segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tempo tríbio: de Burke a Gilberto Freyre

Texto que escrevi para a última edição da ótima Revista Vila Nova, reunindo algumas reflexões próprias com as dicas de leitura do confrade Fernando Carvalho numa comunidade do Orkut:

Um dos maiores problemas que encontramos no quadro institucional de nosso país é a falta de compromisso dos políticos com as ideias que dizem defender, de modo que ao se votar num socialista muitas vezes estamos escolhendo apenas mais um exemplar do velho coronelismo e ao se votar num liberal apostamos num defensor de todas as formas de mal corporativismo. Para quem é católico, isso até acarreta uma complicação extra, já que o uso dos referencias dados pelo Magistério da Igreja para a arte de governar fica condicionado à reflexão sobre o que as coisas são na realidade, pois, simplesmente, não é prudente uma aplicação direta baseada em rótulos.

De qualquer forma, mesmo com toda a sua esquizofrenia, esse quadro não consegue absorver a corrente de opinião mais próxima daquilo que o Brasil profundo valoriza: o conservadorismo. A sabotagem em torno dela é tão grande, que é como se a mesma não existisse; o conservadorismo não é considerado uma opinião, uma postura legítima, mas um conjunto de tabus. Todavia, as oportunidades em que o povo se manifestou com liberdade, como no caso do referendo sobre o desarmamento, mostram que nossa alma não tem nada de revolucionária, ela quer a permanência daquilo que com sucesso as gerações anteriores nos legaram e, no que pode ser mudado, prudência e comedimento.

Teoricamente, o conservadorismo moderno começou com a obra Reflexões sobre a revolução na França (1790), do político e pensador anglo-irlandês Edmund Burke, e se desenvolveu ao longo de todo o século XIX e XX como uma vertente política contrária às utopias. Mais tarde, o filósofo americano Russel Kirk formulou uma lista de 10 princípios que resumem a marcha do conservadorismo em tantas décadas e que pode facilmente ser encontrada na internet numa tradução feita pelo famoso Pe. Paulo Ricardo. Pois bem, dessa lista se infere que uma das principais características do conservador é valorizar as lições do passado para bem viver o presente e planejar o futuro, e isso, sem surpresa alguma dada a genialidade do autor, casa com perfeição no conceito de tempo tríbio do intelectual pernambucano Gilberto Freyre.

Segundo o Mestre de Apipucos:

“Pois o presente (…) é um presente sempre em expansão, para trás e para adiante. Tanto evoca quanto profetiza. A ciência que se considere Futurologia – ciência relativa – tende a ser uma disciplina da tendência humana para a profecia, em ligação com a tendência, também muito humana, para a evocação; e, sem que falte qualquer dessas tendências o terra-a-terra da observação da realidade imediata. Realidade imediata na qual se cruzam sobrevivências e antecipações. O homem nunca está apenas no presente. Se apenas se liga ao passado, torna-se arcaico. Se apenas procura viver o futuro, torna-se utópico. A solução para as relações do homem com o tempo parece estar no reconhecimento do tempo como uma realidade tríbia; e como o homem vive ele mesmo imerso no tempo, ele próprio é um ser – um estar sendo, diria talvez Gasset – tríbio” (FREYRE, Gilberto. Futurologia. In: Antecipações. Recife: EDUPE, 2001, p. 171 – Coleção Nordestina).

Temos aqui uma tentativa de humanização da noção de tempo, uma tentativa de distinção entre o tempo biológico e o tempo físico-matemático. “Tempo tríbio”: tempo resultado do ciclo biológico, em sua inexorável ordenação do “antes” e do “depois”. Do “antes” que se aproxima irresistivelmente para a transformação em “depois”, dando-nos ilusão análoga à de todo sistema em movimento, a ilusão de um movimento exterior, em sentido oposto. Vemos o tempo avançar sobre nós, vindo do “futuro”, para perpassar, fugaz, e precipitar-se em passado, quando nós avançarmos para ele, avançarmos para o que não é, vindos do que passou para o que está passando, e arrasta o que virá de imediato, puxando depois de si outros porvires. Esses tempos, não é a mensuração que os cria, nem é, na verdade, a mensuração que os rege. Também a mensuração é nossa, é ato, é manifestação de dinâmica e, afinal, de vida. Desta muito prezada e muito precária humana vida nossa (DANTAS, Pedro. Depoimento sobre Gilberto Freyre. In: Convivência. Rio de Janeiro, n. 2, 1976/1977, pp. 34-39).

