sábado, 30 de junho de 2012

As ameaças do PNDH-3 continuam!

Evento imperdível em Recife: As ameaças do Programa Nacional de Direitos humanos - 3 continuam! Para saber os detalhes cliquem aqui.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Comunhão dos Santos

Dando continuidade ao estudo do IX artigo do Credo (as outras partes podem ser lidas aqui e aqui), vamos analisar agora sua segunda seção: "na Comunhão dos Santos".

Em primeiro lugar cabe uma palavra sobre o que vem a ser santo. Na linguagem popular tomamos por santo aquele que foi canonizado pela Igreja ou, entre os que sabem um pouco mais sobre a doutrina católica, aqueles que, canonizados ou não, estão na presença do Senhor. No IX artigo, contudo, a palavra santo vai ter um significado mais amplo, pois ela indica:

a) Aqueles cuja santidade é um fato consumado, os eleitos (canonizados ou não)/Igreja trunfante;

b) Aqueles cuja santidade é como que latente, em potência; e este vêm a ser:
  1. As almas do Purgatório, que hão de entrar no Céu/Igreja padecente;
  2. Os fiéis na Terra, que estão sendo santificados pelos sacramentos/Igreja militante.
Visto isso, podemos entender melhor a seguinte definição do objeto de nosso estudo:

Entre os membros (vivos ou mortos) do Corpo Místico de Cristo (a Igreja), existe um vínculo que une a todos e pelo qual todos participam dos mesmos interesses e dos mesmos bens espirituais. Este fato chama-se Comunhão dos Santos.

Em qualquer sociedade bem organizada, os membros são solidários, isto é, participam das riquezas, das alegrias, e também dos revezes e das tristezas da comunidade. É isso mesmo que se dá com a Igreja, sociedade mais perfeita que qualquer outra por causa do seu fim elevadíssimo (nos impelir a Deus).

Esse sentido comunitário da Igreja pode ser observado em Romanos XII, 3-8, onde São Paulo compara a Igreja a um corpo, em que cada membro tem uma função que se aperfeiçoa na dinâmica com as funções dos outros membros. Devido a isso e devido ao entendimento de que o principal auxílio que um membro do Corpo Místico pode prestar ao outro é no âmbito espiritual, é que podemos ver o Apóstolo pedindo orações por si mesmo em Romanos XV, 30-32. Essa idéia será melhor desenvolvida na Carta aos Coríntios (XII, 12-30), na qual percebemos que a base em que se edifica a Comunhão dos Santos é formada por uma reciprocidade de serviços, por uma repartição dos bens individuais, pela permuta contínua de orações e de merecimentos, enfim, pela participação comum na riquezas espirituais da Igreja.

Infelizmente os protestantes gostam de negar algo tão belo. No rol interminável de citações bíblicas desconectadas do todo da Escritura que eles jogam na cara das pessoas, sempre encontramos I Timóteo II, 5 como uma das destacadas para negar a permuta de bens espirituais entre os membros do Corpo Místico. Esse é um erro flagrante de exegese, pois a leitura da perícope (do trecho temático), que vai do versículo 1 ao 7, vemos que São Paulo se contrapõe duas vezes ao erro dos herdeiros de Lutero. Primeiramente, do versículo 1 ao 4 ele pede orações por todos os homens, em especial pelos que estão constituídos em autoridade, e se por acaso logo no verso 5 ele negasse o que acabou de dizer, como querem os protestantes, teríamos de chegar à conclusão de que o Apóstolo era um esquizofrênico. Além disso, no versículo 6, que é uma continuação explicativa do trecho anterior, observamos que São Paulo na verdade não nega que existam outros mediadores entre Deus e os homens, mas apenas afirma que só há um mediador que se deu em resgate por todos (e não podia ser diferente), Cristo Nosso Senhor.

