terça-feira, 17 de julho de 2012

Dom Bux: a Igreja não é um concílio permanente

Nos últimos meses fiz algo que não é do meu feitio: passei a refletir com base nas últimas notícias (ou fofocas) do dia, entrando um pouco no clima da internet viral que critiquei recentemente. Fiz isso em relação à FSSPX e suas relações com o Vaticano, mas, como era de se esperar quebrei a cara. De uma posição bem favorável ao acordo, estou novamente ficando contra, já que percebo (com o Vatican leaks, com a nomeação de D. Di Noia para a Ecclesia Dei, com a de D. Müller para a Congregação para a Doutrina da Fé e com algumas conversas que tive recentemente com um padre polonês) que quando Bento XVI morrer vamos ver uma digladiação do poder entre progressistas libertinos com saudade do espírito do Vaticano II e neoconservadores saudosos de João Paulo II. Ou seja, há uma grande chance da resistência ter de voltar às catacumbas, e, por isso, uma FSSPX longe das formalidades castradoras seria um ótimo sinal de contradição para os modernistas.

De qualquer forma, engajado no debate em torno das novidades sobre esse assunto, surgiu a tradução de uma entrevista de D. Nicola Bux ao site Riposte cathollique, feita pela consócia Tânia Souza Machado, que agora posto aqui no blog (com algumas modificações):

Em uma entrevista exclusiva a “R.Catolique”, D. Nicola Bux, consultor de numerosas congregações romanas, homem de confiança do Santo Padre, nos confirma que a “análise crítica” do Vaticano II é legítima e que o papa deseja de todo seu coração a reconciliação com Econe.

1. D.Nicola Bux, o sr. publicou recentemente, em companhia do cardeal Brandmuller e de Mons. Marchetto um livro apresentando as chaves de Bento XVI para interpretar o Concílio. É um ponto sensível no processo de reconhecimento da Fraternidade de S. Pio X.

D. Bux: Uma correta hermenêutica é de resto a primeira chave dada por Bento XVI em seu famoso discurso na cúria romana sobre a interpretação e a ecumenicidade do Concílio Vaticano II. O renovamento ou a reforma não pode se operar na Igreja a não ser na continuidade à luz do binômio indissociável “nova et vetera”.

Ora, os documentos do Concílio são tirados do contexto da Tradição e usados freqüentemente como expressão de uma atualização que, em lugar de associar “nova et vetera”, mitificou o Vaticano II, retendo apenas a novidade. Assim o Concílio foi transformado numa espécie de ideologia, um “super dogma”, como disse o então cardeal Ratzinger aos bispos chilenos (em 13.7.1988).

Há a necessidade de uma apresentação histórica verídica do Concílio como instrumento de atualização no sentido de “renovação na tradição”.

Um aspecto geralmente abandonado na compreensão do Concílio é aquele do consenso, da maneira pela qual ele se forma. O caminho que ele leva passa através do diálogo entre opiniões diversas desembocando sobre a elaboração de uma síntese, ao menos no que concerne à doutrina não definida e ainda em desenvolvimento – as novidades não são necessariamente definitivas e irreformáveis, mas são orientações que o Magistério Pontifical Ordinário interpreta, precisa e desenvolve ulteriormente.

Deve-se ter em conta igualmente o fato de que os documentos conciliares não são todos, entre eles mas também neles, da mesma natureza. A este respeito eu não vejo porque o CVII escaparia à analise crítica à qual foram submetidos os precedentes concílios.

2. Na nota para a congregação para a doutrina da fé explicando a nomeação surpresa de Mons. Di Noia para a vice-presidência da Comissão Ecclesia Dei, ele afirmou que “a nomeação de um prelado desta linha(arcebispo) a um tal posto” pelo papa representava um “sinal da solicitude pastoral para com os fiéis tradicionalistas em comunhão com a sé apostólica, mas também de seu vivo desejo de ver reconciliadas as comunidades não em comunhão”. Mons. Di Noia é o homem escolhido pelo papa para chegar ao reconhecimento da FSSPX?

D. Bux: Não há nenhuma dúvida a ter sobre as intenções do S. Padre que tem no coração a reconciliação e a unidade dos cristãos. Todo católico, como sugeri precedentemente, deve amar a tradição e é por este fato tradicional. Por outra parte, na Igreja, qualquer um que recebe um encargo não é para promover suas idéias, mas para servir à verdade, em plena fidelidade ao ensinamento do Sumo Pontífice.

Para este efeito, temos necessidade de uma segunda chave, para interpretar não somente o Concílio, mas também toda a vida da Igreja: aquela da Fé. Não é por acaso que Bento XVI escolheu de promulgar um ano da Fé. Na realidade, para que deve servir o debate sobre o CVII se não for para redescobrir a natureza do cristianismo, necessário à salvação do homem? Pela inteligência da fé, os cristãos devem concorrer para a inteligência da realidade. Eis o conteúdo essencial da fé da qual o Papa compreendeu toda a urgência que ele tem de reafirmá-la face às concepções que reduzem a fé a um discurso, um sentimento ou uma ética.

