quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Torna-te o que és

Um dos maiores problemas do mundo moderno (terá sido de todas as épocas?) é o que chamo de "espírito de rebanho", isto é, a completa falta de conformidade com aquilo que a reta consciência identifica como ético para seguir o comportamento da maioria. Em tempos como os nossos, de crise de identidade da Igreja, isso se torna ainda mais fulcral, pois muitos católicos, frente a obviedades, como a superioridade teológica do rito gregoriano frente ao paulino, não fazem aquilo que deveriam para não se indispor com os seus pares. Creio que a seguinte ilustração e o texto (de Ângelo Monteiro - Jornal do Commercio, Recife 17 de novembro de 2012) podem levar a uma boa reflexão dos leitores e confrades:

 

    A grande negação

Passando a vida inteira a defender-se de tudo, principalmente das próprias opiniões, e buscando cumprir ao máximo a célebre fórmula - "bem com Deus e bem com o Diabo" - muitos chegam ao fim da jornada, sem deixar a menor marca dos seus pés nas areias do mundo; temendo desagradar aos outros, esquecem-se de si mesmos, não por renúncia em vista de maiores valores, mas por estupidez e covardia. Todo mal começa quando deixam de falar com a voz com a qual nasceram, e passam a adotar a voz alheia, como forma de fugir da realidade que lhes foi dada, em demanda daquela mais afeita aos desvios de rota de toda a verdade originária. E não são poucos os que preferem a mentira ao perigo, ainda que redentor, da solidão de uma límpida verdade.

Sempre é mais confortável conviver com os fantasmas dos outros do que com os seus próprios fantasmas: enquanto estes exigem que os decifremos, aqueles servem de inconstante plateia para as nossas enganosas expectativas existenciais. Daí tantos mudarem artificialmente, ao longo dos dias, adotando os papéis mais contraditórios sem, entretanto, operarem qualquer mudança substancial em suas vidas, já que tais papéis correspondem menos às exigências interiores que às modas do momento. Em razão disso, cresce o número dos que simplesmente reproduzem, em sua vocação de esponjas, as aparências até das menores celebridades, por não saberem encarar sua indisfarçável face. Só um profundo horror à individualidade pode levar tanta gente a recuar do seu centro inviolável para envolver essa mesma face em máscaras tão diversas quanto incompatíveis entre si. Como entender que, ao custo da pior das perdas, alguém veja com júbilo semelhante negação, que não é o negar-se ao homem velho, porém antes um insuperável medo do homem novo? "Torna-te o que és": esta sentença de Nietzche veio a constituir-se numa forte ameaça para todos os que fazem do pensamento único e do sentimento das massas os pilares máximos da convivência social de qualquer rebanho.

Por que, então, a maior das certezas - que é a de que todos haveremos de morrer - não consegue comover esses frágeis personagens que abandonam sua mais íntima experiência em prol da concordância com uma maioria que costuma estar à deriva dos piores discursos produzidos pela decadência? Como nos escondermos de nós mesmos, quando se sabe que o homem pode se esconder de tudo, menos do túmulo que o aguarda, como há de aguardar, de modo especial, aqueles que desbarataram, sem dó, o sentido de sua intransferível experiência?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...