terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O conceito de sabedoria no Antigo Testamento

Artigo do Frei Geraldo de Araújo Lima, O. Carm., publicado no jornal A Partilha (Paróquia do Sagrado Coração Eucarístico de Jesus - Espinheiro, Recife/PE) em agosto de 2009 (mantive as traduções bíblicas dele, mas mudei a numeração dos versículos e/ou capítulos para as da Vulgada, bem como coloquei a indicação dos capítulos e livros em algarismos romanos):

Trata-se de um conceito bastante complexo, difícil de ser enquadrado nos nossos esquemas mentais. Efetivamente, sabedoria pode significar a perícia de um artista, como os que fizeram as vestes da Aarão (Êx. XXVIII, 3), ou os carpinteiros que construíram o Tabernáculo (Êx. XXXI, 3-5; XXXVI, 1). Pode denotar a habilidade de uma carpideira profissional (Jr. IX, 16-17) ou de um marinheiro tarimbado (Sl. CVII, 27). O sábio tanto pode ser um conselheiro real (Est. I, 13), como também uma simples mulher astuta (II Sm. XX, 16).

A sabedoria também possui um intenso aspecto religioso, identificando-se com o temor do Senhor (Pr. I, 7). De alguma maneira, ela é divina (Pr. VIII, 22-23; Sb. VII, 25-26; Eclo. XXIV, 3).

As inúmeras facetas da sabedoria não entram num esquema lógico. Aqui abordaremos apenas algumas indicações da variedade dos seus usos dentro da própria literatura sapiencial bíblica.

I - Sabedoria e experiência

É justamente na área da experiência e da observação que uma certa perspicácia chega a ser reconhecida como sabedoria. É a "sabedoria experimental"; ou como diria Camões: "o saber de experiências feito". Ela resulta do posicionamento do homem diante da realidade em vários níveis. Quando o sábio escreve: "A arrogância prece de a ruína" (Pr. XVI, 18), ele está simplesmente se baseando na observação prática. Note-se, com freqüência, na Bíblia um paralelo entre as ações da natureza e a conduta humana. Por exemplo: o que dizer do homem que "promete mas não cumpre? E semelhante a nuvens e vento não acompanhados de chuva" (Pr. XXV, 14). Embora Israel nunca tenha desenvolvido uma atitude científica com relação à natureza, os fenômenos observáveis se tornaram um quadro acessível de referência para comparações com a conduta humana: "Anda, preguiçoso, olha a formiga, observa o seu proceder, de torna-se sábio" (Pr. VI, 60.

II - Sabedoria, conduta moral e retribuição

A conexão entre sabedoria e virtude é frequentemente enfocada na Bíblia, e de maneira bastante clara. Basta que se leia Pr. X, 22 para se observar o contraste entre o justo e o perverso: "Com a bênção dos justos prospera a cidade; pela boca dos ímpios ela se destrói" (Pr. XI, 11).

Foi precisamente a partir do exílio na Babilônia, com a dolorosa lição do desastre nacional, que a sabedoria passou a adquirir cada vez mais um caráter moral e ético. Talvez o melhor exemplo de tal desenvolvimento seja a introdução aos Provérbios (Pr. I, 8), escrita depois do exílio. A sabedoria tornou-se "temor do Senhor" (Pr. I, 7). O sábio incentiva o jovem a entender "a justiça e o direito, a retidão e todos os caminhos da felicidade" (Pr. II, 9), "a confiar no Senhor com todo o coração" (Pr. III, 5). O sucesso do sábio não é um mero resultado feliz em alguma aventura, mas "favor e bom sucesso aos olhos de Deus e dos homens" (Pr. III, 4).

Sabedoria significa, sobretudo, vida (Pr. VIII, 35). Os detalhes da vida diária constituem a matéria prima da moralidade. Por este motivo, qual deveria ser a avaliação das más companhias? Responde o sábio: - "Quem caminha com os sábios torna-se sábio; quem se ajunta aos insensatos torna-se mau" (Pr. XIII, 20). Que males a inveja e o ciúme poderiam acarretar a uma pessoa? -  "Um coração bondoso é a vida para o corpo, mas a inveja é a cárie para os ossos" (Pr. XIV, 30). A que fim o orgulho nos conduz? - "O orgulho do homem o humilha, mas o espírito humilde torna-o honrado" (Pr. XXIX, 23). E o que pensar das meretrizes? - "A prostituta é a cova profunda, e a estranha, um poço estreito. Como um salteador, ela também fica espreitando, e entre os homens multiplica os infiéis" (Pr. XXIII, 27-28). Além disso, a experiência corrobora a ordem moral: "O homem misericordioso faz bem a si mesmo; o homem cruel destrói sua própria carne" (Pr. XI, 17). Muitas ações especificamente imorais são condenadas, como: o ganho injusto (Pr. X, 2-3), o falso testemunho (Pr. XV, 18), o suborno (Ez. XXII, 12), a mentira e a bajulação (Pr. XVI, 28). Por outro lado, certos ideais morais são inculcados, tais como: a piedade para com o indigente (Pr. XIV, 31), o temor no Senhor (Pr. XIX, 23), a confiança em Deus (Pr. XVIII, 25).

