terça-feira, 5 de junho de 2012

"Não iremos cometar suicídio" - a FSSPX e o Vaticano

Num tópico recente na Comunidade Apologética Católica tive a oportunidade de analisar uma entrevista do superior da FSSPX e agora trago esses comentários para o blog.



Na primeira parte, logo no início, D. Felley faz uma diferenciação importante: o problema não é com a Igreja, mas com pessoas que ocupam posições de importância. Essa maneira de analisar as coisas é algo que, nos meios tradicionalistas, deriva da vitória sobre uma das piores tentações que temos, a de achar que estamos diante da Outra e não da Esposa de Cristo. Achar que a Igreja é outra coisa que não ela mesma envenena qualquer debate, torna impossível qualquer entendimento ou acordo, faz insuportável a convivência com outros batizados.

Depois ele passa a analisar o Vaticano II, colocando claramente que muitas das coisas que se atribuem a esse concílio não são realmente derivadas do texto dele (e o que vale é o texto!), mas da vontade viciada dos modernistas de plantão. Não poderia ser diferente, pois mesmo D. Lefebvre quando D. Antônio assinaram as atas conciliares, indicando, com isso, que uma exegese ortodoxa sempre foi possível; apenas, com o passar dos anos e das perseguições, ela se tornou meio que invisível para os católicos da resistência.

Quanto à questão da liberdade religiosa X tolerância religiosa, acho que a aparente oposição já foi superada por explicações como a que se pode ler aqui.

No que se refere ao ideal de vida política e ao que temos diante de nós, gostei das colocações realistas do bispo, que, sem perder o farol que deve nos guiar, não fica suspirando, parado, como fazem tantos irmãos da resistência tradicionalista diante dos leviatãs modernos surgidos com a demoníaca Revolução Francesa.

Sobre os judeus, ele foi claro e ponderado, ou seja, desagradou a muitos sectários anti-semitas que existem no seio da FSSPX.

As colocações sobre a "pressa" do Papa em reconhecer a Fraternidade foram cheia de um sincero agradecimento filial e de confiança sobrenatural no governo da Igreja. Nada mais católica e, infelizmente, nada mais contrário a uma certa mentalidade cristalizada pelos meandros da resistência.

Na segunda parte, a frase que dá o sentido das negociações foi bem colocada: "não iremos cometer suicídio". Infelizmente, apesar das boas intenções do Santo Padre, qualquer cuidado em lidar com a burocracia modernista da Santa Sé é pouco. Mesmo que a FSSPX hoje tenha um papel profético (sim, um papel profético, por mais progressista que essa colocação pareça!), que ela seja um sinal de contradição, os lobos, afastados da graça e sedentos pelo poder, jamais vão perceber o que Deus tenta lhes mostrar com esse símbolo.

A Tradição ser o critério para a interpretação do Vaticano II é uma obviedade ululante que não ter sido percebida por tantas pessoas nós últimos 48 anos perfaz algo que só se explica sobrenaturalmente. Aqui, mais uma vez, a Fraternidade, a obra do Atanásio moderno, D. Lefebvre, pode servir de indicação do que está errado na vivência atual da fé católica.

Por fim, o reconhecimento que D. Felley faz de que um acordo com Roma implicaria numa mudança de atitude derivada da saída da zona de conforto que representa só conviver com quem pensa e age igual, fecha com chave de ouro essa pequena entrevista. O perigo do sectarismo sociológico sempre rondou o meio tradicionalista, de modo que mudar de mentalidade, se tornar sociável, talvez seja a principal dificuldade para muitos irmãos de combate.

Um comentário:

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