domingo, 11 de março de 2012

Houaiss e sua obra

Um artigo excelente (Jornal do Commercio, Recife, 09/03/2012 - com pequenas modificações estruturais) da Professora Nelly Carvalho (do curso de letras da UFPE) sobre a recente polêmica envolvendo uma ação movida por desocupados do Ministério Público Federal contra o dicionário Houaiss:

A preocupação com o politicamente correto deveria ser com o agir, e não com o falar, pois este cuidado com o preconceito serve apenas como camuflagem. Basta substituir um nome real pelo eufemismo correspondente, e continuar a agir como sempre, sem respeito pelo outro. A observação vem a propósito da ação grotesca do Ministério Público Federal (MPF) de apreender o dicionário Houaiss pela forma como define a palavra cigano: aquele que trapaceia, velhaco, burlador. Dicionários não inventam sentidos nem palavras, mas recolhem os usos sociais do termo, nas suas várias acepções. Estudiosa de dicionários, muito me admira esse rompante do MPF, pois desde que foi lançado o Aurélio, no verbete professora, após registrá-lo na acepção A, como feminino de professor, registra na acepção B: prostituta que inicia garotos nos mistérios do sexo.Nunca houve celeuma. Como também com baiano e paraíba. Leiam! O dicionário é obra de referência da máxima importância, porque nele estão acumuladas informações lingüísticas, culturais e históricas. A importância do dicionário Houaiss é tão grande para a língua portuguesa quanto foi o seu autor para a nossa cultura. O Brasil era o país do dicionário único, o Aurélio, que se tornou sinônimo de dicionário. Depois, surgiu o Michaelis, oferecendo  segurança de informações. O Aurélio foi renovado e atualizado. No novo milênio, tivemos a novidade gestada durante 15 anos: o Dicionário Houaiss. Quando tive o privilégio de trabalhar a seu lado, Houaiss já havia iniciado a organização do acervo da sua valiosa obra. Infelizmente não viveu para vê-la concluída, faleceu em 1999. Mas a obra que construiu e foi concluída por Mauro Villar, tornou-se realidade e viaja pelo país e pelo mundo lusófono. Com cerca de 230 mil verbetes é o dicionário mais completo da língua. Seu acervo atualizado inclui coletivos, sinônimos e antônimos, variantes e tipologia gramatical. Inova em algo importante: a data em que cada palavra iniciou sua história, com a fonte, a evolução do sentido, as motivações das mudanças e as ortografias históricas. Para Houaiss, foi a obra de sua vida, à qual dedicou seu saber e tenacidade. Também, na época, iniciou as negociações do Acordo Ortográfico concluído por Evanildo Bechara. Além de um sábio de cultura vastíssima, era gourmet, com livros escritos sobre o tema. Uma grande figura de nosso mundo linguístico /cultural, atuou na política, como diplomata e como presidente do PSB nacional. Antônio Houaiss não merecia uma atitude tão mesquinha por parte de uma entidade pública do país a que ele tanto serviu.

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