segunda-feira, 4 de junho de 2012

Carlos de Laet, paladino do Bem e da Verdade

Como sabemos, os grandes nomes de nosso país são esquecidos com facilidade, e se a pessoa em questão teve uma vida que não se enquadra nos atuais parâmetros culturais, o quadro é pior ainda. Carlos de Laet é um desses jogados no limbo. Além de monarquista, era um católico combativo, do tipo que foi levado a ação após o golpe republicano e que está na base do período áureo da Igreja em nosso país que se estende do final do século XIX até o desastre pós-conciliar. Por isso, fazendo companhia a postagens que já fiz (aqui e aqui) trago um retrato sobre ele publicado na revista Vozes de setembro-outubro de 1947 (mais artigos de Carlos de Laet podem ser encontrados aqui): 

Leon Gautier dedica seu livro “La Chevalerie” a Cervantes, o demolidor da gloriosa instituição e ao mesmo tempo ele próprio o último dos cavaleiros, ao se levantar, de armas na mão, na batalha de Lepanto, em defesa da Cristandade contra o islamismo invasor. Não tem razão o paleógrafo francês. Em meio às ruínas da Cristandade, ainda costumam surgir, raramente embora, os Rolando e os Bayard. Cessaram as correrias de Roncesvales, os heróicos combates em campo raso cederam lugar à insidiosa guerra de trincheiras, e os assédios frontais às fortalezas foram substituídos pela técnica ultramoderna do paraquedismo. Em meio, porém, a essa ruína da antiga arte guerreira, perdura ainda o espírito que norteou os cruzados, graças à continuidade por assim dizer miraculosa do ideal da Cristandade.

Carlos de Laet encarnou entre nós o espírito do perfeito cavaleiro. Vivesse ele ainda hoje e esboçaria um sorriso irônico ao ouvir semelhante elogio. Não lhe emprestamos, entretanto, o papel de um moderno Dom Quixote a investir contra rebanhos de carneiros e moinhos de vento. Nele vemos um autêntico sucessor de Bayard, fiel à Igreja, fiel à sua Pátria, fiel ao seu rei. Demonstremos, assim, de modo sumário, como o grande batalhador, cujo primeiro centenário de nascimento festejamos no dia 3 de outubro, obedeceu à risca, em toda a sua vida, aos dez mandamentos a que o citado Leon Gautier reduz o antigo Código da Cavalaria:

1) "Crerás em tudo que ensina a Igreja e observarás seus mandamentos". - Em Carlos de Laet ressalta em primeiro lugar o honroso título de católico. Dele se pode dizer o que pertence a Louis Veuillot de modo incontestável: não costumava pecar nem contra a Igreja nem contra a gramática. Infalível não era, nem estava livre de defeitos. Mas a qualidade de católico por completo informa toda a sua personalidade, todas as suas atitudes, sendo o verdadeiro centro propulsor de toda a sua vida de pensamento e de ação. Em um Brasil católico dominado em proporções assustadoras pela peste do liberalismo, soube manter intacta a sua ortodoxia e sua fiel observância da doutrina da Igreja. E este notável feito se baseava em uma coisa muito simples: como intelectual achava que seus conhecimentos religiosos não poderiam ocupar posição inferior à reservada aos conhecimentos profanos. Em segundo lugar - coisa ainda mais simples - não traía os seus conhecimentos da doutrina católica e deles aceitava todas as conseqüências práticas: era um católico que vivia a sua Fé com um zelo inflexível e inquebrantável. Dele se pode dizer, portanto, que era fiel a tudo que ensina a Igreja e era escrupuloso observante de seus mandamentos.

