domingo, 27 de janeiro de 2013

A Igreja Católica e a escravidão

Texto do Professor Dr. Ricardo da Costa (UFES - via SPES):

Vivemos em uma época conturbada. Qualquer coisa afirmada levianamente ganha auréola de verdade. Por exemplo, recentemente, o deputado Jean Willis (PSOL-RJ) disse que sessenta por cento dos congressistas brasileiros utilizavam serviços de prostitutas e que, por isso, eles gostariam de gozar essa atividade em “locais mais seguros”. Conclusão: para o deputado, deveríamos regulamentar a vida das meninas. Rapidamente a notícia ganhou as manchetes dos jornais. Contudo, dias depois, Willis voltou atrás – em uma matéria infinitamente menor, claro: baseou sua afirmação em sua “percepção da sociedade brasileira”, e que, de fato, desconhecia casos de pagamento de prostitutas por colegas.

Bem, cito o deputado do PSOL porque o próprio se valeu de um trecho de uma mensagem do papa Bento XVI no XLVI Dia Mundial da Paz para mais uma de suas afirmações bombásticas. O papa defendera a “estrutura natural do matrimônio” – a união entre um homem e uma mulher – quando negou que quaisquer outras formas radicalmente diversas de união fossem igualmente consideradas, pois elas “prejudicam, desestabilizam e obscurecem a função insubstituível do casamento”. Fazer essa equiparação constituía uma “ofensa contra a verdade da pessoa humana e uma ferida grave infligida à justiça e à paz”. Parafraseando o papa, o deputado afirmou que “ferida grave infligida à justiça e à paz foi a escravidão de negros africanos apoiada pela Igreja Católica”.

Nesse caso, Jean Willis não está só. Essa é uma das acusações costumeiras que costumam ser feitas à Igreja. Teria ela, segundo seus detratores, apoiado o sistema escravocrata, especialmente o ocorrido na África no período moderno (séculos XVI-XIX). Isso é verdade? Não. A verdade é exatamente o contrário disso. Vamos (mesmo que brevemente) aos fatos?

Na Bíblia há várias passagens relativas a escravos (especialmente o Antigo Testamento). Quase sempre são prescrições atenuantes. Por exemplo: não se deve enganar um escravo, nem utilizá-lo em tarefas degradantes ou serviços desnecessários; ao escravo é reservado o dia de descanso (sábado). Em resumo: apesar de reconhecer a escravidão, a religião a atenuava. Essa foi basicamente a herança do mundo antigo no que diz respeito aos preceitos religiosos.

Com a ascensão social e política da Igreja na Idade Média e a consequente cristianização das monarquias, a pressão a favor dos pobres, das mulheres e dos escravos tornou-se maior. Por exemplo, uma lei do século VI (sob influência da Igreja) afirmava que nenhum escravo poderia ser preso caso estivesse em um altar católico: seu dono deveria pagar uma pesada multa caso fizesse isso. Nesses séculos conhecidos pelos especialistas como Alta Idade Média (V-X) o Catolicismo que se difundiu na Europa pressionou aquelas sociedades a considerar a escravidão algo ultrajante aos seres humanos, já que, pela fé em Jesus Cristo, somos todos filhos de Deus (Gl 3:26).

Apesar disso, a escravidão só lentamente diminuiu – para dar lugar, pouco a pouco, à servidão. Com ela, a dignidade humana estava muito acima da escravidão. Nessa, o escravo era uma coisa que falava; naquela, o servo tinha deveres (e muitos!) – mas também direitos (como, por exemplo, a inalienabilidade da terra).

Mas os homens são dificilmente civilizados (e com revezes regulares). Mesmo com a pregação regular da Igreja, na Europa medieval a escravidão continuou tão comum que teve que ser reiteradamente negada pela Igreja (Concílios de Koblenz, em 922, de Londres, em 1022, e no Conselho de Armagh, ocorrido na Irlanda em 1171). Naquele Concílio de Londres, por exemplo, foi decidido: “Que futuramente, na Inglaterra, ninguém queira entrar naquele comércio nefasto no qual estavam acostumados a vender homens como animais irracionais” (artigo 27).

