sexta-feira, 24 de maio de 2013

Perfil de Kierkegaard

Artigo do Professor Inácio Strider sobre Kierkegaard (Jornal do Commercio, Recife 22 de maio de 2013 - com modificações ortográficas):

Kierkegaard: 200 anos

Segundo as más línguas, Sören Kierkegaard (1813-1855) era mais conhecido em Copenhague pelas roupas exóticas que por sua filosofia. Até as babás, quando queriam repreender uma criança por não se vestir bem, diziam que ele era um "Sören Kierkegaard".

Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813, ano da bancarrota da Dinamarca. Mesmo com dificuldades, Kierkegaard teve infância e juventude abastadas. Seu pai era um comerciante bem sucedido em Copenhague. A educação que recebeu, juntamente com a de seis irmãos, foi rigorosamente pietista, de acordo com uma tradição da igreja luterana.

Sendo o mais novo, teve aproximação especial com seu pai, que o induziu a se matricular no curso superior de teologia. Inicialmente Kierkegaard demonstrou interesse. Mas, em breve, relaxou, e era mais visto nos cafés do que na universidade. Esta vida boêmia, no entanto, o inquietava. Em determinado dia, como relata em seu diário, fez a seguinte consideração: "Fui o centro das atenções, todos riam das minhas piadas, mas, quando cheguei em casa, fiquei com vontade de me suicidar com um tiro na cabeça".

Quando em 1838 seu pai faleceu, Kierkegaard prometeu-lhe terminar o curso de teologia. Pouco depois de terminá-lo (1840), noivou com Regine Olsen. Ao que tudo indica, não se julgou apto a assumir a responsabilidade de um matrimônio e, um ano depois, rompeu. O amor a Regine, no entanto, o atormentou durante toda a vida.

Em 1841 viajou a Berlim para se familiarizar com a filosofia de Hegel, falecido em 1831. Assistiu às preleções do filósofo Schelling. Decepcionou-se a tal ponto que, depois de cinco meses e meio, retornou à Dinamarca. Iniciou, então, a sua mais fecunda produção literária e filosófica. Em poucos anos, publicou mais de 20 livros. A obra que deixou chega a 70 volumes.

Seus escritos são transversais. Considerava-se um "escritor religioso". No entanto, suas ideias influenciaram teólogos, filósofos, sociólogos, psicólogos, antropólogos, políticos e literatos. É considerado o pai da filosofia existencialista, tanto do existencialismo ateu quanto cristão. Seu grande mérito foi restituir ao indivíduo a responsabilidade por sua existência, contra o generalismo, universalismo e coletivismo do idealismo alemão. Sem dúvida, o pai do existencialismo merece homenagens em seu bicentenário!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Tempos modernos...


Pichação num banheiro de faculdade de comunicação.

História da retomada do Rito Gregoriano em Recife até o ano de 2012

Desde a reforma litúrgica do final da década de 1960 muitos estudiosos da liturgia e inúmeros fiéis ao redor do mundo lamentaram a perda de elementos que caracterizaram durante séculos o culto prestado ao Criador pela Igreja ocidental e que estão especialmente consolidados na chamada Missa Tridentina, ou melhor, no Rito Gregoriano segundo a sua forma consolidada em Trento.

No nosso país não foi diferente, pois, além do motivo citado, o rito gregoriano é parte integrante da identidade nacional, já que perfez o modo como o Santo Sacrifício foi celebrado pela primeira vez em nossas terras e a maneira como os missionários que penetraram nos sertões levaram os dons do Senhor às almas famintas.

Em nossa arquidiocese, apesar da posição oficial que dizia que tudo estava bem e que a reforma de 1969 tinha sido uma unanimidade, o sentimento de abandono derivado da maneira dirigista e muitas vezes atrapalhada com que ela foi aplicada também se fazia presente. Assim, durante anos, padres de passagem por nossa igreja particular celebraram esporadicamente a Missa segundo a forma tradicional do rito romano para grupos diversos em garagens ou outros edifícios particulares, e sacerdotes locais, como o saudoso Monsenhor José Ayrton Guedes, buscaram maneiras alternativas de atender aos anseios do povo.

