terça-feira, 3 de julho de 2012

O final da guerra

Quando terminou mesmo a Segunda Guerra? Em 8 de maio de 1945, quando a Alemanha assinou a capitulação incondicional? Ou em 2 de setembro, quando o Japão se rendeu? Ou muito depois disso?

Esse é um impressionante simbolismo na escolha dos dois últimos papas, os primeiros "estrangeiros", isto é, não-italianos, em 450 anos.

A Segunda Grande Guerra começou justamente quando a Alemanha, autorizada pela Rússia e com ela acumpliciada, invadiu a Polônia - a pobre Polônia, cuja história é um desfilar de sofrimentos, esmagada entre as potências de dois grandes vizinhos, os quais, ora um ora outro, adentraram seu território, dividiam seus espaços e até a suprimiam do mapa. Em 1939 os dois se juntaram, no surpreendente Pacto Ribentrop-Molotov e, mais ainda, no seu anexo secreto, em função do qual invadiram-na, a Alemanha por um lado e a Rússia pelo outro.

Ora, o primeiro Papa estrangeiro depois de 4 séculos, os cardeais foram buscar na Polônia oprimida, na Polônia esmagada, na Polônia cuja dor provocara a reação dos inigualáveis ingleses e que, 50 anos depois, ainda continuava sufocada pelo outro aliado do pacto de 39, os russos comunistas, que mantinham sob seu tacão toda a Europa Oriental. A eleição de Wojtyla bem parece o ressurgimento da Polônia. E, de fato, foi. Tanto que suas visitas à terra natal (as quais os russos lucidamente tanto instaram para o governo polonês impedir) terminaram por provocar a queda do regime comunista na Polônia e, num castelo de cartas, também nos outros países do Leste Europeu, e até do Muro de Berlim e a reunificação alemã. O ressurgimento da Polônia não se deu, ao cabo, em 45, quando a Alemanha se rendeu, mas agora, muito depois, quando um polonês ascendeu ao papado e se transformou no primeiro papa estrangeiro depois de 450 anos.

Por outro lado, a reconciliação da Alemanha com o mundo - ou seja, com a história, com a civilização, com o humanismo - só aconteceu mesmo com a escolha do segundo papa estrangeiro, o Papa... alemão, esse notável Ratzinger, hoje Bento XVI. Não podia decorrer a reconciliação apenas do progresso alemão, do seu ressurgimento material, de sua riqueza líder na Europa, nem de sua atual prática democrática. Somente com a ascensão do Papa bávaro, pode-se dizer que a Alemanha foi, finalmente, reintegrada à comunidade das gentes. E então, agora, com esses simbólicos papas estrangeiros, a Segunda Guerra afinal terminou. 

- José Luiz Delgado (Jornal do Commercio, Recife, 03 de julho de 2012 - com pequenas modificações)

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