quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Missa cantada de Réquiem em Recife

Filmagem da primeira Missa cantada de Réquiem em quase 50 anos na cidade de Recife: vejam aqui.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

De como criar uma perseguição fantasiosa do nada

No último dia 19 de novembro do corrente ano, ao abrir o jornal de manhã (Jornal do Commercio) me deparei com a notícia da morte de um jornalista goiano (Lucas Fortuna, 28 anos) na praia de Gaibu, município do Cabo de Santo Agostinho. Ele foi encontrado trajando apenas uma cueca, com sinais de espancamento e muito sangue pelo corpo. Lucas tinha vindo a Pernambuco para atuar como árbitro num campeonato de voleibol e acabou assassinado. Até aí nada incomum, seria mais um caso absurdo de violência como os que vemos todo dia.

Contudo, a matéria começou a fazer ligações estranhas. Primeiro ela relatou que o jornalista era um militante gay ligado ao PT no seu estado de origem, tendo sido o fundador do Grupo GLBT Colcha de Retalhos na UFG. Logo em seguida, éramos informados da repercussão nas "redes sociais" e do fato de um professor da citada universidade (Juarez Ferraz) ter afirmado suspeitar de um "crime homofóbico". Daí uma ativista gay era entrevistada, dizendo-se chocada. Ou seja, do nada, totalmente do nada, surgiu a tese de que se tratava de um "crime homofóbico". É como se eu pegasse um assassinato de um católico e dissesse que se trata de um crime de ódio religioso, ou de um negro e dizer que é o resultado do racismo. Um completo non sense.  

Comecei a pensar e logo lembrei que essa tese se tornava mais absurda ainda se levarmos em consideração que a praia de Gaibu atualmente é conhecida como Gaybu, pois virou um point de pegação homossexual (um local para flertes e sexo descompromissado), isto é, seria mais fácil outro gay ter matado Lucas que pensar num homofóbico doentio escondido no meio dos gays a espera de uma vítima. Resolvi esperar para ver se o provável se confirmaria, ou se, de fato, teríamos algo sui generis nessa morte gratuita.

Nesse meio tempo, o "movimento gay" e delirantes associados (como grupos do "movimento estudantil") resolveram fazer barulho, procurando lucrar politicamente com essa morte (até chegaram a associá-la ao caso de  Matthew Shepard nos EUA).

Todavia, o próprio pai do rapaz ao ser entrevistado disse o seguinte (Jornal do Commercio, 20 de novembro):

Alguém já deu algum detalhe sobre o caso?

Me disseram que ele foi encontrado na praia, com sinais de violência. Como era homossexual, existe suspeita de que seja caso de violência homofóbica.

O senhor acredita?

Prefiro não levantar bandeiras para não cometer mais injustiça.

O que o senhor gostaria de pedir à polícia?

Que essa morte sirva para todos refletirem sobre o que estamos permitindo que aconteça. Homossexual ou não, ele tinha uma vida pela frente. Infelizmente, não foi dada a ele a chance de prosseguir. 

Mais equilíbrio de quem deveria estar mais desequilibrado impossível!

Não foi sem surpresa, portanto, que o resultado do inquérito policial contrastou totalmente com a tese dos militantes homofascistas: um outro gay, após fazer sexo com Lucas, matou-o para roubá-lo. Vejam como o Diário de Pernambuco (6/12) publicou a conclusão da investigação:

De acordo com a delegada Gleide Ângelo, do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP), na noite de 18 de novembro, Lucas Fortuna teria saído da pousada acompanhado por dois desconhecidos em direção às pedras da praia de Calhetas, onde um deles teria mantido relaxões sexuais com o consentimento da vítima. Em seguida, a dupla teria assaltado o jornalista. Insatisfeitos em roubar o celular e vinte reais que estavam na carteira do jovem, os criminosos teriam espancado o rapaz e o jogado no mar para que pudessem ter tempo de entrar no quarto e roubar os pertences da vítima.

