terça-feira, 2 de julho de 2013

Neo racismo oficial

Artigo do economista e consultor Sérgio C. Buarque publicado no Jornal do Commercio (Recife, 20 de junho de 2013) e que subscrevo totalmente:

O racismo e as teorias raciais inventadas no século XIX alimentaram o discurso da superioridade e a discriminação de povos e grupos sociais, e difundiram a ideia de uma raça pura com rejeição à miscigenação que, segundo Joseph Arthur de Gobineau, levaria à degenerescência física e intelectual. Este racismo está na origem brasileira com o escravismo racial e a divisão social que seguiu à abolição. Mas, muito diferente do que ocorreu nos EUA, ao longo dos séculos, foi se formando no Brasil uma nação singular da mescla de culturas, origens e cores gerando uma síntese que, sem eliminar a diversidade, enriquece o conjunto. Mesmo convivendo com formas sutis de discriminação - longe de uma sonhada "democracia racial" - o Brasil não é um país dividido em múltiplas raças ou cores, não é um mosaico racial como os EUA e alguns países europeus. Com 43% dos brasileiros pardos (auto-classificação), nem brancos nem pretos, tão afro quando euro-descendentes, e considerando o elástico conceito de "branco", até por conta do preconceito, a esmagadora maioria dos brasileiros é mestiça, mulata ou morena.

Mesmo assim, o Brasil tenta retomar velhos e arcaicos conceitos raciais. Em pleno século XXI  e depois que os estudos do genoma humano acabaram com o conceito biológico de raça, o governo brasileiro - Secretaria de Igualdade Racial e Estatuto da Igualdade Racial - vem introduzindo regras mecanismos para classificar a população pela cor da pele, reinstalando no Brasil a divisão racial do cidadão. A mais recente e grotesca manifestação deste neo racismo oficial é a exigência do CNPq de inclusão da raça do pesquisador no curriculum Lattes. Para que? Vão criar cota para a distribuição de bolsa pesquisa?

Como grande parte das regras que tem sido criadas com o chamado "politicamente correto", a denominação racial tende a ter efeito inverso do desejado: recriando o conceito de raça para distinguir as pessoas, o governo e sua legislação retomam velha e desqualificada diferenciação. Essa divisão não ajuda e termina fragmentando a sociedade e reacendendo as diferenças de raça que se misturam no ethos brasileiro. O que se pretende é acabar com o preconceito e o racismo, nas diferentes formas de diferenciação, para o que já existe uma legislação rigorosa que prende e condena o criminoso racista.

O preconceito se enfrenta criticando a diferenciação e não ressaltando as diversas tonalidades da cor da pela desta nação mesclada. O Estatuto, pretendendo acabar com o racismo, inicia pelo oposto: distinguindo as raças para depois dizer que são iguais. O que precisamos é combater as desigualdades sociais e, como a maioria dos brasileiros e dos pobres é mulata, temos que enfrentar a pobreza - na verdade, as suas causas estruturais - para eliminar as desigualdades raciais. Todo o contrário do que define o Estatuto (e agora o CNPq) com estas classificações que fragmentam a sociedade com o velho e condenável critério racial.

2 comentários:

  1. A palavra "Racismo" foi criada e usada para causar danos e morte a muitos cristãos.
    Me admira que pessoas que se dizem cristãs, usem ainda deste termo, e ainda afimando "retomam velha e desqualificada diferenciação". Velha e Desqualificada é esta palavra desprovida de sentido e razão.

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  2. A palavra racismo não foi criada para causar nada a cristãos, ela foi criada para descrever um fenômeno sociológico. De onde você tirou essa sua idéia?

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