2) "Protegerás a Igreja"- Instituindo a Santa Igreja colocou-a Nosso Senhor acima do poder de destruição dos homens, impedindo que as próprias portas do Inferno prevaleçam contra ela. Servos inúteis, quer porém Nosso Senhor que com Ele colaboremos na obra da Redenção do gênero humano. E como de Dom Silvério disse Carlos de Laet, qual novo Davi o católico não deve duvidar "baixar ao campo de batalha e apedrejar o incircunciso que afrontar as ostes de Israel". Laet foi, assim, denodado defensor da Igreja, descendo à liça todas as vezes que a causa católica o exigia. Numa época de ferrenho anticlericalismo e de vesgo jacobinismo, foi o escudo do "Frade Estrangeiro", o batalhador da causa do catecismo nas escolas, o adversário implacável do laicismo positivista e maçônico, que era a regra nos primeiros tempos da república. Era, certamente, uma das raras vozes isoladas que se faziam eco das palavras de ordem da hierarquia eclesiástica. Relembremos ainda suas campanhas contra o divórcio, contra o espiritismo, sua intrepidez e coragem de atitude diante, por exemplo, da decisão iníqua do governo Nilo Peçanha relativamente ao desembarque dos religiosos foragidos de Portugal. Em qualquer ponto ou lugar em que a Santa Igreja fosse atacada, ali estaria Laet na brecha, de espada em punho, a desferir golpes certeiros e cerrados contra as hostes da impiedade.

3) "Respeitarás os fracos, tornando-te seu defensor". - Estava Laet várias léguas da deturpação da caridade representada pelo sentimentalismo liberal. Implacável com os inimigos da Igreja e da Verdade, seu coração se achava sempre aberto para a colher os fracos e oprimidos. Todos os códigos humanos, inclusive o da Cavalaria, são simples amontoados de redundâncias em face do primeiro mandamento da Lei de Deus. O verdadeiro amor do próximo é simples reflexo do amor de Deus. Eis o que explica o amor de Laet pelos fracos e pequeninos. Vejamos seus combates em favor da justiça social, seus quase proféticos estudos sobre a questão social brasileira, a defesa da mocidade contra a perversão do ensino, da sociedade contra os desmandos da política e da má administração pública, das classes operárias contra o socialismo subvertedor, e até da pobre gramática contra a invasão dos solecismos... A própria classe social das sogras, tão caluniada pelas "chocarrices da plebe", teve em Laet um leal e carinhoso advogado, para não nos referirmos a combates singulares em socorro de qualquer criatura injustamente agredida, de que é exemplo sua polêmica com Camilo Castelo Branco em defesa do desditoso Fagundes Varela. 

4) "Amarás o país em que nasceste". - Justamente pelo fato de amar estranhamente à sua pátria, Laet foi até o fim da vida um reacionário intransigente. Em seu elogio ao grande brasileiro, o Barão de Ramiz Galvão, ao sucedê-lo na Academia Brasileira de Letras, como que pediu desculpas aos seus pares pelo fato de Laet ter sido adepto da forma monárquica de governo. A república o teria recebido com hostilidade, daí seu "crescente azedume" em relação ao novo regime. Eis um grave erro de apreciação. Seria injuriar a inteireza de caráter de Laet o julgá-lo capaz de aduzir argumentos em favor de seu ideal monárquico e de se mostrar fiel a ele por toda a vida... apenas porque fora inicialmente mal recebido pelos republicanos históricos... Respeitemos seu ponto de vista. A própria Igreja não nos impede que sejamos a favor desta ou daquela forma de governo, uma vez ressalvada a justiça. Laet foi um modelo de patriota e se não se conformou com a república, foi porque viu que ela havia sido artificialmente implantada no Brasil, por um golpe revolucionário a que o povo assistiu "beatificado", sem nele tomar parte, nada havendo que legitimasse essa violência. E Laet previa que tal ilegitimidade de origem seria a causa da ruína do princípio da autoridade no Brasil, abrindo a porta aos posteriores golpes e revoluções , que tantos males vem causando à nossa pátria. Dir-se-á que melhor seria colaborar, numa tentativa de passar o poder político para boas mãos. Em defesa de Laet frisemos que ele foi uma voz isolada que clamava no deserto, pois a colaboração era a regra, e nem por isso vemos os seus vaticínios deixarem de ser cumpridos.