Após o crime, os homens ainda teriam trocado de roupa e tentado entrar no quarto da pousada, usando a chave roubada. A entrada no estabelecimento, no entanto, não teria sido permitida pela recepcionista.

Aqui um vídeo:


Infelizmente, também não foi sem surpresa que li que os representantes do "movimento gay" disseram que "foi homofobia sim", tal qual uma criancinha batendo o pezinho, e foram para uma praça do centro do Recife fazer uma "vigília".

Fica claro, portanto, como esse povo é pilantra, como tentam ter ganho político em cima de tudo, até de uma mentira (e uma mentira improvável). Todo cuidado com eles é pouco.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Língua falada e língua escrita

A linguagem falada é popular. A linguagem escrita é aristocrática. Quem aprendeu a ler e a escrever deve conformar-se com as normas aristocráticas que vigoram n'aquele campo aristocrático.

A linguagem falada é nacional e deve ser o mais nacional possível. A linguagem escrita é – ou deve ser – o mais cosmopolita possível. Philosopho deve escrever-se com 2 vezes PH porque tal é a norma da maioria das nações da Europa, cuja ortografia assenta nas bases clássicas ou pseudo-clássicas.

- Fernando Pessoa in «Pessoa Inédito» (via Acção Integral)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O conceito de sabedoria no Antigo Testamento

Artigo do Frei Geraldo de Araújo Lima, O. Carm., publicado no jornal A Partilha (Paróquia do Sagrado Coração Eucarístico de Jesus - Espinheiro, Recife/PE) em agosto de 2009 (mantive as traduções bíblicas dele, mas mudei a numeração dos versículos e/ou capítulos para as da Vulgada, bem como coloquei a indicação dos capítulos e livros em algarismos romanos):

Trata-se de um conceito bastante complexo, difícil de ser enquadrado nos nossos esquemas mentais. Efetivamente, sabedoria pode significar a perícia de um artista, como os que fizeram as vestes da Aarão (Êx. XXVIII, 3), ou os carpinteiros que construíram o Tabernáculo (Êx. XXXI, 3-5; XXXVI, 1). Pode denotar a habilidade de uma carpideira profissional (Jr. IX, 16-17) ou de um marinheiro tarimbado (Sl. CVII, 27). O sábio tanto pode ser um conselheiro real (Est. I, 13), como também uma simples mulher astuta (II Sm. XX, 16).

A sabedoria também possui um intenso aspecto religioso, identificando-se com o temor do Senhor (Pr. I, 7). De alguma maneira, ela é divina (Pr. VIII, 22-23; Sb. VII, 25-26; Eclo. XXIV, 3).

As inúmeras facetas da sabedoria não entram num esquema lógico. Aqui abordaremos apenas algumas indicações da variedade dos seus usos dentro da própria literatura sapiencial bíblica.

I - Sabedoria e experiência

É justamente na área da experiência e da observação que uma certa perspicácia chega a ser reconhecida como sabedoria. É a "sabedoria experimental"; ou como diria Camões: "o saber de experiências feito". Ela resulta do posicionamento do homem diante da realidade em vários níveis. Quando o sábio escreve: "A arrogância prece de a ruína" (Pr. XVI, 18), ele está simplesmente se baseando na observação prática. Note-se, com freqüência, na Bíblia um paralelo entre as ações da natureza e a conduta humana. Por exemplo: o que dizer do homem que "promete mas não cumpre? E semelhante a nuvens e vento não acompanhados de chuva" (Pr. XXV, 14). Embora Israel nunca tenha desenvolvido uma atitude científica com relação à natureza, os fenômenos observáveis se tornaram um quadro acessível de referência para comparações com a conduta humana: "Anda, preguiçoso, olha a formiga, observa o seu proceder, de torna-se sábio" (Pr. VI, 60.