Evidentemente, tudo isso era insatisfatório, e, por tal motivo, começou-se, a partir de 1996, a pedir a aplicação local das disposições exaradas pelo Beato João Paulo II (Carta Apostólica Quattuor Abhinc Annos e o Motu Proprio Ecclesia Dei Adflicta) para o cuidado dos católicos ligados ao rito gregoriano. Mas o tempo do Senhor era outro, e só depois de mais de 10 anos, com a ajuda de um amplo abaixo-assinado (que contou com as assinaturas de muitas pessoas satisfeitas com o rito romano moderno, mas que não entendiam o motivo do tesouro litúrgico que santificou as almas durante mais de 1.600 anos ficar relegado às catacumbas) e com o apoio do Cardeal Dario Castrillón Royos (então presidente da Comissão Ecclesia Dei), o Arcebispo D. José Cardoso Sobrinho permitiu as celebrações de um modo estável.


De início, em respeito às condições pastorais de nossa arquidiocese, as missas eram celebradas de um modo “privado”, nas segundas-feiras a noite ou nos sábados pela manhã, pelo Pe. Nildo Leal de Sá, na igreja matriz da paróquia da Imbiribeira ou na de Apipucos. Lá pelo meio de 2006, D. José autorizou as missas aos domingos, mas ainda com um caráter discreto.

Foi promovido em junho 2007 um curso ministrado pelo Pe. Claudiomar, liturgista da Administração Apostólica São João Vianney (encerrado, no dia de São Luiz Gonzaga, com a primeira Missa cantada desde os anos 60), e começou a distribuição de um Ordinário e de um Próprio para povo.


Passaram mais alguns dias, quando, finalmente, o Papa Bento XVI, em 7 de julho de 2007, resolveu olhar com mais cuidado para os direitos dos fiéis que preferem a liturgia tradicional e lançou a Carta Apostólica em forma de Motu Proprio Summorum Pontificum (mais tarde complementada pela Instrução Universae Ecclesiae), dando ampla liberdade às celebrações. Desse modo, iniciou-se o preparo para "missas públicas".

A primeira delas ocorreu no dia 14 de setembro de 2007, Festa da Exaltação da Santa Cruz, na capela do Seminário de Olinda:


No dia 16 de setembro do mesmo ano, um domingo, foi celebrada outra Missa na Igreja de São Cristovão e São Sebastião, com grande cobertura da mídia (Jornal do Commercio, Diário de Pernambuco, TV Jornal, TV Tribuna e blogs diversos).




Desse ponto em diante as celebrações se tornaram normais, sempre nos domingos às 11h da manhã, e a preocupação do grupo de fiéis se voltou para a formação teológica das lideranças e um melhor acolhimento do povo.

No ano de 2009, D. Fernando Âreas Rifan, bispo da Administração Apostólica de Campos, celebrou a primeira Missa pontifical cantada desse processo de retomada das celebrações no rito gregoriano, num evento em que inaugurou a gruta de Nossa Senhora de Lourdes na paróquia da Imbiribeira e benzeu o novo sino da igreja. Vale salientar que ele usou o báculo de D. Vital, emprestado por D. José Cardoso.

Com o passar do tempo, tivemos casamentos e batizados na forma tradicional do rito romano, mostrando que os frutos da liberdade concedida pelo Papa Bento XVI também se refletiam na formação de novas famílias.





É digno de nota que além de Missas cantadas periódicas, presenciamos mais uma Missa pontifical, rezada por D. Rifan, no dia 16 de junho de 2010. Esse mesmo bispo, poucos dias depois (19 de junho), celebrou outra Missa na catedral de Garanhuns, como encerramento do primeiro Congresso Summorum Pontificum, no qual contou (a pedido de D. Fernando Guimarães) com a ajuda dos fiéis de Recife, que mesmo debaixo de fortes chuvas (as que inundaram Palmares) se dispuseram a ir até o Agreste.






Durante essa época, além do Pe. Nildo, também celebraram aqui em Recife o Mons. Edvaldo Bezerra, o Pe. Moisés Ferreira de Lima e o Frei José de Arimáteia OFMconv., e inúmeros outros membros do clero (padres e diáconos) e de religiosos leigos participaram das missas, sempre bem acolhidos e com as dúvidas sanadas ao máximo possível.