A recompensa prometida àqueles que adquirem a sabedoria está expressa no conceito de vida: "Na senda da justiça está a vida; o caminho dos ímpios leva à morte" (Pr. XII, 28). A consecução da sabedoria e da virtude está associada com a "árvore da vida" (Pr. XI, 30; XIII, 12; XV, 4), com o "caminho da vida" (Pr. VI, 23; XV, 24) e com a "fonte da vida" (Pr. X, 11; XVI, 22).

Embora não esteja envolvida neste conceito, a noção de imortalidade pessoal é susceptível de desenvolvimento. E tal desenvolvimento levou Israel a descobrir que o Xeol (= "mansão dos mortos") permanece aberto diante do Senhor (Pr. XV, 11), o qual não abandona o seu fiel (Sl. L, 16; LXXII, 23-28). E quando chega à triunfante afirmação da imortalidade, está é expressa de um modo tipicamente israelita: a imortalidade não é uma conseqüência da natureza humana (alma imortal), mas é "a justiça que é imortal" (Sb. I, 15). A união com o Senhor nesta vida, simplesmente haverá de perdurar!

III - A sabedoria e Deus

No pensamento israelita primitivo, a sabedoria pertence ao nível humano, não ao nível divino. Javé "faz o sábio" ou "dá a sabedoria", do mesmo modo como "faz o rico" ou "dá a riqueza".

Com o progresso da revelação, a sabedoria começou a ser atribuída a Deus (Jó XII, 13; Dn. II, 20); tornou-se uma característica de Sua atividade criadora (Sl. CIII, 24; Pr. III, 19). Começava então aquilo que se convencionou chamar de "teologização da sabedoria". Não existe uma pronta explicação para tal desenvolvimento; todavia, dentre os dados fornecidos pelo Antigo Testamento, a inacessibilidade ou transcendência da sabedoria pode ser tomada como um ponto de partida.

Tal características parece estranha diante da visão prática da sabedoria apresentada em Pr. I, 9, convidando homens a conquistá-la; mais ainda: convidando os próprios sábios a adquiri-la. A inacessibilidade é frequentemente inculcada: conforme Jó XXVIII, a sabedoria não pode ser encontrada em nenhum lugar da criação. Somente Deus conhece o caminho para se chegar a ela, e mais ninguém.

Naturalmente, a razão desta intangibilidade é porque ela é divina, gerada desde a eternidade (Pr. VIII, 23-24), "saída da boca do Altíssimo" (Eclo. XXIV, 3), "emanação puríssima da glória do Onipotente" (Sb. VII, 25).

A sabedoria não é apenas apresentada como procedente do Altíssimo, mas também como ativo "artista" na criação (Pr. VIII, 30; Sb. IX, 9). Tais descrições levantaram o problema da sabedoria como pessoa. Ela parecer ser uma personificação, exatamente como outros aspectos de Deus são personificados no Antigo Testamento: sua Palavra (Is. LV, 10-11) e seu Espírito (Is. LXIII, 10-11).

A identificação da sabedoria com o Espírito de Deus é particularmente clara no livro da Sabedoria. Ela é chamada de "o Espírito Santo da disciplina" (Sb. I, 5), o qual foge da duplicidade. Em Sb. IX, 17-18, ela é colocada em paralelo com "o Espírito Santo enviado dos céus", que revela os conselhos de Deus aos homens e assim os salva.

Comentando o belíssimo elogio da sabedoria em Sb. VII, 22-28, a Bíblia de Jerusalém conclui: "Este elogio da Sabedoria, que participa da intimidade de Deus, que possui Sua onipotência e que colabora com Sua obra criadora, já anuncia toda uma teologia do Espírito a quem ela é assimilada e do qual ela recebe as funções tradicionais; anuncia sobretudo a cristologia de João, de Paulo e da Carta aos Hebreus". 

Realmente, Paulo não tem o menor receio em identificar Cristo com a Sabedoria:

"Nós anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gregos é loucura, mas para aqueles que são chamados tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (I Cor. I, 23-24).

No prólogo do seu Evangelho, João parece ir ainda mais longe ao afirmar: "No princípio era o Verbo (= Logos, a Sabedoria), e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo. I, 1.14).

A partir daí não há mais nada a dizer, somente bendizer!


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