sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sobre virais, Crapbook e Twiiiitter

Thiago, você viu o novo viral na internet?

Fui interpelado assim por um amigo alguns dias atrás. Confesso que estou meio por fora desse vocabulário contemporâneo, e só fui atentar  para o que ele estava dizendo algum tempo depois, ao fazer associações analógicas. Virais são os hits (anos 80), as coqueluches (anos 70), diárias na rede; em geral um vídeo babaca, uma foto constrangedora, ou uma pequena notícia sobre a vida babaca e constrangedora de um artista.

Realmente vivemos tempos estranhos.

Nunca entendi o uso que muita gente faz da internet. Talvez eu tenha ficado velho antes do tempo... Na minha época de adolescente, na segunda metade dos anos 90, havia uma enorme dificuldade para manter contato com pessoas com valores e pensamentos semelhantes aos meus, ou mesmo para obter informações sobre as coisas que me interessavam. Uma revista Veja ou Geográfica Universal com meses de defasagem, ou a edição anual do Almanaque Abril, eram um tesouro; encontrar outro direitista católico, um sonho.

Por isso, quando comecei a usar a internet com constância, por volta de 2001, não perdi tempo com banalidades, embarquei de cabeça na leitura de blogs, sites, nos debates em fóruns (mais tarde, nos debates no Orkut) e na troca de e-mails. Sempre fiquei ao largo de uma utilização, digamos, mais recreativa da net, entendendo, porém, que ela tinha espaço e direito de existir, mas que era claramente acidental.

Como estava enganado...

A popularização do acesso à rede, como toda massificação não direcionada, logo deu espaço para que a sensibilidade desregrada das pessoas passasse a dar as cartas, de modo que o compartilhamento de futilidades, as conversas no estilo mongolóide, ou as discussões fugazes (na medida em que é quase impossível recuperá-las meses ou anos depois) se tornaram a referência. Daí o sucesso de ferramentas que primam pela acefalia, como o Twiiiitter:


ou o Crapbook, e o fato das pessoas ficarem ávidas pelo viral do dia. O pior, no caso do Crapbook, é que muitos de seus usuários se acham "a bala que matou Kennedy" (recentemente isso também ficou patente no caso de um aplicativo para celulares chamado Instagram), e repetem, para desqualificar outras redes sociais, o discurso do preconceito social pelo qual nosso país é tão mal afamado. Supondo que todos eles sejam "não favelados", a conclusão lógica é que a massificação não nivelou por baixo a interação virtual por causa da entrada de pessoas de outras classes sociais, mas devido à entrada de pessoas com preguiça mental.

Recentemente também comecei a notar que a falta de critério no uso da web viral está levando as pessoas a uma espécie de esgotamento nervoso. São tantas as pequenas atualizações que muita gente fica incomodada ao topar com algo mais longo e que demanda concentração para ser entendido. Li em algum lugar que o ser humano perdeu certas habilidades cognitivas quando as sociedades passaram a guardar e repassar informações pelo meio escrito ao invés de usar a memorização e a oralidade. Não sei se isso é verdade, mas parece que o mesmo processo está se dando atualmente... só que pior, já que o ser humano plugado cada vez mais é um indivíduo que fala, escreve e pensa de modo desarticulado, que vive no imediatismo (não lembra do contexto em que atua) e que necessita de um reconhecimento rasteiro do outro para melhorar a autoestima (ou seja, está contaminado por um grau elevado de vaidade).

Decidi continuar longe disso tudo enquanto for possível.

8 comentários:

  1. Bom post. O que ocorre atualmente é uma verdadeira dispersão na multiplicidade, como dizia Guénon.

    Alguns links:

    http://lumenrationis.blogspot.com/2010/11/cerebros-cada-vez-mais-exaustos-pelo.html

    http://lumenrationis.blogspot.com/2011/01/especialistas-detetam-estragos-mentais.html

    ResponderExcluir
  2. Link sobre cometer facebookcídio:

    http://papodehomem.com.br/cometi-facebookcidio/

    ResponderExcluir
  3. Acabo de desativar minha conta no Crapbook.

    ResponderExcluir
  4. Excelente texto, Thiago. De fato é isso que vemos atualmente. Uma explosão de informações inúteis, comentários de "especialistas" em todas as áreas.

    ResponderExcluir
  5. Colocação de Rafael Daher no Orkut que achei perfeita:

    "O facebook é uma rede do indivíduo. Tudo gira em torno de compartilhar indivíduos e curti-los. O orkut é uma rede social. Os grupos do facebook não vingam como as comunidades do orkut por esta razão: a concorrência dos círculos individuais é muito grande e as pessoas hoje dão mais valor à própria popularidade do que ao aprendizado ou debate com outras pessoas."

    E uma de Rui:

    " A coisa que eu não entendo é como alguém pode gastar tanto tempo fazendo aquelas montagens do Facebook. Tudo em nome da vaidade pessoal, da vontade de se amostrar? Eu entro no Facebook, às vezes, mas não encontro nada de interessante, só montagens de piadistas que deveriam estar trabalhando num show de stand up comedy, ou, então, montagens cristãs que, sinceramente, não acredito que surtam grande efeito para converter as pessoas. O povo deveria aproveitar melhor seu tempo, pois a vida é muito curta, e logo acaba. Perder tempo no Facebook é jogar a vida no lixo."

    ResponderExcluir
  6. Uma comparação interessante por quem usa FB e Twitter:

    https://medium.com/i-m-h-o/52a20d7a17de

    ResponderExcluir
  7. Me rendi ao Twitter, pois, de uma ferramenta onde se falava sobre as banalidades do dia-a-dia, ele se tornou uma ferramenta para a indicação de artigos e de notícias.

    ResponderExcluir
  8. Mais um texto que vai na linha deste que escrevi:

    http://www.updateordie.com/2012/10/03/socorro-nao-consigo-mais-ler-livros/

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...