O problema era que as antigas leis romanas, seu código civil, reorganizado nos anos 529-534 pelo imperador bizantino Justiniano I como Corpus Iuris Civilis (Conjunto do Direito Civil), regulamentava a escravidão. Segundo ele, embora o estado natural da Humanidade fosse a liberdade, os direitos dos povos poderiam, no entanto, substituir a lei natural e escravizar pessoas. Basicamente um escravo era: 1. alguém cuja mãe era escrava, 2. qualquer pessoa capturada em batalha, 3. qualquer um que se vendeu para pagar uma dívida (fato comum nos primeiros séculos medievais).

Com a ascensão do Cristianismo, o direito também se cristianizou. Os advogados medievais, a partir do século XI, chegaram à conclusão que a escravidão era contrária ao espírito cristão. Isso para cristãos (e que não me venha nenhum fariseu acusar a Igreja de não legislar para não cristãos). Em contrapartida, por exemplo, foi o Islã quem difundiu largamente a escravidão. Vejamos isso com mais pormenor.

Começo com uma citação do grande historiador Fernand Braudel (1902-1985): “O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o Islã, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (...). O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a escravidão nem o comércio de escravos”.

Aqui chegamos à escravidão negra. Muitos séculos ANTES da chegada dos brancos europeus à África, tribos, reinos e impérios negros africanos praticavam largamente o escravismo, exatamente como os berberes (e demais etnias muçulmanas). Os europeus do século XVI tinham verdadeiro pavor de deixar o litoral ou mesmo desembarcar de seus navios e avançar para longe da costa e capturar escravos. Estes eram trazidos pelos próprios africanos, que tinham grandes mercados espalhados pelo interior do continente, abastecidos por guerras entre as tribos, ou mesmo puro sequestro. Isso pode ser facilmente comprovado, por exemplo, com a descrição do império de Mali feita pelo cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, e o depoimento de al-Hasan (1483-1554) sobre Tumbuctu, capital do império de Songai. Ademais, havia tribos africanas que praticavam sacrifícios humanos, naturalmente de escravos. Às vezes, para interromper a chuva, mulheres negras (e escravas) eram crucificadas.

Entrementes, a Igreja Católica, reiteradamente, condenava a escravidão. Há inúmeras bulas papais a respeito: Sicut Dudum (1435) – Eugênio IV manda libertar os escravos das ilhas Canárias; em 1462, Pio II instrui os bispos a pregarem contra o tratamento de escravos negros etíopes, e condena a escravidão como um tremendo crime; Paulo III, na bula Sublimus Dei (1537) recorda aos cristãos que os índios são livres por natureza (isto é, ao contrário dos negros, eles não praticavam a escravidão); em 1571 o dominicano Tomás de Mercado declarou desumana e ilícita a escravidão; Gregório XIV (Cum Sicuti, de 1591) e Urbano VIII (Commissum nobis, de 1639) condenaram a escravidão.

Paro no século XVII. Há muito mais. Mas qual é o resumo da ópera? Devemos estudar o passado, não inventá-lo.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Morreu a natimorta

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Católicos atacados por malta de esquerdopatas


Um grupo de jovens católicos do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira realizava uma campanha pacífica e ordeira contra o aborto e a ditadura homossexual, no centro de Curitiba, no dia 14/01/2013. Em determinado momento começou a se formar uma malta de gayzistas, abortistas, feministas, ateus e & Cia para agredir verbalmente os corajosos caravanistas, que abordavam os transeuntes e recebiam caloroso apoio por parte do povo curitibano.

Os caravanistas, ao final da campanha, se reuniram e se prepararam para ir para os carros, mas os militantes esquerdopatas os cercaram e os impediram de terminar adequadamente sua manifestação. Começou aí uma série de agressões verbais e até físicas.