Infelizmente, na segunda metade de 2010, uma série de transtornos no relacionamento do grupo dos católicos que buscam manter o patrimônio litúrgico da Igreja com o Pe. Nildo desencadeou um processo (destacado em sites de audiência mundial) que levou à transferência da Missa para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (precisamente no dia 24 de abril de 2011), agora sob a responsabilidade do referido Mons. Edvaldo. Na resolução dos problemas a condução pastoral de nosso atual arcebispo, D. Fernando Saburino, foi decisiva, mostrando que na Arquidiocese de Olinda e Recife todos os católicos ortodoxos são acolhidos sem distinção.

No restante do ano de 2011 os fiéis ligados à liturgia romana tradicional procuram se organizar melhor, promovendo dois cursos sobre o simbolismo das cerimônias da liturgia (apoiados pelo Círculo Católico de Pernambuco), a publicação de novos Próprios e a tentativa de formação de um coral. Para encerrar o ano, uma Missa cantada foi celebrada no Natal com a ajuda de integrantes do coral da UFPE.



O começo do ano de 2012, por sua vez, trouxe muitas novidades. Uma das que se deve destacar foi a da conversão de alguns jovens à fé católica, do meio dos quais saiu o primeiro batismo de adulto no rito gregoriano desde 1969; outra foi a integração de novos casais jovens ao grupo de fiéis; e, por fim, a vinda de mais um sacerdote, o Pe. Expedito Nascimento S.J., para celebrar o Santo Sacrifício.

Eventualmente a Missa também foi celebrada na igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, na da Soledade e na da Ordem Terceira do Carmo.

No entanto, algumas das iniciativas que propostas para alimentar a espiritualidade dos frequentadores não foram efetivadas, como a preparação de um almoço para os moradores de rua durante a Quaresma e uma peregrinação até o Santuário do Sagrado Coração. É bom frisar que nenhuma delas saiu de nosso horizonte, pois sabendo que a Missa é o centro da vida católica, é necessária uma “periferia” composta de atividades individuais (como a oração pessoal) e atividades comunitárias.

Em 2012 tivemos nossa primeira Procissão de Ramos e um aumento das celebrações fora do domingo (como a de Cinzas, a de Finados e a de Nossa Senhora da Conceição).







 

No final desse ano o Pe. André de Vasconcelos Martins, dada a necessidade do Pe. Expedito ir para o interior do estado, passou a ajudar o Mons. Edvaldo na condução das missas, e, em dezembro, celebrou aquela que foi a primeira Missa cantada de Réquiem em mais de 40 anos na nossa arquidiocese, contando com a contribuição de músicos ligados à UFPE e aos conservatórios da Paraíba e Pernambuco.



Por fim, ainda no término do ano passado, tivemos a grata notícia de que um vocacionado saído do grupo de fiéis recifense recebeu a batina numa cerimônia na Alemanha presidida pelo arcebispo de Vaduz.



Até agora essa foi a caminhada do Coetus Fidelium Olindensis et Recifensis e, para o futuro, além de crescer em número, pretendemos nos integrar melhor e colaborar com outros grupos de nossa igreja particular.

Manual do Breviário de São Pio X

No “mundo tradicionalista católico” há uma controvérsia sobre quais rubricas do rito gregoriano usar, e isso também se reflete no Ofício Divino. Nesse âmbito, há um pequeno grupo, formado primordialmente por sedevacantistas, que prefere as de São Pio X (o Breviário segundo esse sistema pode ser encontrado aqui), e, para ajudar quem optou por rezar desse modo, vou postar um manual (em inglês) sobre o uso do Ofício com essas regras:


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Quer conforto nesta terra? Então tome vinho!

Este post agora pode ser visto aqui.

O sal pode perder o sabor?

Este post agora pode ser lido aqui.

Publix pró-vida

Comercial da loja americana Publix para o dia das mães que acabou tendo um inesperado viés pró-vida:


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Seminário com Charles Taylor

Seminário com Charles Taylor em Recife.

