segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Beicinho requentado

Uns 8 anos atrás, logo nos primeiros debates em que me envolvi no Orkut, um dos argumentos usados pelos tradicionalistas mais radicais (que hoje chamo de traditional borings) para criticar o Papa João Paulo II era o fato dele ter como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé um teólogo que duvidava da Presença Real ao escrever que as visitas ao Santíssimo numa igreja não faziam sentido. Para provar isso, eles traziam uma citação da obra Die Sacramentale Begründung Christliche Existenz que dizia o seguinte:
A devoção eucarística ou visita silenciosa à igreja não pode ser considerada uma conversa com Deus. Isso supõe que Deus esteja presente de maneira local e circunscrita. Afirmações do tipo “Deus mora aqui” e conversas com o Deus que se imagina estar naquele lugar, baseadas nesse modo de pensar, demonstram um equívoco, quanto ao evento cristológico e à idéia de Deus, que necessariamente repugna ao homem inteligente, sabedor da onipresença de Deus. Se alguém justificasse sua ida à Igreja com o argumento de que se deve visitar ao Deus que somente ali se faz presente, essa seria uma justificativa que não faria nenhum sentido e seria com toda razão rejeitada pelo homem moderno.
De fato, o texto soava bem estranho a tudo aquilo que se possa chamar de católico. Se não fosse pela margem de dúvida derivada do fato de ninguém parecer ter acesso ao original e de, se tivesse, a tradução ser complicada (já que ele estaria em alemão), o assentimento a essa crítica poderia ter tragado muitas almas para o erro do sedevacantismo no momento em que Ratzinger se tornou Bento XVI. Felizmente, no Seu tempo, o Senhor enviou uma resposta para esclarecer essa celeuma.

Não foi sem surpresa, portanto, que me deparei recentemente com um novo debate onde a velha citação era requentada, seguindo a gritaria que alguns blogs estão fazendo (exemplos aqui e aqui). Vou, então, sistematizar uma resposta, seja para responder a onda atual quanto para responder às ondas futuras (pois esse tipo de coisa sempre volta). 

Em primeiro lugar, no estilo de escrita de Ratzinger, que segue o de escolas filosóficas diferentes da aristotélico-tomista, não cabe a análise de trechos isolados do quadro argumentativo em que os mesmos se inserem (é como uma perícope na Bíblia). Não dá para buscar o significado das frases em si mesmas, o real sentido delas é dado a partir de uma leitura sistemática. Infelizmente muitos católicos parece que não sabem ler nada no âmbito religioso que não esteja escrito num estilo de catecismo de perguntas e respostas.

Em segundo lugar, mesmo que Ratzinger tivesse afirmado algo assim, como Papa o ensino dele seria bem diverso, tal qual se pode notar no que foi ensinado na sua primeira mensagem oficial (20/04/05):
De maneira mais do que nunca significativa, o meu Pontificado começa no momento em que a Igreja está a viver o especial Ano dedicado à Eucaristia. Como não tirar desta providencial coincidência um elemento que deve caracterizar o ministério para o qual fui chamado? A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi oferecido.

A Eucaristia torna constantemente presente Cristo ressuscitado, que continua a oferecer-se a nós, chamando-nos a participar da mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da comunhão plena com Ele brotam todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anúncio e testemunho do Evangelho, o fervor da caridade para com todos, especialmente para com os mais pobres e pequeninos.

Por conseguinte, neste ano deverá ser celebrada com particular relevo a Solenidade do Corpus Domini. Depois, a Eucaristia estará no centro, em Agosto, da Jornada Mundial da Juventude em Colônia, que se desenvolverá sobre o tema: "A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja". Peço a todos que intensifiquem nos próximos meses o amor e a devoção a Jesus Eucaristia e que exprimam de modo corajoso e claro a fé na presença real do Senhor, sobretudo mediante a solenidade e a retidão das celebrações.

...

Peço isto de modo especial aos Sacerdotes, nos quais penso neste momento com grande afeto. O Sacerdócio ministerial nasceu no Cenáculo, juntamente com a Eucaristia, como muitas vezes realçou o meu venerado Predecessor João Paulo II. ‘A existência sacerdotal deve a título especial tomar «forma eucarística»’, escreveu na sua última Carta para a Quinta-Feira Santa (n. 1). Para esta finalidade contribui antes de mais a devota celebração quotidiana da sua santa Missa, centro da vida e da missão de cada Sacerdote. 
E o que vale é o ensino dele como Sucessor de Pedro no comando da Igreja universal.

Por último, e mais importante, ele não disse o que está dito na primeira citação! O texto completo (original em espanhol aqui e no anexo desta postagem) diz outra coisa, vejamos:
Não cabe dúvida: nossa piedade foi com freqüência um pouco superficial e motivou numerosos equívocos. A atitude crítica da consciência moderna pode fomentar uma sã purificação na autocompreenção da fé. Baste citar um exemplo, no que aparece claramente a crise e que dará luz sobre o sentido tão necessário de purificação A adoração eucarística ou a visita silenciosa a uma igreja não pode ser, em seu pleno sentido, uma simples conversa com o Deus que imaginamos presente a um lugar determinado. Expressões como «aqui vive Deus», e a linguagem com o Deus «local» fundado nelas, expressam uma idéia do mistério cristológico e de Deus que chocam necessariamente ao homem que pensa e conhece sua onipresença. Quando se funda o «ir à igreja» na obrigação de visitar ao Deus ali presente, este fundamento carece de sentido e pode ser recusado, com razão, pelo homem moderno. A adoração eucarística está unida ao Senhor que, por sua vida histórica e sua paixão, converteu-se em nosso «pão», isto é que por sua encarnação e morte se nos entregou. Dita adoração se refere, pois, ao mistério histórico de Jesus Cristo, à história de Deus com o homem, que se nos transmite no sacramento. E está unida ao mistério da Igreja: a relação com a história de Deus e os homens a põe em contato com todo o «corpo de Cristo», com a comunidade dos fiéis, através da qual Deus vem a nós. Deste modo, orar na igreja e na proximidade do sacramento eucarístico significa a encarnação de nossas relações com Deus no mistério da Igreja, como lugar concreto no que Deus se nos comunica. Este é o sentido de nosso ir à igreja: a imersão de mim mesmo na história de Deus com o homem, a única que me dá minha verdadeira condição humana e a única que me abre o âmbito de um autêntico encontro com o amor eterno de Deus. Porque este amor não procura um puro espírito isolado, que só seria um fantasma em comparação com a realidade do homem, senão que procura ao homem total, no corpo de sua historicidade, e lhe presenteia nos signos sagrados dos sacramentos a garantia da resposta divina que soluciona o problema do fim e plenitude de sua existência.
Está claríssimo: de forma alguma se nega a presença de Cristo no sacramento da Eucaristia, antes se aprofunda este mistério dentro da realidade eclesial. Agora, essa é uma clareza que só surge no contexto. Qualquer pessoa que saiba o mínimo do pensamento de Ratzinger sabe que ele desenvolveu uma eclesiologia centrada na Eucaristia, de modo que seja natural que o teólogo tenha aprofundado suas reflexões sobre este sacramento.

Enfim, o texto está aí, não há espaços para ambigüidades. Não há heresia nenhuma, não há negação da Presença Real. O que existe, isso sim, é a pressa temerária de alguns em condenar seja quem for, é a loucura farisaica que parece ter tomado conta de alguns combatentes da resistência católica às diatribes do pós-concílio.

Visita_Santíssimo_Ratzinger.txt


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