O vídeo acima foi gravado por um dos retardados que agrediam os jovens católicos e contém diversos palavrões, gestos imorais, e coisas do tipo. É interessante ressaltar que em algumas partes o retardado que gravava, intencionalmente, não filmou os gestos e agressões obscenas. Em outro momento, sem qualquer razão, cortou o áudio, colocou o dedo na frente da filmagem, etc. Isso mostra da parte dele medo em veicular certas coisas. Manipulação clara. Chama a atenção também a inércia da polícia.

Hoje foi apresentado outro vídeo, agora do IPCO, ou seja, com a perspectiva dos agredidos e que mostra muito mais:


Ele demonstra bem para onde caminha nosso país se não fizermos algo contra a perseguição contra a moral católica.

Os gayzistas chegaram a jogar uma pedra na cabeça de um dos jovens da caravana, além de provocar, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, uma reação violenta deles (provavelmente já tendo organizado algo com algum elemento da imprensa para causar um falso escândalo midiático, como o que retratei recentemente).

O Brasil está caminhando para uma intolerância contra a doutrina católica referente ao homossexualismo. Uma situação semelhante ao que ocorreu em alguns países comunistas, onde o regime totalitário podia até aceitar a presença da Igreja (como na Polônia, por exemplo), mas exigia que os padres e bispos silenciassem a doutrina contrária ao comunismo. Aqui no Brasil, no “andar da carruagem”, vão permitir que um católico reze dentro do recinto interno das Igrejas e até que seja publicamente católico, desde que se abstenha de falar contra o que vai contra o VI mandamento.

Espero que esse vídeo ajude a despertar a indignação contra essa onda de lama – verdadeira avalanche – revolucionária. Uma onda que intimida, processa judicialmente, calunia, persegue de todas as maneiras qualquer um que se levante contra ela.

Depois de assistir, compartilhe este post com seus amigos, comente e faça sua parte para que o Brasil não caia nessa ditadura.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Missa na África X Missa Afro


A linhagem Thuc: separando os fatos da ficção na ala sedevacantista

Um dos principais ponto de divisão dentro da ala sedevacantista do tradicionalismo é a questão de como valorar as ordenações episcopais efetuadas pelo Arcebispo Ngo-dinh-Thuc e, sobre isso, o Pe. Cekada, famoso polemista, deu uma importante entrevista recentemente:


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A reencarnação é racional?

Texto do confrade Karlos Guedes publicado originalmente na comunidade Apologética Católica:

Um princípio basilar do espiritismo é o da reencarnação. Aqui não falo especificamente do kardecismo, mas de todas as doutrinas espíritas.

Antes de tudo, darei a definição de reencarnação. Reencarnação é a crença de que, após a morte, a alma de um ser humano retorna à vida com outro corpo. Há também a metempsicose, variação desta doutrina, que é o renascimento ou retorno sob a forma de outras espécies.

Considerando o absurdo ululante da segunda crença, analisaremos somente a primeira. Fá-lo-ei pela razão, não usarei nenhuma citação do Magistério infalível da Igreja ou das fontes da Revelação.

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Supondo que o espiritismo esteja correto, a união do espírito com o corpo (a vida neste século) não pode ser uma união substancial. Nesta suposição, a substância humana seria apenas o seu espírito, excluindo o corpo como componente, pois o espírito possuirá muitos outros, impedindo, com isso, que ele seja parte da substância humana.

Quais as consequências disto? Não existiriam Anjos: toda a criação racional seria composta pelos homens.
Mas se a substância humana é apenas o espírito, isso faria do homem uma forma pura (puro espírito), pois que existe sem composição com a matéria. Ou seja, o homem seria ontologicamente impossibilitado de mudança substancial, pois, como forma pura, seria tudo o que ele pode ser.

Ademais, a inteligência e o modo de conhecer de uma forma pura independem do tempo. Ela não apreende por sucessão; vislumbra tudo num só ato, pois ou é ou não é. E, quando decide, não se arrepende, porque nela não incidi o hábito tampouco a paixão.