II - Sabedoria, conduta moral e retribuição

A conexão entre sabedoria e virtude é frequentemente enfocada na Bíblia, e de maneira bastante clara. Basta que se leia Pr. X, 22 para se observar o contraste entre o justo e o perverso: "Com a bênção dos justos prospera a cidade; pela boca dos ímpios ela se destrói" (Pr. XI, 11).

Foi precisamente a partir do exílio na Babilônia, com a dolorosa lição do desastre nacional, que a sabedoria passou a adquirir cada vez mais um caráter moral e ético. Talvez o melhor exemplo de tal desenvolvimento seja a introdução aos Provérbios (Pr. I, 8), escrita depois do exílio. A sabedoria tornou-se "temor do Senhor" (Pr. I, 7). O sábio incentiva o jovem a entender "a justiça e o direito, a retidão e todos os caminhos da felicidade" (Pr. II, 9), "a confiar no Senhor com todo o coração" (Pr. III, 5). O sucesso do sábio não é um mero resultado feliz em alguma aventura, mas "favor e bom sucesso aos olhos de Deus e dos homens" (Pr. III, 4).

Sabedoria significa, sobretudo, vida (Pr. VIII, 35). Os detalhes da vida diária constituem a matéria prima da moralidade. Por este motivo, qual deveria ser a avaliação das más companhias? Responde o sábio: - "Quem caminha com os sábios torna-se sábio; quem se ajunta aos insensatos torna-se mau" (Pr. XIII, 20). Que males a inveja e o ciúme poderiam acarretar a uma pessoa? -  "Um coração bondoso é a vida para o corpo, mas a inveja é a cárie para os ossos" (Pr. XIV, 30). A que fim o orgulho nos conduz? - "O orgulho do homem o humilha, mas o espírito humilde torna-o honrado" (Pr. XXIX, 23). E o que pensar das meretrizes? - "A prostituta é a cova profunda, e a estranha, um poço estreito. Como um salteador, ela também fica espreitando, e entre os homens multiplica os infiéis" (Pr. XXIII, 27-28). Além disso, a experiência corrobora a ordem moral: "O homem misericordioso faz bem a si mesmo; o homem cruel destrói sua própria carne" (Pr. XI, 17). Muitas ações especificamente imorais são condenadas, como: o ganho injusto (Pr. X, 2-3), o falso testemunho (Pr. XV, 18), o suborno (Ez. XXII, 12), a mentira e a bajulação (Pr. XVI, 28). Por outro lado, certos ideais morais são inculcados, tais como: a piedade para com o indigente (Pr. XIV, 31), o temor no Senhor (Pr. XIX, 23), a confiança em Deus (Pr. XVIII, 25).

A recompensa prometida àqueles que adquirem a sabedoria está expressa no conceito de vida: "Na senda da justiça está a vida; o caminho dos ímpios leva à morte" (Pr. XII, 28). A consecução da sabedoria e da virtude está associada com a "árvore da vida" (Pr. XI, 30; XIII, 12; XV, 4), com o "caminho da vida" (Pr. VI, 23; XV, 24) e com a "fonte da vida" (Pr. X, 11; XVI, 22).

Embora não esteja envolvida neste conceito, a noção de imortalidade pessoal é susceptível de desenvolvimento. E tal desenvolvimento levou Israel a descobrir que o Xeol (= "mansão dos mortos") permanece aberto diante do Senhor (Pr. XV, 11), o qual não abandona o seu fiel (Sl. L, 16; LXXII, 23-28). E quando chega à triunfante afirmação da imortalidade, está é expressa de um modo tipicamente israelita: a imortalidade não é uma conseqüência da natureza humana (alma imortal), mas é "a justiça que é imortal" (Sb. I, 15). A união com o Senhor nesta vida, simplesmente haverá de perdurar!

III - A sabedoria e Deus

No pensamento israelita primitivo, a sabedoria pertence ao nível humano, não ao nível divino. Javé "faz o sábio" ou "dá a sabedoria", do mesmo modo como "faz o rico" ou "dá a riqueza".