Superada essa falsa dificuldade, vamos em frente, tratando agora de quem não está incluído na Comunhão dos Santos. Naturalmente que alguém poderia dar uma resposta generalista, dizendo que não pertence à dita comunhão quem não é católico ou nunca foi, mas uma pormenorização faz-se necessária para a fixação da matéria. Desse modo, podemos listar que não permutam bens espirituais na Igreja:
  1. Os infiéis (quem nunca foi católico - ex.: muçulmanos);
  2. Os hereges (quem deixou a Igreja ao negar uma das verdades da Fé - ex.: protestantes);
  3. Os cismáticos (quem deixou a Igreja por não se submeter ao seu poder jurisdicional - ex.: os "ortodoxos");
  4. Os apóstatas (quem renegou toda a Fé católica);
  5. Os excomungados (quem foi punido pela Igreja com uma pena de excomunhão - ex.: quem faz ou auxilia diretamente num aborto).
E os pecadores? Estes, não possuindo a graça santificante, nenhuma contribuição trazem para o tesouro da Igreja, já que sua obras são desprovidas de merecimento sobrenatural. Muito justo seria que não participassem de seus favores. Entretanto, porque ainda pertencem ao Corpo Místico como membros paralisados que um dia, talvez, revivam, não estão completamente privados das vantagens da Comunhão dos Santos (Romanos VI, 19-23).

Por fim, devemos considerar de modo detalhado como se dá a permuta de bens espirituais entre os fiéis na Terra e desses com os Santos no Céus e com as almas no Purgatório:

a) Comunhão entre os membros da Igreja militante: Todos os fiéis estão unidos pela mesma herança, pelos mesmos sacramentos, pelo mesmo sacrifício. Participam dos bens espirituais comuns; podem auxiliar-se mutuamente por meios das orações, dos merecimentos e das boas obras. O justo tem a faculdade de oferecer por outro as próprias obras satisfatórias. Deus pode abençoar um grupo, uma coletividade, pode desviar certas tribulações ou calamidades, por causa dos merecimentos e sacrifícios de um só.

b) Comunhão entre os membros da Igreja militante com os da Igreja triunfante e os da Igreja padecente:
  • Com os eleitos: Os fiéis da Igreja militante invocam os Santos do Céu, escolhem-nos como intercessores junto de Deus, pedem a eles que apresentem ao Altíssimo os seus rogos no intuito de receberem os auxílios desejados.
  • Com as almas do Purgatório: A Igreja militante julga ser sua obrigação de caridade, e não raro de gratidão, amenizar os sofrimentos das almas padecentes "encurtando" a duração dos mesmos. Para este fim, vale-se das orações e das boas obras: esmolas, penitências, indulgências, mas, principalmente do Santo Sacrifício da Missa.
Alguns trechos bíblicos suplementares sobre este artigo do Credo:

I João I, 3

Colossenses I, 12-14

Efésios I, 22-23/IV, 16

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sociedade condenada

Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.

- Ayn Rand

sábado, 16 de junho de 2012

À la droite du Vatican: les traditionalistes

Recentemente, na comunidade Apologética Católica, postei um documentário de um canal de TV francês (TV 3) que, na onda de notícias sobre as negociações da FSSPX com a Santa Sé, se tornou importantíssimo, pois faz uma leitura bem completa de como é o movimento tradicionalista por dentro. Desse modo, acho que ele também se enquadra nos objetivos do blog e estou publicando-o abaixo (ele está todo em francês, sem legendas):  












segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ateus e regimes ateístas

Recebi a seguinte pergunta via Tumblr:

Oi, vi em seu blog que você coloca a culpa em todos os ateus por regimes ateístas. Qual o motivo disso? 

É mesmo? Onde? Se você está se referindo ao que está no artigo O ateísmo e os genocídios da história, eu sugiro que você leia de novo a postagem, pois parece não ter entendido nada. Ela não fala de ateus, mas do ateísmo como ideologia. Quem em geral faz a generalização que toma a crença pela pessoa, agindo com verdadeiro preconceito, são os abutres de organizações ateístas, como a UNA ou a mais ridícula ainda ATEA, e isso ficou patente nos comentários que se seguiram ao texto que linkei.

Agora, dito isso, é óbvio que regimes ateus só existem por causa de alguns ateus. E nem me venha dizer que eles derivam do fato de que em muitos casos as falhas da religião criaram um campo propício para que o ateísmo tomasse corpo numa dada sociedade. Isso é um erro, pois tais falhas, no máximo, implicam numa reforma da dita religião ou na sua troca por outra, não na disseminação da descrença em Deus como política de Estado ou característica social, já que esta é antinatural, e derivou, sempre, da força das armas para ser imposta. 

Você ainda pode perguntar:

- E a Europa ocidental na atualidade, não seria exemplo de sociedade ateia que não teve origem em nenhuma imposição?