Se isso fosse verdade, qual seria a necessidade de reencarnações? Digo mais: de uma ENCARNAÇÃO, sequer?

Ainda, a experiência mostra que os homens mudam de opinião; aumentam um conhecimento sobre algo; e conhecem através dos sentidos.

Mudar de opinião é próprio de quem ignora algo, que decide por algo de maneira não decisiva e certa. Ação impossível a uma forma pura. Aumentar o conhecimento é submeter a inteligência à sucessão, o que é incompatível com o ser de uma forma pura. Conhecer algo necessariamente pelos sentidos é totalmente inconciliável com o modo de agir, com a natureza de uma forma pura! Admitir isto é afirmar que a matéria faz parte da natureza do ser em questão, ou seja, a união da matéria com a forma constitui uma substância única, completa e composta.

Logo, o homem ser uma forma pura, ou seja, existir a reencarnação, é um absurdo lógico!

Concluindo, pois, que a reencarnação é uma ilogicidade (embora o kardecismo se revista de um ar de [pseudo] intelectualidade), ou seja, que o espírito humano não é uma forma pura, ele precisa, portanto, informar algo. Essa necessidade é uma deficiência do seu ser. Para que se realize, ele tem que unir-se como forma de outro ser, que lhe faz a "função" de matéria. Essa matéria é o corpo de cada ser humano. Então, o espírito e o corpo formam entre si a relação de forma e matéria (ato e potência) do homem. Essa união É UM SER COMPLETO.

Como é um ser completo, essa união é substancial. Por isso, o espírito não pode informar outro corpo (note-se que não é isso que ocorre na ressurreição dos mortos, verdade proposta pela Santa Igreja no undécimo artigo do Símbolo). O espírito, que não muda, sempre informará “da mesma maneira”, o que exclui a reencarnação (pois que nela voltamos em outros corpos).

Alegremo-nos por ver a perfeição da doutrina eclesiástica, a origem divina da Revelação! A ressurreição da carne e a re-união do nosso mesmo corpo com o espírito é uma obrigação da nossa natureza, a fim de completá-la. Alegremo-nos também porque por ela chegamos ao horror do pecado, que nos mereceu a mote (separação desta realidade substancial). Alegremo-nos, por fim, porque diante dela cai a falsidade disseminada pelo pai da mentira, homicida desde o princípio (cf. Jo VIII,44).

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A sabedoria e o conhecimento

A vida não vela pela riquezas que acumulamos, mas pela sabedoria e pelos conhecimentos que adquirimos. Por este princípio, não se estuda simplesmente para saber muito, mas para viver bem. Isto significa que os estudos se destinam a aprendermos a viver sabiamente. Para adquirirmos está sabedoria é necessário seguir um caminho, isto é, nos orientarmos por um método, respeitando algumas regras. E que regras são estas?

O filósofo Descartes aconselha a, inicialmente, duvidarmos de tudo.Pois, quem começa com certezas, com dogmas, estudando terá dúvidas, e quem começa com dúvidas, finalmente descobrirá algumas certezas. Por isto, a primeira regra para alcançarmos sabedoria é ser humilde. Os humildes confessam saber pouco, e se dispõem a aprender mais. Os soberbos querem saber tudo.

A segunda regra é começar a busca da sabedoria ainda menino, pois o caminho para chegar à casa da sabedoria é longo. Mas é muito louvável o idoso, mesmo com o pé na sepultura, quando ainda busca a sabedoria. A terceira regra é informar-se, ouvindo lições, participando de palestras, dedicando-se com grande ânimo e aplicação aos estudos. A quarta regra consiste em examinar e avaliar criticamente o que os grandes mestres, os sábios, nos comunicam. A quinta regra, em tempos de estudos, é ser sóbrio em comidas, bebidas e divertimentos. Bons costumes e uma vida com paz interior e exterior podem ser considerados como a sexta regra, pois vida desregrada e agitação em excesso não combinam com concentração mental, necessária para o estudo.