Passado, presente e futuro, nessa perspectiva, articulam-se e influenciam-se mutuamente. O tempo social os encontra com a predominância ora de um, ora de outro, mas sem abdicar de nenhum, pois além de sermos viventes, somos conviventes. Convivemos com o legado de nossos ancestrais e convivemos com as repercussões ou precipitações do possível.

O conceito, então, fala por si no que tange à sua relação com o conservadorismo, mas eu gostaria de ressaltar que a genialidade de Freyre a que fiz referência converge para tal corrente de pensamento devido a uma característica que as une numa base anterior a da teorização: o realismo. Tanto o pensamento de Gilberto Freyre quando o conservadorismo são realistas, rejeitam tanto a utopia quanto o saudosismo caricato, pois, nestes dois casos, o que temos são posturas artificiais. As transformações das estruturas sociais, econômicas e políticas devem beber em elementos do passado com capacidade de permanência (REBELO, Aldo. Cem anos de Gilberto Freyre. Um homem que entendeu o Brasil.), ou a renovação será uma aposta arriscada, como provaram as tentativas de engenharia social do século passado (vinculadas a regimes autoritários) e a quase anomia pela falta de nexos de união em que o antigo Ocidente foi jogado pelo liberalismo (isso pode ser facilmente verificado pela inflação normativa que atinge os países dessa parte do mundo). Para os conservadores ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício, de modo que sua manutenção requer cuidados sérios, não se podendo “brincar” nesse âmbito, sob a pena de ver tudo desmoronar com rapidez. O governo da civitas, mediante esse tratamento, inclui, nos seus domínios, o que deve ou pode vir a ser, tanto quanto o que é e o que foi.

Tal característica também é convergente com a Doutrina Social da Igreja, que desde a Rerum Novarum (encíclica de Leão XIII que iniciou a reflexão sobre a aplicação do Evangelho aos problemas socioeconômicos do mundo moderno) rejeita com a mesma ênfase as falsas soluções do marxismo, com sua negativa de direitos naturais, como o de propriedade, e o canto de sereia do dinheirismo capitalista, com sua postura contrária à tendência cooperativista da dinâmica social (presente em entidades como a família e os sindicatos, por exemplo). Observem que a tônica em ambas as rejeições deve-se ao apego à realidade, pois esta nos mostra que a propriedade é nada mais que o trabalho acumulado e que a perspectiva de ver o esforço transformado em algo duradouro é um dos principais motivadores da responsabilidade entre os homens, e que a fragilidade de nossa condição neste verdadeiro “vale de lágrimas”, como diz a Salve Regina, pede a ajuda mútua.

Vemos, portanto, que não precisamos recorrer só a autores estrangeiros para formular uma aplicação nacional do conservadorismo na sua vertente cristã. Aliás, como já fiz referência, nesse caso não estaríamos tratando de algo puramente teórico, na verdade teríamos uma mera interpretação daquilo que é percebido, sentido e vivido pela maioria silenciosa de nosso país. Teríamos uma construção em cima do que é real, e não uma tentativa de modificar a sociedade com base numa proposta abstrata. O conservadorismo não é uma ideologia, mas um tipo de olhar sobre a ordem social como ela é de fato.

E Gilberto Freyre, nesse sentido, foi um verdadeiro intérprete do Brasil, num tempo em que isso soava transgressor, mas que, na verdade, apenas era a reação a ideologias revolucionárias de toda ordem (positivismo, racialismo, liberalismo, etc.) que infestavam nossa vida social e geravam toda sorte de rejeição internalizada do que era próprio da terra. Sim, o Mestre de Apipucos, mesmo usando roupa de hippie, foi um reacionário, pois reacionário é aquele que reage!

Será, então, que o caráter cínico que as eleições assumiram não deriva do fato de que nenhum candidato tenta interpretar a alma nacional? Será que decisões judiciais e leis que fazem pouco de nossas raízes, isto é, não convivem com os que nos legaram a pátria, não são também causa do sentimento de injustiça que assola o país? Um futuro que se constrói em descompasso com o presente e o passado não já está mandando recados de que se será desastroso?

Todas essas são questões que Burke tentou responder na sua época para seu contexto particular e que agora nos afligem com força maior. Hoje, contudo, podemos ir além, podemos ir “além do apenas moderno”, pois no pensamento de Freyre encontramos sugestões fecundas, caracterizadas pela agilidade e liberdade de uma concepção fenomenológica que não se deixa amarrar a uma tese fixa e imutável (DANTAS, Pedro. 1976/1977, pp. 34-39), mas tira da mobilidade sua força e capacidade de interpretação. Vamos, então, ficar parados, ou reagir?

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