Nós devemos rezar para que todos na Igreja sejam dóceis ao Espírito Santo, espírito de unidade.

3. Mons.Fellay, superior geral da FSSPX, é a este título depositário do carisma específico da herança de D. Lefebvre, se expôs muito para permitir as condições de uma reconciliação. O sr. pode confirmar que o que deseja o Santo Padre não é negar a singularidade da FSSPX, mas de colocá-la ao serviço da Igreja?

D. Bux: Na carta aos bispos escrita por Bento XVI por ocasião da revogação das excomunhões dos bispos lefebvristas, o Papa demonstrou que ele conhecia bem e que amava esta larga franja de fiéis que são também seus filhos. Os passos preenchidos pelo papa são inspirados pela “paciência do amor”, que segundo S. Paulo, deve caracterizar todo discípulo de Jesus. D. Fellay, ele também, demonstrou estar animado por esta mesma virtude e não duvido que a maior parte da Fraternidade, bispos e padres, saberá imitá-lo, preservando-se do orgulho inspirado pelo maligno. Sigamos Jesus que é doce e humilde de coração. Todo bispo, todo padre, todo cristão, deve ter no coração a unidade, porque é o bem mais precioso, segundo S. João Crisóstomo. Foi para ao preço do muito precioso sangue de Nosso Senhor, que justo antes de sua Paixão, precisamente rezou: “Que eles sejam um”.

Enfim, enquanto alguns caem no erro, a Igreja é indefectível, porque Jesus a fundou sobre a rocha da fé que representa Pedro. Sua unidade é “inamissibilis” não poderá jamais se desfazer porque ela é como a túnica do Cristo, exposta solenemente este ano em Treves: sem costura, de um só pedaço. As divisões entre cristãos não podem destruir a unidade da Igreja.

O primado do Papa é superior ao Concílio. E a Igreja não é um concílio permanente. A Pedro e a seus sucessores o Senhor deu o poder das chaves: de ligar e desligar sobre a terra, o que ele liga e desliga simultaneamente no Céu.

Por felicidade, além da Escritura, os católicos têm na pessoa do Papa um anticorpo visível contra o conformismo: como o escreve Dante na Divina Comédia, nós temos “o pastor da Igreja para nos guiar; isto é suficiente para a nossa salvação”.

Que a Santa Virgem, - como lhe pede atualmente o Santo Padre – faça com que a Fraternidade S.Pio X acolha com confiança a reconciliação que lhes é oferecida pelo papa e possa conhecer assim um novo vôo para o bem de toda a Igreja Católica.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Uma conversa sobre racismo

O blog Acção Integral publicou recentemente um documentário interessantíssimo chamado Uma conversa sobre racismo, que vou reproduzir aqui. Ao contrário do que parece à primeira vista, não foi o tema do racismo que me chamou a atenção nele, mas o fato dele mostrar como a falta de reflexão sobre o que é absorvido diariamente se tornou a regra em nossas sociedades. Apreciem sem moderação:




Sobre virais, Crapbook e Twiiiitter

Thiago, você viu o novo viral na internet?

Fui interpelado assim por um amigo alguns dias atrás. Confesso que estou meio por fora desse vocabulário contemporâneo, e só fui atentar  para o que ele estava dizendo algum tempo depois, ao fazer associações analógicas. Virais são os hits (anos 80), as coqueluches (anos 70), diárias na rede; em geral um vídeo babaca, uma foto constrangedora, ou uma pequena notícia sobre a vida babaca e constrangedora de um artista.

Realmente vivemos tempos estranhos.

Nunca entendi o uso que muita gente faz da internet. Talvez eu tenha ficado velho antes do tempo... Na minha época de adolescente, na segunda metade dos anos 90, havia uma enorme dificuldade para manter contato com pessoas com valores e pensamentos semelhantes aos meus, ou mesmo para obter informações sobre as coisas que me interessavam. Uma revista Veja ou Geográfica Universal com meses de defasagem, ou a edição anual do Almanaque Abril, eram um tesouro; encontrar outro direitista católico, um sonho.

Por isso, quando comecei a usar a internet com constância, por volta de 2001, não perdi tempo com banalidades, embarquei de cabeça na leitura de blogs, sites, nos debates em fóruns (mais tarde, nos debates no Orkut) e na troca de e-mails. Sempre fiquei ao largo de uma utilização, digamos, mais recreativa da net, entendendo, porém, que ela tinha espaço e direito de existir, mas que era claramente acidental.

Como estava enganado...