Com o progresso da revelação, a sabedoria começou a ser atribuída a Deus (Jó XII, 13; Dn. II, 20); tornou-se uma característica de Sua atividade criadora (Sl. CIII, 24; Pr. III, 19). Começava então aquilo que se convencionou chamar de "teologização da sabedoria". Não existe uma pronta explicação para tal desenvolvimento; todavia, dentre os dados fornecidos pelo Antigo Testamento, a inacessibilidade ou transcendência da sabedoria pode ser tomada como um ponto de partida.

Tal características parece estranha diante da visão prática da sabedoria apresentada em Pr. I, 9, convidando homens a conquistá-la; mais ainda: convidando os próprios sábios a adquiri-la. A inacessibilidade é frequentemente inculcada: conforme Jó XXVIII, a sabedoria não pode ser encontrada em nenhum lugar da criação. Somente Deus conhece o caminho para se chegar a ela, e mais ninguém.

Naturalmente, a razão desta intangibilidade é porque ela é divina, gerada desde a eternidade (Pr. VIII, 23-24), "saída da boca do Altíssimo" (Eclo. XXIV, 3), "emanação puríssima da glória do Onipotente" (Sb. VII, 25).

A sabedoria não é apenas apresentada como procedente do Altíssimo, mas também como ativo "artista" na criação (Pr. VIII, 30; Sb. IX, 9). Tais descrições levantaram o problema da sabedoria como pessoa. Ela parecer ser uma personificação, exatamente como outros aspectos de Deus são personificados no Antigo Testamento: sua Palavra (Is. LV, 10-11) e seu Espírito (Is. LXIII, 10-11).

A identificação da sabedoria com o Espírito de Deus é particularmente clara no livro da Sabedoria. Ela é chamada de "o Espírito Santo da disciplina" (Sb. I, 5), o qual foge da duplicidade. Em Sb. IX, 17-18, ela é colocada em paralelo com "o Espírito Santo enviado dos céus", que revela os conselhos de Deus aos homens e assim os salva.

Comentando o belíssimo elogio da sabedoria em Sb. VII, 22-28, a Bíblia de Jerusalém conclui: "Este elogio da Sabedoria, que participa da intimidade de Deus, que possui Sua onipotência e que colabora com Sua obra criadora, já anuncia toda uma teologia do Espírito a quem ela é assimilada e do qual ela recebe as funções tradicionais; anuncia sobretudo a cristologia de João, de Paulo e da Carta aos Hebreus". 

Realmente, Paulo não tem o menor receio em identificar Cristo com a Sabedoria:

"Nós anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gregos é loucura, mas para aqueles que são chamados tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (I Cor. I, 23-24).

No prólogo do seu Evangelho, João parece ir ainda mais longe ao afirmar: "No princípio era o Verbo (= Logos, a Sabedoria), e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo. I, 1.14).

A partir daí não há mais nada a dizer, somente bendizer!


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tempo tríbio: de Burke a Gilberto Freyre

Texto que escrevi para a última edição da ótima Revista Vila Nova, reunindo algumas reflexões próprias com as dicas de leitura do confrade Fernando Carvalho numa comunidade do Orkut:

Um dos maiores problemas que encontramos no quadro institucional de nosso país é a falta de compromisso dos políticos com as ideias que dizem defender, de modo que ao se votar num socialista muitas vezes estamos escolhendo apenas mais um exemplar do velho coronelismo e ao se votar num liberal apostamos num defensor de todas as formas de mal corporativismo. Para quem é católico, isso até acarreta uma complicação extra, já que o uso dos referencias dados pelo Magistério da Igreja para a arte de governar fica condicionado à reflexão sobre o que as coisas são na realidade, pois, simplesmente, não é prudente uma aplicação direta baseada em rótulos.

