domingo, 13 de janeiro de 2013

A literatura deve pagar pelos pecados de Lobato?

Nunca gostei do politicamente correto, pois ele sempre me pareceu mais uma forma de besteirol esquerdopata que qualquer ser humano real não deveria levar a sério. Todavia, as pessoas o estão levando a sério (o que é um sinal inequívoco da deseducação que nosso sistema de ensino promove) e tornando-se censoras de si próprias e dos outros com uma facilidade inimaginável no passado. 

Comecei a pensar sobre isso após uma discussão recente com uma pessoa que tentava desmerecer toda a obra de Monteiro Lobato pelo fato de cartas pessoais dele, onde ideias eugenistas e de superioridade racial são defendidas, terem vindo a tona. Isso não faz o menor sentido. É um claro exagero e uma falta de discernimento, pois classificar a produção literária de Lobato como racista devido ao conteúdo presente nessas correspondências particulares é não entender que cada autor tem suas "rugas temporais", que nem sempre a vida dele se reflete na produção intelectual e que, finalmente, uma obra ao vir a lume pode ganhar sentidos completamente diferentes dos pretendidos pelo seu autor. O politicamente correto aqui mostra mais uma vez todo o "fundamentalismo" que o caracteriza.

Aristóteles, mais de dois mil anos atrás, chegou a comparar um "negro a um móvel", o que é um pensamento absurdo em qualquer circunstância, mas por isso vamos rejeitar a obra do Filósofo? Obvio que não. No caso de Monteiro Lobato o ponto é mais simples ainda, pois os escritos em que ele se mostrava racista são privados. Uma coisa é sua biografia, outra sua literatura. Mas tem quem veja num livro dele "falta de consciência ambiental" pois Pedrinho, Emília & Cia caçam uma onça...

Bianca Campello, mestre em letras pela UFPE, certa vez falou que no livro A reforma da natureza Tia Anastácia é convocada para reconstruir a Europa destruída pela guerra, e em O  Minotauro todo o enredo se concentra no resgate dela das mãos da criatura mitológica, e perguntou: "Um escritor racista iria destinar tanta importância a uma personagem negra?"

Ela também lembrou que a tentativa de censurar Lobato parece com o que está no livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, onde o título é uma referência à temperatura que o papel queima, num tempo onde os bombeiros existem não para extinguir o fogo, mas para incendiar livros. "Uma das justificativas é que o teor do que é escrito pode deixar as pessoas tristes. Algo como se os índios não concordassem com a descrição do personagem Sexta-Feira, em Robinson Crusoé, por exemplo."

Disse tudo. Não podemos ler o que foi escrito ontem com as lentes de hoje. Além de que o significado de um texto muitas vezes é atribuído pelo leitor; se ele lê algo com o intuito X, vai acabar encontrando o que quer.

2 comentários:

  1. Texto muito bom (como de hábito, em seu blog).

    Apenas um reparo, com a sua permissão: na verdade, o título do livro de R. Bradbury é "Fahrenheit 451". Esta é a temperatura de queima dos livros: 451, não 541, ok?

    Ademais, podemos extrapolar o raciocínio para todos os campos do conhecimento humano, de todos os tempos, além de Lobato. Como apreciador de música clássica, sei que praticamente não sobraria um único mestre da música se detalhes de sua vida pessoal fossem definitivos para a aceitação de suas obras com o devido valor intrínseco destas. Richard Wagner, por exemplo, seria visto como um demônio: antissemita e um grande cafajeste que se aproveitava da insanidade alheia e de maridos bem intencionados (conquanto ingênuos).

    Em outros campos, lembro um Einstein, notável físico, mas um dos articuladores do Projeto Manhatann, que levou à criação da primeira bomba atômica. Até mesmo o pacifista Gandhi, que não era tão bonzinho em casa, com a sua mulher.

    Retornando a Lobato, nota-se na sua obra infantil (que, modestamente falando, tive o imenso privilégio de ler toda) que as imprecações que poderiam ser tomadas com um viés racista contra Tia Nastácia provem da boneca Emília, que o escritor pinta como malcriada de origem, às vezes cruel, e repleta de nonsense. Uma eventual acusação de racismo só poderia - talvez - proceder se, ao invés, partissem de Dona Benta, que, de certo modo, é o alter ego do autor, nos livros infantis.

    O fato é que devorei esses livros na minha infância e nunca em momento algum, seja quando criança, adolescente ou já adulto, me ocorreu qualquer sentimento de superioridade racial. Enfim, como disse você, essa alegação politicamente correta é um besteirol esquerdopata, mas especificamente marxista tupiniquim, que vive de inventar duplas de opressor-oprimido para brincar de "justiça" social.

    Abraços

    Blog muito bom!

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  2. Obrigado pelo elogio, Eduardo. A sugestão de correção já foi efetivada no texto do post. É interessante que Wagner recebe esse tipo de preconceito mesmo e, até recentemente, suas obras não podiam ser tocadas em Israel (embora nesse caso talvez a restrição seja entendível).

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