5) "Não recuarás diante do inimigo" e 6) "Farás aos infiéis uma guerra sem tréguas". - Laet sustentou suas idéias com desassombro, numa época em que era perigoso fazê-lo. Na revolta da armada, em 1893, o Marechal Floriano entendeu, no dizer do próprio publicista, que à saúde de Laet e à de outros concidadãos, "melhormente convinham as alterosas montanhas de Minas, não empestadas pelo estado de sítio". Ei-lo exilado, por não ceder diante do adversário. A 8 de março de 1897, Gentil de Castro, jornalista, seu companheiro de lutas, sucumbiu na estação de São Francisco Xavier, no Rio, trucidado por uma alcatéia de assassinos. Está fora de dúvidas que se tratava de um crime político, expiando o jornalista a feia culpa de permanecer monarquista dentro de um regime republicano e liberal que pregava a mais desenfreada liberdade de pensamento.. Também sabemos o que aconteceu com o Barão de Cerro Azul e seus companheiros. Não era, portanto, sem grandes riscos que um tribuno ou jornalista podia enfrentar o sectarismo dominante. Eis, portanto, uma prova da intrepidez de Laet, que nunca deixou de usar a funda de Davi diante dos Golias incircuncisos.

7) "Cumprirás exatamente teus deveres feudais, se não forem contrários à lei de Deus" e 8) "Não matarás e serás fiel à palavra empenhada". - Laet foi um cavaleiro fiel ao seu soberano. Esta virtude, os próprios republicanos sinceros não lhe podem negar. E o principal dever do cavaleiro em relação ao suzerano é o da fidelidade. Deposto Dom Pedro II, essa fidelidade continua. E não apenas simbólica, mas real, até ao ponto de exigir sacrifícios. Engenheiro pela antiga Escola Central, hoje Politécnica, Laet, entretanto, vivia principalmente do magistério. Pois bem: pelo decreto n. 9 de 21 de novembro de 1889, fora substituído por "Instituto Nacional de Instrução Secundária" o "Colégio Pedro II" em que ela era professor. Em sessão da Congregação, a 2 de maio do ano seguinte, Laet com desassombro dirige um apelo ao governo solicitando a restituição do antigo nome, pois D. Pedro II fora desvelado patrono daquele estabelecimento de ensino. No dia imediato, o "Diário Oficial" publicava um decreto de demissão de Carlos Laet, que somente seria plenamente reintegrado no cargo durante o governo Venceslau Brás... Vale dizer, cerca de vinte anos depois. Quanto aos outros dois deveres feudais, de justiça e de milícia, bem sabemos como Carlos de Laet os cumpriu. Foi sempre um fiel distribuidor de justiça, um rigoroso observante de Direito contra a teoria dominante dos "fatos consumados". E nunca deixou de acudir com o auxílio da temível arma que era sua pena, quando o dever o conclamava à luta.

9) "Serás magnânimo, fazendo 'largesse' a todos" e 10) "Será sempre e em todo lugar o campeão do Direito e do Bem contra a injustiça e o mal". - As mancheias Laet distribuiu a "largesse" de sua palavra inflamada, de suas beneméritas campanhas, de sua sábia orientação nos complicados problemas em que se viu envolvido o laicato católico no Brasil, sempre dócil instrumento da hierarquia, sempre cioso de dar o pão da verdade à sociedade faminta e explorada pelos Shylocks da incredulidade e do ateísmo. Que dizer também da "largesse" de sua prosa amena, de seu "humour" incomparável, da graça e leveza de suas páginas literárias?

Fiel a Deus e à sua Pátria, magnânimo com os próprios inimigos, pois lhes desejava o maior dos bens que é a reconciliação com a Igreja e a sua bem-aventurança eterna, Laet foi certamente o campeão do Direito e do Bem contra a injustiça e o mal. Carlos Magno o aceitaria entre os seus pares.

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