Não, não é. Em primeiro lugar, a Europa ocidental não é ateia. É verdade que nela o número de religiosos é menor que em outras sociedades, mas isso está bem longe de caracterizar o corpo social como adepto do ateísmo. Em segundo lugar, tal situação, por ser contrária à natureza humana que tende para a transcendência pelo seu caráter espiritual, é só um interregno que dará espaço a outra religião (o islã, provavelmente). Em terceiro, a descrença manifestada por muitos europeus, na verdade, é uma crença religiosa.

Vamos desenvolver este último ponto. 

Não existe sociedade ou Estado ateu. Essa é uma concepção utópica, que desconhece a natureza da própria interação social. Uma sociedade só pode subsistir se compartilha referenciais comuns de "certo e errado", e esses referenciais não podem ser científicos ou políticos, pois devem ser totais e o conhecimento científico ou político é compartimentado. Eles tem de ser simbólicos e transcendentes, ou seja, religiosos. Se não forem os tradicionalmente associados à religião, serão outros, travestidos de não-religiosos, mas religiosos ontologicamente.

A questão é: que religião está por trás dos atuais referenciais simbólicos das sociedades supostamente descrentes?

terça-feira, 5 de junho de 2012

O avanço do comunismo na América Latina


Palestra imperdível para quem mora em Recife.

Lembro que é necessário ligar para o Círculo Católico confirmando a presença, pois embora a palestra seja gratuita, as vagas são limitadas.

"Não iremos cometar suicídio" - a FSSPX e o Vaticano

Num tópico recente na Comunidade Apologética Católica tive a oportunidade de analisar uma entrevista do superior da FSSPX e agora trago esses comentários para o blog.



Na primeira parte, logo no início, D. Felley faz uma diferenciação importante: o problema não é com a Igreja, mas com pessoas que ocupam posições de importância. Essa maneira de analisar as coisas é algo que, nos meios tradicionalistas, deriva da vitória sobre uma das piores tentações que temos, a de achar que estamos diante da Outra e não da Esposa de Cristo. Achar que a Igreja é outra coisa que não ela mesma envenena qualquer debate, torna impossível qualquer entendimento ou acordo, faz insuportável a convivência com outros batizados.

Depois ele passa a analisar o Vaticano II, colocando claramente que muitas das coisas que se atribuem a esse concílio não são realmente derivadas do texto dele (e o que vale é o texto!), mas da vontade viciada dos modernistas de plantão. Não poderia ser diferente, pois mesmo D. Lefebvre quando D. Antônio assinaram as atas conciliares, indicando, com isso, que uma exegese ortodoxa sempre foi possível; apenas, com o passar dos anos e das perseguições, ela se tornou meio que invisível para os católicos da resistência.

Quanto à questão da liberdade religiosa X tolerância religiosa, acho que a aparente oposição já foi superada por explicações como a que se pode ler aqui.

No que se refere ao ideal de vida política e ao que temos diante de nós, gostei das colocações realistas do bispo, que, sem perder o farol que deve nos guiar, não fica suspirando, parado, como fazem tantos irmãos da resistência tradicionalista diante dos leviatãs modernos surgidos com a demoníaca Revolução Francesa.

Sobre os judeus, ele foi claro e ponderado, ou seja, desagradou a muitos sectários anti-semitas que existem no seio da FSSPX.

As colocações sobre a "pressa" do Papa em reconhecer a Fraternidade foram cheia de um sincero agradecimento filial e de confiança sobrenatural no governo da Igreja. Nada mais católica e, infelizmente, nada mais contrário a uma certa mentalidade cristalizada pelos meandros da resistência.

Na segunda parte, a frase que dá o sentido das negociações foi bem colocada: "não iremos cometer suicídio". Infelizmente, apesar das boas intenções do Santo Padre, qualquer cuidado em lidar com a burocracia modernista da Santa Sé é pouco. Mesmo que a FSSPX hoje tenha um papel profético (sim, um papel profético, por mais progressista que essa colocação pareça!), que ela seja um sinal de contradição, os lobos, afastados da graça e sedentos pelo poder, jamais vão perceber o que Deus tenta lhes mostrar com esse símbolo.

A Tradição ser o critério para a interpretação do Vaticano II é uma obviedade ululante que não ter sido percebida por tantas pessoas nós últimos 48 anos perfaz algo que só se explica sobrenaturalmente. Aqui, mais uma vez, a Fraternidade, a obra do Atanásio moderno, D. Lefebvre, pode servir de indicação do que está errado na vivência atual da fé católica.

