliviando-o de uma preocupação do múnus sacerdotal. A doutrina cristã, quando bem explicada e ilustrada com os recursos da técnica e do progresso modernos, torna-se atraente e desperta o interesse dos meninos, calando fundo em suas almas como norma segura e orientadora da vida. Para as crianças mais vale a exemplificação que a simples exposição de uma verdade. Evite-se, porém, cair no excesso, fazendo da aula de catecismo uma aula de casuística. Que compreendam que o pecado está na vontade e não nas causas físicas...

Neste setor de atividades devem entrar também os colégios católicos. É necessário que os jovens educandos formem firmes convicções de sua dignidade de cristãos, das obrigações que lhe são inerentes, de modo que lhes seja fácil a prática da religião, no ambiente extracolegial. O fato de no colégio terem assistido com certa freqüência, e mesmo cotidianamente, à Santa Missa, não seja pretexto para mais tarde se eximirem da observância do preceito festivo. Insista-se convenientemente na obrigação de satisfazer o preceito. Não se cansem os catequistas e os padres de repetir amiúde esse estribilho, porque: "gutta cavat lapidem, non vi, se saepe cadendo"!

E como este dever caberia por natureza aos pais, que infelizmente o não cumprem, supramos nós, lembrados das palavras do Papa Pio XII: "Conservai diante dos olhos da criança, desde os primeiros anos, os mandamentos de Deus e habituai-a a cumpri-los. A juventude de hoje, qual a de antanho, está pronta e disposta a agir e a servir a Deus; mas deve ser educada para isto" [62].

Conclusão

Quem assiste à Santa Missa, sente estar perto da Vítima Divina, que se oferece a Deus Pai pelos nossos pecados. Quem assiste à Santa Missa leva sempre consigo um bom propósito, torna-se melhor.

O centro, portanto, do domingo cristão seja a Santa Missa bem assistida, uma participação vivida aos mistérios do altar, constante e pessoal.

Sem isso será estéril para muitos, porque como observou Beauduin [64]: "O mesmo mandamento que reúne, cada domingo, os fiéis em volta do altar para a liturgia eucarística, agrupa-os, pelo menos de fato, ao pé do púlpito; e a deserção da Missa paroquial gera infalivelmente a ignorância religiosa. A ação pastoral exercida pela pregação sagrada está em razão direta da assiduidade dos fiéis em tomar parte nos ofícios litúrgicos".

Além disso, tem-se observado que a freqüência à Missa aumenta outrossim a freqüência aos Santos Sacramentos.

Ao grito de guerra, cerrem fileiras os escritores católicos, os pregadores e quantos têm interesse pela glória de Deus. Terçamos armas em prol desta idéia! Teremos sempre por onde ganhar. Santificando os domingos, santificamos também os outros dias da semana.

[1] Ecle III, 1

[2] "De dictamine legis naturae est, quod homo aliqua faciat ad reverentiam divinam; sed quod haec determinata faciat vel illa, istud non est de dictamine rationis naturalis, sed de institutione iuris divini vel humani" (S. Th. 1. 2., q. 81, a 2, ad 3).

[3] Cf .Cornelius a Lápide, Comment in Genesim, c. II, v. 3; Corneiv, Cursus Scripturae Sacrae. - Introduct. specialis in singulos litros V. Test. Introd. in Gen. 2, 3.

[4] Cf. A. Charbel, Cursus S. Script. (S. Paulo, 1948), Introd. in Pentat., I, 23; M. Valentini, A Criação do Mundo (S. Paulo, 1948), p. 48-51.

[5] Nm X, 10; I Rs XX, 5; Is I, 13ss.; LXVI, 23; Ez I, 3; Os II, 13.

[6] Lv. XXV, 6; Dt XV, 9; Êx XXIII, 10ss.; Dt XV, 1-11; Lv XXV, 2-7.

[7] Lv XXV, 13ss.

[8] Êx XII, 13; XXIII, 14; XXXIV, 27. Nm IX, 2ss.; Dt XVI, 1, etc.

[9] Êx XXXIV, 22; Lv XXIII, 15; Dt XVI, 9; Nm XXVIII, 26; II ParVIII, 13.

[10] Lv XXIII, 34; Dt XVI, 13.16; XXXI, 10; II Par VIII, 13; Esd III, 4; Zc XIV, 16.18ss.; etc

[11] Est III, 7; IX, 24; IX, 28.31; II Mac XV, 36.

[12] I Mac I, 18.

[13] Neh XIII, 31; Jud XVI, 31; I Mac VII, 48ss.; XIII, 50ss.; II Mac I, 18; XV, 37.

[14] Lc IV, 16; At XIII, 14ss.; XIII, 27; XV, 21.

[15] Cf. Mt XXVI, 5; XXVII, 15.17; Mc XIV, 12.14; Lc XXII, 7; I Cor V, 7; Hb XI, 28, etc.