Maria "Medianeira" conforme o Vaticano II


Entre os títulos atribuídos a Maria no culto da Igreja, o capítulo VIII da Lumen Gentium recorda o de "Medianeira". Embora alguns Padres conciliares não compartilhassem plenamente essa escolha (cf. Acta Synodalia III, 8, 163-164), este apelativo foi inserido de igual modo na Constituição Dogmática sobre a Igreja, como confirmação do valor da verdade que ela exprime. Teve-se, porém, o cuidado de não o ligar a nenhuma particular teologia da mediação, mas de o elencar apenas entre os outros títulos reconhecidos a Maria. O texto conciliar, além disso, refere-se já ao conteúdo do título de "Medianeira" quando afirma que Maria, "com a Sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna" (LG, 62). Como se recorda na Encíclica Redemptoris Mater, "a mediação de Maria está intimamente ligada à Sua maternidade e possui um carácter especificamente maternal, que a distingue da mediação das outras criaturas". Deste ponto de vista, Ela é única no seu gênero e singularmente eficaz.

Às dificuldades manifestadas por alguns Padres conciliares acerca do termo "Medianeira", o mesmo Concílio cuidou de responder, afirmando que Maria é "para nós a Mãe na ordem da Graça" (LG, 61). Recordamos que a mediação de Maria se qualifica fundamentalmente pela Sua Maternidade Divina. O reconhecimento do papel de Medianeira está, além disso, implícito na expressão "nossa Mãe", que propõe a doutrina da mediação mariana, pondo em evidência a maternidade. Por fim, o título "Mãe na ordem da Graça" esclarece que a Virgem coopera com Cristo no renascimento espiritual da humanidade.

A mediação materna de Maria não ofusca a única e perfeita mediação de Cristo. O Concílio, com efeito, depois de ter mencionado Maria "Medianeira", desvela-se em esclarecer: "Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único Mediador, que é Cristo" (LG, 62). E a respeito disto, cita o conhecido texto da Primeira Carta de Timóteo: "Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem, que se entregou em resgate por todos" (II, 5-6). O Concílio afirma, além disso, que "a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; antes, manifesta a sua eficácia" (LG, 60). Longe, portanto, de ser um obstáculo ao exercício da única mediação de Cristo, Maria põe antes em evidência a sua fecundidade e a sua eficácia. "Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, aurindo aí toda a sua eficácia" (LG, 60).

De Cristo deriva o valor da mediação de Maria e, portanto, o influxo salvador da Bem-aventurada Virgem "de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece" (ibid.). A intrínseca orientação da obra da "Medianeira" a Cristo impele o Concílio a recomendar aos fiéis recorrer a Maria, para mais intimamente aderirem com esta ajuda materna, ao seu Mediador e Salvador" (LG, 62). Ao proclamar Cristo como único Mediador (cf. I Tm II, 5-6), o texto da Carta de São Paulo a Timóteo exclui qualquer outra mediação paralela, mas não uma mediação subordinada. Com efeito, antes de ressaltar a única e exclusiva mediação de Cristo, o autor recomenda "que se façam súplicas, orações, petições e ações de graças por todos os homens..." (2, 1). Não são porventura as orações uma forma de mediação? Antes, segundo São Paulo, a única mediação de Cristo é destinada a promover outras mediações dependentes e ministeriais. Proclamando a unicidade da mediação de Cristo, o Apóstolo só tende a excluir toda a mediação autônoma ou concorrente, mas não outras formas compatíveis com o valor infinito da obra do Salvador.

É possível participar na mediação de Cristo em diversos âmbitos da obra da salvação. A Lumen Gentium, depois de ter afirmado que "nenhuma criatura se pode equiparar ao verbo encarnado e Redentor", ilustra como é possível às criaturas exercerem algumas formas de mediação, em dependência de Cristo. Com efeito, afirma: "Assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde variadamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte" (LG, 62). Nesta vontade de suscitar participações na única mediação de Cristo, manifesta-se o Amor gratuito de Deus que quer compartilhar aquilo que possui.

Na verdade, o que é a mediação materna de Maria senão um dom do Pai à humanidade? Eis porque o Concílio conclui: "Esta função subordinada de Maria, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a nos fiéis..." (ibid). Maria desempenha a sua ação materna em contínua dependência da mediação de Cristo e d´Ele recebe tudo o que o Seu Coração desejar transmitir aos homens. Na sua peregrinação terrena, a Igreja experimenta "continuamente" a eficácia da ação da "Mãe na ordem da Graça".

Artigo de autoria do Papa João Paulo II, publicado no Observatório Romano de 04/10/1997.