Por fim, o reconhecimento que D. Felley faz de que um acordo com Roma implicaria numa mudança de atitude derivada da saída da zona de conforto que representa só conviver com quem pensa e age igual, fecha com chave de ouro essa pequena entrevista. O perigo do sectarismo sociológico sempre rondou o meio tradicionalista, de modo que mudar de mentalidade, se tornar sociável, talvez seja a principal dificuldade para muitos irmãos de combate.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

5ª Marcha Nacional pela Vida



Carlos de Laet, paladino do Bem e da Verdade

Como sabemos, os grandes nomes de nosso país são esquecidos com facilidade, e se a pessoa em questão teve uma vida que não se enquadra nos atuais parâmetros culturais, o quadro é pior ainda. Carlos de Laet é um desses jogados no limbo. Além de monarquista, era um católico combativo, do tipo que foi levado a ação após o golpe republicano e que está na base do período áureo da Igreja em nosso país que se estende do final do século XIX até o desastre pós-conciliar. Por isso, fazendo companhia a postagens que já fiz (aqui e aqui) trago um retrato sobre ele publicado na revista Vozes de setembro-outubro de 1947 (mais artigos de Carlos de Laet podem ser encontrados aqui): 

Leon Gautier dedica seu livro “La Chevalerie” a Cervantes, o demolidor da gloriosa instituição e ao mesmo tempo ele próprio o último dos cavaleiros, ao se levantar, de armas na mão, na batalha de Lepanto, em defesa da Cristandade contra o islamismo invasor. Não tem razão o paleógrafo francês. Em meio às ruínas da Cristandade, ainda costumam surgir, raramente embora, os Rolando e os Bayard. Cessaram as correrias de Roncesvales, os heróicos combates em campo raso cederam lugar à insidiosa guerra de trincheiras, e os assédios frontais às fortalezas foram substituídos pela técnica ultramoderna do paraquedismo. Em meio, porém, a essa ruína da antiga arte guerreira, perdura ainda o espírito que norteou os cruzados, graças à continuidade por assim dizer miraculosa do ideal da Cristandade.

Carlos de Laet encarnou entre nós o espírito do perfeito cavaleiro. Vivesse ele ainda hoje e esboçaria um sorriso irônico ao ouvir semelhante elogio. Não lhe emprestamos, entretanto, o papel de um moderno Dom Quixote a investir contra rebanhos de carneiros e moinhos de vento. Nele vemos um autêntico sucessor de Bayard, fiel à Igreja, fiel à sua Pátria, fiel ao seu rei. Demonstremos, assim, de modo sumário, como o grande batalhador, cujo primeiro centenário de nascimento festejamos no dia 3 de outubro, obedeceu à risca, em toda a sua vida, aos dez mandamentos a que o citado Leon Gautier reduz o antigo Código da Cavalaria:

1) "Crerás em tudo que ensina a Igreja e observarás seus mandamentos". - Em Carlos de Laet ressalta em primeiro lugar o honroso título de católico. Dele se pode dizer o que pertence a Louis Veuillot de modo incontestável: não costumava pecar nem contra a Igreja nem contra a gramática. Infalível não era, nem estava livre de defeitos. Mas a qualidade de católico por completo informa toda a sua personalidade, todas as suas atitudes, sendo o verdadeiro centro propulsor de toda a sua vida de pensamento e de ação. Em um Brasil católico dominado em proporções assustadoras pela peste do liberalismo, soube manter intacta a sua ortodoxia e sua fiel observância da doutrina da Igreja. E este notável feito se baseava em uma coisa muito simples: como intelectual achava que seus conhecimentos religiosos não poderiam ocupar posição inferior à reservada aos conhecimentos profanos. Em segundo lugar - coisa ainda mais simples - não traía os seus conhecimentos da doutrina católica e deles aceitava todas as conseqüências práticas: era um católico que vivia a sua Fé com um zelo inflexível e inquebrantável. Dele se pode dizer, portanto, que era fiel a tudo que ensina a Igreja e era escrupuloso observante de seus mandamentos.