De qualquer forma, mesmo com toda a sua esquizofrenia, esse quadro não consegue absorver a corrente de opinião mais próxima daquilo que o Brasil profundo valoriza: o conservadorismo. A sabotagem em torno dela é tão grande, que é como se a mesma não existisse; o conservadorismo não é considerado uma opinião, uma postura legítima, mas um conjunto de tabus. Todavia, as oportunidades em que o povo se manifestou com liberdade, como no caso do referendo sobre o desarmamento, mostram que nossa alma não tem nada de revolucionária, ela quer a permanência daquilo que com sucesso as gerações anteriores nos legaram e, no que pode ser mudado, prudência e comedimento.

Teoricamente, o conservadorismo moderno começou com a obra Reflexões sobre a revolução na França (1790), do político e pensador anglo-irlandês Edmund Burke, e se desenvolveu ao longo de todo o século XIX e XX como uma vertente política contrária às utopias. Mais tarde, o filósofo americano Russel Kirk formulou uma lista de 10 princípios que resumem a marcha do conservadorismo em tantas décadas e que pode facilmente ser encontrada na internet numa tradução feita pelo famoso Pe. Paulo Ricardo. Pois bem, dessa lista se infere que uma das principais características do conservador é valorizar as lições do passado para bem viver o presente e planejar o futuro, e isso, sem surpresa alguma dada a genialidade do autor, casa com perfeição no conceito de tempo tríbio do intelectual pernambucano Gilberto Freyre.

Segundo o Mestre de Apipucos:

“Pois o presente (…) é um presente sempre em expansão, para trás e para adiante. Tanto evoca quanto profetiza. A ciência que se considere Futurologia – ciência relativa – tende a ser uma disciplina da tendência humana para a profecia, em ligação com a tendência, também muito humana, para a evocação; e, sem que falte qualquer dessas tendências o terra-a-terra da observação da realidade imediata. Realidade imediata na qual se cruzam sobrevivências e antecipações. O homem nunca está apenas no presente. Se apenas se liga ao passado, torna-se arcaico. Se apenas procura viver o futuro, torna-se utópico. A solução para as relações do homem com o tempo parece estar no reconhecimento do tempo como uma realidade tríbia; e como o homem vive ele mesmo imerso no tempo, ele próprio é um ser – um estar sendo, diria talvez Gasset – tríbio” (FREYRE, Gilberto. Futurologia. In: Antecipações. Recife: EDUPE, 2001, p. 171 – Coleção Nordestina).

Temos aqui uma tentativa de humanização da noção de tempo, uma tentativa de distinção entre o tempo biológico e o tempo físico-matemático. “Tempo tríbio”: tempo resultado do ciclo biológico, em sua inexorável ordenação do “antes” e do “depois”. Do “antes” que se aproxima irresistivelmente para a transformação em “depois”, dando-nos ilusão análoga à de todo sistema em movimento, a ilusão de um movimento exterior, em sentido oposto. Vemos o tempo avançar sobre nós, vindo do “futuro”, para perpassar, fugaz, e precipitar-se em passado, quando nós avançarmos para ele, avançarmos para o que não é, vindos do que passou para o que está passando, e arrasta o que virá de imediato, puxando depois de si outros porvires. Esses tempos, não é a mensuração que os cria, nem é, na verdade, a mensuração que os rege. Também a mensuração é nossa, é ato, é manifestação de dinâmica e, afinal, de vida. Desta muito prezada e muito precária humana vida nossa (DANTAS, Pedro. Depoimento sobre Gilberto Freyre. In: Convivência. Rio de Janeiro, n. 2, 1976/1977, pp. 34-39).

Passado, presente e futuro, nessa perspectiva, articulam-se e influenciam-se mutuamente. O tempo social os encontra com a predominância ora de um, ora de outro, mas sem abdicar de nenhum, pois além de sermos viventes, somos conviventes. Convivemos com o legado de nossos ancestrais e convivemos com as repercussões ou precipitações do possível.