[16] Cf. Êx XXXI, 14ss.; XXXV, 2; Nm XV, 32ss., etc.

[17] Cf. Jo V, 10; IX, 16; Mc II, 24; III, 2; VI, 2; Lc IV, 16, 31; VI, 1; etc.

[18] De Sermone Domini in Monte, lib. 1, c. 1 (PL 34, col. 1229).

[19] Jo XIV, 21. - Em defesa desta verdade o Concílio de Trento decretou: "Si quis dixerit nihil praeceptum esse in Evangelio, praeterfidem, cetera esse indifferentis, neque praecepta, neque prohibita, sed libera; aut decem praecepta nihil pertinere ad Christianos: Anathema sit" (Sess. 6, cân. 19).

[20] Cf. Rom VI, 14; Cl II, 16; Gál XIII, 19; Hb VIII, 13; VII, 12; 10, 9.

[21] Cf. S. Th. 1. 2ae. q. 103.

[22] Lc I, 79.

[23] Cf. Mc XVI, 14; Lc XXIV, 36.

[24] Cf. At II, 38.46; III, 1ss.; III, 17; IV, 8-20; V, 27-33; X, 3-33; X, 44-48; XI, 19-30; XV, 1.7-11; XXI, 25, etc.

[25] Cf. At XIII, 18; XV, 10-29; Rom VI, 14; VII, 4; VIII, 3; Gál. III, 13; IV, 5; Ef II, 13; Cl II, 14; I Ped I, 11-18, etc.

[26] Alguns autores ensinaram que a obrigação de santificar um dia por semana ao culto divino, e especificamente o domingo, é de instituição divina. Entre eles, cf.: Sporer-Bierbaum, Tract. III, n. 484. Outros admitem que é de instituição divina a santificação de um dia por semana, cf.: Schmid, Linz. Quartalshr., 1900, p.12; Zeitsch. fuer Kath. Theol., 1901, p. 431; Tanquerey, Synopsis Theologiae Dogmaticae, II, n. 1011; Prümmer, II, n. 465.

[27] Cf.: Cc. 1244, §§ 1 e 2; 1247, § 2; Aertnys-Damen, Theologiae Moralis, I, nn. 503ss; Coronata, Institutiones Iuris Canonici, II, nn. 819ss.

[28] Cf. Mt XXVIII, 1; Mc XVI, 2; Jo XX, 1.

[29] Cf. Jo XX, 19.

[30] Expressão que se não deve  confundir com estoutra: Dies Domini, que se refere às vinda final de Nosso Senhor (Parusia). Cf. Filip I, 6; I Tess V, 2; II Tim IV, 8; II Ped III, 10; Apoc III, 3; XVI, 15, etc.

[31] "Dies Dominica convenientes, frangite panem et eucharistizate, postquam delicta vestra confessi estis, ut sit mundum sacrificium vestrum" (Didaché, c. 14, 1. Apud Funk, Patres Apostolici, Tübingen, Laup, 1901, vol. I).

[32] "... quod essent soliti stato die, ante lucem convenire carmenque Christo quasi Deo dicere secum invicem" (Kirch, Enchir. Histor., n. 32).

[33] Apologia I, CC. LXV, LXVII (PG 6).

[34] Sermo LXI.

[35] Cf. Inscriptiones christianae Urbis Romae Septimo Saeculo Antiquiores, Roma 1857-18887, vol. 1, p. 225, onde o autor ilustra fartamente essa inscrição.

[36] Cf. Martigny, Dictionnaire des Antiquités chrétiennes, Dimanche.

[37] Cf. Coronata, op. cit.., II, p. 135 s.

[38] Cf. Eusébio, Vita Constantini, 4. 19. 20; Cod. Theod., II. 8. 1.; Cod. Iust., 3. 12. 3.

[39] Cf. Cod. Theod., II. 8. 2; VII. 8. 1 e 3; XV. 5. 2.

[40] Cf. Const. Apost., lib. 8, 33 (PG 1, col. 445); Concil. Laodic., cân. 29.

[41] Cf. Constit. Apost., lib. 5, 13-20; lib. 8, 33; Gregorii Turonensis, Hist. Eccles. Francorum, 10. 5 (PL 71, col. 566).

[42] Cf. PL 80, col. 446 (lib. I, 8).

[43] Cf. Coronata, op. cit., II, p. 135; C. 1, D. 3, De consecr.; c. 5, X, 2, 9.

[44] Codex Iuris Canonoci, Lib. 3, Pars II, tit. XIII, cc. 1247-49.

[45] Cf. Coronata, op. cit., II, p. 136 e a nota n. 1.

[46] Cf. Didaché, c. 14, 1; At XX, 7; etc.

[47] Horácio, Odes, I, 2, 8.