2) "Protegerás a Igreja"- Instituindo a Santa Igreja colocou-a Nosso Senhor acima do poder de destruição dos homens, impedindo que as próprias portas do Inferno prevaleçam contra ela. Servos inúteis, quer porém Nosso Senhor que com Ele colaboremos na obra da Redenção do gênero humano. E como de Dom Silvério disse Carlos de Laet, qual novo Davi o católico não deve duvidar "baixar ao campo de batalha e apedrejar o incircunciso que afrontar as ostes de Israel". Laet foi, assim, denodado defensor da Igreja, descendo à liça todas as vezes que a causa católica o exigia. Numa época de ferrenho anticlericalismo e de vesgo jacobinismo, foi o escudo do "Frade Estrangeiro", o batalhador da causa do catecismo nas escolas, o adversário implacável do laicismo positivista e maçônico, que era a regra nos primeiros tempos da república. Era, certamente, uma das raras vozes isoladas que se faziam eco das palavras de ordem da hierarquia eclesiástica. Relembremos ainda suas campanhas contra o divórcio, contra o espiritismo, sua intrepidez e coragem de atitude diante, por exemplo, da decisão iníqua do governo Nilo Peçanha relativamente ao desembarque dos religiosos foragidos de Portugal. Em qualquer ponto ou lugar em que a Santa Igreja fosse atacada, ali estaria Laet na brecha, de espada em punho, a desferir golpes certeiros e cerrados contra as hostes da impiedade.

3) "Respeitarás os fracos, tornando-te seu defensor". - Estava Laet várias léguas da deturpação da caridade representada pelo sentimentalismo liberal. Implacável com os inimigos da Igreja e da Verdade, seu coração se achava sempre aberto para a colher os fracos e oprimidos. Todos os códigos humanos, inclusive o da Cavalaria, são simples amontoados de redundâncias em face do primeiro mandamento da Lei de Deus. O verdadeiro amor do próximo é simples reflexo do amor de Deus. Eis o que explica o amor de Laet pelos fracos e pequeninos. Vejamos seus combates em favor da justiça social, seus quase proféticos estudos sobre a questão social brasileira, a defesa da mocidade contra a perversão do ensino, da sociedade contra os desmandos da política e da má administração pública, das classes operárias contra o socialismo subvertedor, e até da pobre gramática contra a invasão dos solecismos... A própria classe social das sogras, tão caluniada pelas "chocarrices da plebe", teve em Laet um leal e carinhoso advogado, para não nos referirmos a combates singulares em socorro de qualquer criatura injustamente agredida, de que é exemplo sua polêmica com Camilo Castelo Branco em defesa do desditoso Fagundes Varela. 

4) "Amarás o país em que nasceste". - Justamente pelo fato de amar estranhamente à sua pátria, Laet foi até o fim da vida um reacionário intransigente. Em seu elogio ao grande brasileiro, o Barão de Ramiz Galvão, ao sucedê-lo na Academia Brasileira de Letras, como que pediu desculpas aos seus pares pelo fato de Laet ter sido adepto da forma monárquica de governo. A república o teria recebido com hostilidade, daí seu "crescente azedume" em relação ao novo regime. Eis um grave erro de apreciação. Seria injuriar a inteireza de caráter de Laet o julgá-lo capaz de aduzir argumentos em favor de seu ideal monárquico e de se mostrar fiel a ele por toda a vida... apenas porque fora inicialmente mal recebido pelos republicanos históricos... Respeitemos seu ponto de vista. A própria Igreja não nos impede que sejamos a favor desta ou daquela forma de governo, uma vez ressalvada a justiça. Laet foi um modelo de patriota e se não se conformou com a república, foi porque viu que ela havia sido artificialmente implantada no Brasil, por um golpe revolucionário a que o povo assistiu "beatificado", sem nele tomar parte, nada havendo que legitimasse essa violência. E Laet previa que tal ilegitimidade de origem seria a causa da ruína do princípio da autoridade no Brasil, abrindo a porta aos posteriores golpes e revoluções , que tantos males vem causando à nossa pátria. Dir-se-á que melhor seria colaborar, numa tentativa de passar o poder político para boas mãos. Em defesa de Laet frisemos que ele foi uma voz isolada que clamava no deserto, pois a colaboração era a regra, e nem por isso vemos os seus vaticínios deixarem de ser cumpridos.