O conceito, então, fala por si no que tange à sua relação com o conservadorismo, mas eu gostaria de ressaltar que a genialidade de Freyre a que fiz referência converge para tal corrente de pensamento devido a uma característica que as une numa base anterior a da teorização: o realismo. Tanto o pensamento de Gilberto Freyre quando o conservadorismo são realistas, rejeitam tanto a utopia quanto o saudosismo caricato, pois, nestes dois casos, o que temos são posturas artificiais. As transformações das estruturas sociais, econômicas e políticas devem beber em elementos do passado com capacidade de permanência (REBELO, Aldo. Cem anos de Gilberto Freyre. Um homem que entendeu o Brasil.), ou a renovação será uma aposta arriscada, como provaram as tentativas de engenharia social do século passado (vinculadas a regimes autoritários) e a quase anomia pela falta de nexos de união em que o antigo Ocidente foi jogado pelo liberalismo (isso pode ser facilmente verificado pela inflação normativa que atinge os países dessa parte do mundo). Para os conservadores ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício, de modo que sua manutenção requer cuidados sérios, não se podendo “brincar” nesse âmbito, sob a pena de ver tudo desmoronar com rapidez. O governo da civitas, mediante esse tratamento, inclui, nos seus domínios, o que deve ou pode vir a ser, tanto quanto o que é e o que foi.

Tal característica também é convergente com a Doutrina Social da Igreja, que desde a Rerum Novarum (encíclica de Leão XIII que iniciou a reflexão sobre a aplicação do Evangelho aos problemas socioeconômicos do mundo moderno) rejeita com a mesma ênfase as falsas soluções do marxismo, com sua negativa de direitos naturais, como o de propriedade, e o canto de sereia do dinheirismo capitalista, com sua postura contrária à tendência cooperativista da dinâmica social (presente em entidades como a família e os sindicatos, por exemplo). Observem que a tônica em ambas as rejeições deve-se ao apego à realidade, pois esta nos mostra que a propriedade é nada mais que o trabalho acumulado e que a perspectiva de ver o esforço transformado em algo duradouro é um dos principais motivadores da responsabilidade entre os homens, e que a fragilidade de nossa condição neste verdadeiro “vale de lágrimas”, como diz a Salve Regina, pede a ajuda mútua.

Vemos, portanto, que não precisamos recorrer só a autores estrangeiros para formular uma aplicação nacional do conservadorismo na sua vertente cristã. Aliás, como já fiz referência, nesse caso não estaríamos tratando de algo puramente teórico, na verdade teríamos uma mera interpretação daquilo que é percebido, sentido e vivido pela maioria silenciosa de nosso país. Teríamos uma construção em cima do que é real, e não uma tentativa de modificar a sociedade com base numa proposta abstrata. O conservadorismo não é uma ideologia, mas um tipo de olhar sobre a ordem social como ela é de fato.

E Gilberto Freyre, nesse sentido, foi um verdadeiro intérprete do Brasil, num tempo em que isso soava transgressor, mas que, na verdade, apenas era a reação a ideologias revolucionárias de toda ordem (positivismo, racialismo, liberalismo, etc.) que infestavam nossa vida social e geravam toda sorte de rejeição internalizada do que era próprio da terra. Sim, o Mestre de Apipucos, mesmo usando roupa de hippie, foi um reacionário, pois reacionário é aquele que reage!

Será, então, que o caráter cínico que as eleições assumiram não deriva do fato de que nenhum candidato tenta interpretar a alma nacional? Será que decisões judiciais e leis que fazem pouco de nossas raízes, isto é, não convivem com os que nos legaram a pátria, não são também causa do sentimento de injustiça que assola o país? Um futuro que se constrói em descompasso com o presente e o passado não já está mandando recados de que se será desastroso?

Todas essas são questões que Burke tentou responder na sua época para seu contexto particular e que agora nos afligem com força maior. Hoje, contudo, podemos ir além, podemos ir “além do apenas moderno”, pois no pensamento de Freyre encontramos sugestões fecundas, caracterizadas pela agilidade e liberdade de uma concepção fenomenológica que não se deixa amarrar a uma tese fixa e imutável (DANTAS, Pedro. 1976/1977, pp. 34-39), mas tira da mobilidade sua força e capacidade de interpretação. Vamos, então, ficar parados, ou reagir?