[48] "... Atque eiam impie pronuntiant auferendam esse civibus et Ecclesiae facultatem, 'que eleemosynas christianae caritatis causa palam erogare valeant', ac de medio tollendam legem, 'qua certis aliquibus diebus opera servilia propter Dei cultum prohibentur', fallacissime praetexentes commemoratam facultatem et legem optimae publicae eoconomiae principiis obsistere" (Pio IX, Encicl. Quanta cura, de 8-XII-1864). Cf. Denz. 1693.

[49] Cf. Coronata, op. cit., II, p. 142.

[50] Cf. Tob. II, 6; I Mac I, 41.

[51] Cf. REB (1949) vol. 9, fasc. 3, p. 771. Osserv. Rom. 25/26-7-1949.

[52] Cf. Concilium Plenarium Brasiliense, n. 352, § 1.

[53] Este é o senso comum da Igreja que condenou a proposição seguinte: "Praeceptum servandi festa non obligat sub mortali, seposito scandalo, si absit contemptus" (Prop. LII cond. por Inocêncio XI com  decr. do S. Off. em 4-3-1679; cf. DB 1202; Instruct. S. C. Conc. de 17-7-1941- AAS, 1941, p. 389).

[54] Cf. C. 88, § 3.

[55] Cf. C. 1248; Concilium Plenarium Brasiliense, n. 352, § 2.

[56] "... omnes ergo post illud tempus... et sabbati reliquorumque legalium observatores alienos a Christi fide denuntiat et salutis aeternae minime posse esse participes" (Eug. IV, Bulla Cantate Domino, 4-2-1441; DB 712).

[57] Contra Faustum, I, 19.

[58] S. Agostinho, De Civitate, lib. 10, c. 6.

[59] "Die Dominica nefas est de geniculis adorare" (Tertuliano, De Corona Militum; c. 3). Cf. Concil. Nicaen. Can. 2°. Nos primeiros séculos do cristianismo, o rezar de joelhos era sinal de penitência.

[60] Concil. Plen. Brasil., nn. 354; 357, § 1-3; 360, § 1-4. Apêndice LV: Liga Paroquial do Descanso Dominical.

[61] Constituição dos Estados Unidos do Brasil (18-XII-1946), Art. 157, VI: "repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos e, no limite das exigências técnicas das empresas, nos feriados civis e religiosos, de acordo com a tradição local".

[62] Cf. Osserv. Roman., 25/26-7-1949. Cf. REB (1949), vol. 9, fasc. 3, p. 771.

[63] Citado por Vaquero em REB (1949), vol. 9, fasc. 2, p. 361.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Consulta sobre o integralismo

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Leituras interessantes

Alguns debates recentes que devem ser lidos tanto da rede Apologética Católica quanto da comunidade no Orkut:





Postagens de blog na Apologética Católica em destaque:



Prova escolástica da espiritualidade e imortalidade da alma

Explicação dada pelo confrade Rui na Apologética Católica do Orkut:

Conhecer alguma coisa é receber tal coisa em nós, e isso tanto para o conhecimento sensível, quanto para o intelectual. Por exemplo, uma mão que se expõe ao fogo recebe algo da natureza do fogo. Diz-se que, no ato do conhecimento, ocorre a síntese entre sujeito e objeto, a interpenetração formal de dois seres, mediante a qual o sujeito assimila o objeto, mas sabendo que ele é distinto de si. Ocorre que, pelo conhecimento sensível, assimilamos certas qualidades dos materiais, mas não a sua forma, isto é, a "quididade".

Esta "quididade", que constitui o objeto próprio da inteligência humana, designa a natureza abstrata da coisa, isto é, a natureza considerada independentemente de tudo o que a singulariza ou a individua. É próprio da inteligência humana, com efeito, "conhecer a forma existente, em verdade, na matéria corporal, mas não enquanto está em tal matéria. Ora, conhecer o que está na matéria individual, mas não enquanto está em tal matéria, é abstrair a forma da matéria individual que as imagens representam".

Liberta do que a torna singular, a "quididade" deve ser considerada como universal. Assim, contrariamente aos sentidos que não atingem além das realidades singulares, pode a inteligência ser definida como a faculdade do universal.

Por sua vez, o homem, sem deixar de ser o que é, recebe a forma do objeto que conhece em sua universalidade. A faculdade que se identifica com ela tem, por um e outro motivo, de ser imaterial. Assim se prova a espiritualidade da alma. E, uma vez provada que a alma não é material, prova-se a sua imortalidade, dado que o que é espiritual, não está sujeito à geração e à corrupção, como os seres materiais, e sim apenas à criação e à aniquilação. Deus não aniquila o que criou. A sua justiça dá a cada ser o que é exigido pela natureza do mesmo. Portanto, a alma é imortal.