5) "Não recuarás diante do inimigo" e 6) "Farás aos infiéis uma guerra sem tréguas". - Laet sustentou suas idéias com desassombro, numa época em que era perigoso fazê-lo. Na revolta da armada, em 1893, o Marechal Floriano entendeu, no dizer do próprio publicista, que à saúde de Laet e à de outros concidadãos, "melhormente convinham as alterosas montanhas de Minas, não empestadas pelo estado de sítio". Ei-lo exilado, por não ceder diante do adversário. A 8 de março de 1897, Gentil de Castro, jornalista, seu companheiro de lutas, sucumbiu na estação de São Francisco Xavier, no Rio, trucidado por uma alcatéia de assassinos. Está fora de dúvidas que se tratava de um crime político, expiando o jornalista a feia culpa de permanecer monarquista dentro de um regime republicano e liberal que pregava a mais desenfreada liberdade de pensamento.. Também sabemos o que aconteceu com o Barão de Cerro Azul e seus companheiros. Não era, portanto, sem grandes riscos que um tribuno ou jornalista podia enfrentar o sectarismo dominante. Eis, portanto, uma prova da intrepidez de Laet, que nunca deixou de usar a funda de Davi diante dos Golias incircuncisos.

7) "Cumprirás exatamente teus deveres feudais, se não forem contrários à lei de Deus" e 8) "Não matarás e serás fiel à palavra empenhada". - Laet foi um cavaleiro fiel ao seu soberano. Esta virtude, os próprios republicanos sinceros não lhe podem negar. E o principal dever do cavaleiro em relação ao suzerano é o da fidelidade. Deposto Dom Pedro II, essa fidelidade continua. E não apenas simbólica, mas real, até ao ponto de exigir sacrifícios. Engenheiro pela antiga Escola Central, hoje Politécnica, Laet, entretanto, vivia principalmente do magistério. Pois bem: pelo decreto n. 9 de 21 de novembro de 1889, fora substituído por "Instituto Nacional de Instrução Secundária" o "Colégio Pedro II" em que ela era professor. Em sessão da Congregação, a 2 de maio do ano seguinte, Laet com desassombro dirige um apelo ao governo solicitando a restituição do antigo nome, pois D. Pedro II fora desvelado patrono daquele estabelecimento de ensino. No dia imediato, o "Diário Oficial" publicava um decreto de demissão de Carlos Laet, que somente seria plenamente reintegrado no cargo durante o governo Venceslau Brás... Vale dizer, cerca de vinte anos depois. Quanto aos outros dois deveres feudais, de justiça e de milícia, bem sabemos como Carlos de Laet os cumpriu. Foi sempre um fiel distribuidor de justiça, um rigoroso observante de Direito contra a teoria dominante dos "fatos consumados". E nunca deixou de acudir com o auxílio da temível arma que era sua pena, quando o dever o conclamava à luta.

9) "Serás magnânimo, fazendo 'largesse' a todos" e 10) "Será sempre e em todo lugar o campeão do Direito e do Bem contra a injustiça e o mal". - As mancheias Laet distribuiu a "largesse" de sua palavra inflamada, de suas beneméritas campanhas, de sua sábia orientação nos complicados problemas em que se viu envolvido o laicato católico no Brasil, sempre dócil instrumento da hierarquia, sempre cioso de dar o pão da verdade à sociedade faminta e explorada pelos Shylocks da incredulidade e do ateísmo. Que dizer também da "largesse" de sua prosa amena, de seu "humour" incomparável, da graça e leveza de suas páginas literárias?

Fiel a Deus e à sua Pátria, magnânimo com os próprios inimigos, pois lhes desejava o maior dos bens que é a reconciliação com a Igreja e a sua bem-aventurança eterna, Laet foi certamente o campeão do Direito e do Bem contra a injustiça e o mal. Carlos Magno o aceitaria entre os seus pares.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Jesuíta acaba com esquerdista em debate sobre a Inquisição






Debate entre o historiador Jorge Martins e o padre João Seabra, RTP Memória, 7/11/2005.

Alguns números apresentados pelo próprio historiador: em mais de 200 anos, a Inquisição, em todo o império português, elaborou 40.000 processos. Desses, 24 mil resultaram em condenações. Entre essas, cerca de mil foram condenações à morte. Das condenações à morte, menos de 500 foram efetivamente executadas, isso ao longo de quase 300 anos, num território que cobria quatro continentes.

O raciocínio do jesuíta não é evidentemente o de minimizar a morte de seres humanos, mas sim de contrastar a Inquisição com a violência praticada nas sociedades européias dessa época.