Beicinho requentado

Uns 8 anos atrás, logo nos primeiros debates em que me envolvi no Orkut, um dos argumentos usados pelos tradicionalistas mais radicais (que hoje chamo de traditional borings) para criticar o Papa João Paulo II era o fato dele ter como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé um teólogo que duvidava da Presença Real ao escrever que as visitas ao Santíssimo numa igreja não faziam sentido. Para provar isso, eles traziam uma citação da obra Die Sacramentale Begründung Christliche Existenz que dizia o seguinte:
A devoção eucarística ou visita silenciosa à igreja não pode ser considerada uma conversa com Deus. Isso supõe que Deus esteja presente de maneira local e circunscrita. Afirmações do tipo “Deus mora aqui” e conversas com o Deus que se imagina estar naquele lugar, baseadas nesse modo de pensar, demonstram um equívoco, quanto ao evento cristológico e à idéia de Deus, que necessariamente repugna ao homem inteligente, sabedor da onipresença de Deus. Se alguém justificasse sua ida à Igreja com o argumento de que se deve visitar ao Deus que somente ali se faz presente, essa seria uma justificativa que não faria nenhum sentido e seria com toda razão rejeitada pelo homem moderno.
De fato, o texto soava bem estranho a tudo aquilo que se possa chamar de católico. Se não fosse pela margem de dúvida derivada do fato de ninguém parecer ter acesso ao original e de, se tivesse, a tradução ser complicada (já que ele estaria em alemão), o assentimento a essa crítica poderia ter tragado muitas almas para o erro do sedevacantismo no momento em que Ratzinger se tornou Bento XVI. Felizmente, no Seu tempo, o Senhor enviou uma resposta para esclarecer essa celeuma.

Não foi sem surpresa, portanto, que me deparei recentemente com um novo debate onde a velha citação era requentada, seguindo a gritaria que alguns blogs estão fazendo (exemplos aqui e aqui). Vou, então, sistematizar uma resposta, seja para responder a onda atual quanto para responder às ondas futuras (pois esse tipo de coisa sempre volta). 

Em primeiro lugar, no estilo de escrita de Ratzinger, que segue o de escolas filosóficas diferentes da aristotélico-tomista, não cabe a análise de trechos isolados do quadro argumentativo em que os mesmos se inserem (é como uma perícope na Bíblia). Não dá para buscar o significado das frases em si mesmas, o real sentido delas é dado a partir de uma leitura sistemática. Infelizmente muitos católicos parece que não sabem ler nada no âmbito religioso que não esteja escrito num estilo de catecismo de perguntas e respostas.

Em segundo lugar, mesmo que Ratzinger tivesse afirmado algo assim, como Papa o ensino dele seria bem diverso, tal qual se pode notar no que foi ensinado na sua primeira mensagem oficial (20/04/05):
De maneira mais do que nunca significativa, o meu Pontificado começa no momento em que a Igreja está a viver o especial Ano dedicado à Eucaristia. Como não tirar desta providencial coincidência um elemento que deve caracterizar o ministério para o qual fui chamado? A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi oferecido.

A Eucaristia torna constantemente presente Cristo ressuscitado, que continua a oferecer-se a nós, chamando-nos a participar da mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da comunhão plena com Ele brotam todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anúncio e testemunho do Evangelho, o fervor da caridade para com todos, especialmente para com os mais pobres e pequeninos.

Por conseguinte, neste ano deverá ser celebrada com particular relevo a Solenidade do Corpus Domini. Depois, a Eucaristia estará no centro, em Agosto, da Jornada Mundial da Juventude em Colônia, que se desenvolverá sobre o tema: "A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja". Peço a todos que intensifiquem nos próximos meses o amor e a devoção a Jesus Eucaristia e que exprimam de modo corajoso e claro a fé na presença real do Senhor, sobretudo mediante a solenidade e a retidão das celebrações.

