quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Ilações sobre a morte

Texto do confrade Karlos Guedes:


A morte é, de certa, forma, uma criação do homem. Aquela decisão tremenda tomada por Adão, ao ser apresentado a ele, por Eva, o fruto da árvore foi, de fato, o maior dos atos humanos.

Imagino o silêncio e a expectativa de toda a criação naquele momento! Os anjos de um lado; os demônios do outro... cada um esperando a decisão humana mais importante...

Enfim, tomou Adão sua decisão: quis ser igual a Deus! E caiu do alto grau de dignidade que tinha. Imagino que a retirada da graça foi o que eles mais sentiram, pois se sentiram nus (cf. Gn III,10). Contudo, para nós, que já somos concebido no pecado (cf. Sl L,7), creio não ser a falta da graça o mais ululante dos castigos, mas a morte.

A morte chama-nos à reflexão, tanto religiosa como filosoficamente.

Filosoficamente, a morte nos traz a pequenez do homem. Por mais inteligente e estupenda tenha sido a sua vida. Por mais que tenha construído arranha-céus, espaçonaves, automóveis, computadores ou curado todas as doenças! Tudo isso fica infinitamente pequeno diante da morte. Eis a pequenez, brevidade e fragilidade que é nossa vida!

Ao mesmo tempo, é diante dela que muitas coisas banais tomam sua importância suprema! Ela nos impõe a valorização de pequenos e, por vezes, ordinários momentos do quotidiano. O que mais simples e corriqueiro que um beijo de despedida de um parente ao sair de casa? E o que mais se sente falta em sua ausência!?

A morte também nos evidencia a fragilidade da vida. É hoje e não é amanhã, como a erva do campo. Neste momento então nos invade a pergunta: que é o homem? Por que existimos?

Se recorrermos apenas à Filosofia para dar essas respostas, constatamos que a vida humana fica, em certo sentido, sem razão de ser. Por que viver, se voltaremos ao nada?

Neste instante nos chega, como sempre, a Santa Religião para ceifar o desespero arrebatador que inundaria a alma de quem ousasse pensar na morte (triste é a sina dos ateus...).

A primeira coisa que a Religião Católica nos elucida é: a pergunta está errada. Não é voltar ao nada; Deus, nosso Senhor, não destrói sua criatura mais dileta (deste mundo). Existimos para Deus, quer vivamos ou morramos (cf. Rm XIV,8), é Ele a razão de nossa existência.

A morte foi, pois, o castigo divino mais acertado deles! Dela podemos tirar importantes lições. A grandiosíssima lição foi Deus quem nos deu: "Ó certamente necessário pecado de Adão, que nos mereceu tão grande Redentor" (cf. Precônio Pascal). Simplesmente Deus não permitiria um só ato mau, se dele não pudesse se fazer um bem. E não foi um bem que Ele tirou da morte, mas o Bem, seu diletíssimo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador.

A Liturgia da Igreja nos admoesta: "Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó retornarás" (ao pó, não ao nada). Por isso qualquer manual de ascética cristã nos manda meditar na morte (Memento morti).

Norteados pela Santa Fé, a morte nos mostra o quanto estamos carnalizados. O quanto precisamos nos espiritualizar, porque vemos nela a grande desgraça do homem e não no ofender a Deus, Sumo Bem, tampouco enxergamos que, por Cristo, nosso Deus, ela não é mais sinal negativo, mas a porta da nossa páscoa definitiva (cf. ICor XV,55).

Não é à toa que, novamente, a Santa Liturgia nos dá o conselho: "Sursum corda" (Corações ao Alto). E apesar de entendermos a língua que se fala, atualmente, na Liturgia, não a compreendemos realmente (não em seu seu sentido profundo). Quantas pessoas, clérigos ou leigos, não respondem automaticamente "Habemus ad Dominum" (Os temos no Senhor).

É na perspectiva da morte que vemos o quanto devemos nos esforçar para termos nosso coração já no Senhor. É a Ele que devemos transportar e dirigir nossa alma, "porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração" (Mt VI,21).

6 comentários:

  1. Thiago, vc já leu A Escatologia da Pessoa, de Renold J Blank?

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  2. Não conheço essa obra, do que ela trata? Quem é o autor?

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  3. Perdoe a demora em responder,só hoje voltei a visitar o blog.

    O livro trata da Morte de acordo com a visão da Doutrina Católica.
    O autor é Professor de Teologia se não me engano. Muito bom!!

    Recomendo!

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  4. Olá Thiago

    Como você ve o entendimento de alguns que creem no aniquilamento dos não salvos?

    um abraço

    Luiz

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    Respostas
    1. Isso é uma heresia, Luiz. Não faz parte do Depósito da Fé.

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    2. Thiago, não se engane: Renold Blank é TL.

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