Importante, como sétima regra, é a constância no estudo e estar sempre disposto a perguntar o que ainda não se sabe, ou se quer saber melhor. Perguntar e duvidar são caminhos importantes para o conhecimento e a sabedoria. O saber não é apenas utilitário, mas deve visar o bem viver. Outra regra, a oitava, é estudar com amor. Para isto é necessário escolher uma área de conhecimento da qual se gosta. O sábio não sabe tudo sobre tudo. Há múltiplas áreas de conhecimento e sabedoria! A nona regra aconselha a procurar a companhia e a amizade dos sábios. Participar de seus congressos e assembleias.

Observando estas e outras regras no ensino e na educação, pode-se ter esperança fundada de viver, em breve, numa república mais feliz, numa sociedade mais ditosa, em que os governantes são politicamente sábios, os cidadãos conscientes, e a justiça social impera.

- Inácio Strider, professor de filosofia (Jornal do Commercio, Recife, 17/01/2003)

Duelo na enfermaria comunista

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domingo, 13 de janeiro de 2013

A literatura deve pagar pelos pecados de Lobato?

Nunca gostei do politicamente correto, pois ele sempre me pareceu mais uma forma de besteirol esquerdopata que qualquer ser humano real não deveria levar a sério. Todavia, as pessoas o estão levando a sério (o que é um sinal inequívoco da deseducação que nosso sistema de ensino promove) e tornando-se censoras de si próprias e dos outros com uma facilidade inimaginável no passado. 

Comecei a pensar sobre isso após uma discussão recente com uma pessoa que tentava desmerecer toda a obra de Monteiro Lobato pelo fato de cartas pessoais dele, onde ideias eugenistas e de superioridade racial são defendidas, terem vindo a tona. Isso não faz o menor sentido. É um claro exagero e uma falta de discernimento, pois classificar a produção literária de Lobato como racista devido ao conteúdo presente nessas correspondências particulares é não entender que cada autor tem suas "rugas temporais", que nem sempre a vida dele se reflete na produção intelectual e que, finalmente, uma obra ao vir a lume pode ganhar sentidos completamente diferentes dos pretendidos pelo seu autor. O politicamente correto aqui mostra mais uma vez todo o "fundamentalismo" que o caracteriza.

Aristóteles, mais de dois mil anos atrás, chegou a comparar um "negro a um móvel", o que é um pensamento absurdo em qualquer circunstância, mas por isso vamos rejeitar a obra do Filósofo? Obvio que não. No caso de Monteiro Lobato o ponto é mais simples ainda, pois os escritos em que ele se mostrava racista são privados. Uma coisa é sua biografia, outra sua literatura. Mas tem quem veja num livro dele "falta de consciência ambiental" pois Pedrinho, Emília & Cia caçam uma onça...

Bianca Campello, mestre em letras pela UFPE, certa vez falou que no livro A reforma da natureza Tia Anastácia é convocada para reconstruir a Europa destruída pela guerra, e em O  Minotauro todo o enredo se concentra no resgate dela das mãos da criatura mitológica, e perguntou: "Um escritor racista iria destinar tanta importância a uma personagem negra?"

Ela também lembrou que a tentativa de censurar Lobato parece com o que está no livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, onde o título é uma referência à temperatura que o papel queima, num tempo onde os bombeiros existem não para extinguir o fogo, mas para incendiar livros. "Uma das justificativas é que o teor do que é escrito pode deixar as pessoas tristes. Algo como se os índios não concordassem com a descrição do personagem Sexta-Feira, em Robinson Crusoé, por exemplo."

Disse tudo. Não podemos ler o que foi escrito ontem com as lentes de hoje. Além de que o significado de um texto muitas vezes é atribuído pelo leitor; se ele lê algo com o intuito X, vai acabar encontrando o que quer.