...

Peço isto de modo especial aos Sacerdotes, nos quais penso neste momento com grande afeto. O Sacerdócio ministerial nasceu no Cenáculo, juntamente com a Eucaristia, como muitas vezes realçou o meu venerado Predecessor João Paulo II. ‘A existência sacerdotal deve a título especial tomar «forma eucarística»’, escreveu na sua última Carta para a Quinta-Feira Santa (n. 1). Para esta finalidade contribui antes de mais a devota celebração quotidiana da sua santa Missa, centro da vida e da missão de cada Sacerdote. 
E o que vale é o ensino dele como Sucessor de Pedro no comando da Igreja universal.

Por último, e mais importante, ele não disse o que está dito na primeira citação! O texto completo (original em espanhol aqui e no anexo desta postagem) diz outra coisa, vejamos:
Não cabe dúvida: nossa piedade foi com freqüência um pouco superficial e motivou numerosos equívocos. A atitude crítica da consciência moderna pode fomentar uma sã purificação na autocompreenção da fé. Baste citar um exemplo, no que aparece claramente a crise e que dará luz sobre o sentido tão necessário de purificação A adoração eucarística ou a visita silenciosa a uma igreja não pode ser, em seu pleno sentido, uma simples conversa com o Deus que imaginamos presente a um lugar determinado. Expressões como «aqui vive Deus», e a linguagem com o Deus «local» fundado nelas, expressam uma idéia do mistério cristológico e de Deus que chocam necessariamente ao homem que pensa e conhece sua onipresença. Quando se funda o «ir à igreja» na obrigação de visitar ao Deus ali presente, este fundamento carece de sentido e pode ser recusado, com razão, pelo homem moderno. A adoração eucarística está unida ao Senhor que, por sua vida histórica e sua paixão, converteu-se em nosso «pão», isto é que por sua encarnação e morte se nos entregou. Dita adoração se refere, pois, ao mistério histórico de Jesus Cristo, à história de Deus com o homem, que se nos transmite no sacramento. E está unida ao mistério da Igreja: a relação com a história de Deus e os homens a põe em contato com todo o «corpo de Cristo», com a comunidade dos fiéis, através da qual Deus vem a nós. Deste modo, orar na igreja e na proximidade do sacramento eucarístico significa a encarnação de nossas relações com Deus no mistério da Igreja, como lugar concreto no que Deus se nos comunica. Este é o sentido de nosso ir à igreja: a imersão de mim mesmo na história de Deus com o homem, a única que me dá minha verdadeira condição humana e a única que me abre o âmbito de um autêntico encontro com o amor eterno de Deus. Porque este amor não procura um puro espírito isolado, que só seria um fantasma em comparação com a realidade do homem, senão que procura ao homem total, no corpo de sua historicidade, e lhe presenteia nos signos sagrados dos sacramentos a garantia da resposta divina que soluciona o problema do fim e plenitude de sua existência.
Está claríssimo: de forma alguma se nega a presença de Cristo no sacramento da Eucaristia, antes se aprofunda este mistério dentro da realidade eclesial. Agora, essa é uma clareza que só surge no contexto. Qualquer pessoa que saiba o mínimo do pensamento de Ratzinger sabe que ele desenvolveu uma eclesiologia centrada na Eucaristia, de modo que seja natural que o teólogo tenha aprofundado suas reflexões sobre este sacramento.

Enfim, o texto está aí, não há espaços para ambigüidades. Não há heresia nenhuma, não há negação da Presença Real. O que existe, isso sim, é a pressa temerária de alguns em condenar seja quem for, é a loucura farisaica que parece ter tomado conta de alguns combatentes da resistência católica às diatribes do pós-concílio.

Visita_Santíssimo_Ratzinger.txt


Quebrando mitos no paraíso sueco

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