A popularização do acesso à rede, como toda massificação não direcionada, logo deu espaço para que a sensibilidade desregrada das pessoas passasse a dar as cartas, de modo que o compartilhamento de futilidades, as conversas no estilo mongolóide, ou as discussões fugazes (na medida em que é quase impossível recuperá-las meses ou anos depois) se tornaram a referência. Daí o sucesso de ferramentas que primam pela acefalia, como o Twiiiitter:


ou o Crapbook, e o fato das pessoas ficarem ávidas pelo viral do dia. O pior, no caso do Crapbook, é que muitos de seus usuários se acham "a bala que matou Kennedy" (recentemente isso também ficou patente no caso de um aplicativo para celulares chamado Instagram), e repetem, para desqualificar outras redes sociais, o discurso do preconceito social pelo qual nosso país é tão mal afamado. Supondo que todos eles sejam "não favelados", a conclusão lógica é que a massificação não nivelou por baixo a interação virtual por causa da entrada de pessoas de outras classes sociais, mas devido à entrada de pessoas com preguiça mental.

Recentemente também comecei a notar que a falta de critério no uso da web viral está levando as pessoas a uma espécie de esgotamento nervoso. São tantas as pequenas atualizações que muita gente fica incomodada ao topar com algo mais longo e que demanda concentração para ser entendido. Li em algum lugar que o ser humano perdeu certas habilidades cognitivas quando as sociedades passaram a guardar e repassar informações pelo meio escrito ao invés de usar a memorização e a oralidade. Não sei se isso é verdade, mas parece que o mesmo processo está se dando atualmente... só que pior, já que o ser humano plugado cada vez mais é um indivíduo que fala, escreve e pensa de modo desarticulado, que vive no imediatismo (não lembra do contexto em que atua) e que necessita de um reconhecimento rasteiro do outro para melhorar a autoestima (ou seja, está contaminado por um grau elevado de vaidade).

Decidi continuar longe disso tudo enquanto for possível.

sábado, 7 de julho de 2012

A partícula de Deus

Uma reflexão séria sobre o tema pode ser lida aqui.

terça-feira, 3 de julho de 2012

O final da guerra

Quando terminou mesmo a Segunda Guerra? Em 8 de maio de 1945, quando a Alemanha assinou a capitulação incondicional? Ou em 2 de setembro, quando o Japão se rendeu? Ou muito depois disso?

Esse é um impressionante simbolismo na escolha dos dois últimos papas, os primeiros "estrangeiros", isto é, não-italianos, em 450 anos.

A Segunda Grande Guerra começou justamente quando a Alemanha, autorizada pela Rússia e com ela acumpliciada, invadiu a Polônia - a pobre Polônia, cuja história é um desfilar de sofrimentos, esmagada entre as potências de dois grandes vizinhos, os quais, ora um ora outro, adentraram seu território, dividiam seus espaços e até a suprimiam do mapa. Em 1939 os dois se juntaram, no surpreendente Pacto Ribentrop-Molotov e, mais ainda, no seu anexo secreto, em função do qual invadiram-na, a Alemanha por um lado e a Rússia pelo outro.

Ora, o primeiro Papa estrangeiro depois de 4 séculos, os cardeais foram buscar na Polônia oprimida, na Polônia esmagada, na Polônia cuja dor provocara a reação dos inigualáveis ingleses e que, 50 anos depois, ainda continuava sufocada pelo outro aliado do pacto de 39, os russos comunistas, que mantinham sob seu tacão toda a Europa Oriental. A eleição de Wojtyla bem parece o ressurgimento da Polônia. E, de fato, foi. Tanto que suas visitas à terra natal (as quais os russos lucidamente tanto instaram para o governo polonês impedir) terminaram por provocar a queda do regime comunista na Polônia e, num castelo de cartas, também nos outros países do Leste Europeu, e até do Muro de Berlim e a reunificação alemã. O ressurgimento da Polônia não se deu, ao cabo, em 45, quando a Alemanha se rendeu, mas agora, muito depois, quando um polonês ascendeu ao papado e se transformou no primeiro papa estrangeiro depois de 450 anos.

Por outro lado, a reconciliação da Alemanha com o mundo - ou seja, com a história, com a civilização, com o humanismo - só aconteceu mesmo com a escolha do segundo papa estrangeiro, o Papa... alemão, esse notável Ratzinger, hoje Bento XVI. Não podia decorrer a reconciliação apenas do progresso alemão, do seu ressurgimento material, de sua riqueza líder na Europa, nem de sua atual prática democrática. Somente com a ascensão do Papa bávaro, pode-se dizer que a Alemanha foi, finalmente, reintegrada à comunidade das gentes. E então, agora, com esses simbólicos papas estrangeiros, a Segunda Guerra afinal terminou. 

- José Luiz Delgado (Jornal do Commercio, Recife, 03 de julho de 2012 - com pequenas modificações)